terça-feira, janeiro 31, 2017

sem esforço, sabe-se...



Estado de Graça

Quem já conheceu o estado de graça reconhecerá o que vou dizer. Não me refiro à inspiração, que é uma graça especial que tantas vezes acontece aos que lidam com arte. O estado de graça de que falo não é usado para nada. É como se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existe. Nesse estado, além da tranquila felicidade que se irradia de pessoas e coisas, há uma lucidez que só chamo de leve porque na graça tudo ...é tão, tão leve. E uma lucidez de quem não adivinha mais: sem esforço, sabe. Apenas isto: sabe. Não perguntem o quê, porque só posso responder do mesmo modo infantil: sem esforço, sabe-se.
E há uma bem-aventurança física que a nada se compara. O corpo se transforma num dom. E se sente que é um dom porque se está experimentando, numa fonte direta, a dádiva indubitável de existir materialmente.
No estado de graça vê-se às vezes a profunda beleza, antes inatingível, de outra pessoa. Tudo, aliás, ganha uma espécie de nimbo que não é imaginário: vem do esplendor da irradiação quase matemática das coisas e das pessoas. Passa-se a sentir que tudo o que existe — pessoa ou coisa — respira e exala uma espécie de finíssimo resplendor de energia. A verdade do mundo é impalpável.



Clarice Lispector, in Crónicas no "Jornal do Brasil (1968)"

O LIVRO: A MORTE DA MÃE


A Mãe Repressora e os Mitos Humanos


“Havíamos aplaudido com o entusiasmo possível, as várias invenções das mulheres: o vestuário, e a cozinha, e os começos da agricultura, e tudo o mais que se formulara por nossos olhos sem encontro com palavras disponíveis. No entanto, sentíamos que esse entusiasmo que nos fora possível, era pouco.
Sim, sentíamos a importância das nossas descobertas: demonstramo-nos como foram as mulheres as iniciadoras e aperfeiçoadoras de todas as passagens de um zero de vital sobrevivência até á construção de uma raça de gestos calculados e largo excedentes; e como o génio perverso dos homens só veio instalar-se sobre essas básicas condições, que lhes permitirão lutas e guerras e outros ambiciosos desperdícios.
Mas havíamos sonhado com a glória dos reinados matriciais – sem nos confessarmos.
Glórias de outra espécie: não os altos brados de dor e violência, não os sons metálicos das armas.
Sonháramos com uma lua vigilante e um sol amigável. Com chuva. Com aldeias que se solidificam: as peles e os paus e os panos das tendas dariam lugar a casas de adobe, de tijolos cozidos ao calor do sol. Chegaríamos mesmo á movimentação de enormes pedras, por processos hoje apenas congeminados, e às tentativas de imortalidade: templos e túmulos.
Aldeias abertas, cidades sem muralhas. Abertas ao mar, aos campos e pastagens em redor…
No centro das aldeias os vastos terreiros; onde os homens estilizavam o uso de sua força física em jogos e desportos…
E as mulheres penteavam e entrançavam seus cabelos, símbolos de força e de engenhos de magia. Gestos, símbolos, jogos técnicas passadas de mão em mão; e flores encarnadas nos canteiros das escadarias dos templos.
- Como poderíamos nós desenterrar tudo isso, sem escrita, sem palavras, sem escavações arqueológicas, apenas com nossa imaginação de amadoras? – dissemos.
Mas sabíamos que outras razões existiam.

A mulher com as palmas das mãos viradas para cima saiu do painel e sentou-se entre nós: sentada sobre os calcanhares, as mãos nos joelhos, com as palmas viradas para cima; expectante também ela. E contou-nos várias outras histórias e fontes de preocupações.

Dizia-se então que a grande Deusa tinha criado os seres humanos.

No seu ventre imenso e fértil ela faz os corpos. E depois neles começos a insuflar a sua magia: vida. Abria uma boca nos corpos, a vulva, e por essa boca os enchia com os poderes mágicos de criação. Metade dos seres humanos estava pronta – as mulheres – quando chegou a hora da deusa: esta tinha que se retirar, descansar, senão esgotaria seus próprios poderes.
Então, apressadamente, nem tendo tempo para abrir nos restantes corpos a boca criadora, a deusa neles pendurou as magias que lhe restavam.
E a deusa disse:
- Ficam bem pobrezinhos, estes seres com suas fontes de vida, seus sexos, assim pendurados entre as pernas. Mas nada mais posso fazer por eles. Chamar-lhes-ei “homens”, e espero que consigam absorver em seus corpos um pouco dos poderes mágicos que tristemente lhes balançam no baixo-ventre, quase caindo.
Apareceram também os vários mitos relativos às diferentes descobertas agrícolas: sempre relacionados com incestos, entre mães e filhas, irmãs e irmãs, irmãs e irmãos, mães e filhos. Porque o incesto é o símbolo do núcleo central e criador das mulheres. E a nostalgia incestuosa representa a memória das alegrias de ser produzido: um outro ser connosco gastou seu tempo, anos de vida, em nós incorporando valor que nos garante futura aceitação e utilidade. “


In “A Morte da Mãe” de Maria Isabel Barreno

segunda-feira, janeiro 30, 2017

pois...




"Pois, sobretudo, resulta no indivíduo uma espécie de interação ébria e exuberante das mais altas energias criadoras do seu corpo e a exaltação mais alta da alma. Enquanto nossa consciência se interessa vagamente, habitualmente, por nossa vida psíquica, como por um mundo que conhecemos mal e que controlamos ainda pior, que ao que parece forma um com ela, mas com o qual normalmente ela se entende mal - eis que se produz subitamente entre eles uma tal comunhão de enervação que todos os seus desejos, todas as suas aspirações se inflamam ao mesmo tempo."


"Distingue-se entre os humanos aqueles que se sentem divididos em um passado e um futuro e aqueles que vivem o presente com cada vez mais densidade, sempre mais plenitude. Os orientais acham natural insistir menos sobre a morte do que se passa do que sobre a perfeição do que se acaba, como aprofundamento da realidade. Nós, ao contrário, começamos a ver aquilo que nos chega, apenas sob o aspecto sempre mais sinistro da morte - como tudo o que se observa de um olhar exterior, logo mortífero."

e. cioran



Sinto-me livre mas triste.
Vou livre para onde vou,
Mas onde vou nada existe.
Creio contudo que a vida
Devidamente entendida ...
É toda assim, toda assim.
Por isso passo por mim
Como por coisa esquecida.


Fernando Pessoa

sábado, janeiro 28, 2017

A MORTE DA MÃE



Os Últimos Estertores da Mãe e do Painel

"As filhas haviam oferecido ajuda a sua Mãe, esta recusara sobranceiramente.
As filhas riram do filho, tão penosamente nascido, ameaçaram a Mãe com sua proximidade, seus poderes iguais.
Édipa havia roubado seu irmão. As filhas contemplaram esses machos que nasciam como pólipos indiferenciados do braço escuro da Mãe inicial, e haviam roubado seus irmãos: salvando-os assim das águas, do anonimato.
A Mãe voltara, com suas regras pesadas:
- Esses seres que sentais ao vosso lado morderão vossos seios.
Em cada vai-e-vem das suas volutas, dos seus ciclos, no pulsar de suas inspirações e expirações, vida e morte, a Mãe criava e condenava.
Mães e filhas reconheceram-se iguais: em seus rostos, espelho das aguas inicias, suas condições criadoras.
E perante a dor das filhas a Mãe dissera:
- Não há paraísos perdidos, nem quedas, nem pecados: todas as coisas se resumem nas duas faces do mesmo princípio.
E a Mãe sangrava, sem nunca exaurir seu sangue.
As filhas sentaram os irmãos a seu lado. Cuidadosamente os trataram e preparavam para uma longa viagem.
Contaram as histórias da velha Mãe, e dos seus poderes, e de suas leis. Contaram as histórias da risonha e risível condição humana, em que o prazer da sobrevivência e da produção de vida tão intimamente se liga á necessidade de morte.
Os irmãos agradeceram todos os favores. Calçaram suas sandálias e empunharam seus cajados. Sabiam-se descendentes da mesma Mãe, e irmãos e tios de cada nova geração.
Solidários, preparavam-se para partir; animados de sonhos heróicos, como adolescentes, de sonhos de recriação do mundo.
- Encontraremos uma solução – disseram.
Suas irmãs ficaram inquietas, ao vê-los afastarem-se.
Os irmãos voltaram de longa viagem. Seus cabelos e barbas haviam embranquecido.
- Descobrimos o segredo da Mãe – disseram. E por suas bocas era a voz da Mãe que falava.
Talvez eles sinceramente julgassem ajudar. Mas imediatamente todas as mulheres se souberam traídas.
- Que refém vindes buscar, para afirmar vossa força – perguntaram elas.
- Vimos buscar os seres criados por nosso sémen, antes que o ventre da Mãe deles se aposse no seu difícil e longo parto – responderam.
- Mas quem criou e amamentou vossos filhos? – Insistiram as mulheres.
- Nós também ajudamos a defende-los e a criá-los – disseram os homens.
- E isso o que prova?
Mas a perguntadas mulheres ficou sem resposta. Todos aqueles viajantes anciãos se sentaram e entre si começaram a discutir. Os tios desfaçavam-se de benevolentes mães do sexo masculino, e contavam quanto haviam protegido e acariciado suas irmãs e sobrinhos. Outros homens preferiram afirmar-se enquanto «pais«, palavra nova que inventavam e defendiam a criação de uma nova lei: os direitos de cada um já não seriam definidos pelo tempo em tarefas de produção de vida, mas pela força, com a qual se pretenderia legitimar o prioritário direito dos momentâneos e ejaculatórios investimentos nessa produção de vida.
- A morte será a lei – disseram as mulheres.
Os sinuosos «pais « não desistiam do seu intento:
- Temos que salvar o filho. Teremos que o separar da Mãe e enviá-lo para longa viagem, para que esta não continue a absorve-lo, sempre, no seu enorme e cruel ventre.
A Mãe gritou:
- Apenas criarei uma raça de senhores que se alimentará do sangue de todos os outros.
E foi o seu último suspiro"

In “A Morte da Mãe”, de Maria Isabel Barreno

ESCRAVOS DO DINHEIRO


O CAPITALISMO

UM RETRATO PERFEITO DA SOCIEDADE CAPITALISTA

De RAQUEL VAARELA - historiadora


O dono da padaria portuguesa diz que vive em concorrência, não pode pagar muito mais do que o salário mínimo, e quer os trabalhadores disponíveis a qualquer hora para ele, se não a empresa fecha e os trabalhadores perdem o emprego. O dono da padaria portuguesa tem que pagar o lucro do proprietário de terra que faz trigo; o lucro da empresa de transportes que o transporta para a cidade; o lucro da Galp onde a empresa mete gasóleo; o lucro da EDP; o lucro da Bosh que lhe vendeu... o forno e os frigoríficos; o lucro dos accionistas bancários que vivem da dívida pública via impostos ao Estado que paga o dono da Padaria; o lucro do banqueiro que lhe emprestou dinheiro. Cansados? Ele ainda tem que pagar pelo menos o lucro a mais 100 empresas (fruta, leite, sumos, vidros, janelas, pinturas, alumínio, limpeza…). E todo este lucro vem do meio de uma relação entre um pão e o consumidor. Chama-se capitalismo, fazer dinheiro com serviços básicos e elementares, ou, na versão ideológica não científica «o sistema económico» – assim, o «sistema», até parece cientifico e eterno, estilo lei da gravidade. O corajoso empreendedor vive aterrorizado com medo de ser esmagado pela concorrência e ficar endividado ao banco a quem pediu dinheiro, com juros, para intermediar o consumo de pão e sumos. O banqueiro também tem medo porque pediu ao outro banqueiro mais dinheiro, a juros também. O dono da padaria quer ter menos medo, o banqueiro não gosta de sustos, flexibilidade é bom mas só se for para os outros, para nós segurança, máxima! E qual é o selo de emprego para a vida do dono da padaria? Os 500 euros que paga aos seus trabalhadores. O dos banqueiros já sabemos, somos nós os contribuintes. Emprego para a vida está-lhes garantido pelo Estado, que lhes protege as dívidas. Não se vá dar o famoso «risco sistémico». Mais seguro ainda, explicaram, é se os trabalhadores da Padaria Portuguesa ficarem lá até às 11 da noite – nem com o padeiro dormem as mulheres! Amor, isso é?! Deixa-me pensar…Vida própria? Família, lazer, pieguisses… Pagam 400 euros de casa, 100 de passe social e vão mendigar o cabaz social e a tarifa social da electricidade e a isenção das taxas moderadoras ao Estado, dobrando-se na frente da assistente social, que lhes vasculha a vida, humilhando-se – a isto chama muita gente, defendendo a assistência social, «dignidade», ou seja trabalhar e não conseguir sequer comer e pedir ao Estado comida, no século XIX. Perdão, queria dizer XXI.
Marcelo Rebelo de Sousa tira selfies. Dá abraços e pede paz social.

A MULHER E AS LEIS



A MORTE DA MÃE

"Eram então necessárias novas leis para impedir o que se poderia chamar uma demasiada integração dos machos. Porque estes, assim agarrados a suas mães, suas irmãs, fragmentavam o grupo. Por outro lado, concentrada a vida nesses ternos e prazenteiros subgrupos, o trabalho produtivo das mulheres, numa humanidade de crescente consciência, torna-se invisível, diluído em mitos: a produção daquelas parecia continua e sem direito a descanso. A deusa inicial criadora talvez fosse omnipotente, mas as mulheres não."

In A Morte da Mãe, de Maria Isabel Barreno


MULHERES DE VERDADE 

“ENQUANTO UMA MULHER FOR ESCRAVA
O HOMEM NÃO TERÁ LIBERDADE" - Maria Lamas
...
"Partindo daquela confiança mútua que deveria ser sempre natural entre os seres humanos sujeitos aos mesmos males e às mesmas lutas, e mais justificada ainda entre nós mulheres, que através de séculos e civilizações vimos suportando injustiças de toda a ordem, demo-nos as mãos, e seremos fortes. Da nossa força, consciente, generosa e nobre, muito bem poderá vir ao Mundo.
A Mulher é a Mãe, e a Mãe influirá sempre na formação do carácter dos filhos..."

In Biografia (1945) DE MARIA LAMAS

Pode espantar muitas mulheres de hoje a ideia de "Enquanto uma mulher for escrava"...e duvidar-se que hajam nos nossos dias mulheres escravas, MAS o que vamos chamar a uma mulher explorada sexualmente, ou que seja apenas física ou psicologicamente, não diríamos também que não haverá um homem digno da sua humanidade enquanto isso acontecer? Independentemente de todos os problemas de ordem económica e social que foram debatidos ao longo do século vinte, como forma de emancipação feminina, quase todos eles continuam a ser sensivelmente os mesmos, embora com uma patine de evolução e mudança, mais (retórica) teórica do que real, e só nas cidades, ou centros urbanos ela existe, porque de resto quer no País quer no Globo inteiro as mulheres continuam a sofrer todo o tipo de afrontas e violências sem que o Mundo e os Estados se preocupem muito com isso.

Contudo o problema efectivo e interior da mulher no nosso século que começo, porque nunca foi tocado, é sem dúvida a questão fulcral da sua identidade profunda...Ou seja, a questão da sua divisão ou fragmentação interior que correspondem a dicotomia da "santa e da puta"....
Passados mais de 50 anos sobre esta perspicaz observação “...se ele (livro) abalar a indiferença ou antes a ironia com que os portugueses usam encarar os problemas femininos...” vemos que nada mudou quanto a essa ironia...podemos vê-la e senti-la em tudo o que os críticos e comentadores, jornalistas e políticos escrevem ou dizem ainda a propósito desses mesmos problemas da mulher e pior, vemos a mulher a nega-lo como a dá-los por resolvidos...na teoria, como é o caso das feministas em geral.
Vemos ainda não só as escritoras em geral ou políticas a serem satiricamente alvejadas pela ironia afinadíssima dos muito democratas e progressistas homens da nossa praça pública...e agora os muito importantes e cotados jornalistas em ascensão meteórica na Blogosfera...


DE QUE MULHER É ESSA QUE EU FALO?

Eu falo da mulher Inteira aquela que sabe tocar o seu âmago. Que sabe tocar essa Essência que é o seu centro. O seu Coração. O seu Útero. Neles está a chave do seu poder interno. A mulher não tem de aprender nem forçar-se a ser aquilo que o homem fez dela: "objecto de prazer "ou instrumento de "procriação", agora "barriga de aluguer",  como a mulher moderna aceita e faz nem tem de ser  executiva e lutar com os homens por um lugar de chefia, nem forçar-se a ser o que os homens e a sociedade querem ainda que ela seja, tendo controlo legal  do seu corpo e do seu sexo e do seu útero. Essa mulher de que falo  se as suas raízes  estiverem ligadas ao seu Útero e a Gaia, Ela nunca mais será serva, nem escrava sexual, nem poderá ser soldado, polícia ou ir à Guerra…ou deixar os seus filhos passar fome… porque a Mulher é a Terra…e ela é abundante, dá como a Natureza dá. Por isso  é dela e só dela que pode e nasce o amor e a paz e a dádiva, na primeira grande dádiva que a vida e o ser humano que dela nasce.'

rosa leonor pedro

sexta-feira, janeiro 27, 2017

LIvros, que livros?



BEST-SELLERS ILEGÍVEIS OU PORNOGRÁFICOS...


"Há escritores que dão livros todos os anos, tão inevitavelmente com as macieiras dão maçãs. Hoje não é possível ser-se apenas autor de um único livro - mesmo que seja notável - sem se incorrer na suspeita de haver contraído qualquer doença vergonhosa. Nesta tramóia, o único que conta é o espectáculo. Animado e faustoso, é certo - como um grande funeral. Depois, toda a gente volta para casa e faz-se silêncio no cemitério. Um silêncio rumoroso, entenda-se, povoado de best-sellers ilegíveis e realmente apenas lidos por quem ignora de todo a arte de ler. resta-me a esperança de que o leitor, perante estes textos, concorde em que fui sempre, como dizia Thomas Bernhard, "na direcção contrária".


in LUZ CENTRAL de Ernesto Sampaio

quinta-feira, janeiro 26, 2017

A consciência da mulher é diferente


VOLTAR A ORIGEM


"A consciência da mulher é diferente; ela já percebeu as coisas quando o homem ainda tateia na escuridão. A mulher percebe as circunstâncias que a cercam e as possibilidades a elas ligadas, algo que um homem costuma ser incapaz. Por isso, o mundo da mulher parece-lhe pertencer ao infinito, para fora do tempo e para o transcendente, pode fornecer as indicações e os impulsos mais válidos. Essa transcendência é a sabedoria, e esta supera o saber intelectual...A mulher e tudo a ela associado parecem bem estranhos ao macho e, no entanto, isso faz parte de seu universo mais íntimo, à espera de se realizar por ele" (p.172)

Ora esses valores também estão no homem, mas, com a educação patriarcal os reprimiu, descobri-los é uma tarefa dura. O procedimento inicial, aliás, é compreender que nada há...a compreender, mas a perceber e a sentir. Por isso, no caminho da Esquerda, que passa pela mulher, é ela a iniciadora. Ela abre paro o homem as portas secretas para a profundidade do ser, para o derradeiro, o cósmico. Se o Tantra fosse uma religião, as mulheres seriam suas sacerdotisas, e os sacerdotes seriam os homens que tivessem desenvolvido, graças à mulher, suas qualidades femininas de intuição e transcendência.
(...)
André Van Lysebeth - tantra o Culto da Feminilidade.

quarta-feira, janeiro 25, 2017

VIRGINIA WOLF




Cada um tem o seu passado fechado em si, tal como um livro que se conhece de cor, livro de que os amigos apenas levam o título.



Virginia Woolf

VIRGINIA WOLF - UMA HISTÓRIA INCOMPLETA



Em 28 de março de 1941, aos 57 anos, Virgínia Woolf vestiu um casaco, encheu seus bolsos de pedras e se afogou no Rio Ouse. Antes do ato, após um colapso nervoso, ela deixou uma carta breve para seu marido.
Leonard era marido, amigo e editor de Virgínia. Talvez a palavra que melhor defina a relação entre os dois seja “amigo, já que a escritora não se interessava por homens. Algo curioso que marcou a vida deles foi a atitude de Leonard em relação aos livros que ele editava de Virgínia. Como a escritora nunca acabava de revisar suas obras, o marido “roubava” os livros e os mandava para a impressão. Virgínia continuava editando, até que um dia Leonard chegava e lhe dizia: “Pode parar de revisar. O livro está sendo impresso. Está pronto há semanas!”. Ela ficava furiosa, mas depois lhe agradecia, pois assim podia começar a trabalhar num novo livro.
Antes do suicídio, ela deixou para Leonard a carta que segue abaixo.


“Meu Muito Querido:

Tenho a certeza de que estou novamente enlouquecendo: sinto que não posso suportar outro desses terríveis períodos. E desta vez não me restabelecerei. Estou começando a ouvir vozes e não consigo me concentrar. Por isso vou fazer o que me parece ser o melhor.
Deste-me a maior felicidade possível. Fostes em todos os sentidos tudo o que qualquer pessoa podia ser. Não creio que duas pessoas pudessem ter sido mais felizes até surgir esta terrível doença. Não consigo lutar mais contra ela, sei que estou destruindo a tua vida, que sem mim poderias trabalhar. E trabalharás, eu sei. Como vês, nem isto consigo escrever como deve ser. Não consigo ler.
O que quero dizer é que te devo toda a felicidade da minha vida. Fostes inteiramente paciente comigo e incrivelmente bom.
Quero dizer isso — toda a gente o sabe. Se alguém me pudesse ter salvo, esse alguém terias sido tu. Perdi tudo menos a certeza da tua bondade. Não posso continuar a estragar a tua vida.
Não creio que duas pessoas pudessem ter sido mais felizes do que nós fomos.
V.”
in PENSAR CONTEMPORÂNEO