quinta-feira, novembro 02, 2017

AS MULHERES



"Não creio que as mulheres tenham problemas de solidão.
Estão preparadas para a solidão e, em geral, para toda a espécie de sofrimento; a natureza dotou-as com singulares poderes de resistência, o que os doutos alquimistas diziam ser humor frio e incapaz de maturidade intelectual.
Acho mesmo que a solidão é um estado natural da mulher; e por isso todos os movimentos ascéticos que envolviam retiro e culto da experiência espiritual, desde as vestais de Roma até às Damas do Amor ...Cortês, na Provença, partiam dum sentimento feminino muito acentuado.
Os homens não encaram bem esse protótipo de mulher espiritual, porque ele é o único que recria a independência feminina depois do primeiro Éden.
E diz-se primeiro Éden porque, segundo as Escrituras, houve, antes de Eva, uma mulher pura, inteligente e igual ao homem, de grande condição metafísica, porém cruel e sumamente poderosa. Chamava-se Lilith.
Em suma, o mito da mulher fatal, que o homem teme e, ao mesmo tempo, pretende conhecer como sua verdadeira metade.

O dilema é este: nós as mulheres, somos prosaicas, sobretudo quando somos naturais.
É próprio daqueles que são delicados e frágeis o serem terra-a-terra, porque isso lhes dá a impressão de estarem mais protegidos.
A realidade protege mais do que os sonhos, do que as coisas imaginárias."

Agustina Bessa-Luís
In "Dicionário Imperfeito"

"E continuamos a adiar...


"E continuamos a adiar, a esconder, a compensar, a ignorar.
(ignorância, tanta ignorância, tanta cegueira, tanta violência, tanto medo - tanto sofrimento. Tanta pequenez. Tão pouca humildade, tão pouco reconhecimento, tão pouca gentileza, tão pouca mansidão, tão pouca sensibilidade, tão pouca inteligência, tão pouco vagar - e tão amoroso, imenso e disponível o caminho mesmo à frente chamado a corda para a Vida).

Às vezes - tantas vezes! - compensamo-nos com as distrações (outra vez: make-up, sex, manipulação, abuso de poder, sacrifícios masoquistas, violência subtil ou gritante, tentativas de "ajuda" ao outro, jóias ou promessas * sonhos, fugas, distracções, ilusões) por andarmos a ter com connosco próprios uma relação abusiva enquanto achamos que os outros nos exploram, por exemplo,"
(...)
Uno Michael

A LEI DE APOLO


A MULHER, TODOS OS SANTOS A DESPREZAM

"Todos os santos a desprezam,
bem como todos os homens sóbrios,...
que se regem pela justa lei do Deus Apolo.


... Naveguei para procurá-la em regiões distantes,
onde era mais provável encontrar aquela
que queria conhecer mais que todas as coisas,
a irmã do miragem e do eco."


"A Deusa Branca", Robert Graves
...mas hacia vosotras mi pensamiento,
bellas, no cambia...


SAFO



O CAMINHO DA LUA
(...)
“A saudade pertencendo ao caminho da Lua, sua salvação é dada no mundo sublunar da transformação, do retorno cíclico da terra ao céu e do céu à terra, através da encarnação e reminiscências; tal ainda aquele regido e simbolizado pela serpente e pela espiral, (...)
Toda a estrutura da saudade pertencerá à metafísica lunar: como nesta, a sua ideia central é a do ritmo, na sucessão e união de contrários através do devir, por um dualismo solucionado numa integração final. (...)

A saudade, dentro de todo o seu contexto histórico, será marcadamente feminina, sua forma de ser e conhecer, fazendo-se preferentemente pelo sentimento, tal como essa religião e culto do passado galaico-português. Ela tece os fios do tempo na teia do devir, tal como a Grande –Deusa tecedeira, unindo passado e futuro. Assim já tecia a deusa lunar, como mediadora e senhora do tempo: com uma roca era representada a deusa encontrada em Tróia, assim como Isthar e a grande deusa hitita. E assim também as sucessoras da Grande-Deusa aqui neste mesmo território galaico-português, sobrevivendo através das lendas e tradições populares, as Mouras encantadas, também tecedeiras, como Circe ou Penélope, ou fiandeiras: defronte de seu tear ocultas no seu mundo subterrâneo, fazendo-se ouvir na noite de sua epifania, a noite se S.João; (...)
Alegre e triste, é a concepção da saudade, e também consoladora, tal como seria essa antiga religião da sua deusa. E à saudade pode-se considerar nos tempos de agora, como uma hierofonia lunar: de carácter místico, escatológico e soteriológico. Também como esta religião antiga, ela é fundamentada emocional e passional, e em si contendo esse triplo sentido e finalidade, tal como uma sobrevivência de sua antiga religião dos Mistérios. A saudade sendo no povo galaico-português, a maior sobrevivência actual e europeia, da antiga religião pré-ariana da Grande-Deusa. Daí a sua força de estrutura a singularizar toda uma dada cultura: Força que só lhe poderá advir dessa origem e natureza religiosa.

A saudade precederá também, na actual Galiza e Portugal, a chegada dos celtas, e será, com os vestígios megalíticos, a tradição matriacal e agrária, a demanda do Graal e o regresso ao Paraíso, uma herança do seu fundo pré-ariano.” (...)


Dalila L. Pereira da Costa, no seu livro “DA SERPENTE Á IMACULADA”

domingo, outubro 29, 2017

“O medo das mulheres, ou ginofobia..."


Os Hebreus, e a criação de modelos de mulheres aberrantes...


“O medo das mulheres, ou ginofobia, é um mal bem conhecido que remonta de muito longe na história da criação. Deus, diz-se, criou o homem à sua imagem. Mas seguramente não a mulher. Senão, ele não seria obrigado a renovar tantas vezes essa tentativa, criando tantos modelos de mulheres aberrantes, a acreditarmos nos múltiplos contos, lendas, mitos, midrashim e haggadah que, entre outros, nos transmitiram os Hebreus.” *



PORQUE OS HOMENS DEPRECIAM TANTO AS MULHERES...

“A atitude depreciativa que muitos homens têm em relação às mulheres é uma tentativa inconsciente de controlar u...ma situação em que ele se sente em desvantagem; muitas vezes ele procura eliminar o poder da mulher, induzindo-a a agir como mãe. Dessa maneira ele é liberto em grande escala do seu medo, pois na relação com a sua mãe quase todo o homem experimentou o aspecto positivo do amor da mulher. Mesmo assim não está totalmente livre de apreensão, porque ao fazer com a que a mulher seja mãe dele, ao mesmo tempo torna-se criança e está portanto, em perigo de cair na sua própria infantilidade. Se isso acontece ele pode ser dominado por sua própria fraqueza, e uma vez mais deixa a mulher o poder da situação. Consequentemente, a maioria dos homens aproxima-se de uma mulher com medo, não obstante seja um medo inconsciente, ou com a hostilidade nascida do medo ou, talvez, com uma atitude dominadora, para arrebata-la de um golpe. “ **


** In OS MISTÉRIOS DA MULHER
M. Esther Harding

*In LA DÉESSE SAUVAGE de Joelle de Gavelaine

escrever...



A PALAVRA SAGRADA

Um dia, há muitos anos atrás, antes sequer de ter começado este Blog, uma amiga dizia-me que eu tinha todos os defeitos de um escritor...não sei porque nem a que propósito ela me disse isso. Na altura não tinha escrito nenhum livro e não ia além do meu diário intensivo ao longo dos anos...Depois que escrevi alguns livros...devo continuar a ter os mesmos defeitos - não sei quais - menos o de me considerar "escritora"...é coisa que não entra na minha cabeça...Talvez o escrever só esteja entranhado, como um vicio, na minha pele...e seja uma memória de outra vida...

Ou talvez porque o que eu gostaria de escrever...não possa ser escrito...talvez porque o que eu gostaria dizer não haja palavras...talvez porque tudo o que leio em geral não me diz já nada...talvez porque a palavra se tenha tornado vazia de sentido e negócio escuro, pântano social onde todos vivemos atolados, vendidos aos mercados - à troca de interesses e comércio sexual...mentira e lisonja, engano e perfídia, prostituída da sua essência...e significado!

Talvez porque a PALAVRA perdeu o seu dom sagrado....e para mim escritor/a ou escriba também devia ser algo SAGRADO...alguém consagrado!

Não, não sou nem serei uma "escritora consagrada", mas apenas uma ESCRIBA fiel a mim mesma e à verdade que me exige ser autêntica sempre.

rlp

A "adoração do princípio feminino."



OS MISTÉRIOS LUNARES...


"Para nós do Ocidente, essas coisas são mistérios só vagamente pressentidos. Não podemos falar delas com certeza, mas ao mesmo tempo não podemos ignorar o fato da arte e poesia modernas, e dos sonhos e fantasias de muitas pessoas concordarem com os mitos e com os ensinamentos religiosos do passado.
Os símbolos, que aparecem hoje, e o seu desenvolvimento revelam movimentos abaixo do plano consciente que se assemelham, em aspectos fundamentais, aos movimentos imortalizados nos ensinamentos do passado. Falam-nos de um caminho de renovação que é novo em nossos dias mas antigo de fato, de um caminho de redenção através da coisas mais simples que é o ensinamento fundamental das regiões lunares e da adoração do princípio feminino."


M. Esther Harding in Women's Mysteries, Ancient and Modern

sábado, outubro 28, 2017

A CEGUEIRA DOS HOMENS E DAS MULHERES...



PORQUE BRANQUEIAM OS HOMENS O PASSADO?
E falam de uma suposta "igualdade" - mulheres sem entranhas, sem ventre nem seios...robots?


Estava a pensar em como é que os homens em geral, seja na politica seja na literatura ou arte e mesmo os ditos guias espirituais reagem à questão do assédio e da violência generalizada sobre a mulher, nomeadamente o FEMINICIDIO, sempre em negação, pela forma como escondem e branqueiam esta questão, não admitindo sequer um passado histórico em que a mulher foi efectivamente sonegada, sequestrada, escrava - e ainda o é hoje de Mafias -  e falam disso sempre com displicência e arrogância ou às vezes animosidade (não se querem lembrar?) quando olham as mulheres ao falar-se disso; eles querem que as mulheres hoje sejam suas iguais...e partir do memso plano sem se aperceberem de como as mulheres estão divididas e o mesmo acontece com as mulheres supostamente intelectuais e as feministas, quando se abordam estas questões entre si que consideram de foro "arcaico" e do passado, querendo sempre fazer parecer que está tudo bem e que a mulher conseguiu a igualdade...e é que hoje livre!

Sim a mulher está aparentemente no exercício de certos poderes e altos cargos e na luta pelo poder social e politico e desafia todos os tabus e preconceitos seculares  que estão vinculados  à religião e ao Sistema Patriarcal, e que sobre ela  ainda pairam, mas o seu  drama porém é que ela não viu a armadilha em que caiu e que afinal a conquista dessa igualdade...é uma falsa liberdade baseada na sua afirmação pelos valores dos homens, sendo como eles e nem elas nem os homens querem ver que isso nada tem a ver com a verdadeira feminilidade, e mesmo que sigam a moda e a estética e a cosmética, tudo isso é uma máscara que nada tem ver com a Mulher real, porque essa eles elas a rejeitam, tal como o útero, os ovário ou os seios e o tabu do sangue...Isso é tudo limpo...tudo apagado pelos múltiplos produtos de "limpeza" química...e só são referidos pelo cancro do útero dos  seios e dos ovários...sem saberem que precisamente porque os negam e se traem nessa essência as mulheres sofrem essa degeneração dos seus órgãos vitais.

As feministas lutaram por essa igualdade (e eu também), pela liberdade e direitos iguais aos homens...mas o que aconteceu é que o que conseguiram fazer foi transformar a mulher num travesti do homem e não se encontraram nunca como Mulheres...
A essência do feminino e a sua dimensão ontológica foi negada e apagada das suas vidas ocupadas e as mulheres são hoje mais masculinas e agressivas que os próprios homens e sujeitam-se assim a uma luta de forças quase bestiais que leva social e psicologicamente a uma crescente violência e abuso sobre si e sobre as outras mulheres - elas caíram na armadilha do patriarcado, na ilusão de liberdade, e não conseguem ver que estão cada vez mais longe da verdadeira mulher, da sua dignidade, lutando pelo Sistema e as suas ideias contra si mesmas...

rlp

foto - Luis Tobias

E A DEUSA DISSE



"Suprimindo a noção de Mãe-Divina, ou submetendo à autoridade de um deus-pai, desarticulou-se o mecanismo instintivo que fazia o equilíbrio inicial: daí advém todas as neuroses e outros dramas que  sacodem estas sociedades paternalistas."*


A Mãe Repressora e os Mitos Humanos

“Havíamos aplaudido com o entusiasmo possível, as várias invenções das mulheres: o vestuário, e a cozinha, e os começos da agricultura, e tudo o mais que se formulara por nossos olhos sem encontro com palavras disponíveis. No entanto, sentíamos que esse entusiasmo que nos fora possível, era pouco.
Sim, sentíamos a importância das nossas descobertas: demonstramo-nos como foram as mulheres as iniciadoras e aperfeiçoadoras de todas as passagens de um zero de vital sobrevivência até á construção de uma raça de gestos calculados e largo excedentes; e como o génio perverso dos homens só veio instalar-se sobre essas básicas condições, que lhes permitirão lutas e guerras e outros ambiciosos desperdícios.
Mas havíamos sonhado com a glória dos reinados matriciais – sem nos confessarmos.
Glórias de outra espécie: não os altos brados de dor e violência, não os sons metálicos das armas.
Sonháramos com uma lua vigilante e um sol amigável. Com chuva. Com aldeias que se solidificam: as peles e os paus e os panos das tendas dariam lugar a casas de adobe, de tijolos cozidos ao calor do sol. Chegaríamos mesmo á movimentação de enormes pedras, por processos hoje apenas congeminados, e às tentativas de imortalidade: templos e túmulos.
Aldeias abertas, cidades sem muralhas. Abertas ao mar, aos campos e pastagens em redor…
No centro das aldeias os vastos terreiros; onde os homens estilizavam o uso de sua força física em jogos e desportos…
E as mulheres penteavam e entrançavam seus cabelos, símbolos de força e de engenhos de magia. Gestos, símbolos, jogos técnicas passadas de mão em mão; e flores encarnadas nos canteiros das escadarias dos templos.
- Como poderíamos nós desenterrar tudo isso, sem escrita, sem palavras, sem escavações arqueológicas, apenas com nossa imaginação de amadoras? – dissemos.
Mas sabíamos que outras razões existiam.

A mulher com as palmas das mãos viradas para cima saiu do painel e sentou-se entre nós: sentada sobre os calcanhares, as mãos nos joelhos, com as palmas viradas para cima; expectante também ela. E contou-nos várias outras histórias e fontes de preocupações.

Dizia-se então que a grande Deusa tinha criado os seres humanos.

No seu ventre imenso e fértil ela faz os corpos. E depois neles começos a insuflar a sua magia: vida. Abria uma boca nos corpos, a vulva, e por essa boca os enchia com os poderes mágicos de criação. Metade dos seres humanos estava pronta – as mulheres – quando chegou a hora da deusa: esta tinha que se retirar, descansar, senão esgotaria seus próprios poderes.
Então, apressadamente, nem tendo tempo para abrir nos restantes corpos a boca criadora, a deusa neles pendurou as magias que lhe restavam.
E a deusa disse:
- Ficam bem pobrezinhos, estes seres com suas fontes de vida, seus sexos, assim pendurados entre as pernas. Mas nada mais posso fazer por eles. Chamar-lhes-ei “homens”, e espero que consigam absorver em seus corpos um pouco dos poderes mágicos que tristemente lhes balançam no baixo-ventre, quase caindo.
Apareceram também os vários mitos relativos às diferentes descobertas agrícolas: sempre relacionados com incestos, entre mães e filhas, irmãs e irmãs, irmãs e irmãos, mães e filhos. Porque o incesto é o símbolo do núcleo central e criador das mulheres. E a nostalgia incestuosa representa a memória das alegrias de ser produzido: um outro ser connosco gastou seu tempo, anos de vida, em nós incorporando valor que nos garante futura aceitação e utilidade. “

In “A Morte da Mãe” de Maria Isabel Barreno
citação *In LA FEMME CELTE - de Jean Markale

quinta-feira, outubro 26, 2017

TUDO TERÁ DE SER NOVO...

A IDENTIDADE PERDIDA DA MULHER

“A revolta da mulher é a que leva à convulsão em todos os estratos sociais; nada fica de pé, nem relações de classe, nem de grupo, nem individuais, toda a repressão terá de ser desenraizada
(...)
Tudo terá de ser novo. E o problema da mulher no meio disto, não é o de perder ou ganhar, mas é o da sua identidade.”*


Em 1972, ainda sob o regime fascista da ditadura** de Salazar que morre em 1970,  dois anos antes  do lançamento  deste livro, Novas Cartas Portuguesas, escrito por estas 3 escritoras portuguesas (na foto), Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta,  em 1972, assumidamente feministas,  e que por seu teor mais ou menos livre mais ou menos erótico e ousado para época a que as mulheres davam voz e cuja narrativa fugia ao velho padrão católico, o da mulher esposa virtuosa e do dona de casa, foi logo censurado e levou as ditas escritoras a tribunal, tendo por isso levantado uma onde de solidariedade internacional e a muit@s escritores estrangeiros intervierem na defesa da liberdade da mulher.
Portugal  na altura era um pais completamente  mergulhado na miséria e no analfabetismo e as pessoas eram totalmente retrógradas,  ignorantes e só pequenas elites e alguns intelectuais e artistas, socialistas e os comunistas em termos de ideologia, saiam deste padrão,  ainda que os comunistas nunca tenham evoluído muito no que diz respeito a liberdade das mulheres. Constatei isso em França em 1973 precisamente por ter fugido à PIDE indo para Paris tal como muita gente jovem fazia, os homens para fugir a guerra (caso do meu irmão) de Angola e Moçambique assim outr@s (o meu caso) por contestar a ditadura.  

Passados 45 anos após esta frase escrita por estas mulheres vanguardistas, uma delas ainda viva, e depois de sucessivas lutas feministas pela igualdade e pela liberdade das mulheres, com avanços e recuos e muitas divisões, chegamos de algum modo a um ponto em que poderíamos afirmar que colectivamente e finalmente as mulheres eram livres e senhoras de si, EMANCIPADAS,  e que não só comandavam as suas vidas, as suas escolhas, como tinham o respeito dos homens...eram livres para dizer NÃO ou se divorciarem...

Mas não..., eis o discurso do marido ofendido na "sua honra"...e que leva ao FEMINICIDIO
  1. "...és a maior puta do mundo; pensei que tinha casado com uma mulher séria e casei com uma puta da serra; a mim nunca me deixaste ir ao cú e os outros vão todos; (...); vou-te tirar a casa e no fim mato-te; tenho uma lista de pessoas aquém vou limpar o sebo) em primeiro lugar a ti e és uma mulher morta ".
  2. (palavras proferidas pelo marido da vitima que o douto Juiz condenou)

E..., justamente no ano em que já temos juízas em barda, deputadas e ministras e as faculdades tem mais mulheres a formarem-se do que homens...quem diria que em pleno sec. XXI,  em 2017,  UM JUIZ EMBARGADO viesse a condenar uma mulher - aliás várias mulheres por ele condenadas - por adultério baseando-se na Bíblia como referência de acusação, de uma mulher que foi vitima da mais brutal violência doméstica, física  e psicológica,  da parte do  marido e amante, que se uniram para a  castigar -  absolvendo os agressores,  por considerar que a  mulher adultera "uma ofensa a honra do homem" à luz da Constituição de 1887? e assim vemos como  a repressão fascista e católica não foi nem de longe nem de perto  desenraizada do povo nem dos Juizes...

Ora fui buscar esta citação das ditas escritoras por uma simples razão, para salientar que apesar das lutas e "conseguimentos" (até já tivemos uma Presidente da Assembleia da Republica - Assunção Esteves),  das mulheres em termos de trabalho-profissões e doutoramentos, estamos agora diante de uma enorme ameaça que é este tremendo retrocesso cultural recente no mundo e em todos os países, nomeadamente na Europa, com a ameaça do migrantes muçulmanos e a sua anti-cultura e fundamentalismo contra as mulheres e que se reflecte agora na "justiça" do homem português...um mour@? na forma arcaica e bíblica e que é comum nos meios  de comunicação social em que a mulher é denigrida e constantemente bode expiatório de todas as desgraças...A mulher é semrpe a primeira a cair em qualquer situação de crise como foi a dos Fogos em Portugal - todos os políticos homens e não só uma boa católica o fez...pediram a cabeça de uma Ministra. 
O agora o que este Juiz embargador fez e ditou a lei do alto da sua cátedra...foi o que a grande maioria dos homens pensa, políticos inclusive e NÃO DIZEM...porque a maioria dos homens saõ coniventes com essa mentalidade que é no fundo a sua. Porque NADA MUDOU nas mentalidades dos homens...

Estamos em 2017, como dizia e passaram 45 anos depois deste anunciado - Tudo terá de ser novo. E o problema da mulher no meio disto, não é o de perder ou ganhar, mas é o da sua identidade.”* - é que nada foi feito de novo e principalmente essa IDENTIDADE não foi resgatada desde logo nem as mulheres essas mesmas mulheres que lutaram e venceram...NÃO TEM QUALQUER CONSCIÊNCIA DA SUA IDENTIDADE, perderam-se como  Entes e mulheres mulheres. A Mulher nõa sabe quem é...

E é este o ponto a que queria chegar...

Conquistou-se a "igualdade e a liberdade", mas que liberdade e igualdade? Na verdade a Mulher assumiu a identidade do Homem e travestida de homem,  assumiu funções e cargos ...sendo oficialmente um homem de saias, com comportando e discurso masculinos, um ego masculino,  defendendo as mesmas ideias do Homem, e os seus ideólogos de género, abstraindo-se  completamente da sua natureza ontológica, da sua dimensão espiritual, que lhe dá identidade. 

A verdadeira mulher não existe e a suposta Nova Mulher pós 25 de Abril, não se libertou do estigma do passado, do universo arcaico e patriarcal, continuando a ser a adultera e a puta... a pecadora e a tentadora do pobre homem que até lhe concedeu a igualdade e a liberdade de ser como ele...igual a ele!!!
Não, a mulher, Essa  Mulher não é igual ao homem e não só não existe como está em risco de total desaparecimento sob a ameaça das ideologias de género que mais não visam do que a destruição do que resta da mulher como essência - coração, útero ovários, sangue  e seios - e estamos de novo todas nós diante de uma Nova Idade Media, a das trevas, que pretende anular de vez a mulher  como ente singular, afirmando-se que nem a mulher nem o homem existem, negando a existência dos princípios feminino masculino, e  considerando que são meras construções culturais... na eleição de um mundo alienado e desregrado dando como  natural os transsexuais, os transgéneros...etc.
A Verdade é que tudo isto e todo este caos humano tem todo a ver ca a falta de identidade da mulher e na sua  divisão  em duas espécies - a santa e a puta. Se não houvesse esta divisão não se poderia considerar a mulher uma puta...uma devassa ou uma adultera! Por isso é urgente que as mulheres se consciencializem de que travam neste momentos a maior batalha de sempre para recuperar a sua verdadeira identidade e serem  Inteiras. Só assim TUDO SERÁ NOVO... 

rlp


EM BUSCA DA VERDADEIRA IDENTIDADE FEMININA

"A mulher busca a sua identidade (...) mas o referencial interno, que é a sua própria terra psíquica, é negado. Ao fazer a substituição do seu ego feminino pelo ego masculino, fica desorientada e esquece que possui como potencialidades dentro de si mesma um princípio masculino que a pode ajudar"

"Na ansiedade de ser aceite socialmente, ela recusou a vivência dos princípios femininos, vistos como qualidades secundárias e inferiores, embora necessárias. "

"Pelo não reconhecimento da sua feminilidade (essencial) a mulher se afirma, como indivíduo, muito timidamente diante do homem. Ela procura vestir a máscara da objectividade masculina para ser aceite no seu mundo. E ele se impõe prepotentemente diante dela , exibindo a sua luz solar"***

*** O Casamento do Sol e da Lua - Raissa Calvacanti


** A ditadura salazarenta durou 40 anos e terminou no dia 25 de Abril de 1974

*Do livro Novas Cartas Portuguesas, Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta, 1972