domingo, setembro 21, 2003

O Amor transcende sempre,
é o agente de toda a transcendência.


(...)

E assim, o amor faz transitar, ir e vir entre as zonas antagônicas da realidade, penetra nela e descobre o seu não-ser, os seus infernos. Descobre o ser e o não-ser, porque aspira a ir para lá do ser e o não ser; de todo o projecto. E desfaz todo a consistência.

Destrói e dá nascimento à consciência, sendo como é a vida plena de alma. Eleva ao obscuro ímpeto de vida; essa avidez que é a vida no seu fundo elementar, leva-a na alma. Mas, ao mostrar a inanidade de tudo aquilo em que fixa, revela à alma também os seus limites e abre-os à consciência, fá-la dar nascimento à consciência. A consciência aumenta após um desengano de amor, como a própria alma se dilata com o seu engano.

Mas não existe engano algum no amor, que, por o haver, obedece à necessidade da sua essência. Porque, ao descobrir a realidade no duplo sentido do objecto amado, a consciência de quem ama não sabe situar essa realidade que a transcende. Se não houvesse engano não haveria transcendência, porque permaneceríamos sempre encerrados dentro dos mesmos limites. (...)


In A METÁFORA DO CORAÇÃO
Maria Zambrano

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