sexta-feira, maio 15, 2009

AUTO-RETRATO

Jovem, quiz tanto ser santa, mártir,
ou amazona...
Quis salvar o mundo da miséria,
Das injustiças e da guerra!
Quis lutar por uma causa justa,
Libertar a mulher...
Quis ser escritora, sábia e poeta...

Quis tanto ser útil à humanidade,
Morrer por amor de um ideal superior!
Depois, já madura, quis encontrar o mistério da Vida,
A essência da morte...
Saber a Palavra secreta,
Conhecer o Verbo,
Ser devota da Deusa, salvar o Planeta Terra...
Por fim, velha, aprendi ser a luta vã e inútil,
o saber mundano...
Percebi que os homens são santos e também criminosos...
E que toda a humanidade é feita desta matéria contraditória.
Agora só me resta conhecer-me por dentro
E ser inteira apenas eu própria!

Ninguém para fora...

in Antes do Verbo era o Utero
(pagina 39)
Rosa Leonor Pedro

1 comentário:

  1. Compreendo bem este teu "desabafo" Rosa,tb já passei por estes sentimentos.Para não estender demais este comentário,te indico este meu poema http://desombrasedeluzanna-paim.blogspot.com/2009/02/de-sombras-e-de-luz.html

    e tb este http://desombrasedeluzanna-paim.blogspot.com/2009/02/escuridao.html

    e te ofereço este,do Fernando Pessoa,sem comentários!!!

    EROS E PSIQUÊ

    Conta a lenda que dormia
    Uma Princesa encantada
    A quem só despertaria
    Um Infante, que viria
    De além do muro da estrada.
    Ele tinha que, tentado,
    Vencer o mal e o bem,
    Antes que, já libertado,
    Deixasse o caminho errado
    Por o que à Princesa vem.

    A Princesa Adormecida,
    Se espera,dormindo espera,
    Sonha em morte a sua vida,
    E orna-lhe a fronte esquecida,
    Verde,uma grinalda de hera.

    Longe o Infante,esforçado,
    Sem saber que intuito tem,
    Rompe o caminho fadado,
    Ele dela é ignorado,
    Ela para ele é ninguém.

    Mas cada um cumpre o Destino
    Ela dormindo encantada,
    Ele buscando-a sem tino
    Pelo processo divino
    Que faz existir a estrada.

    E,se bem que seja obscuro
    Tudo pela estrada fora,
    E falso, ele vem seguro,
    E vencendo estrada e muro,
    Chega onde em sono ela mora,

    E,inda tonto do que houvera,
    À cabeça, em maresia,
    Ergue a mão,e encontra hera,
    E vê que ele mesmo era
    A Princesa que dormia.

    Fernando Pessoa

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