segunda-feira, novembro 06, 2017

A LEI ABSOLVE MAS O HOMEM CONDENA...



A Mulher consciente de si não luta por espaços públicos nem de liderança   politica económica ou social. A mulher consciente de si sabe que nesses lugares de destaque e de "decisão" dentro do Sistema a mulher não vai fazer nada por ela mesma ou pelas outras mulheres. Ela sabe que essa é a armadilha em que as mulheres modernas cairam - em que as feministas caíram ao pensar que "a igualdade e os direitos iguais" as iria levar a algum lado, mas só as levou ao seu avesso...e enquanto lutarem apenas por igualdade NUNCA SERÃO ELAS MESMAS, mas cada vez mais como os homens, sim, iguais aos homens no poder na força na violência na abjecção, na promiscuidade sexual etc!

Enquanto as mulheres não perceberem que o seu drama é a sua perda de Identidade, e que estão divididas dentro de si e umas contra as outras - aceitando a dicotomia da santa e da puta - elas farão o papel dos homens e o que os homens querem que elas façam e não serão nunca mulheres integrais nem conscientes de si...elas serão apenas uma parte da máquina que as esmaga e anula.

Temos este caso muito recente e flagrante de como uma juíza se juntou à voz persecutória e medieval do Juiz Moura (fundamentalista decerto) no seu parecer final ao condenar uma mulher, vitima de violência doméstica e gravemente ferida, de adúltera alegando, que por ter traído o marido  e desonrado o homem não só a condenou,  absolvendo  o marido e o amante que juntos a espancaram barbaramente...
rlp

É ESTA A ARMADILHA DA IGUALDADE...

"Qual tem sido a maior queixa das mulheres para defender seus direitos? Igualdade. Ou seja, o acesso livre aos cargos e funções que os homens ocupam no sistema. Seja parte do sistema corrupto e desastroso, em maior medida, criado pelo próprio sexo masculino.

Um mundo selvagem, violento, injusto, perverso como uma máquina fria e metódica que destrói tudo no caminho, nas asas de ideologias políticas absurdas, crenças religiosas ou ganhos económicos. Longe de tentar transformar este mundo vil às suas raízes, para destruir as estruturas psíquicas que causam sérios danos ao próprio sexo feminino desde tempos imemoriais, a grande reivindicação da mulher tem sido tornar-se uma grande peça desse mecanismo, tal como o homem o é.
Apenas isso.
Ser uma parte da máquina, simplesmente.
Isso é o que realmente representa a chamada "igualdade de género ".

E, chegando aqui, devemos nos perguntar por que o sexo feminino se contenta com tão pouco?
Por que não tem focado os seus esforços em derrubar as estruturas injustas do sistema, criando novos conceitos, radicalmente diferentes, muito mais desenvolvido e profundo?
Em suma, porquê que a mulher não se tem esforçado para criar e liderar um mundo radicalmente novo e melhor?
Criar e liderar um novo mundo. Isso representaria uma nova esperança para a raça humana, tão cega e perdida nestes dias.

Sem dúvida, alguns irão argumentar que para mudar o mundo as mulheres devem incorporar antes os cargos da sua gerência. Mas isso é uma falácia completa. Porque é justamente aí que está a armadilha. Como vimos, o poder transformador só vem dos grupos oprimidos que lutam para mudar as coisas e sonhar com novas realidades, ser utópica.
A necessidade de construir um futuro.
No entanto, a promessa de igualdade não abriga ao sonho de novas realidades.
Na verdade serve para matar esse sonho realmente profundo e reforçar as realidades existentes como únicas opções possíveis.
E a igualdade de género, uma vez alcançada, efectivamente eliminou a necessidade de essa transformação porque, presumivelmente, termina com a opressão que gerou essa necessidade.

Esse foi o grande sistema de armadilha para abortar a grande revolução das mulheres que poderia ter mudado a humanidade para sempre.

E com isso perdemos provavelmente a última chance de faze-lo.
Porque todos nós sabemos que uma mulher pensa e sente diferente do homem.
Experimentando coisas que um homem não pode jamais compreender.
Existe entre ambos os sexos uma enriquecedora e profunda diferença, tanto a nível biológico como a nível psicológico.

Um património natural inestimável.
No entanto, parece que o sexo feminino renunciou a estas valiosas diferenças, à sua forma particular de sentir e compreender o mundo e tornou-se também um homem, juntando-se, da mesmíssima forma que ele, à máquina do sistema.

in  GAZZETTA DEL APOCALIPSIS

Enquanto as mulheres se dividem entre si...



"OU EU ME VOLTO PARA DENTRO OU EU MORRO"...

"Daqui em diante se a gente não souber lidar com o impossível, o nosso cérebro não vai saber lidar com a realidade. Mas apesar de tudo isso é uma mensagem de esperança, uma mensagem de que a vida nasce do impossível..." Rose Marie Muraro


“Quando a cultura matricêntrica dá lugar ao patriarcado, rompem-se os laços de afeição que uniam mulheres às outras mulheres.
Agora, é a mulher que quando se casa vai para a casa do marido. A partir da dominação econômica exercida sobre ela pelo marido e sua família, a mulher introjeta a sua inferioridade.
E esta introjeção se traduz em dependência psicológica em relação ao homem em tendências masoquistas (sentir prazer em humilhações e sofrimentos) frigidez e carência sexual.
Enquanto as mulheres se dividem entre si, os homens continuam capazes de fazes alianças e muitas vezes de viver em grupos solidários,o que reforça então a sua superioridade construída sobre a divisão das mulheres.
Quando se torna adulto, o homem já não é capaz de amar a mulher. Ele cinde o desejo sexual do afeto e, com isto, cinde também a imagem da mulher. De um lado a esposa, a santa, a sucessora da mãe, que pertence ao domínio do afeto. De outro a prostituta (a libertária, a punk, a alternativa) aquela que pertence ao domínio do prazer.
Assim, o homem se divide para não se entregar, pois desde a infância aprendeu que entregar-se ao amor é ser castrado, e portanto, morrer, ser vencido.
Cada um, pois, homem e mulher, assume o seu lugar no sistema patriarcal a partir do mais intimo de si mesmo, sem saber que são ambos fabricados para serem o combustível do sistema, vivendo papéis que este lhes destinou.”

Rose Marie Muraro



UMA NOTA PARA LER E REFLECTIR...

Se lermos este trecho da escritora brasileira vemos que ela aponta de forma muito clara para a divisão da mulher MAS partindo da visão do homem, do que ele sente...ela diz que o homem se divide face a mulher mas ela não vê que a divisão começa logo na mulher menina ao ter de servir uma imagem de si segundo o que lhe exigem, começa mesmo com a divisão da imagem da mãe em boa ou má, santa ou puta...e não vê que todas as mulheres são obrigadas ao longo d...a sua vida em optar por ser uma ou outra imagem...e a virarem-se contra a mulher que se lhes opõe - se é santa...odeia a puta...se é puta...odia a santa - e claro que isso se reflecte sobre o filho e o homem ...

RLP

domingo, novembro 05, 2017

A MULHER INTEIRA


A MULHER COMO DEUSA

“O símbolo da Deusa não é uma estrutura paralela ao de deus-pai. A deusa não rege o mundo; ela é o mundo. Manifesta cada um de nós, cada pessoa pode conhecê-la interiormente, na sua magnífica diversidade. Ela não preconiza o domínio de um sexo pelo outro e não outorga nenhuma autoridade aos chefes hierárquicos temporais. Na Witch craft, cada um deve revelar a sua verdade. A divindade é vivida sob o aspecto da nossa forma própria, feminina ou masculina, porque ela também tem u...m aspecto masculino. O sexo torna-se um sacramento, e a religião consiste em voltar a unir o ser ao cosmo…Como mulher, a deusa nos inicia a perceber a nossa divindade, a sentir que o nosso corpo é sagrado. Mas a deusa também é importante para o homem. Por ser menos evidente, a opressão dos próprios homens no sistema patriarcal, dominado por um deus paternalista, não é menos trágica do que a da mulher…O homem é interiormente dividido, por um lado em ser espiritual obrigado a dominar a sua emoção, e por outro a domar os seus instintos animais. No Ocidente, ele tem de lutar contra si mesmo para vencer o pecado e, no Oriente, para matar o desejo e extinguir o ego…” Graças ao símbolo da deusa, os homens podem experimentar e integrar a sua própria feminilidade, que, em geral é o aspecto mais profundo e sensível do seu ser. A deusa não exclui o macho: ela o contém, assim como a mulher grávida contem o bebé macho.”*


ASSIM, UMA MULHER É UMA MULHER É UMA MULHER É UMA MULHER...

"Era uma vez uma mulher. Essa mulher era amada. Por ser amada, era reconhecida como inteira em si mesma. Por ser reconhecida, era livre para existir. Essa mulher vivia com os pés na terra e a cabeça nas nuvens, possuía todos os atributos de uma deusa. Era humana e ao mesmo tempo divina e havia algo de selvagem em seus olhos que nenhuma civilização ou religião poderiam domar. Por isso mesmo, essa mulher foi temida e, por ser... temida, foi reprimida e banida do convívio dos demais. Ela foi queimada nas fogueiras da ignorância, amordaçada nas malhas da censura, presa nas correntes da indiferença. Após tantos séculos de repressão, aqueles que a haviam desprezado acreditavam que sua luz havia finalmente se extinguido; que sua natureza selvagem e aterradora havia desaparecido por completo. Porém, essa mulher faz parte da própria natureza, ela é a própria natureza e não pode ser aniquilada. De sua completude temos apenas resquícios mas ela sobrevive nas histórias e nos contos de fada e no fundo da alma de todos, homens e mulheres que sentem um profundo sentimento de vazio e solidão em suas vidas."**


**Clarissa Pinkola Estes
*Star Hawk
IN Tantra – O Culto da Femininlidade - Outra visão da vida e do sexo
André Van Lysebeth

A FALSA EMANCIPAÇÃO DAS MULHERES...


UNIR AS DUAS MULHERES EM CADA MULHER...

A divisão secular de  Maria, a virgem e casta mulher e a Maria Madalena, a amante pecadora, que o patriarcado dividiu dentro de cada mulher, separando a natureza instintiva e sexual da mulher da sua função maternal; desse modo  colocou a mulher ao serviço da espécie ,   que a mulher fosse a mulher objecto, portanto em dois lados da vida, sempre ao serviço do homem como reprodutora ou ao serviço do praze , tendo a puta e a culpada de um lado e  do outro a esposa, santificada, a mulher frigida e sem desejo, fiel ao senhor e dono.

A polarização extrema destas duas mulheres, na psique de cada mulher, gerou a fragmentação do seu ser como individuo e tornou a mulher que vive essa dicotomia permanente, vítima dos maiores distúrbios, quer a nível psíquico, quer a nível físico e fisiológico...
Mas mais grave ainda é a forma com essa divisão da mulher atingiu proporções de calamidade social e humana  ao vermos como hoje ainda a mulher é prostituída, continuadamente explorada e violentada pelos homens como mero objecto sexual,  fomentado por Mafias que fazem tráfico de meninas e mulheres  em todo o mundo. 

A mulher viveu assim seculos dentro dessa dicotomia e foi sempre julgada de acordo com a sua "escolha" de vida ou circunstância. Sempre privada da sua liberdade individual, como ente, ou julgada como prostituta caso não casasse ou não obedecesse portanto a um marido ou ao pai. Toda a violência doméstica, abusos e violações e o feminicídio são provenientes desta linha de pensamento judaico-cristão que impera no mundo católico e patriarcal e em que a mulher é pertença do homem e deve obediência ao homem e marido...ou então é excluída e condenada a ser "a puta"...
Nas ultimas décadas e através dos Movimentos feministas as mulheres modernas tentaram mudar o rumo dos acontecimentos e alterar assim  o panorama das suas vidas  para poderem ter alguma liberdade, apelaram a direitos e igualdades, porém,  nunca se preocuparam com "a mais velha profissão do mundo" como se isso não fosse parte de si,  aceitando tacitamente essa divisão do seu Ser Mulher como uma coisa inevitável e eis que nos nossos dias AGORA, depois de tantas supostas conquistas e liberdades...toda essa realidade cai em cima delas.... afinal a emancipação da mulher não só foi uma batalha perdida como arrisca a perder tudo do pouco que se consolidou nestas décadas...Podemos constatar isso na forma como as mulheres estão a ser de novo perseguidas e caluniadas, julgadas como adulteras por tribunais e juízes fundamentalistas... assediadas no trabalho e na rua, abusadas e violadas por migrantes nos países de acolhimento, em risco de vida permanente nas grandes cidades e a terem de voltar a vestirem-se moderadamente ou mesmo a usar Burkas, quem sabe, daqui a uns dez anos...
Hoje não há só essas Máfias organizadas, que as exploram mesmo na nossa cara, mas o toda a industria do cinema, agora denunciados os tubarões da cena que abusavam e assediavam ou violavam  usando o seu poder as atrizes assim com actores assediavam jovens etc. como também vemos a ”arte” e a própria publicidade que usam a imagem da mulher de forma abusiva e degradante e ninguém faz nada...
Caem os "Grandes Monstros"  de Hollywood que submetiam as mulheres  jovens e inexperientes ao abuso e vexame e até violação e a mulher que se julgava emancipada e livre é hoje na Europa  julgada com na Idade Media por juízes e juízas à luz do evangelho como adultera e ameaçada de atentado à honra do homem,  tal como no Egipto um qualquer  Ministro disse na televisão há dias que as raparigas que se vestissem a mostrar o corpo devia ser um imperativo nacional violá-las...

Enquanto isso os homens mais "dignos" e inteligentes que se dizem até feministas e estarem do lado da mulher e que são pela igualdade, no fundo continuam indiferentes à verdadeira mulher que desconhecem e  continuam a passar por cima dos interesses da mulher real, debatendo todos os problemas do mundo, menos a problemática das causas remotas que originaram essa divisão da Mulher em si, cuja culpa é do Homem e do Sistema falocrático que ela fabricou e defende.
Percebemos ver desse modo, que nem intelectuais, nem filósofos, ou artistas e espiritualistas, não havendo sequer um único político que se ocupe a sério do assunto, com excepção apenas de alguns escritores, que estejam verdadeiramente interessado nas questões profundas da mulher  e menos ainda da sua divisão que não entendem...embora vivam na pele o seu drama - sobretudo os que se sentem e são "filhos da puta"...

Quando a maior parte das mulheres compreender e acordar para esta realidade que é a das mulheres no mundo, em vez de continuarem a fingir que são livres e fazem o que querem... e virem que o que lhes falta afinal não é só ter sexo nem dinheiro, e que tem vida para além  do macho ou do falo, do filho e do lar ou do trabalho, sim quando  elas virem que o que lhes falta é  essencialmente essa outra parte de si mesmas (essa outra que lhe escapa) que ela  olha  e julga  como uma outra mulher a "inimiga", a rival, e perceber enfim que há só uma Mulher, e que TODAS AS MULHERES SÃO ELA MESMA, ela ficará abismada pela forma como foi dividida, desde Eva e Lilith, desde a Virgem Maria a imaculada (a esposa e mãe casta e sem pecado e a Maria Madalena, a mante a pecadora arrependida) ...Tudo isto para que as sociedades e religiões patriarcais reinassem pelo seu sacrifício e anulação continuado a culpá-las do mal do homem em todo o mundo.

Antigamente a mulher procurava manter a aparência de mulher "honesta e séria"...hoje a mulher que se julga livre, veste-se provocantemente e sem se aperceber  PORQUÊ (induzida pela moda e pela psicose sexual dos homens) veste as roupas da "prostituta", do modelo ou da mulher fatal do cinema, tal como fazem os travestis...expondo-se assim à agressão dos homens e  isso NÃO É LIBERDADE...é cegueira das mulheres perante o predador e o macho primário...
Não, nós não queremos defender nem uma nem a "outra", nem a santa nem a puta, cada uma para o seu  lado; não queremos defender nem  a profana, a promiscua nem a virgem imaculada, mas sim a   Mulher TOTAL, INTEGRADA uma Mulher Plena...uma só mulher. Queremos ser a Mulher Verdadeira e resgatar aquela que fomos na antiguidade...aquela que perdeu a sua  identidade ao ter sido despojada da sua unidade essencial e isto  ao longo dos séculos de cristianismo. A mulher foi   completamente denigrida pela Religião do Pater e do Filho, por todo  o Sistema Patriarcal! É pois essa mulher inteira que temos de resgatar: A Mulher que não será mais nem puta nem  santa...mas sim a Mulher -MULHER .

P.S.
Sei que algumas pessoas se perguntam como é que eu posso conciliar um "saber espiritual"...e viver uma batalha neste mundo materialista em defesa da Mulher, sem ser feminista e sem ser comunista...
Digamos que como ser "espiritual" sei que a mulher não pode aceder a essa dimensão sem primeiro conhecer a sua Essência de MULHER INTEIRA. E visto a mulher ser apenas um ser fragmentado e dividido em duas espécies de mulheres, divisão essa que o Homem fomentou para melhor gerir o seu domínio, enquanto a mulher não tiver consciência de que vive cindida e é apenas uma sombra de si mesma ela não estará capaz de lutar para ser coisa nenhuma.
Só isto explica o falhanço retumbante da luta feminista e que apesar de todos os "progressos" a mulher continue a ser no mundo abusada e perseguida em todos os meios, violada e morta só porque é mulher...isto é: ela é dividida entre a mulher que é a posse do homem e a prostituta que se vende para sobreviver numa sociedade fundada nessa divisão da mulher, a esposa e a puta...logo que "a esposa" (contrato assinado) não lhe obedeça ela é a puta e morta sem apelo nem agravo...nem os tribunais e leis a salvam.
Mulheres custa assim tanto perceber onde está o cisma mais antigo da sociedade paternalista e misógina???

rosa leonor pedro


O AMOR...


"Efémero"
de W. B. Yeats

"Os teus olhos, outrora nunca cansados dos meus,
Ocultam-se tristes sob pálpebras cerradas
Porque o nosso amor declina."...



E ela disse:

"Embora o nosso amor esteja em declínio, fiquemos
Mais uma vez junto à solitária margem do lago
Unidos nessa hora de tranquilidade
Quando a cansada e infeliz criança, a Paixão, adormece.
Como parecem distantes as estrelas, e distante
O nosso primeiro beijo e tão velho o meu coração!"
Pensativos caminharam por entre as folhas murchas
Enquanto ele, tomando-lhe a mão, lentamente respondeu:


"A paixão muitas vezes cansou os nossos corações inconstantes."

Os bosques cercavam-nos e as folhas amarelas
Caíam como débeis meteoros na escuridão e um coelho
Velho e aleijado passou de repente a coxear pela vereda;
O Outono tombava sobre ele. E agora eles ali estavam
Uma vez mais na solitária margem do lago:
Voltando-se, viu que ela lançara folhas mortas,
Colhidas em silêncio e orvalhadas como os seus olhos,
Sobre o seio e os cabelos.
"Oh, não lamentes", disse ele,


"O nosso cansaço; outros amores nos aguardam;


Odeia e ama ao longo das serenas horas.
Aguarda-nos a eternidade; as nossas almas
São amor e um contínuo adeus."




Em "Os Pássaros Brancos e Outros Poemas"
(tradução de Maria de Lourdes Guimarães e Laureano Silveira)

quinta-feira, novembro 02, 2017

 
"A realidade protege mais do que os sonhos, do que as coisas imaginárias.
Agustina Bessa-Luís - In "Dicionário Imperfeito"

NÃO HÁ COMO BRANQUEAR ESTA REALIDADE

"O patriarcado é o sistema de dominação masculina ancorado num etos de Guerra que legitima a violência, santificada pelos símbolos religiosos, no qual os homens dominam as mulheres através do controlo da sexualidade feminina, com a intenção de legarem a propriedade aos herdeiros masculinos, e no qual os homens, heróis de guerra, são instruídos para matar homens, autorizados a violar mulheres, a apoderarem-se da terra e das suas riquezas, a explorarem recursos e a apropriarem-se ou dominarem por qualquer meio os povos conquistados".*


O SISTEMA É O SISTEMA É O SITEMA - NÃO MUDA...

"A sociedade patriarcal valoriza e promove apenas os aspectos masculinos, subestimando e até mesmo reprimindo os aspectos femininos. O resultado é que a mulher se esvazia, perde sua identidade feminina essencial e se torna uma “cópia” caricatural do homem; o homem, por sua vez reduzido à masculinidade bruta e unilateral, perde a ligação com os valores femininos do seu mundo interior e passa a ter uma relação opressiva para com a mulher. Como restaurar a feminilidade, despontenciando a unilateralidade do mundo patriarcal, a fim de reequilibrar a identidade psicológica dos sexos e planificar a relação entre o homem e a mulher."**


A ARMADILHA DA IGUALDADE


"Qual tem sido a maior queixa das mulheres para defender seus direitos? Igualdade. Ou seja, o acesso livre aos cargos e funções que os homens ocupam no sistema. Seja parte do sistema corrupto e desastroso, em maior medida, criado pelo próprio sexo masculino.
Um mundo selvagem, violento, injusto, perverso como uma máquina fria e metódica que destrói tudo no caminho, nas asas de ideologias políticas absurdas, crenças religiosas ou ganhos económicos. Longe de tentar transformar este mundo vil às suas raízes, para destruir as estruturas psíquicas que causam sérios danos ao próprio sexo feminino desde tempos imemoriais, a grande reivindicação da mulher tem sido tornar-se uma grande peça desse mecanismo, tal como o homem o é.
Apenas isso.
Ser uma parte da máquina, simplesmente.
Isso é o que realmente representa a chamada "igualdade de género ".
E, chegando aqui, devemos nos perguntar por que o sexo feminino se contenta com tão pouco?
Por que não tem focado os seus esforços em derrubar as estruturas injustas do sistema, criando novos conceitos, radicalmente diferentes, muito mais desenvolvido e profundo?
Em suma, porquê que a mulher não se tem esforçado para criar e liderar um mundo radicalmente novo e melhor?
Criar e liderar um novo mundo. Isso representaria uma nova esperança para a raça humana, tão cega e perdida nestes dias.
Sem dúvida, alguns irão argumentar que para mudar o mundo as mulheres devem incorporar antes os cargos da sua gerência. Mas isso é uma falácia completa. Porque é justamente aí que está a armadilha. Como vimos, o poder transformador só vem dos grupos oprimidos que lutam para mudar as coisas e sonhar com novas realidades, ser utópica.
A necessidade de construir um futuro.
No entanto, a promessa de igualdade não abriga ao sonho de novas realidades.
Na verdade serve para matar esse sonho realmente profundo e reforçar as realidades existentes como únicas opções possíveis.
E a igualdade de género, uma vez alcançada, efectivamente eliminou a necessidade de essa transformação porque, presumivelmente, termina com a opressão que gerou essa necessidade.
Esse foi o grande sistema de armadilha para abortar a grande revolução das mulheres que poderia ter mudado a humanidade para sempre.
E com isso perdemos provavelmente a última chance de faze-lo.
Porque todos nós sabemos que uma mulher pensa e sente diferente do homem.
Experimentando coisas que um homem não pode jamais compreender.
Existe entre ambos os sexos uma enriquecedora e profunda diferença, tanto a nível biológico como a nível psicológico.
Um património natural inestimável.
No entanto, parece que o sexo feminino renunciou a estas valiosas diferenças, à sua forma particular de sentir e compreender o mundo e tornou-se também um homem, juntando-se, da mesmíssima forma que ele, à máquina do sistema.
 (...)
Parece que a grande luta do sexo feminino, seu objetivo principal está limitado a alcançar os mesmos cargos de poder que um homem e ter a oportunidade livre para usar calças, fumar, beber, usar drogas e fazer sexo, tal como o sexo masculino.
Uma grande conquista na escala cósmica, sem dúvida.
Elevação espiritual e intelectual em sua forma mais pura.
Um marco que deve ser objecto de admiração profunda para todo o sempre....
Porque, na verdade, onde estão as mulheres que mudam o mundo?
Quem são elas?
Foi a Lady Gaga, Madonna, Miley Cyrus ou a atriz da moda?
É mandatárias corruptas?
Talvez as jornalistas e tertulianas que obedecem a seus mestres, assim como qualquer jornalista do sexo masculino?
Ou talvez os milhões e milhões de mulheres escravas do consumismo, da moda e da televisão, exactamente como os homens?
E eis que a mulher se tornou incapaz de escapar do programa do sistema e de criar e liderar uma nova realidade escala humana.
Um exemplo claro disto é encontrado na religião.
É difícil encontrar uma instituição mais tradicionalmente masculina/ machista que a Igreja Católica.
Seu recorde de desprezo pelas mulheres listra níveis insalubre, chegando a considera-la, a qualquer momento, um ser impuro e pecaminoso.
Ainda hoje, as mulheres são tratadas quase como seres espiritualmente inferiores, não tendo acesso a quaisquer cargos com poder real na estrutura eclesiástica.
Mas qual é a reacção maioritária por parte do sexo feminino a uma instituição tão torcido e distorcido em seus preceitos?
Por acaso derrubamos as estruturas opressoras e definimos um novo conceito de espiritualidade que superasse todas as barreiras das diferentes religiões?
Não.
Parece que o grande objectivo das mulheres é reivindicar o direito ao sacerdócio, o direito de aderir a mesma estrutura obsoleta e ultrapassada que foi suprimida por dois milénios e que tem servido tão obedientemente."

(autoria desconhecida - quem identificar a autoria por favor dizer.)

* Carol P. Chris
**Erich Neuman - A GRANDE MÃE (um livro essencial)

AS MULHERES



"Não creio que as mulheres tenham problemas de solidão.
Estão preparadas para a solidão e, em geral, para toda a espécie de sofrimento; a natureza dotou-as com singulares poderes de resistência, o que os doutos alquimistas diziam ser humor frio e incapaz de maturidade intelectual.
Acho mesmo que a solidão é um estado natural da mulher; e por isso todos os movimentos ascéticos que envolviam retiro e culto da experiência espiritual, desde as vestais de Roma até às Damas do Amor ...Cortês, na Provença, partiam dum sentimento feminino muito acentuado.
Os homens não encaram bem esse protótipo de mulher espiritual, porque ele é o único que recria a independência feminina depois do primeiro Éden.
E diz-se primeiro Éden porque, segundo as Escrituras, houve, antes de Eva, uma mulher pura, inteligente e igual ao homem, de grande condição metafísica, porém cruel e sumamente poderosa. Chamava-se Lilith.
Em suma, o mito da mulher fatal, que o homem teme e, ao mesmo tempo, pretende conhecer como sua verdadeira metade.

O dilema é este: nós as mulheres, somos prosaicas, sobretudo quando somos naturais.
É próprio daqueles que são delicados e frágeis o serem terra-a-terra, porque isso lhes dá a impressão de estarem mais protegidos.
A realidade protege mais do que os sonhos, do que as coisas imaginárias."

Agustina Bessa-Luís
In "Dicionário Imperfeito"

"E continuamos a adiar...


"E continuamos a adiar, a esconder, a compensar, a ignorar.
(ignorância, tanta ignorância, tanta cegueira, tanta violência, tanto medo - tanto sofrimento. Tanta pequenez. Tão pouca humildade, tão pouco reconhecimento, tão pouca gentileza, tão pouca mansidão, tão pouca sensibilidade, tão pouca inteligência, tão pouco vagar - e tão amoroso, imenso e disponível o caminho mesmo à frente chamado a corda para a Vida).

Às vezes - tantas vezes! - compensamo-nos com as distrações (outra vez: make-up, sex, manipulação, abuso de poder, sacrifícios masoquistas, violência subtil ou gritante, tentativas de "ajuda" ao outro, jóias ou promessas * sonhos, fugas, distracções, ilusões) por andarmos a ter com connosco próprios uma relação abusiva enquanto achamos que os outros nos exploram, por exemplo,"
(...)
Uno Michael

A LEI DE APOLO


A MULHER, TODOS OS SANTOS A DESPREZAM

"Todos os santos a desprezam,
bem como todos os homens sóbrios,...
que se regem pela justa lei do Deus Apolo.


... Naveguei para procurá-la em regiões distantes,
onde era mais provável encontrar aquela
que queria conhecer mais que todas as coisas,
a irmã do miragem e do eco."


"A Deusa Branca", Robert Graves
...mas hacia vosotras mi pensamiento,
bellas, no cambia...


SAFO



O CAMINHO DA LUA
(...)
“A saudade pertencendo ao caminho da Lua, sua salvação é dada no mundo sublunar da transformação, do retorno cíclico da terra ao céu e do céu à terra, através da encarnação e reminiscências; tal ainda aquele regido e simbolizado pela serpente e pela espiral, (...)
Toda a estrutura da saudade pertencerá à metafísica lunar: como nesta, a sua ideia central é a do ritmo, na sucessão e união de contrários através do devir, por um dualismo solucionado numa integração final. (...)

A saudade, dentro de todo o seu contexto histórico, será marcadamente feminina, sua forma de ser e conhecer, fazendo-se preferentemente pelo sentimento, tal como essa religião e culto do passado galaico-português. Ela tece os fios do tempo na teia do devir, tal como a Grande –Deusa tecedeira, unindo passado e futuro. Assim já tecia a deusa lunar, como mediadora e senhora do tempo: com uma roca era representada a deusa encontrada em Tróia, assim como Isthar e a grande deusa hitita. E assim também as sucessoras da Grande-Deusa aqui neste mesmo território galaico-português, sobrevivendo através das lendas e tradições populares, as Mouras encantadas, também tecedeiras, como Circe ou Penélope, ou fiandeiras: defronte de seu tear ocultas no seu mundo subterrâneo, fazendo-se ouvir na noite de sua epifania, a noite se S.João; (...)
Alegre e triste, é a concepção da saudade, e também consoladora, tal como seria essa antiga religião da sua deusa. E à saudade pode-se considerar nos tempos de agora, como uma hierofonia lunar: de carácter místico, escatológico e soteriológico. Também como esta religião antiga, ela é fundamentada emocional e passional, e em si contendo esse triplo sentido e finalidade, tal como uma sobrevivência de sua antiga religião dos Mistérios. A saudade sendo no povo galaico-português, a maior sobrevivência actual e europeia, da antiga religião pré-ariana da Grande-Deusa. Daí a sua força de estrutura a singularizar toda uma dada cultura: Força que só lhe poderá advir dessa origem e natureza religiosa.

A saudade precederá também, na actual Galiza e Portugal, a chegada dos celtas, e será, com os vestígios megalíticos, a tradição matriacal e agrária, a demanda do Graal e o regresso ao Paraíso, uma herança do seu fundo pré-ariano.” (...)


Dalila L. Pereira da Costa, no seu livro “DA SERPENTE Á IMACULADA”