segunda-feira, março 12, 2018

escrevo da parte das mulheres feias...


Virgínia Despentes - escritora e realizadora francesa

Escrevo  da parte  das feias, para as feias, as velhas, as camionistas, as frígidas, as mal fodidas, as inrabavéis, as histéricas, as malucas, todas as excluídas do grande mercado à mulher certa. E começo por aqui para que as coisas fiquem claras: Não peço desculpa de nada, não venho reclamar. Eu não trocaria o meu lugar por nenhuma outra, porque ser Virgínia Despentes parece-me ser um tema mais interessante para  abordar  do que qualquer outro caso.

Acho fantástico que também haja mulheres que gostam de seduzir, que saibam seduzir, outras se casam, que  gostam de sexo e outras de bolos para o lanche das crianças que saem da escola. É bom que haja umas muito doces, outras desabrochando na sua feminilidade, que haja jovens, muito bonitas, outras simpáticos e radiantes. Francamente, estou muito feliz por todas as pessoas a quem as coisas são adequadas. Isso é dito sem qualquer ironia. Acontece que eu não faço parte destas. Claro que não escreveria o que escrevo se fosse bonita, linda e  mudar a atitude de todos os homens que encontro. É como a proletária da feminilidade que eu falo, que falei ontem e que vou começar de novo hoje. Quando estava no RMI, não sentia vergonha de ser excluída, apenas raiva. É o mesmo como mulher: Não sinto a menor vergonha de não ser uma super boa miúda. Por outro lado, estou verde de raiva que, como rapariga que não interessa aos homens, é sempre preciso dizer-me que eu nem devia estar aqui. Sempre existi. Mesmo que não fosse sobre nós nos romances de homens, que só imaginam mulheres com quem gostariam de dormir. Sempre existimos, nunca falámos. Mesmo hoje em  que as mulheres publicam muitas novelas, raramente se encontram personagens femininas com físicos ingratos ou medíocres, incapazes de amar os homens ou de se fazer amar / ao contrário, as heroínas contemporâneas gostam de homens, encontram-se facilmente, dormem com eles em dois capítulos, elas gozam em quatro linhas e amam todas o sexo. A figura da falhada da feminilidade é-me mais do que simpática, é-me essencial. Tal como a figura do falhado social, económica ou política. Prefiro aquelas que não conseguem, pelo certo e simples motivo de eu não conseguir muito bem. E que, de um modo geral, o humor e a criatividade estão mais do nosso lado. Quando não se tem o que é preciso para se peidar, somos muitas vezes mais criativos. Sou mais o King Kong do que a Kate Moss, como filha. Eu sou esse tipo de mulher que não se casa, com quem não se tem bebés, falo do meu lugar de mulher sempre demais tudo o que ela é, muito agressiva, muito barulhenta, muito gorda, muito brutal, muito despenteada,  muito viril, dizem-me. No entanto, são as minhas qualidades viris que fazem de mim algo mais do que um caso social entre os outros. Tudo o que amo da minha vida, tudo o que me salvou, o devo à minha masculinidade. Portanto, é aqui como mulher incapaz de chamar a atenção masculina, satisfazer o desejo masculino, e satisfazer-me com um lugar à sombra do que escrevo. É aqui que escrevo, como mulher não atraente, mas ambiciosa, atraída pelo dinheiro que ganho eu mesmo, atraída pelo poder, de fazer e recusar, atraída pela cidade em vez de por dentro, sempre Excitada com as experiências e incapaz de me satisfazer com a história que me vão contar. Estou-me a cagar para seduzir homens que não me fazem sonhar. Nunca me pareceu óbvio que as raparigas atraentes se esforçassem assim tanto. Sempre me senti feia, e sinto-me tão mais acomodada  tanto quanto melhor percebo como isso me salvou de uma vida de merda a lidar com tipos simpáticos que nunca me teriam levado mais longe do que a linha azul dos Vosges. Estou contente por mim, de modo mais desejante do que ser desejável.

- Virgínia despentes, king kong teoria


domingo, março 11, 2018

A noção de propriedade...



Os homens receavam o prazer das mulheres...

"A noção de propriedade, de "ter", começa nessa apropriação sexual: os homens "têm" mulheres, parte corpo que lhes falta para poderem "ter" filhos.
O que se passou nessa longa noite humana, que nós tentamos sondar, que as mulheres nos descreviam?
As máscaras caíram, e o luar entrou nas tendas, nas cabanas, nas casas. As mulheres viram as faces dos homens: podiam ser (eram) seus filhos.
A compaixão não era oposição: com-paixão. Mas os homens rejeitaram-na.
- Precisamos nos inscrever no real, não poderemos limitar-nos a inscrever-nos no corpo das mulheres.
De manha, os homens desviaram os olhos. Como poderiam eles encarar as mulheres que tão completamente os tinham amado?
O que aconteceu nessa longa noite?
- Porque tornaste necessária a dor, em vez do prazer? - perguntou a mulher.
Foi escolhida a configuração que deu origem á submissão matrimonial, á prostituição e ao sadismo.
Foi escolhida a configuração que valoriza a força física, fantasmática, esforçada, simbólica. Os homens trabalhavam as terras, os homens passaram a ter os instrumentos, os homens passaram a estar armados - contra as mulheres, uns contra os outros.
Foi escolhida, dessa longa noite de luta e de amor, de produção de uma nova espécie, a configuração que baseia o chamado casamento monogâmico: que não é um acasalamento entre uma mulher e um homem, mas uma relação entre dominador e dominada.
Os homens disseram: o prazer clitoridiano não serve para nada; nem as carícias nem os gestos sensuais.Tudo isso é excessivo, e ilegítimo. Descobriram a paternidade.
Os homens receavam o prazer das mulheres.
Como podiam aceitar a junção de um prazer "gratuito", com a relação de produção de crianças, seu esforço recém descoberto?
A mulher banhada em lágrimas velou o rosto.

In "A Morte da Mãe" de Maria Isabel Barreno

O UNICO PODER...



OS PODERES DO CORAÇÃO

"O conhecimento dos poderes do coração é indispensável à pratica da via do meio porque esta deve obter a preponderância da sua influência. Esta via é um jogo de balanço contínuo entre o egoísmo do eu e o altruismo do si. O Coração apenas pode realizar o prodígio de equilíbrio, pela sua posição de mediador, entre o temporal e o intemporal, entre o organismo mortal e o seu arquétipo imortal. A alternância do seu movimento (dilatação-contraçcão) é a imagem perfeita desse jogo da balança entre os dois poderes, de que o pessoal deve tornar-se consciente, para ser transcendido pelo impessoal".

"Porque o coração não combate; ele sugere, ele esforça-se para estabelecer a paz e a harmonia, enquanto que o fígado lhe opõe a sua vontade de domínio exclusivo" (...) O fígado estende assim o seu domínio aos dois polos do corpo humano: a actividade cerebral e a sexual"

"O coração nunca é o fomentador de desordem. Contrariamente ao egocentrismo do seu antagonista (o fígado), o coração age ao serviço do Coração espiritual, ele é em conjunto com ele, a Sede do Amor espiritual."

in L' ouverture du chemin de Isha S. de Lubcz




A ULTERIOR MEDITAÇÃO


"Mas o conhecimento que o êxtase nos concede, vem por duas formas: pela sua imediata experiência (e por vezes única), depois pela sua ulterior meditação, ou meditações; que são como tantas outras iluminações.
Pois que o êxtase é uma coisa viva. quando estamos em contacto com ele, é com a verdadeira vIda que estamos em contacto directo, é nela que entramos, como no centro ardente, seu coração secreto"


In A Força do Mundo - Dalila Pereira da Costa





sábado, março 10, 2018

A "derrota histórica do sexo feminino"


"O amor - ou melhor, o acto de amor de Psique, a entrega a Eros - é ao mesmo tempo um sacrifício e uma perda. Ela não renuncia, contudo, ao aspecto matricial do ódio aos homens, características da sua feminilidade... (...) " Erich Neumam

AS IRMÃS RIVAIS DE PSIQUE

"Mas como estão caracterizadas estas irmãs e que significado tem no curso da história de Psique?  (...) As duas irmãs presumivelmente casadas e felizes odeiam os seus maridos do fundo das suas almas, na medida em que se pode falar em alma em seres mencionados como as Furias, e estão prontas a abandoná-los definitivamente. Ambas estão mal casadas e são o símbolo da escravidão patriarcal.  (...) Ambas são exemplos típicos  daquilo que chamamos "escravidão do feminino ao patriarcado". O sintoma mais evidente dessa atitude matriarcal de repudio aos homens é a caracterização que fazem do marido invisível de Psique (Eros). (...)
As duas irmãs, com a sua hostilidade aos homens matriarcal, contrastam com a ctuação de doce entrega e de auto-anulação de Psique, que se entrega inteiramente à escravidão sexual do marido, que se rende inteiramente a Eros. Nesse Paraíso de prazer noturno, como é descrita a  vida de Psique com Eros com todo o colorido, as duas irmãs introduzem a primeira perturbação.
(...) O que acontece com Psique, que impulsionada pelas forças matriarcais de odio aos homens, se aproxima de Eros para o ver de noite..."

Portanto ao ver o amor de frente ou a face de Eros, a psicologia junguiana considera esse momento o mais importante  para a transformação da Psique porque vê nele um "despertar de Psique como Psique, o momento decisivo do destino na vida do feminino, em que pela primeira vez, - emerge do seu inconsciente de mulher - e da clausura da sua cadeia matriarcal, e, num encontro individual com o masculino - ela ama, isto é, reconhece Eros.
(...)
Assim ela  abandona o aspecto inconsciente infantil da sua realidade, renunciando simultaneamente ao aspecto matriarcal de ódio aos homens. " (...) " O amor - ou melhor, o acto de amor de Psique, a entrega a Eros - é ao mesmo tempo um sacrifício e uma perda. Ela não renuncia, contudo, ao aspecto matricial do ódio aos homens, características da sua feminilidade...
(...) Conhecer sofrer e sacrificar-se são idênticos nessa situação amorosa em que a feminilidade se tornou consciente através do encontro."

Tal como Erich Neumam, Jung e os seus seguidores - tanto homens como mulheres - deram uma conotação absolutamente negativa do matriarcado - referindo-o sempre como veiculador do odio da mulher ao homem...o que não corresponde de todo à verdade. 

No entanto como diz a Luiza Frazão "Esses mitos a que a Psicologia recorre são já da época clássica, completamente revistos e corrigidos pelo patriarcado na sua tentativa para, como dizem os americanos, "controlarem a narrativa", ou seja, imporem o seu ponto de vista e a sua ideologia...
O ódio ao homem não é em si uma característica matriarcal. Temos a prova disso nos núcleos matriarcais, ou matrifocais, que persistem ainda hoje, como é o caso do povo Mosuo na China. Aí, as mulheres e os homens vivem em harmonia. O ódio aos homens já é o resultado do confronto e da "derrota histórica do sexo feminino", como disse o Hegel. Dessa tomada patriarcal de poder pela força, pela manipulação resulta o ódio. E o problema é que em vez desse ódio, dessa revolta e indignação permanecer ativo fortalecendo a mulher na sua reivindicação, deu-se aquilo a que se chama hoje o "síndroma de Estocolmo". *

Mas vejamos então quantas vezes ele repete esse odio da mulher ao homem
o que é profundamente falso uma vez que o matriarcado baseado no culto da Mãe e da Filha, Deméter e Perséfone, esta raptada por Hades deus das trevas, levou  a Deusa-mãe ao desespero e assim partiu em busca da filha pelo mundo deixando-o fustigado pelo seu desespero ao sentir que tinha perdido a sua Filha - isto simboliza apenas a forma como a mãe e a Deusa protegem a Filha  e a Natureza e os seus ritmos da invasão do homem que durante largos períodos da mudança  atacaram as mulheres  por todos os lados fazendo-as escravas e prisioneiras ou suas servas e o que o matriarcado fez foi  procurar manter as mulheres fora desse domínio e controlo dos homens e assim  as mulheres resistiram de  muitas maneiras às invasões barbaras e depois ao cristianismo que foi matando e destruindo lugares de culto da Deusa Mãe e desapossando as deusas e as mulheres de quaisquer direitos e obrigando-as a submeterem-se  ao poder patriarcal crescente ...e não só instituíram o casamento...como criaram o Mito do Amor, do par  romântico e a realização espiritual como o Hiero Gamos. 

A falta de compreensão da mulher em si, como entidade e dessa mulher inteira inicial fez com que os homens, historiadores e mais tarde psicólogos interpretassem o Mito de acordo com uma visão já patriarcal de uso e posse da mulher ao seu serviço manipulada pelo casamento contrato obrigatório ou mais tarde  pela ideia do amor como uma forma de rendição e entrega - sacrifício da mulher ao homem e a sua anulação a fim de que a mulher fosse a reprodutora mãe dos seus filhos e terras...deixando as mulheres não casadoiras, a sua sorte de escravas concubinas e prostitutas...
Por outro lado a ideia mais recente de anima/aimus de Jung também comete o mesmo erro porque perverteu de forma insidiosa aquilo que a meu ver foi a divisão da mulher em duas pelo casamento como o próprio  Jung viu ao dizer que:

"A grande maioria dos homens no nível cultural presente nunca avança além do significado maternal da mulher e esta é a razão pela qual a alma raramente nele se desenvolve além do nível infantil, primitivo da prostituta. Como consequência, a prostituição é um dos principais produtos do casamento civilizado."

Sendo assim, com efeito, ele não viu foi a divisão secular da mulher em duas espécies a que hoje em dia podemos chamar a consciência bipartida da mulher - que não corresponde meramente a um inconsciente-consciente - e desse modo afastando-a da consciência da sua cisão interior que começa com o patriarcado, a psicologia Junguiana deu-lhe a ilusão de que ela é o animus (parte masculina-yang) e que podia aceder a uma consciência integral através de Eros (o homem-anima, parte feminina, yin) no par e não em si mesma, como Ente, não tendo em conta a mulher como uma totalidade, porque nunca dentro do patriarcado ela foi encarada como um ser individual desde o fim do matriarcado. Deste modo ficou a ideia de que para a mulher evoluír precisa do homem ou do filho para ser completa... e assim fica a mulher mais dividida ainda sem perceber que tanto Jung como os seus seguidores - homens e mulheres - deram uma conotação absolutamente negativa do matriarcado - referindo-o sempre como veiculador do odio da mulher ao homem...o que é falso pois o matriarcado apenas pretendia manter a autonomia das mulheres e a sua independência dos homens a partir do momento que as mulheres começaram a ser postas em perigo pelas hostes inimigas, através do rapto e da violação e escravização.Vemos ainda nos mitos clássicos os Heróis gregos e romanos como Hercules a violar e a dividir as mulheres entre si...

No matriarcado, ao contrário do que se pretende fazer crer, as mulheres e homens eram iguais e respeitavam a sua sexualidade sem posse. Foi só depois e ao longo das invasões bárbaras e com o destronar da Deusa e do seu culto, o culto de Elêusis, da Mãe - Filha que foi substituído pelo culto do Pai-Filho no Cristianismo e a partir do qual a mulher passou a ser dominada e sacrificada à espécie como objecto reprodutor ou de prazer...
Para a mulher voltar a pensar em si como uma pessoa inteira, uma entidade ou como individuo livre e independente (de ser mãe e esposa) isso tem sido muito difícil para qualquer mulher dos nossos dias, pois essa ideia de serem em si mesmas completas nem sequer ainda lhes entrou na cabeça. E é por isso mesmo, que muitas mulheres estão a reverter a espiritualidade feminina pagã, que devia ser o encontro da mulher com a sua Psique individual, a sua anima e a sua natureza profunda, estão a ir ao encontro do dito "masculino sagrado", em busca do par amoroso, pela "via hormonal" e não como individuo consciente de si...para reconstruir o modelo casal e filhos de acordo com a legalidade social, de acordo com os parâmetros socias em vigor dentro do Sistema patriarcal, sem perceberem que cometem o mesmo erro contra si mesmas...impedidas de voltarem a ser livres e de amar quando e como quisessem...isso era o matriarcado! Não havia contrato nem fidelização...ao Homem! Ambos eram livres no seu desejo.

E portanto, filósofos historiadores e mais recentemente psicólogos e psiquiatras, como acabámos de ler, mesmo da escola junguiana, confundem o lado sombra da mulheres e a sua natureza ctónica de que os homens tem medo, com as forças do inconsciente  e consideram portanto que a consciência luz (tem de superar esse inconsciente a noite e a lua em favor do sol...e render-se a ele ao entregar-se ao homem, tendo isso como uma vitória do feminino consciente...

Sim, o mais grave disto tudo é que esta anulação da mulher em si como ente é considerada na psicologia moderna como uma evolução da consciência do feminino e uma libertação do "matriarcado" - ou seja o seu sacrifício e entrega ao homem em nome do amor - ou o hiero-gamos...
Por isso a grande maioria das mulheres estão confusas acerca da Psique feminina e do seu potencial que lhes foi oculto e negado durante séculos, assim como do verdadeiro sentido do Sagrado Feminino e da Anima.

Não é de estranhar que, como me tenho vindo a aperceber, mesmo no seio de mulheres que se dizem ligadas ao "feminino sagrado", muitas delas estão a regredir ao continuar a verem-se apenas como mães e amantes e embora se digam devotas da deusa, já não de deus, mas da deusa...em pouco ou nada mudaram a sua maneira de ser. Elas abordam esse inconsciente colectivo e os valores do feminino arcaico que ressurge de tempos imemoriais mas de forma patriarcal na prática...
Não há uma noção correcta e profunda de um verdadeiro matriarcado, ou de um Principio Feminino como Ordem inicial, ontológica, para continuarem presas do modelo patriarcal e...ao aceitar toda esta teoria e da psicologia de que o matriarcado odeia os homens elas buscam contrariar essa ideia mas sem ter consciência da armadilha em que caiem.

Nesse sentido urge um trabalho profundo feito por mulheres conscientes, um estudo apurado da origem da nossa própria história. Felizmente já existem mulheres em Portugal capazes de pensar e descortinar para lá das Brumas...como é o caso de *Luiza Frazão - autora do livro A Deusa no Jardim das Hespérides, cujas citações aclaram um pouco mais esta minha divagação...


Rosa Leonor Pedro


O problema da invisibilidade das mulheres



A HOMOSSEXUALIDADE FEMININA?

"Em relação ao homoerotismo feminino pode ser percebido através de uma economia do silêncio e da in-visibilidade provinda de longa data. No antigo Testamento, mais precisamente no capítulo XVIII do terceiro livro de Moisés, chamado Levítico, aparecem significativas considerações acerca dos "casamentos ilícitos" e das "uniões abomináveis". Entretanto, nesta ampla lista de advertências não consta qualquer referência ao homoerotismo feminino. Mas, o silêncio que parece emudecer a homossexualidade feminina não se restringiu às escrituras bíblicas. Até o Tribunal do Santo Ofício Português fez "vista grossa" ao lesbianismo. Tamanha complacência adquiriu o status de lei a partir de 22 de março de 1646, quando o Conselho Geral da Inquisição de Lisboa, num ato surpreendente, decidiu ignorar a prática sexual entre mulheres (MUNIZ,1990).
(...)
Segundo o historiador, "raríssimos são os processos de mulheres-sodomitas existentes na Torre do Tombo, não havendo registo de nenhuma lésbica lusitana que tenha sido queimada pelos tribunais religiosos". O período vitoriano, famoso por seu policiamento aos bons costumes, também não debruçou sua ira sobre a homossexualidade feminina (...)
“A rainha Vitória, através de uma lei sancionada em 1885, condenou somente às práticas sodomitas entre os homens, negando incluir punição contra o sexo entre mulheres por não acreditar na viabilidade desse invisível amor.” (...)*Lhi - 2009


Todas as mulheres no Sistema Patriarcal são invisíveis.

Em nove anos que passaram sobe a data deste excerto muita coisa se passou e a sociedade culta foi invadida pela ideologia de género que relegou para um segundo plano a questão homossexual...mas precisamente por isso é importante voltarmos ao tema...da mulher como MULHER seja ela lésbica ou não, porque a Mulher é sempre mulher...

Só o não são as mulheres que correspondem ao imaginário masculino, as mulheres objecto, as mulheres insufladas de silicone, concebidas e criadas por eles, NAS SALAS DE OPERAÇÃO, na publicidade, nas passerelles, nos filmes etc. Por isso ser Gay ou não, não faz diferença quando se trata de defender os homens homo, porque na sociedade de valores masculinos e onde o feminino foi simplesmente apagado da história e esmagado na mulher, é sempre o imperativo do falo (logo existo) que prevalece. Portanto, independentemente de um homem ser homossexual, a sociedade falocrática, apesar de resistir à sua “feminização” e pretender desprezá-lo pela sua semelhança com a mulher (até conseguiram que os gays se tornassem musculados e aparentemente viris, em vez de travestis) considera o homem como parte de si mesma quer ele seja ou não gay, mas não a mulher, que não é mais do que um corpo (um buraco, um vazio para encher) ao seu dispor…! Não quero parecer vulgar mas é assim que a mulher foi considerada pelo patrismo e temos que olhar bem para as coisas como elas são na realidade e não idealizadas pelo intelecto e por uma falsa liberdade ou emancipação das mulheres. Ora neste caso, mais do que em qualquer outro caso, é muito óbvio que se a mulher lésbica não serve o homem, então não serve para nada…para quê dar visibilidade ao que não existe? As mulheres não existem por si só…ou são esposas de, ou são filhas de, ou são amantes de, ou secretárias…ou prostitutas ao serviço da sociedade machista.

As observações históricas de não dar importância às mulheres lésbicas por vários períodos de repressão religiosa e preconceito social, têm a ver também com o facto de que para os homens só há relações sexuais onde há um falo, onde há penetração, onde há dominador e vencido…foi assim que se processaram e oficializaram as relações entre os homens e as mulheres na sociedade patriarcal.
A homossexualidade feminina pode até ser uma diversão para o homem, uma coisa com que ele por vezes alimenta o seu imaginário. Vemos isso nos filmes pornográficos e não só…portanto é ainda uma fantasia masculina consentida…mas não levada a sério.
Também nunca a sociedade machista se preocupou com a prostituição como um flagelo social, mas apenas por hipocrisia e por estar ao seu serviço. Nunca se questiona a origem e a legitimidade da prostituição seja dentro de que sistema for. São as prostitutas visíveis? Ou são escondidas e disfarçadas de acompanhantes e modelos etc.? Esse uso e abuso do corpo da mulher como mercadoria foi sempre ou escondido ou consentido pelos Estados e as próprias mulheres hoje em dia a acham legítima e defendem-na como “profissão”- a chamada profissão mais velha do mundo - e acham-na uma coisa natural quando ela é apenas o reflexo da divisão interna, psicológica e social da mulher em dois tipos de mulher e assim sendo trata-se na verdade da repressão e abuso do ser humano mais velho da história do patriarcado…
O problema da invisibilidade das mulheres lésbicas não é só das mulheres lésbicas como de todas as mulheres....e posto da maneira como a autora do texto o pôs é como se ela acreditasse viver numa sociedade evoluída e de igualdade de direitos, onde a mulher normal e comum, a heterossexual, fosse visível, pelo seu valor intrínseco, e nós sabemos sobejamente  que não é nem nunca foi assim. Portanto a autora do texto por muito bem intencionada e informada que seja nisso está iludida…como o estão todas as mulheres inteligentes e cultas ao pensarem que são consideradas pela sua essência feminina ou pelo seu valor enquanto mulheres-Mulheres.

texto revisto e republicado
rosa leonor pedro

quarta-feira, março 07, 2018

ONTEM COMO HOJE...



"O INVISÍVEL HOLOCAUSTO DAS MULHERES"...E A MÁFIA MÉDICA!



Na época vitoriana, "W. Tyler Smith, por exemplo, recomendava injeções de água gelada no reto, a introdução de cubos de gelo na vagina e a aplicação de sanguessugas nos grandes e pequenos lábios e no colo do útero” e pormenorizava: “A rapidez com que as sanguessugas aplicadas nestas áreas se enchem de sangue, aumenta significativamente os efeitos benéficos desta prática e, durante horas, podemos observar como, mesmo depois de removidas as sanguessugas, o sangue ainda escorre das marcas das mordidelas”.

Hoje temos a ciência médica a controlar o desejo e os ciclos da mulher com químicos, desde a pilula para não engravidar e todos os contraceptivos, à nova forma de interromper a menstruação...o que é que mudou? Um dia perceberemos que de forma tão bárbara como na época vitoriana...as mulheres foram igualmente controladas e manipulas e sofreram as consequências desta ignorância milenar sobre a Mulher autentica e livre das sociedades matriciais.

Hoje como ontem e com o propósito de curar e a pretexto da doença - cancros dos seios e dos ovários e do útero - é um bom pretexto para "desventrar" as mulheres e em nome da prevenção da saúde se tiram os ovários e o útero e os seios às mulheres - agora e depois do ataque ao Útero através de vacinas de prevenção "contra o cancro", depois da pílula, que durante décadas adoeceu e afectou os ciclos das mulheres e lhes trouxe uma série de doenças ditas de "foro feminino" - veio esta investida nas jovens, para as anular no seu potencial de fêmeas, a fim de suprimir a doença mas também a MENSTRUAÇÃO NAS MULHERES; com tudo isto as mulheres estão de forma mais moderna e em nome da sua liberdade de acção e higiene...- sim agora os motivos são outros aparentemente - o que os cientistas, médicos, e ginecologistas estão de facto a querer, e sempre em nome da saúde e da ciência, eles estão de facto ao serviço das Máfias farmacêuticas que lhes pagam a publicidade e a venda dos seus produtos - no fundo e de forma encoberta o que se pretende é de novo e sempre desapossar a mulher da sua natureza ontológica e do seu poder inato, da sua sabedoria, da sua sensualidade ....

“A regulação dos ciclos menstruais das mulheres parece, frequentemente, ser um esforço da psiquiatria Vitoriana para adiar ou extirpar a sexualidade feminina.
O médico Dr Edward Tilt advogava que a menstruação era tão perniciosa para o cérebro feminino que não devia ser estimulado, antes adiada tanto quanto possível e aconselhava as mães a prevenir a menarca assegurando-se de que as filhas adolescentes permaneciam nos quartos de infância, tomavam banhos frios evitavam camas com colchões de penas, liam romances, eliminavam a carne da dieta alimentar e vestiam ceroulas.” in The Female Malady

Temos de estar alerta contra esta manipulação da mulher pela ciência que quer acabar com a menstruação...Este é um ataque sem precedentes à natureza sagrada da Mulher e do Sangue...

Porque a “A menstruação é um momento de poder para a mulher"


Por outro lado AS FEMINISTAS em nome da liberdade e com a sua obsessão da "igualdade" e dos direitos (e salários) iguais estão completamente cegas para a violência continuada sobre as mulheres em todos os sectores da vida social e politica e económica. As feministas que estão nos partidos estão totalmente presas dos Partidos e vendidas aos lideres sendo coniventes com uma mentira colectiva, encenada e que é a ideia de igualdade e emancipação das mulheres que não existe senão para escassas mulheres de classes privilegiadas e nem essas são respeitadas. Elas acompanham movimentos e ideologias com a de género que visa de fora sistemática e global anular a Mulher como ser original assim como o homem.
Os médicos não respeitam a Mulher nem a Mãe, os juízes não respeitam as mulheres vitimas e os políticos não respeitam as mulheres a não ser aquelas que os servem e CALAM.
Assim como os médicos em geral também os psicanalistas no inicio o fizeram - ver como a psiquiatria era uma forma de controle do corpo e da “alma” das mulheres. Deixo aqui um parágrafo que nos dá conta de como isso se podia fazer:
É preciso não esquecer que a medicina é de base uma a Escola da desumanização ...e de guerra ao sangue, lembrem-se das sanguessugas...diria que é uma forma e ajudar a salvar vidas quando na verdade ela não faz mais do "monstrualizar" seres humanos, quer pela substituição de órgãos vitais e a sua comercialização que gera crimes sem precedentes, como decepando e cortando o corpo da mulher - anular o poder e a natureza selvagem da mulher por todos os meios...
Esta é uma forma velada da matriz de controlo em manter a mulher na sua inconsciência de si...é destrui-la na sua essência e destitui-la no seu corpo desse poder inato porque a mulher, quando em sintonia com os seus ciclos e o seu sangue, não só é poderosa como é a vidente primordial...Ela pode ser um perigo enorme para o hegemonia masculina e domínio exclusivo do Homem...isto faz-se há séculos e de muitas maneiras; e foi o que fez a Inquisição da Igreja católica que matou mais mulheres do que judeus foram dizimados no Holocausto por Hitler.

Hoje é a dita medicina de prevenção e os seus macabros cientistas que fazem da mulher cobaia e a visam de forma sistemática destruir na sua essência e natureza.
Da mesma maneiras as mulheres são sujeitas a humilhação e a exposição abusiva dos médicos e estudantes quando se encontra grávidas e são palpadas, como se fossem animais expostas ao toque ...e o parto é feito de maneira igualmente antinatural o que não só aumenta o sofrimento da mulher e lhe dificulta o parto mas serve para facilitar a vida aos médicos sendo colocada de barriga para cima...

As mães e as avós, as irmãs e as amigas deviam estar contra os químicos com que querem envenenar as mulheres e deviam ser elas a despertar essas jovens e não as deixar nas mãos das médicas formadas na escolas de medicina que são escolas de total desumanização do SER HUMANO! Mas são essas mulheres avós e mães que são na sua ignorância as mais fiéis dos médicos ...

Esta confiança cega nos médicos deve ser contestada...mas as pessoas são induzidas a acreditar que eles têm poder de vida e morte sobre o ser humano e toda a industria medica vive da manipulação pura dos nossos medos, tal como as religiões fazem!
A verdade é que Eles/as NÃO SABEM NADA da vida verdadeira e muito menos da MULHER!!!

RLP

Em vésperas do 8 de Março...




Mulher no Mundo da Política

"Há quem pense, e talvez com certa razão, que a mulher deve entrar no mundo da política para, dentro desse universo, desenvolver as suas ideias e a sua acção. Mas eu penso que quando uma mulher entra nesse mundo, ela própria é obrigada a submeter-se a padrões que ameaçam toda a sua natureza, a natureza da sua cultura. Ela é levada a transigir, torna-se numa cópia daquilo que já é mau nos homens. Eu penso que a acção da mulher deve desenvolver--se fora da política do Poder. Uma acção política de contra-poder. Pela recusa.
O que é a poesia se não uma magia branca, para fazer recuar as forças tenebrosas que querem destruir a vida?! "*


"A sabedoria é mesmo feminina. Correndo o risco de me repetir ou citar a mim mesma, direi que a «sophia» é feminina. A sabedoria é feminina e a filosofa é masculina. O homem enamora-se da sabedoria, mas nunca chega lá. E o percurso para... A mulher, ela própria, é ovularmente o segredo do Universo. Ela contém em si a sabedoria. As vezes não tem é consciência disso." *
* Natália Correia, in 'Entrevista (1983)'

“ (...) O patriarcado pode, de facto ser considerado como uma enorme hierarquia de homens, uma estrutura onde as mulheres, as crianças e os homens marginalizados são certamente desfavorizados, mas também uma estrutura na qual os homens disputam entre si as melhores posições, na qual o acesso sexual às mulheres, a posse das mulheres e o controlo e a dominação das mulheres pode funcionar para apoiar, manter, ou melhorar a posição dos homens face a outros homens. Formatadas para serem a classe subordinada no seio do patriarcado, as mulheres desempenham igualmente outra função, porque, onde reside um homem na hierarquia, há sempre alguem por baixo dele, e no final, esse alguém é uma mulher.
Isso nâo quer dizer que os homens nâo sejam também oprimidos e explorados, ao contrário, mas é um facto que nenhum homem é oprimido por causa do seu sexo, como o sâo as mulheres. Ele poderá ser oprimido por outras caracteristicas da sua identidade, por exemplo a sua raça, a sua classe ou a sua sexualidade; mas ser de sexo masculino não é nenhuma causa de opressâo. Esta é uma diferença fundamental entre as vivencias das mulheres e as dos homens na nossa sociedade. (...) “


Finn Mackay, Conférence donnée à l’organisation Welsh Women’s Aid, le 10 décembre 2012




domingo, março 04, 2018

uma mulher sábia...




"O trabalho mais profundo é geralmente o mais sombrio. Uma mulher corajosa, uma mulher que procura ser sábia, irá urbanizar os terrenos psíquicos mais pobres, pois, se ela construir apenas nos melhores terrenos da psique, terá uma visão mínima de quem realmente é. Portanto, não tenha medo de investigar o pior. Isso só lhe garante um aumento no poder da sua alma. É nesse tipo de urbanização psíquica que a Mulher Selvagem brilha. Ela não tem medo da treva mais profunda pois na realidade consegue ver no escuro. Ela não tem medo de vísceras, dejetos, podridão, fedor, sangue, ossos frios, moças moribundas e maridos assassinos. Ela tem condições de ver tudo, de suportar tudo, de ajudar.
(...)
Quando falamos da essência feminina, estamos realmente falando da alma feminina. Quando falamos de corpos espalhados no subterrâneo, estamos afirmando que algo aconteceu à força da alma e no entanto, muito embora sua vitalidade exterior tenha sido roubada, muito embora sua vida tenha essencialmente sido esmagada, ela não foi destruída por completo. Ela pode voltar a viver. "

clarissa pinkola estes
IN MULHERES QUE CORREM COM OS LOBOS

sábado, março 03, 2018

A psiquiatria uma forma de controle do corpo e da “alma” das mulheres.







O CASAMENTO: "A propriedade, cuja primeira forma, o germe, reside na família [...]. A escravatura, embora ainda muito rudimentar e latente na família, é a primeira propriedade [...]" do Homem, a Mulher. 
Karl Marx e Engels

Resultado de imagem para Elaine Showalter, The Female Malady

Nesta obra (1985), Elaine Showalter, com suporte em múltiplas fontes como representações da loucura na literatura e na arte (pintura, fotografia e cinema), memórias privadas e literárias de doentes ou ex-doentes, registos médicos e hospitalares, aborda de um modo exaustivo e cativante a feminização da loucura, ou seja, o modo como a classe médica, durante o século XIX, medicalizou a loucura, tornando-a uma questão feminina ( os homens só se tornaram doentes mentais durante e após a I Guerra Mundial e mesmo aí não eram loucos, eram ‘traumatizados de guerra’) e a psiquiatria uma forma de controle do corpo e da “alma” das mulheres.
Deixo aqui um parágrafo que nos dá conta de como isso se podia fazer:
“A regulação dos ciclos menstruais das mulheres parece, frequentemente, ser um esforço da psiquiatria Vitoriana para adiar ou extirpar a sexualidade feminina.
O médico Dr Edward Tilt advogava que a menstruação era tão perniciosa para o cérebro feminino que não devia ser estimulado, antes adiada tanto quanto possível e aconselhava as mães a prevenir a menarca assegurando-se de que as filhas adolescentes permaneciam nos quartos de infância, tomavam banhos  frios evitavam camas com colchões de penas, liam romances, eliminavam a carne da dieta alimentar e vestiam ceroulas.” 
[The Female Malady p. 75]


CURAR  O DESEJO E A PAIXÃO DA MULHER
É QUERER CURAR O IMPOSSIVEL... 


"CATARSE foi um termo empregado no tratamento inicial de Histeria por Freud e Breuer, referia-se a descarga (ab-reacção) da paixão não resolvida que teria raízes nas "reminiscências" de que sofreria a histérica. No drama inicial da "cura pela fala", houve uma espécie de " purgação" de algo que permanece em suspenso, en souffrence, na paixão da histérica, inscrevendo-se nos enigmáticos sintomas corporais de que ela se queixava e para os quais pedia cura."

Estava a reler o livro do qual tirei este excerto, Eros e Verdade, sobre a psicanálise e Freud e outros, no principio do seculo XX, que tentaram diagnosticar as doenças das mulheres consideradas histéricas e que na época sofriam todo o tipo de condicionamento e repressão social familiar e psicológica, tendo sido marcadas por abusos e sofrimentos imensos - mulheres inteligentes e sensíveis - que estavam totalmente presas a uma sociedade atrasada beata e retrógada, e que sempre foram vitimas de pais e maridos déspotas...Histéricas... condenadas ao descrédito, sem voz e sem voto na matéria...sem liberdade nem possibilidade de escolha...e vistas como Antígonas, a mulher que sofreu a maior perseguição e condenação na historia da mitologia grego romana...a grande histérica...além de Cassandra condenada por Apolo - mulheres que o patriarcado desfigurou ...e assim, "Dora, Irma, Anna e as outras iriam transformar-se nas Antígonas desse teatro vianense (...) dentro da relativa privacidade do consultório de Freud...que focalizou o "desejo" que essas histéricas desafiavam os seus médicos a localizarem em no seu corpo e com isso curá-las: um desejo que ele seria levado a reconhecer tão inflexível , tão destemido e tão implacável quando ao de Antígona."
São essas mulheres intensas e capazes de desafiar a ordem patriarcal que os homens de hoje não suportam e que desde há muito tudo fazem para controlar manter submissas ou destruir pela vulgarização e até mesmo matar...

Pensar que havia mulheres "sérias", senhoras da corte, mães de família, que iam aos médicos que as masturbavam para as curar da depressão e angustia...impedidas pela virtude, mesmo como mulheres casadas, a manterem-se frigida e castas... porque lhes era proibido pela religião e os costumes poderem sequer sonhar com o prazer da mulher ou com o orgasmo...que era pecado que confessavam aos padres...
Havia certamente muita devassidão entre as classes mais baixas mas era das mulheres pobres e desgraçadas as prostitutas de rua e bordeis...
Mas, pergunto, como poderiam estes homens como Freud compreender e entender as mulheres ou mais tarde Lacan, este cretino, que disse que a mulher não tinha a palavra porque não tinha falo...para eles todas as mulheres que não obedeçam e cumpram as suas leis são histéricas...

E quantas dessas mulheres não foram internadas em Manicómios só porque não serviam de modelo e infringiam as leis e confrontavam os maridos e pais?

Na época vitoriana, "W. Tyler Smith, por exemplo, recomendava injeções de água gelada no reto, a introdução de cubos de gelo na vagina e a aplicação de sanguessugas nos grandes e pequenos lábios e no colo do útero” e pormenorizava: “A rapidez com que as sanguessugas aplicadas nestas áreas se enchem de sangue, aumenta significativamente os efeitos benéficos desta prática e, durante horas, podemos observar como, mesmo depois de removidas as sanguessugas, o sangue ainda escorre das marcas das mordidelas”.

Nessa altura (segunda metade do século XIX), a Sociedade de Obstetrícia de Londres acreditava piamente que a maior causa de loucura entre as mulheres se devia à masturbação pelo que nada mais eficaz do que sujeitá-las à prática de clitoridectomia radical, mesmo quando a queixa da doente tinha a ver com falta de visão ou falta de apetite, ou quando, inadvertidamente, manifestava em voz alta curiosidade quanto à nova Lei do Divórcio de 1857.
Já não se trata pois da época vitoriana...em que os médicos tratavam o corpo e os ciclos da mulher dessa maneira barbara, mas agora e desde o inicio do seculo passado, já mais a nivel psiquico e mental apenas como todas as manifestações emocionais eram tomadas como histeria se a mulher não se conseguisse controlar...

Hoje temos a ciência a controlar o desejo e os ciclos da mulher com químicos...o que é que mudou? Um dia percebemos que de forma tão bárbara como na época vitoriana...as mulheres foram igualmente controladas e manipulas e sofreram as consequências desta ignorância milenar sobre a Mulher autentica e livre das sociedades matriciais.

Hoje podemos olhar para a histeria como manifestação de emoções reprimidas, assim como o seu dom oculto de intuir e pressentir mundos paralelos, sofrer a influência das lunações etc. e vemos como essa histérica  escondia  uma Mulher imensa obrigada a calar-se e que sente muito mais do que o homem e  por isso mesmo não tinha crédito nas sociedades anteriores  e também a actual. Nos nossos dias a mulher já não é considerada histérica do mesmo modo mas é...bipolar ou ninfomaníaca...ou uma puta... se buscar sexo em demasia ou for muito livre e é essa a sua liberdade de hoje, mas essa mulher continua a ser a mulher sem voz do utero, das entranhas que interpretava o Oráculo de Delfos e foi condenada ao descrédito pelo deus Apolo, que a matou a Grande Serpente, e esconde a mulher instintiva, a mulher selvagem, a mulher que quer ser a sua totalidade e impedida de se expressar e manifestar o seu fundo abissal - esse fundo ctónico que o homem jamais poderia entender quanto mais tratar...e que toda a psicanálise condena como primitiva e denigre o matriarcado como sendo um principio de odio aos homens...

A histérica escondia a repressão da mulher que queria poder manifestar essa sua força reprimida, o seu poder intrínseco, a sua fúria de amar em todos os sentido e que a sociedade judaico-cristã fechada e moralista da época quis controlar e mal essas mulheres se expressavam em fúria o homem o pai e o marido encerraram em manicómios dezenas de mulheres perturbadas pelo desejo da mulher de ser ela - face a uma moral e religião hipócrita e redutora...

Mas o que mais me chocou no texto do livro em questão foi o tratamento de histéricas a todas as mulheres que manifestavam o sofrimento dessa repressão, e o trata-las como histéricas, doentes...essas mulheres marcadas por amores e paixões violentas, por sofrimentos e abusos tremendos, essas mulheres contidas e impossibilitadas de serem e dizerem o que sentiam reprimidas familiar e socialmente por costumes rígidos que as obrigavam a ser esposa obedientes ou concubinas rameiras e prostitutas desprezadas. Mulheres que sonhavam com o amor, com a paixão que dá aso à mulher sensual e selvagem e que nenhum homem consegue perceber ou enfrentar...e pensei nessas mulheres todas entregues aos tratamentos e ao pensamento redutor da psicanálise desses senhores prepotentes e patriarcais em avaliar e analisar e a querer curar o DESEJO DA MULHER ...a paixão da mulher...que ridículo é isto tudo ou devia ser aos nossos olhos de hoje...de mulheres conscientes, mas somos nós conscientes do nosso desejo mais puro e violento? Ou não passamos ainda de histéricas e loucas e dementes, obsessivas sexuais, carentes emocionalmente e híper excitáveis, ou apenas inconscientes do verdadeiro desejo do SER MULHER?

Os tempos mudaram...mas não basta à mulher ter liberdade e ordem para fornicar...ser adultera, ou "fazer amor" como eufemisticamente se diz quando se pratica só sexo pelo sexo, sexo genital mecânico...como as mulheres muito jovens fazem em nome da emancipação e essa foi a liberdade que a mulher moderna conseguiu, mas NÃO é a liberdade do seu ser total e absoluto...o seu desejo universal, o seu desejo substancial e oceânico, mais profundo que o mar profundo...
rlp

A falta de inter-acção dos blogues



Tenho pensado ultimamente em como os Blogues, pelo menos no meu caso, perderam completamente os comentários e toda a inter-acção existente antes da implementação do Facebook dos Twiters...

Tenho imensa pena ter perdido leitor@s de sempre assim como o rasto de algumas amigas de Mulheres & Deusas...
Constato com imensa pena como cada dia mais a superficialidade e a facilidade dos likes e dos bonequinhos animados da "comunicação" rápida e fútil tomou posse de tudo...