Hoje acordei com Pessoa a doer-me na alma. Não me perguntem porquê... Não vos sei dizer a razão desta nostalgia tão repentina. O final do ano? Ou o princípio do quê? A vida são dois dias e o carnaval são três... No Brasil faz sol e é dia e aqui chove e faz noite .
Há gente em todo o globo, uns dormem, outros cantam e gritam, outros disparam a matar... Há prostitutas nas ruas, crianças sem mãe, mulheres abandonadas e velhos a chorar. Doentes sem cura, loucos tristes, poetas e místicos, políticos a brincar... Há carros a abarrotar por todo o lado, telemóveis a apitar e gente a falar a falar a falar poluido o ar de nada. Porque acordei triste não sei... Nem sei porque veio Pessoa acordar comigo na minha tristeza a rezar, a pedir-me para o lembrar....
Porque sou tão triste ignoro
Nem porque sentir em mim
Lágrimas que eu choro assim;
Desde menino que choro
E ainda não me achei fim.
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Como nuvens pelo céu
Passam os sonhos por mim.
Nenhum dos sonhos é meu
Embora eu os sonhe assim.
São coisas no alto que são
Enquanto a vista as conhece,
Depois são sombras que vão
Pelos campos que arrefece.
Símbolos? Sonhos? Quem torna
Meu coração ao que foi?
Que dor de mim me transforma?
Que coisa inútil me dói?
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Se tudo o que há é mentira,
É mentira tudo o que há.
De nada nada se tira,
A nada nada se dá.
Se tanto faz que eu suponha
Uma coisa ou não com fé,
Suponho-a se ela é risonha,
Se não é, suponho que é.
Que o grande jeito da vida
É pôr a vida com jeito. Fana a rosa não colhida
Como a rosa posta ao peito.
Mais vale é o valer,
Que o resto ortigas o cobrem
E só se cumpra o dever
Para que as palavras sobrem.
In Poesias Inéditas de Fernando Pessoa
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