domingo, maio 08, 2016

No êxtase, tal como na morte, de novo nascemos...



O EXTASE…


Será assim o êxtase, a mais subida experiência humana, porque a que nos dá a prova da possibilidade do nosso conhecimento: dizendo-nos que a sua origem está na experiência e não na razão; e que a sua forma mais perfeita é a intuição. Ele dará a prova da possibilidade do conhecimento, que será também aquela do mais elevado que é possível existir.
(…)
No êxtase, tal como na morte, de novo nascemos. Aí de novo tudo é feito.

...
DALILA PEREIRA DA COSTA

sábado, maio 07, 2016

AS ENERGIAS MASCULINAS E FEMININAS


O nosso cérebro
tem dois hemisférios

"O hemisfério esquerdo é o lado da energia masculina do cérebro e armazena a razão. Ele é ordeiro, estatístico, lógico, matemático, digital, analítico, detalhista e pensa em preto e branco. Ele vê as coisas em linhas retas, pelo lado racional e prático. Enxerga os detalhes, mas não vê o todo; vê a árvore, mas não vê a floresta.
O hemisfério direito é o lado da ...energia feminina do cérebro e armazena a emoção. É o nosso lado criativo, um espírito livre, é paixão e a experiência do saborear e sentir, movimento e arte. Ele é analógico, sintético, global e pensa em cores. Tem uma visão ampla, vê o todo; enxerga a floresta, mas não repara na árvore.
Utilizando os dois hemisférios do cérebro simultaneamente, você tem equilíbrio entre a razão e a emoção.
Uma grande diferença entre as duas energias é que a energia masculina observa as partes e a energia feminina observa o todo.
Tal como na energia, o hemisfério esquerdo não consegue compreender o hemisfério direito. Não se pode colocar sentimentos e expressões dentro de caixas, eles têm de ser sentidos para serem verdadeiramente experienciados
.
O hemisfério direito também não compreende como o hemisfério esquerdo percebe as coisas.
Como espécie, agimos principalmente com o hemisfério esquerdo. Isto significa que, como espécie, temos, essencialmente, um desequilíbrio da energia masculina. Há um excesso desta energia que é dominante e está constringindo o lado feminino do cérebro.
Não há nada de errado com a nossa energia feminina. Nós apenas não utilizamos o seu potencial. A nossa energia masculina está confusa e é por isso que estamos, hoje em dia, onde estamos a nível econômico, político, religioso, nuclear, destruição da fauna, morte de golfinhos e abelhas, crise de guerras mundiais.
O mundo está uma confusão em muitas áreas e algumas pessoas acham que a crise financeira, a crise política e a crise nuclear são assuntos completamente isolados porque a energia masculina observa as coisas em partes. Agora, estamos percebendo que esta maneira de observar as coisas está limitando o nosso ponto de vista.
A maioria das nossas experiências meditativas centra-se no hemisfério direito do cérebro – o nosso lado intuitivo, emocional e sentimental. Quando meditamos, geralmente, sentimo-nos muito bem. Às vezes, durante as meditações, conseguimos ter visões ou imagens, ouvir sons calmos ou vozes inspiradoras. Todas estas sensações se localizam no lado direito do nosso cérebro; o sentimental e intuitivo que nos conecta com nosso corpo mental superior.
Qualquer um que tenha tido experiências meditativas, fica com a sensação de ter tido uma experiência maravilhosa, mas mal começa a tomar consciência da realidade, começa a duvidar da validade da experiência que acabou de ter e começa a ter uma conversa do tipo “Nada disso! É tudo imaginação minha isto não pode ser verdade, devo ter inventado estas coisas…” O que acontece, é que o lado esquerdo do cérebro, não foi envolvido na experiência, ou seja, o teu lado esquerdo, o teu lado lógico, não teve qualquer envolvimento com o teu lado direito, com o teu lado intuitivo, e por isso não sabe o que fazer com estas experiências. Então, o teu cérebro desata a fazer o que os pensadores, aqueles que têm a mente muito ativa, geralmente fazem, começa a rejeitar as tuas experiências intuitivas utilizando questões puramente lógicas, emocionais e racionais. E como a tua experiência foi puramente sentimental e (abstrata) intuitiva, não tem por isso uma base lógica, racional de sustentação. E é assim que começamos a diminuir as experiências internas que temos, com tanta facilidade.
Este é só um dos exemplos do que acontece quando os teus dois hemisférios cerebrais não estão a trabalhar em conjunto tal como deveriam. O teu lado lógico mantém-se cético e por vezes até cínico, acerca do valor das experiências que acontecem no teu lado direito ou intuitivo. É como usar só um motor do barco num percurso e, em que, se utilizares os dois motores, chega lá muito mais depressa.
Então, significa que existe aqui um desafio a ser superado! Ou seja, temos estas experiências maravilhosas, estes ‘insights’ e visões fantásticas que são potencialmente e extremamente úteis ao nosso progresso e desenvolvimento, mas assim que saímos daquele estado meditativo e começamos a utilizar o lado lógico/esquerdo do cérebro surge a dúvida e os questionamentos. E como é que resolvemos esse impasse? Como conseguiremos ter os dois lados do cérebro funcionando em conjunto e em harmonia?
Pois bem, a vossa resposta, está na Geometria Sagrada!
E o que acontece quando começas a desenhar é que o teu lado esquerdo do cérebro está envolvido também – e então começas a fazer, a criar algo. É então que se dá a magia! Ao desenhares estas imagens (não só por olhares para elas) começas a aceder à essência da tua/nossa realidade, a base da criação numa linguagem que o teu lado lógico consegue finalmente entender.
E assim que inicias este processo, começas a permitir ao lado esquerdo do teu cérebro, o racional, a compreender uma explicação lógica para a Unicidade de todas as coisas. E fazes isto porque, em parte, estás a desenhar a realidade, a descrevê-la simplesmente porque estás a usar as formas e figuras construtoras da nossa realidade.
Aqui, o teu lado lógico começa a entender! Começa a envolver-se na tua experiência espiritual, e num ápice, tens os dois motores do barco na água e então surge o “equilíbrio” e tudo começa a andar a toda velocidade.
Integração e aceitação das diferenças, é a resposta."



in O Sol Negro - Livro

NOTA Á MARGEM

Um excelente texto - uma visão clara das funções dos dois hemisférios - só que a autora, como acontece com quase todos os autores místicos e cientistas ou espiritualistas,  continua a omitir e a branquear  que os hemisférios cerebrais pertencendo em conjunto a cada individuo de per se, macho ou fêmea em principio, é na verdade representado cada um deles e à partida o lado esquerdo pela Mulher e o direito pelo Homem. E portanto ao falar-se em  Equilíbrio e Harmonia entre os dois, supõe-se que ambos os  hemisférios estão em actividade, MAS O QUE ELES ESQUECEM  e isso é muito grave, é que a sociedade e a cultura e mesmo a ciência e a dita espiritualidade esqueceu que a Humanidade, sendo esta apenas representada por um polo, dando enfase apenas por um dos lados que a compõem, o masculino e o HOMEM, excluiu desta feita a Mulher não só da linguagem, como desvalorizou as suas funções (como histérica esquizofrénica, descabida, inferior, sentimental, irracional etc.) e assim desvalorizou os atributos do hemisférios esquerdo dando menos valor  e  reprimindo ou excluindo as manifestações do ser mulher em prol do poder do Homem, fazendo prevalecer assim a razão e a logica e diminuindo o valor da intuição e da emoção sendo estas denigridas ao longo do tempo. Desde modo e ao longo dos séculos  cavou-se um fosso enorme  entre as actividades cerebrais ao diminuir-se a mulher como sua representante quer a nível social  quer culturalmente e assim o mundo encontra-se hoje todo ele em profundo desequilíbrio e as pessoas mergulhadas no caos e nas trevas...da razão triunfante! Neste caso omite-se a mulher e exalta-se apenas o espiritual e o artístico...pelo dito hemisfério esquerdo, quando as funções desse hemisfério são particularmente a expressão máxima da mulher em si.
Não se trata portando de uma questão somente de despertar espiritual...mas do despertar da MULHER COMO SER HUMANO  e dar expressão cabal ao lado que ela representa.
 rosaleonorpedro

quinta-feira, maio 05, 2016

Se um rio sai da "madre", tudo se inunda e é o desastre.



"Recuperar a mãe verdadeira pressupõe então recuperar o coletivo de mulheres e a sua função coletiva dentro dum determinado grupo social. A recuperação da mãe não é uma recuperação individual (embora tenha uma dimensão individual e corporal), mas a recuperação do feminino coletivo, de todas nós. Segundo Malinowski, as mulheres trobriandesas dum clã (in The Sexual Life of Savages in the Western Melanesia) tinham um nome coletivo, “tábula”, a “tábula” é que se ocupava do parto ...das mulheres do clã.
Em castelhano há uma aceção do nome "mãe" que é um vestígio dessa mãe ancestral, que se encontra na expressão "salirse de madre", "sair da mãe", que seria sair do Muttertum, que nos faz amadurecer e nos torna consistentes. Há também uma aceção em que a palavra significa "fonte originária de algo" ("a mãe do vinagre", por exemplo), ou como a raiz de algo, quando dizemos que encontrámos a "mãe do cordeiro". Se um rio sai da "madre", tudo se inunda e é o desastre. Pois assim anda a humanidade, "fora da mãe", em permanente estado de esquizofrenia e cada vez com mais ataques de violência..."


Cacilda Rodrigañez Bustos



AH AS MULHERES CULPADAS..

"O ferimento mais profundo que é infligido a uma mãe na nossa sociedade não é só a sua opressão, mas a sua adaptação ao mito masculino da respetiva superioridade e a aceitação da própria insignificância. Nos casos em que o movimento feminino contemporâneo interpreta a igualdade de direitos como o direito de serem tão ruins como os piores dos homens, ele perpetua o domínio masculino sob novas formas. Pior ainda: estas mulheres, como negam a força dos ...aspetos criativos do seu amor, continuaram a educar mulheres e homens que, por seu lado, recusarão a sua própria força real e se decidirão por empregar o seu poder sem escrúpulos. É isto que Édipo representa: a ferida inicial que se transforma numa ânsia de dominar."*

Este texto de uma lucidez lazer fez-me pensar nas mulheres...que dizem como forma de desculpar os homens - é absolutamente banal e corrente esta afirmação por parte de mulheres comuns e até "instruídas" e escritoras etc....- que continuam a querer justificar os homens (e filhos) que tratam mal as mulheres- dizendo que são as mulheres mães que os educam...que é por causa das mães que eles são assim. Como se as mães, feridas de morte na sua essência, feridas na sua dignidade, pudessem educar filhos... como se mães à partida tivessem ou pudessem ter alguma responsabilidade na sua inconsciência de si como ser humano de segunda classe...sim, como poderiam elas educar os filhos e filhas com este estigma, com este ferimento profundo no seu corpo físico e emocional... esta cisão da sua psique e condenadas em família e em sociedade à sua insignificância...caladas e omissas sempre como mulheres!
rlp

*Arno Gruen A traição do eu Assírio e Alvim (1984)


O “dia da espiga” era também o “dia da hora”



“A Quinta-feira da Ascensão e o Dia da Espiga possuem um significado em comum a ESPERANÇA.
Na origem pagã dos rituais da natureza ela se traduz na esperança da
... abundância das colheitas após o adormecimento invernal, e em ambiente cristão é a esperança da salvação e da ressurreição.
Quer num ambiente quer noutro, perante esta comemoração assistimos à vitória da Vida sobre a Morte.
Para as tradições que conservam uma relação com os ritmos da natureza, e que harmonizam o nosso dia-a-dia profano com o carácter sagrado, se celebra uma das datas mais festivas do ano, o Dia da Espiga ou Quinta-feira da Espiga.
Em tempos era considerada como o dia mais santo do calendário, e observada em muitas regiões da Europa, principalmente Portugal, como uma paragem de todos os trabalhos equivalente ao domingo, acreditando-se que nele a própria natureza suspendia toda a sua atividade.
No Cancioneiro Popular Português pode ler-se: “se os passarinhos soubessem / Quando é dia d’Ascensão / Nem subiam ao seu ninho / Nem punham o pé no chão…”
Dia da Espiga é a versão dos antigos rituais de celebração da Primavera e consagração da natureza e das colheitas.
Apesar do contexto cristianizado, alguns costumes difundidos por toda a Europa ainda revestem este antiquíssimo cunho agrícola, como a bênção de cereais e uvas que por vezes decorre durante a missa, ou a bênção dos “primeiros frutos” hoje efetuada nos três dias que antecedem a Ascensão.
Estes gestos recordam o carácter mágico desta época, quando em toda a parte se assistia à manifestação da vida vegetal e animal após a letargia do frio do inverno.
O Dia da Espiga reproduz também outra tradição nacional, com a colocação de flores amarelas nas portas e janelas das casas, como forma de receber e celebrar a fertilidade da natureza e esconjurar o mal.
Faz-se um ramo, que deve ser colocado todos os anos por detrás da porta de entrada, ou sobre a chaminé da cozinha, de forma a proteger o lar (também simbolizado pelo fogo doméstico) e a trazer-lhe abundância. Por vezes guardava-se junto do ramo uma fatia ou um pequeno pão, para garantir que este não faltaria.
A “natureza suspensa” está também presente na antiga crença da Hora, (O “dia da espiga” era também o “dia da hora”)
Era chamado o dia da hora porque havia uma hora, o meio-dia, em que tudo parava, “as águas dos ribeiros não correm, o leite não coalha, o pão não leveda e as folhas se cruzam”.
Este era o momento ideal para a colheita do ramo, composto por espigas, malmequeres brancos e amarelos, papoilas, ramos de oliveira, folhas de videira e alecrim.
As espigas simbolizam o pão, que se desejava abundante durante todo o ano; a videira representa o vinho, ao mesmo tempo “sangue de Cristo” e fonte de alegria para o camponês; os malmequeres são o ouro e a prata; as papoilas evocam a cor do sangue, e representam o amor, a vida e a fertilidade; o azeite “que tempera e alumia” é também símbolo da paz e Luz; e o alecrim, erva usada para defumar as casas e os doentes, dá saúde e afasta as influências maléficas.”
Ressoa no fim de tudo isto a ESPERANÇA...possamos navegar nessa Mar sem amarras.
Para que a Vida seja em cada flor ou fruto, um Hino à Libertação, quebrando a suspensão das “horas”, e, raiando em cada Ser a sua Total RESSURREIÇÂO CONSCIENTE.


Ana Sabas

A TERRA MÃE E A MULHER


A TERRA E A MULHER
(...)
A questão do feminino está entre aqueles temas que não se prestam tão facilmente a uma discussão, porque se situam no fundamento da cultura, para além daquilo que é imediatamente manifesto. Esse é um assunto basilar, constitutivo do próprio fundamento de onde tudo deriva, a trama primeira sobre a qual os outros fios são dispostos. De certa forma, pode-se dizer que tais temas nos possuem e nos dirigem e são insuficientemente visíveis, pois estão submersos por nossas criações. Talvez se possa dizer que é a partir dessas imagens primordiais, como a da Terra-Mãe, que todo o nosso imaginário é montado, em camadas, uma mesma ideia se diferenciando em inúmeras variações, vinculadas, entretanto, àquele desenho elementar, e que só ao olhar acurado ela se revela.


Na verdade, as nossas relações com o mundo, de modo geral, são reflexo da nossa relação com essas imagens primordiais, destacando-se, entre elas, a Terra e o Feminino. Tudo o mais seria como um jogo de espelhos, em que nos perdemos com imensa facilidade. De forma que, ao contrário do que é sugerido de imediato, uma visão cabal do feminino não se tece sem uma enormidade de elementos e, pelo menos para começar, torna-se imprescindível escolher uma fresta apenas, para olhar esse complexo quadro sem tanta dispersão.
 (...)
O simbolismo da Terra pode nos fornecer um paradigma seguro para o feminino, porque sobre ela lançamos nossas raízes, dela viemos, dela nos nutrimos. Há todo um paralelo entre a Terra e o Feminino. E, uma vez que mantemos relações bem materiais com ela, é possível que, a partir de um escrutínio dessas relações, possamos explicitar melhor o lugar ocupado pela mulher em nossa cultura. A Terra, pois, será um bom ponto de partida para uma investigação rica do feminino, quanto mais que essa identidade, em outros tempos, promoveu um desenvolvimento harmônico em muitas sociedades.
Portanto, não partimos de uma ideia original. Muito pelo contrário, essa é uma visão que remonta a alguns milhares de anos, cultivada e vivenciada por nossos ancestrais em culturas das quais restam apenas o que a arqueologia consegue resgatar. É para com essas culturas que nos tornamos devedores. E, ao lado delas, para com algumas outras poucas sobreviventes, ditas primitivas, pouco influenciadas e pouco influentes no nosso mundo industrializado e globalizado.
(...)
(excerto) de A TERRA E A MULHER
de Josina Roncisvalle & Lais Mourão

terça-feira, maio 03, 2016

PENSAR POR SI




E o pensamento dominante na mente feminina...

Ao longo da minha vida e da minha experiência,  sobretudo ao longo das minhas incursões e busca de um feminino verdadeiro, palestras e escritos e alguns trabalhos para interagir com mulheres nestes contextos ditos do “feminino sagrado”, na tentativa de aflorar um novo universo de mulheres supostamente conscientes de si, por assim dizer, em que a esperança de uma nova consciência da Mulher é emergente na Terra, e que devia ser a ultima coisa a morrer, confesso que me sinto muitas vezes abalada pela ineficácia da minha tentativa de chegar a todas as mulheres de boa-fé e de coração aberto...

Na verdade o que eu vejo mais frequentemente e constato é que de facto é muito difícil as mulheres saírem da sua  zona de conforto e de tutela patriarcal (do marido-amante ou do Pai e do filho) e dos conceitos e preconceitos que predominam ainda sobre o feminino em geral – tendo em conta a ignorância absoluta da cisão da mulher - que nos aprisiona no pensamento falocrático. Como é o caso sempre que se trata de expandir a consciência da sexualidade-sensualidade da mulher. Para elas só há sexualidade se houver um membro eréctil, um sexo de afronta, dominador... onde não entra a sensualidade, nem a emoção nem muitas vezes o respeito ou uma verdadeira sensibilidade feminina...

Esse pensamento dominante na mente feminina corresponde à predominância e domínio do Homem e desses valores, os estritamente sexuais, os mais valorizados e exaltados e que são de domínio sobre a mulher, os mesmos que imperaram durantes milénios. Sem falo a mulher não existe - não tem voz, diz Lacan?
Assim, quando falo e tento romper essa barreira dos conceitos e preconceitos sobre a sensualidade da mulher que é marcadamente masculina, a que visa o prazer exclusivo do homem e não da mulher,  em que as mulheres estão quase todas  formatadas e viciadas pela mente e cultura (moda-cinema-arte-pornografia) masculina, em que baseiam as suas ideias de  amor e vivem as suas relações, casamento família e sociedades, e até em grupos orientados para uma Nova Era, pretensamente libertadora da mulher (tantra-dança-massagens-terapias) e não são senão variações do mesmo uso da mulher baseado no medo e no tabu ancestral que pesa sobre as mulheres.

Impossível ainda pois criar uma energia comum, de cumplicidade feminina e independente do homem, sem que os preconceitos redutores das mentas cativas das mulheres não se manifestem de forma preconceituosa; impossível assim  criar sinergias entre as mulheres através da possibilidade de criar um vazio mental – uma espécie de “desorientação” mental, abertura para a experiência de dentro, do centro e do coração -, a fim de deixar que algo novo as surpreenda e assim poder deixar fluir a Consciência inata, ou deixarem-se invadir por algo que não se capta pela mente-intelecto, nem pela razão. Mas lamentavelmente o que tenho verificado é que acabo quase sempre por ser mal entendida e passar por "suspeita" (ah não "gostar de homens"!). 
Tudo isso é natural dado os diferentes níveis das pessoas que me ouvem e consequentemente da sua consciência desperta ou não para as subtilezas do ser superior e da mulher verdadeiramente livre. Normalmente (a normose) pauta pela mediocridade dos julgamentos dentro da dualidade bem e mal. Ai a sexualidade é a mais sacrificada e reduzida aos estereótipos citados. AS pessoas filtram tudo com a mente dual (rasa e baixa) e raramente conseguem ler ou ouvir com o coração inteligente...para lá dos conceitos, tantas vezes mesquinhos e redutores da pessoa humana nomeadamente sem atingir o propósito de alcançar essa beleza e grandeza que é apanágio da Mulher Integral.

Desta maneira e sucessivamente tenho-me vindo a aperceber que não posso fugir a essa matriz de controlo nem ao velho paradigma que as domina e que continua a ferir as mulheres (já não falo dos homens) no seu amago – não as deixando fluir na sua intuição – mas criando resistências através de ideias geradas no seio da sociedade conservadora e na família tradicional e que veiculam inconscientemente contra elas próprias o sentimento de negação da sua liberdade de ser em nome de deus ou do diabo, do bem e do mal.

Sim apercebo-me de que afinal não posso ignorar, na minha boa-fé, nem mesmo diante da boa vontade das outras mulheres, as mais empenhadas na consciência de si mesmas, a forma como as mulheres em geral ainda estão dominadas pelas velhas fórmulas tradicionais e conceitos religiosos que as formataram e como cada uma faz a leitura desta abordagem de  acordo com os seus conceitos e preconceitos, dependentemente do seu nível de consciência e isto é fatal como o destino...
Na verdade sempre que me exponho a falar em público corro esse risco, o de ser mal interpretada e tenho-o feito em diversas plateias e palcos e em diferentes momentos da minha vida e em diferentes intervenções, desde há muitos anos, sendo que nos últimos anos o tenho feito, não em nome de algo ou de alguém, mas daquilo que eu própria escolhi como caminho para mim mesma.
Falar às mulheres da sua cisão interior e de abordar Lilith numa perspectiva mais conceptual e psicológica, sem recorrer a ideias mirabolantes e sem me deixar influenciar por nenhum tipo de devaneios ou ideias transcendentais…seja por meio de canalizações ou iniciações, ou escutar vozes de antepassados anjos ou seres de outras dimensões ou galáxias… 
Há por ai tanta "informação" vinda de planos e dimensões - há por ai tanta "sabedoria" forjada na imaginação e na demência megalómana de criaturas insanas e ignorantes...de si mesmas, que se dizem canais ou interpretes do divino e de entidades, que por vezes penso que o melhor é ficar calada!

O que eu digo e escrevo ou defendo vem de dentro de mim mesma e é o meu discernimento pessoal, o meu conhecimento próprio SEM FONTES OUTRAS que não as humanas e que se obtém do somatório do que aprendemos ao vivo e por experiência própria; o que eu penso é  a expressão de uma faculdade cognitiva que  manifesta por palavras a experiência do meu ser nos diversos aspectos da sua manifestação e através de vivências seja a nível emocional sentimental ou físico…e também espiritual, quando essa união entre o corpo alma e o espirito se faz neste plano.

Portanto falo, escrevo e digo por conta própria e risco e não me sirvo de nenhum outro meio para o fazer, nem falo em nome de ninguém, que não seja a consciência que tenho da minha própria existência e da minha vida vivida e todas as implicações que resultam da nossa estadia na Terra, dimensão em que vivo e em exclusivo, sem me transladar para mundos fictícios e ideias transcendentais que não são o da realidade que vivo com os pés assentes na terra Mãe; não vivo nem falo baseada numa teoria de uma qualquer visão alterada. Falo de uma visão espiritual natural sem interferência de conceitos ou ideias pré-estabelecida pelos manuais nem nenhum livro sagrado…

rosa Leonor pedro

Anónimo disse...
Esse texto é a representação clara e fidedigna do momento atual.
Muitas mulheres sabem e tem consciência da sua relação com sociedade e como ela procede, mas não conseguem alçar um passo adiante. Não posso contestar a motivação de cada uma delas, pois não tenho suas experiências. Mesmo porquê existem mulheres em tais condições degradantes que não cabe questionamento. Mas, pela minha vivência, sinto que existe uma força enorme pela manutenção do padrão atual, que se evidencia em cada ação repressiva às mulheres que fogem a esses padrões. Muitas vezes nem é algo evidente, mas nas entre linhas podemos entender a clara intenção de intimidar qualquer forma de libertação.
Todas vez que aceitamos essas intimidações é como se houvessem partido ou cortado um parte do nosso verdadeiro ser. Será que vale a pena abrir mão de tudo que é de mais genuíno para podermos nos enquadrar em padrões impostos? Sentindo como que partes de nós fossem retiradas sistematicamente?
O resgate, o retorno da mulher em sua totalidade e essência irá acontecer quando rompermos com o paradigma vigente. Buscando no nosso interior a sabedoria de nossa natureza infinita e selvagem que é o mais profundo mistério em si.

Esse é apenas um comentário, pode ser que algo não faça sentido.

Obrigada por publicar seus textos.

PARA QUEM DUVIDA DE QUE LINGUA DESCRIMINA AS MULHERES


A LINGUA É DO HOMEM...

"Até há línguas que subordinam as mulheres; no caso da língua portuguesa, o seu funcionamento sexista é claro: para acederem à sua identidade humana, as mulheres fazem-no pelo uso do genérico "homem"; a mulher é ser humano pela mediação do masculino. A socialização religiosa, com todas as suas consequências, faz-se no masculino: uma menina é baptizada em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo e será confrontada com uma hierarquia masculina: o padre, o bispo, o cardeal, o papa.

"Não ao machismo", diz Francisco

1 Discute-se sobre as razões do facto, mas o facto é que em quase toda a parte as mulheres foram inferiorizadas ao longo da história. Os homens ficaram hierarquicamente com o primeiro lugar.
As razões são muitas. Os homens dominaram por causa da força física, o que não significa que as mulheres não sejam mais resistentes. Por causa da maternidade e dos cuidados com as crianças, as mulheres ficaram mais dependentes. A menstruação e a impureza ritual acabaram por marginalizá-las. Paradoxalmente, a marginalização provinha também de algum ciúme da parte dos homens: afinal, da vida percebem elas, que a vivem no seu interior; como compensação, os homens foram para a exterioridade da guerra e dos grandes "feitos", de que fala a história, ignorando as mulheres. Até há línguas que subordinam as mulheres; no caso da língua portuguesa, o seu funcionamento sexista é claro: para acederem à sua identidade humana, as mulheres fazem-no pelo uso do genérico "homem"; a mulher é ser humano pela mediação do masculino. A socialização religiosa, com todas as suas consequências, faz-se no masculino: uma menina é baptizada em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo e será confrontada com uma hierarquia masculina: o padre, o bispo, o cardeal, o papa.

Também o desconhecimento científico contribuiu: a descoberta do óvulo feminino deu-se apenas em 1827, o que significou que a mulher era considerada passiva na geração, levando, por exemplo, São Tomás de Aquino a afirmar que a mulher não pode ter poder na Igreja nem pregar. Uma das razões da misoginia é, segundo F. Lenoir, o prazer feminino, essa grande intriga para o homem": o homem tem "ciúme do gozo feminino, pois é infinito, enquanto que o do homem é finito. Há uma espécie de abismo do gozo sexual da mulher que mete medo ao homem e o contraria".


(...)
ANSELMO BORGES (padre) publicado em 2015

AS COISAS SONHADAS


Ter amores só puros como as nossas almas...

"As coisas sonhadas só têm o lado de cá... Não se lhes pode ver o outro lado... Não se pode andar à roda delas... O mal das coisas da vida é que as podemos ir olhando por todos os lados... As coisas de sonho só têm o lado que vemos... Ter amores só puros como as nossas almas..."


Bernardo Soares...
Livro do Desassossego. Vol.I. Fernando Pessoa

POEMAS NA DENSIDADE







O MEU TEXTO DA APRESENTAÇÃO DO LIVRO DE MARIANA INVERNO
"POEMAS NA DENSIDADE"

"Ó subalimentados do sonho! A poesia é para comer!" ~ Natália Correia

 Estamos a viver um momento cultural e histórico terrível, que a própria Natália Correia definiu e de algum modo profetizou…
"Ninguém se pode possuir inteiramente, porque se ignora, porque somos um mistério. Para nós mesmos. Podemos sim, ser mais conscientes de uma determinada missão que temos no mundo. Todos nós somos uma missão. Somos a missão de continuar a vida, aperfeiçoando-a, festejando-a e não destruindo-a como se está a fazer hoje. Eu não tenho certezas, mas tenho convicções e uma das minhas convicções mais firmes é que nascemos para a liberdade. E, no entanto, veja o paradoxo: essa liberdade, esse caminho para a liberdade está a ser cada vez mais obscurecido por aquilo que observamos no nosso mundo de hoje. Nós chegamos a esta coisa terrível, o chamado equilíbrio nuclear, que é o jogo de escondidas de duas disponibilidades criminosas para suprimir a humanidade. A humanidade está hoje pronta (parece que está sempre pronta!) para pôr luto por si própria. Isto não é uma forma humana de viver. Esta tragédia tem que ser a sua «húbris», que é, digamos, a arrogância que desencadeia a catástrofe punitiva. E o que me perturba muito, o que me assusta, é que países que subscrevem, que proclamam os direitos humanos, possam entrar num jogo fatal destes, um jogo que se destina a suprimir o homem." - Natália Correia, in 'Entrevista (1983)'




Assim, perante este perigo iminente, concreto, digo-vos que mais do que nunca a necessidade da poesia e do sonho é de vital importância para aqueles e aquelas que querem sobreviver a este pesadelo humano de terror e guerras e medos.
Ciclicamente os seres humanos tendem colectivamente a transbordar a sua impotência e ignorância em violência e baixos instintos por falta de vida verdadeira, por falta de essência, por falta de humanidade e essa falta acaba por irromper de forma violenta e fratricida nas sociedades. E é isso que estamos a viver hoje, fruto da nossa alienação colectiva.

Mas eu não fui convidada para falar do que se passa no mundo, nem da Natália Correia, mas sim para falar da poesia e da Mariana Inverno, porque, por muito difícil que pareça, talvez a poesia seja a única esperança que temos de sobreviver a este caos que se anuncia cada dia mais, a esta desordem mundial e às ameaças que pairam sobre todas as cidades do mundo.
É sem dúvida mais fácil falar do mundo em que vivemos do que nós como indivíduos e do nosso ser interior ou da nossa subjectividade e é talvez por isso que só a poesia hoje em dia não se escreve, não se busca não se vende nem se compra e porque quem escreve poesia também não se vende nem se troca por qualquer outra roupagem e não vive senão para e da sua essência; quem escreve poesia porque sente, não busca as palavras para consumo, não o faz igual aos que vivem presos à aparência e do bonitinho, presos das formas fáceis de comunicação, superficiais, como quase tudo do que se escreve nos nossos dias, tão vulgar e descartável. Sim, como quase tudo o que se passa neste momento e neste mundo prostituído, onde todos os valores foram invertidos e ninguém quase que sabe quem é quem...
Portanto para escrever poesia e dar lugar aos estados de alma, é preciso ter alma – e é isso que mais nos falta nos dias de hoje. Fala-se muito de tudo e de qualquer coisa, temos farta informação sobre o horror e a violência e o crime e a guerra e a crise, mas não se fala do ar que se respira, nem das flores, nem da lua, ou da paisagem triste que nos assola, pois agimos e somos como máquinas e robots…
Mas os poetas sobrevivem à mingua, ao caos e dão voz à sua alma e com isso nos salvam, embora sendo raros, cada vez mais raros…

Vivemos num mundo de desalmados…
Somos os “subalimentados do sonho” – eu diria antes, da vida Real, da realeza do nosso ser - somos prisioneiros de quotidianos e normalidades e coisas inúteis – somos por isso famintos de beleza, somos famélicos desse amor genuíno e que não mente, somos quase todos analfabetos do coração e da Matriz primordial. Perdemos a ligação à fonte da vida, à substância de que ela é feita e tal como a poesia é feita para se comer…e que quando vivida, trazida de dentro, ela é alimento. 

E é por isso que aqui estou, mais uma vez, ao lado da Mariana que me convidou para dar crédito Á PALAVRA…
A palavra que nos honra, à palavra que vem do coração; e porque ela cria com as palavras a substância de que é feita a beleza, trazendo-nos  essa poesia da alma que nos alimenta.

A poesia é pois esse sopro que nos traz vida quando tantas vezes nos sentimos a morrer de fome de algo que nos toque verdadeiramente,  de algo que nos faça vibrar por dentro e nos transforme, e por isso também estou aqui – e não é tão fácil para mim como pode parecer – mas porque sei que para ela, como para mim, a poesia é-lhe essencial na vida  e  ela é-lhe fiel, eu também sou fiel aquilo que nos liga!
Sim a poesia que é poesia vem de dentro e do amago, ela é igual à vida quando a vivemos a partir das emoções e sentimentos profundos e nos aventuramos a SENTIR primeiro, nessa transcendência do ser… e sentimos antes de pensar ou agir, ao ritmo do coração e cantamos o sangue que nos corre nas veias e ardemos nesse fogo que nos anima.

Quis dar-vos esta sensação visceral de sentir em vez de uma visão mental de uma corrente literária ou de um estilo…aliás, tal como ela é livre de dizer o que sente e sem limites de género ou métrica, eu queria que pela palavra sonante aflorássemos a raiz do verbo, a matriz do Ser Divino que é toda a poesia subentendida, ou manifesta, na Natureza, na Terra, na Mãe e no Ser Humano e nós cegos, meras máscaras e egos, intelectos soberbos, deixamos de ver no nosso dia-a-dia as coisas essenciais… e esperamos por Ovnis e anjos…
A Mariana Inverno faz assim a diferença na escrita e neste palco da vida, porque é uma dessas mulheres que carrega em si a essência da poesia e se força na azáfama do seu quotidiano para lhe dar corpo e vida, não só no seu coração, sempre presente, mas também à sua volta, no que a rodeia, porque ela mantêm-se viva agarrada aos pilares da transcendência e não da economia…percorrendo a densidade que a todos nos engana.  

Como ela nos diz neste seu poema Sonho e sono:

“Não me busques nos caducos modelos do fingimento e da pretensão
Caminhei tanto e tão duras penas que o tempo amoleceu todas as máscaras

Eu só sei coisas essenciais e da imensa inundante compaixão
Pelo fogo do olhar me reconhecerás pela ressonante palavra e pelo gesto a abrir caminho próprio.”

Não, ela não abdica da sua luta diária até à exaustão, nem do compromisso com o trabalho, a família e os amigos e amigas…ela luta em todas as frentes para manter a poesia viva na sua vida diária, ela constrói um ambiente à imagem do seu sonho e a arte e a beleza inundam os seus espaços…e é isso que a anima e lhe dá a forças renovadas para continuar a sua batalha contra os obstáculos, contra a corrente esmagadora da “normose” em que vivemos todos e todas …ela faz da sua vida, na medida do possível, diria do tempo que tem, essa poesia com que agora nos brinda neste livro, e muito bem define, como “Poemas na densidade”- porque é densa esta realidade que ofusca o que de melhor existe em nós…e nos tira o sonho e a esperança na humanidade tantas vezes! E eu sucumbo como toda a gente e penso, sim, às vezes tenho mesmo a ousadia de lhe dizer: “como tu és ingénua, tu não vês que o mundo é quase todo ele de gente de mentira e que vive só para a mais-valia do dinheiro e do comércio, um mundo em que tudo se vende e se compra até os afectos e o amor, sim, tudo menos a poesia…”

Mas ela zanga-se e responde-me…com o seu sonho …com este livro...

“Tudo ainda é só mistério Na terra onde regresso Em cada manhã revigorada
Por hora vai-me levando Carinhosa e vaga Para outros horizontes
Só de mim-dentro conhecidos”
E eu acredito e calo-me. Na poesia não se argumenta, nada se justifica, nem se convence ninguém a gostar. A poesia come-se, é substancial, alimento, é para a alma - já disse e mais não digo. Obrigada a todas e todos os presentes por me ouvirem.

 Rosa Leonor pedro

UM SOPRO DE VIDA


Eu Queria uma Liberdade Olímpica


Acordei hoje com tal nostalgia de ser feliz. Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma. Vivo numa dualidade dilacerante. Eu tenho uma aparente liberdade mas estou presa dentro de mim. Eu queria uma liberdade olímpica. Mas essa liberdade só é concedida aos seres imateriais. Enquanto eu tiver corpo ele me submeterá às suas exigências. Vejo a liberdade como uma forma de beleza e essa beleza me falta.


Clarice Lispector, in 'Um Sopro de Vida'