O SORRISO DE PANDORA

“Jamais reconheci e nem reconhecerei a autoridade de nenhuma pretensa divindade, de alguma autoridade robotizada, demoníaca ou evolutiva que me afronte com alguma acusação de pecadora, herege, traidora ou o que seja. Não há um só, dentre todos os viventes, a quem eu considere mais do que a mim mesma. Contudo nada existe em mim que me permita sentir-me melhor do que qualquer outro vivente. Respeito todos, mas a ninguém me submeto. Rendo-me à beleza de um simples torrão de terra, à de uma gotícula de água, à de uma flor, à de um sorriso de qualquer face, mas não me rendo a qualquer autoridade instituída pela estupidez evolutiva da hora. Enfim, nada imponho sobre os ombros alheios, mas nada permito que me seja imposto de bom grado Libertei-me do peso desses conceitos equivocados e assumi-me como agente do processo de me dignificar a mim mesma, como também a vida que me é dispensada. Procuro homenageá-la com as minhas posturas e atitudes e nada mais almejo. É tudo o que posso dizer aqueles a quem considero meus filhos e filhas da Terra. “ In O SORRISO DE PANDORA, Jan Val Ellam

segunda-feira, junho 08, 2015

E a Chave que se perdeu é a mulher.



"Na filosofia pagã, Pandora não é a fonte do mal; ela é a fonte da força, da dignidade e da beleza, portanto, sem adversidade o ser humano não poderia melhorar.
O nome "Pandora" possui vários significados: panta dôra, a que possui todos os dons, ou pantôn dôra, a que é o dom de todos/as (dos/as deuses/as).
...também significa a jarra (pithos) que “nada mais é que uma simples ânfora: um vaso muito grande, que serve para guardar grãos.
Este vaso só fica cheio através do esforço, do trabalho no campo, seu conteúdo então simboliza a condição humana.
Por consequência, será a Mulher que a abrirá e a servirá, para alimentar a família." W.


A Terra é um corpo inteligente, e nós respiramos o ar que a envolve e todos os seres vivos a respiram.
A Terra é o nosso Matrimónio… O nosso Templo vivo… Nós não vivemos no Céu…
É na Terra que nascemos, e é a Terra que temos de honrar, ao contrário do que as religiões do deus pai dizem, e que mais não fazem do que adiar a vida nas suas contingências e paradoxos…
A vida plena tem as suas raízes na Terra, e só sendo fiel à Terra Mãe podemos partir em paz e ascender aos céus…


E a Chave que se perdeu é a mulher.

A mulher que foi apagada da história e da vida social como ser autónomo, como ser individual e senhora da sua vontade…
A mulher que durante milénios cumpriu o pesado fardo de servir exclusivamente a humanidade, o homem na negação da sua individualidade, ao serviço da espécie como mãe, mas em total sujeição ao homem. Cumpriu séculos de sujeição ao pai e ao filho.
Agora é tempo de a mulher retomar as rédeas, e voltar a servir a Terra, e ser fiel à Deusa Mãe que é a Natureza.

A Mulher tem de recuperar a sua memória celular, recuperar a sua identidade esquecida, a identidade que perdeu ao ceder ao homem o seu poder de cura e amor, o seu poder de amar e ser livre…o seu dom de visão e profecia, a sua alegria a mais genuína.

É inconcebível que a mulher, só por ser mulher, seja ainda castigada e estropiada, violada e morta nas guerras pelos homens em todo o mundo.

É tempo de a mulher ser respeitada por si mesma como ser individual, e não colectivo, e realizar o Matrimónio sagrado com a Deusa Mãe e consigo mesma, unindo-se à outra mulher-metade de si e da qual foi separada há milénios…

É tempo da mãe e da filha se unirem, em vez de competirem entre si a lutar pelo homem.
É tempo de a mulher se libertar das algemas do matrimónio e da escravidão do sexo.


É tempo de a mulher olhar para dentro de si mesma e descobrir o seu tesouro escondido, o seu tesouro sem fim, o “manancial fechado” que ela se tornou e Abrir essa Caixa de Pandora, que ao contrário dos mitos que a anunciam como desgraças maiores causada pela Mulher – não pode haver maior desgraça do que a que os homens semearam na Terra – e que mais não fazem do que reflectir a milenar misoginia e medo ancestral da mulher, da sua força sensual e sexual, da seu poder magnético como fêmea, tal como o medo à força indomável da Natureza e que tanto assusta ainda os homens.
Foi por esse medo e desejo de controlar o mundo ctónico que os homens reprimiram e condenaram a mulher, e a fecharam nessa Caixa de Pandora sob a ameaça de perigos medonhos...

E assim, quer na religião quer o mito, fizeram pesar sobre a mulher a culpa do erro ou do pecado e dos males da humanidade, para a manter encerrada em si e calada, para a manter agrilhoada e incapaz de se defender ou agir por si mesma.

Tanto a mulher como  A Terra têm de ser respeitadas como um ente vivo, biológico e inteligente, e não ser tratada como objecto de posse do homem, cuja arrogância o leva a crer-se dono do mundo tendo-o dominado pela força e pela violência.
Milhões de seres humanos mortos pela sua conquista de poder e acumulação de riqueza…

O Homem que desventra a Terra para lhe sugar o seu “sangue”…

O Homem que explora a mulher como mãe dos seus filhos e a viola como despojo de guerra…


- A Mulher tem de descer ao abismo do seu ser ctónico, descer às raízes da Terra Mãe, mergulhar no seu Útero, caverna gruta oráculo de Delfos, o umbigo da Terra Mãe, e reclamar essa voz que se perdeu nos confins dos tempos…a voz das pitonisas, das sacerdotisas e feiticeiras e das Eríneas que eram deusas ao serviço da Mãe, e que por veredicto de Atena – a filha do pai - são transformadas em megeras e monstros, “bruxas” condenadas como criaturas pérfidas e mortíferas…

- A mulher que se encontra a si mesma, a mulher que acorda para o seu poder interno, torna-se na guardiã que mantêm os segredos da vida e da morte, e não os teme, e por isso é a mulher que tem de acordar os seus poderes para assim poder curar as suas próprias feridas e as do mundo…
As feridas das mil batalhas e das guerras, as feridas das armas e das bombas, dos desastres nucleares, da violência perpetrada com que o Homem a feriu no seu ventre e a ofendeu de morte – tanto à mulher como a Terra – tal como matou em si o seu feminino tornando-se no déspota e no assassino…
Ele fez da mulher a primeira escrava e depois o homem inferior… o escravo fraco também…
Dividiu o mundo em partes, e dividiu as mulheres em escravas, concubinas e meretrizes…
Esse mundo que fez a cisão da mulher em duas espécies, é o culpado da divisão hierárquica do mundo, e a exploração de seres humanos em todo o planeta."

Rosa Leonor Pedro
Mulheres e Deusas

republicando

A MULHER QUE DORME NA MULHER


QUE MULHER CONHECEMOS NÓS...

"...Primeiro: o homem deve passar por ela para passar a Ser.
A Mulher, toda a mulher, é a verdadeira iniciadora do homem, sua via para o Ser.
Segundo: o sistema patriarcal privou o homem das mulheres verdadeiras, perigosas pela sua supremacia.

Em resposta, a mulher deve tornar-se consciente da Mulher que nela dorme: já é tempo que ELA saia do casulo.
(...)
Senhores, o ser que chamamos de mulher não é A mulher.
É uma degenerescência, uma cópia.
A essência não está aí, nossa alegria e nossa salvação não estão aí...

...Chamamos mulheres a seres que dela não têm senão a aparência, tomamos em nossos braços imitações de uma espécie inteiramente ou quase destruída."


in, TANTRA - O CULTO DA FEMINILIDADE
André Van Lysebeth

domingo, junho 07, 2015

A NOSSA MÃE, UMA MÃE SEM AUTORIDADE

(...)

MAMMA MIA

O estranho é que, apesar de em países como o nosso e de uma forma geral nos países latinos, ainda parecer existir muito este tipo de mãe, tal não é infelizmente nenhuma garantia de estarmos a criar pessoas mais seguras de si, empoderadas e com sentido de responsabilidade social ou cívica, no fundo todas as qualidades de que o termo adulto/a se reveste na sua verdadeira acepção. Diria até que em países com “menos mãe”, ou com mães menos “latinas” essas qualidades parecem florescer melhor. Alguma coisa então não estará a funcionar como deveria com as nossas mães que à partida parecem corresponder tão bem à Mãe ideal. 

Pessoalmente, sinto que um dos grandes problemas reside na ideia muito enraizada entre nós de que a Mãe tem de se sacrificar. As mães são aquelas que se sacrificam, um pouco como a vela que arde e se consome até ao fim para que a sua luz nos possa iluminar. As mães sacrificam-se, dizem, pela família. Para que a paz e a harmonia reinem na família, fazem tudo, acreditam muitas delas, esquecendo-se de que a família tem a sua alma própria que tudo regista e tudo sente e tudo vai de alguma forma acabar por revelar e manifestar. Mas então, na sua valorização do sacrifício, a mãe acaba muito por se calar, por fazer de conta, por fingir que não ouve, por desculpar depressa demais, por aceitar muitas vezes o inaceitável. 

Na verdade, se quisermos ser rigorosas/os, o sacrifício da mãe aconteceu já muito antes de ela o ser, uma vez que ele é a base da própria família patriarcal que temos. Já agora, para quem viu o filme que cito no início, é bom lembrar um dos dados mais extraordinários da trama, que é o facto de nessa casa de sonho da Mãe não haver pai. A heroína não sabe sequer quem é o pai da sua filha e sai ilesa desse crime de lesa autoridade patriarca. E a subversão continua no filme na forma como os homens com a possibilidade de serem o pai se comportam, prontos e encantados com a ideia de assumirem esse papel, sem competição nem exclusivismo, como acontece nas sociedades matriarcais ou matrifocais em que o papel do pai é irrelevante, sendo os homens da família a assumirem a função de protetores e de educadores e a fornecerem o modelo do masculino de que a criança precisa. Não é minha pretenção aqui incentivar as mulheres a terem filhas e filhos sozinhas sem um pai, sejamos realistas; com o tipo de sociedade em que vivemos, isso tornar-se-ia um peso muito grande tanto para a mulher como para a criança. 

Voltando à ideia do sacrifício da Mãe, ele aconteceu quando este modelo em que a mãe era central foi substituído por aquele que temos em que ela está sob a alçada do pai. O poder da Mãe, que refletia ou emanava do tipo de divindade cultuada, a Grande Mãe Criadora, passou para segundo plano quando a divindade mudou de género e passou a ser o Pai. Todo o modelo mudou, os valores que regiam a sociedade mudaram, o imperativo tornando-se agora o domínio e a conquista em vez de a proteção da vida. Fomos expulsas/os do paraíso, acabou-se a Idade de Ouro, pela lei da espada patriarcal, como tão bem nos refere Riane Eisler nessa obra absolutamente ímpar que é O Cálice e a Espada (Via óptima, Porto). Assim, já só por um acaso temos o tipo de maisonnée (um termo popular francês que define não só a casa como o coletivo de pessoas que nela vive ou que gravita à sua volta) do filme Mamma Mia, que nos fornece uma visão, obviamente muito idealizada, do genuíno reino (ou seria raino?) da Mãe, ou tão genuíno quanto o sistema que respiramos permite, e que em resumo é uma Mãe com poder e autoridade. 

Porque, não nos iludamos quando pensamos, só porque vivemos numa família de mulheres ou porque vemos que lá em casa a última palavra é a da mãe, que isso significa que ela tenha poder genuinamente seu. Nenhuma mãe com poder emanado do seu próprio coração e forma de estar no mundo deixaria que um filho seu fosse para a guerra, por exemplo, aceitaria uma forma de progresso que implique destruição da natureza, ou aceitaria na sua cama um homem a tresandar a carnificina e a outros abusos de poder e profunda insensibilidade ao sofrimento alheio. O poder que nos parece muitas vezes emanar da mãe no tipo de sociedade em que vivemos é na verdade o poder patriarcal que ela assume como seu sem o ser, tendo perdido o rasto dos verdadeiros valores que em estado selvagem, de antes da domesticação patriarcal, emanariam do seu coração de mulher. 

Por que referi então no título que temos “excesso de mãe”? Porque a mãe que temos, desempoderada e desautorizada, e até infantilizada, por ter passado da alçada do pai para a do marido sem saber quem ela própria é nem ter amadurecido como adulta, é essencialmente uma mãe permissiva, que nessa profunda distorção patriarcal que é a ideia do sacrifício, permite tudo aquilo que não deveria permitir, não sabendo impor, com receio de perder o amor da sua descendência, limites nem fronteiras e sem ser senhora do seu verdadeiro sim nem do seu verdadeiro não, incapaz de fornecer qualquer modelo de força, coragem ou coerência, valores que criem cidadãos e cidadãs responsáveis, capazes de governar um mundo. Em vez disso, ela reproduz seres imaturos como ela, mimados pelo seu excesso de proteção sem exigência de contrapartidas de responsabilização pessoal, os egoistas e corruptos dirigentes que temos e os cidadões impotentes e assustados que em vão procuram refúgio nas saias duma mãe arquetípica que a única capacidade que parece ter é a de comungar do seu sofrimento.    

© Luiza Frazão

sábado, junho 06, 2015

A MULHER INTEIRA E INTEGRADA



UMA LEITORA...

"Também nunca entendi essa história de se falar em sagrado masculino num estudo que deveria estar centrado na Deusa. Não é negar ou excluir a parte masculina pois é urgente que o homem se encontre e seja íntegro. Só que fica parecendo que estes grupos femininos estão dando um passo maior do que a perna. Como falar em integrar feminino e masculino, seja lá o que for que isso significa, se a maioria das mulheres sequer têm conciência do seu feminino ou do que fazer com ele? E que masculino é esse, se não nos reconhecemos, como identificar o masculino diante de nós?
Somos nós mesmas nossa primeira e maior referência, se não temos consciência do que há de mais precioso e viceral em nós, nossa deusa interna, nossa própria sacralidade, como seremos capazes de reconhecer o sagrado no homem?
Penso que temos que ir com calma, começar com o básico. Há lugar para esses estudos para aquelas mulheres mais adiantadas contudo acho que sejam pouquíssimas. Vejo pressa nos outros, parece uma coisa fast food da Deusa. Naturalmente, falo como mera observadora pois venho buscando informações sobre Ela e vejo muitos estudos tendo como uma das premissas essa tal integração fem-masc e nem sempre encontro a conexão pura que a Deusa precisa para nos tocar. Sinto que não estão pavimentando e honrando corretamente o caminho para Ela.

Falam que a "força" é característica masculina, tendo sido as mulheres alijadas dela, buscar o masc. em si seria uma maneira de desenvolver esse lado. Mas será mesmo que a Deusa carece de força própria? Será que precisamos ir buscar no "vizinho" a nossa força? Raciocínio análogo também serve para os homens, se bem que eles tem a questão de terem seus corpos gerados e alimentados por uma mulher-deusa, da mesma forma que as mulheres, essa ligação é muito forte e primitiva. Mas mesmo assim penso que eles têm suas próprias versões do que é sutil, amoroso, intuitivo, acolhedor etc.

Enfim, acho que tudo o que buscamos sobre a Deusa está em nós mesmas e nas outras mulheres. Aceitar, reconhecer e interagir com o masculino é um processo necessário mas secundário." - Liana
***

RESPOSTA REVISTA E ACRESCENTADA...

SIM, É urgente estarmos atentas a mais este atentado muito subtil e tentador feito pelas próprias mulheres em nome da deusa...
Na verdade elas nem se apercebem que isso serve  apenas para nos afastar da nossa busca de integridade em nós mesmas e  caíram mais uma vez na armadilha do homem e não tem consciência nenhuma disso...Elas não percebem sequer como devíamos e devemos buscar e seguir sim, uma via verdadeiramente feminina e ontológica da qual se perderam e nõa buscar a nossa força no homem.
Isso seria não só impensável, voltar a  ir buscar a nossa força ao masculino, como algumas mulheres promulgam nesse sentido e, como disse muito bem, no  fast food da Deusa, como seria totalmente absurdo pois corríamos o risco de continuar sob o jugo do patriarcalismo, mais uma vez e outra vez!
E essa visão redutora do poder intrínseco da Mulher em si - transformada em objecto de procriação e objecto sexual - que a reduziu a uma dupla função e portanto a uma divisão do seu ser em duas - é essa a cisão de que falo - e da sua força interior mutilada não é mais do que  um novo atentado à busca da integridade da mulher e um deturpar mental e masculino do seu poder interior e ctónico que tanto temem os homens. A meu ver não há um "masculino sagrado"...mas um Feminino Sagrado, apontado por todas as tradições antigas tendo a Mulher como iniciadora do homem de um feminino que o homem deve integrar em si...e aí sim, ele pode aceder ao SAGRADO EM SI...através da mulher e não entre homens como movimento ou círculo - porque eles trabalham em pirâmide e em hierarquias e as mulheres em círculo = óvulo = utero... como as mulheres buscam hoje.
O que acontece é que eles procuram agora desse modo, imitando mais uma vez as mulheres em circulo,  fazer tal como o fizeram os padres da igreja católica, copiando os paramentos e vestes das mulheres, tal como fizeram com o feminismo, adoptando-o e deturpando-o,  para impedir de novo a mulher de mergulhar no seu verdadeiro SER, como MULHER INTEIRA, sem cisão e portanto uma mulher plena e integral.  

A mulher está efectivamente hoje muito mais ligada ao seu lado masculino, como não podia deixar de ser numa cultura dominante e totalmente masculina, e isto durante séculos, muito mais do que  jamais neste tempo todo esteve ligada ao seu feminino ontológico no qual perdeu a sua inteireza diria. Sim, o Grande Feminino, tal como a Grande Mãe, perderam-se completamente nos confins dos tempos, alienando a mulher desse seu poder interior e da sua consciência da Deusa Mãe, para se vincular e servir o Pai e o filho, em detrimento da filha e dela mesma!
O feminino que a mulher usa hoje, com que se julga e afirma ser ela mesma...e na forma como ela se expressa, é um falso feminino, é um feminino diria algo travestiado, resultado do que o homem pensa e tem definido (e escrito) sobre a mulher através da cultura e da arte há dezenas de anos.
Nós não sabemos nem estamos em contacto com o nosso verdadeiro feminino, o feminino de profundidade, o feminino sagrado, o feminino ontológica o da Matriz da nossa história. 
Apesar do trabalho das feministas sobre a mulher social e política e de lhe devermos muito, elas não contribuiram também em nada para essa consciência (que não tiveram - mesmo mulheres psicólogas de renome) da divisão das mulheres em si e aceitaram sempre como inevitável essa cisão e divisão das mulheres em duas, entre a "santa e a puta", como se fosse natural haver duas espécies de mulheres!

Por isso todo o esforço do nosso trabalho deve ser feito agora  nesse sentido de unir esses dois aspectos da mulher dentro dela (o sensual e o maternal, o instintivo e o sexual) - IR AO SEU ENCONTRO AO ENCONTRO DA MULHER ANCESTRAL - e não integrar mais masculino sobre masculino (a mulher j´está totalmente masculinizada)  sem fazer a descida ao nosso centro, ao funda da terra, ao magna das suas terras uterinas às suas águas primordiais) ao nosso fundo mais fundo do SER MULHER, esse incomensurável universo feminino puro...que nos foi interdito e inacessível durante séculos.
O medo secular e atávico do patriarcalismo do Poder da Deusa e da Mulher é aquilo que os homens mais recearam  desde o princípios dos tempos e que receiam ainda...Vida e Morte sempre associadas, o oculto e o transcendente, a mística e a sacralidade da maternidade, tudo isso o afronta e por isso esta investida perigosissima se volta a manifestar contra a força natural da Deusa e da Mulher que desperta para ela mesma, afirmando-se que o poder da mulher está na sua força masculina...
A Grande Deusa e a Verdadeira Mulher, estão indissociávelmente ligadas, e o Aparecimento de uma, passa pelo re-aparecimento da outra...
Quando a mulher encontrar o seu verdadeiro feminino, e para isso ela tem de "esquecer" e ignorar completamente nessa descida o masculino, o pai e o filho, para assim poder mergulhar no seu fundo abissal do qual foi desviada precisamente pelo masculino (servir pai filho e família) para poder ser assim ser dividida e dominada à vontade pelas forças involutivas de controlo do mundo.

"Uma verdadeira capacidade de relacionar-se tem uma dimensão sagrada. Entre indivíduos é um Eu-Tu, um reconhecimento de alma para alma, e não existe nenhuma hierarquia..."*
 
Rosa Leonor Pedro

*In As Deusas e a Mulher Madura
de Jean Shinoda Bolen

sexta-feira, junho 05, 2015

AS BISPAS...

NÃO, CÉUS, NÃO É POR AI...

"As mulheres a quererem ascender na hierarquia da Igreja Católica são como os negros a quererem aderir ao KU KLUX KLAN"...
 
 
"Uma vez que Deus é um ser espiritual, a pergunta se é Ele é homem ou mulher é certamente redundante. Um grupo de mulheres na Igreja da Inglaterra querem se referir a Deus como “Ela” e abandonar o uso da linguagem e imagens para descrever Deus como exclusivamente masculino na liturgia. Por que os homens devem ter mais qualidades divinas do que as mulheres, quando todos nós sabemos que é o oposto?
Se Deus é um ser todo-poderoso, capaz de dar a vida, estar em toda parte ao mesmo tempo é infalível. É claro que ele é uma mulher.
O apoio para se referir Deus como “Ela” e reescrever a sua liturgia oficial, está crescendo dentro da Igreja da Inglaterra após a seleção das primeiras mulheres bispas.
Um número crescente de sacerdotes já inserem, informalmente, as referências "Ela" e "Mãe" em textos tradicionais, como parte do movimento para tornar a linguagem no culto mais inclusiva.
(...)
 
 
Bispa Libby chega para o serviço de consagração na Igreja de York  | Foto: PA / Lynne Cameron
As chamadas para uma revisão completa da liturgia para reconhecer o estatuto de igualdade das mulheres já foram discutidas informalmente, a nível superior.
A mudança vem ocorrendo após o "Transformations Steering Group", um órgão que se reúne no Lambeth Palace para examinar o impacto das mulheres no ministério na Igreja da Inglaterra, ter feito um apelo público aos bispos para incentivar "uma inguagem e imagem expansiva l sobre Deus".
Hilary Cotton, presidente do Women And The Church (Watch), o grupo que liderou a campanha para a consagração das bispas, disse que a mudança da linguagem patriarcal tradicional  no Book of Common Prayer encontra-se em "estágio avançado" em alguns setores.
"A realidade é que, em muitas igrejas do país, estão usando algo mais do que a linguagem masculina padrão a respeito de Deus", disse ela.  "O clero, tranquilamente, já está falando de Deus apenas como "Ela" de vez em quando."
(...)
***
AS MULHERES NÃO TEM QUE SER PADRES OU MADRES OU BISPAS - MAS MULHERES E SACERDOTISAS DA DEUSA MÃE OU SOPHIA...E NUNCA DA SANTA MADRE IGREJA
 
Toda esta questão é absolutamente ridícula e absurda...não é afirmando que deus é deusa ou mulher que as mulheres vão ser MULHERES...o problema mais uma vez inverte-se...e as mulheres estão agora a ser na igreja tal como na vida os travestis dos homens, copiando o seu modelo, imitando os seus modos e comportamentos - pouco adianta chamar-lhe deus ou deusa, She ou He...
 
É verdade que,  tal como nos diz Jean Markale no seu livro LA FEMME CELTE, "Suprimindo a noção de Mãe-Divina, ou submetendo à autoridade de um deus-pai, desarticulou-se o mecanismo instintivo que fazia o equilíbrio inicial: daí advém todas as neuroses e outros dramas que sacodem estas sociedades paternalistas."  Mas não é agora imitando os padres que as mulheres vão defender o lado feminino de deus ou a deusa.
 
Sim, nós sabemos e isso é incontestável que as Sacerdotisas da Deusa, quando a Grande Mãe era a detentora da ordem e dos templos, o seu culto  era DIRIGIDO SÓ por  mulheres que cumpriam as praticas, ou os ritos iniciáticos, sendo um facto que os homens, os padres  copiaram as suas vestes e paramentos,  como segundo o mesmo autor e o mesmo livro o "padre que oficia nos seus trajes de cerimónia, todos de origem feminina, e o travesti, castrado ou não, obedecem a um mesmo desejo. Destapar uma ponta do véu, descobrir o famoso véu de Ísis."
Sem duvida que eles  usurparam os lugares das mulheres em todos os sectores da vida religiosa e interditaram a mulher um lugar nos púlpitos, impedindo-as de falar e ter voto na matéria ...mas dai a as mulheres agora quererem ir para dentro da Igreja católica inverter a ordem que já foi invertida na sua origem é simplesmente uma aberração e um caos. Porque estas Mulheres Bispas ou padres - madres?  não são MULHERES, elas são apenas fragmentos ou estereótipos de mulheres cindidas dentro do mito ou história bíblica e a serem agora Bispas seguem uma linhagem ou uma linha de crenças e costumes que é totalmente patriarcal e que as excluiu e que as converteu em seres secundários e pecaminosos.
Por tudo isto creio que é um absurdo e ridículo as mulheres quererem ser agora travestis padres...e falar em nome da Deusa, porque a Deusa tem a ver com a Mulher integral, a Mulher total e nada a ver, mais uma vez,  com estes simulacros de homens...
 
 
rosaleonorpedro
 
 

quinta-feira, junho 04, 2015

Normalmente as doenças mais graves são de origem psicossomática…



A maior parte dos problemas que temos
derivam da falta de sinceridade e de verdade entre as pessoas.


Normalmente as doenças mais graves são de origem psicossomática…
Há uma inadequação entre aquilo que somos verdadeiramente no fundo de nós mesmos, e a imagem que de nós queremos passar aos outros, e isto é especialmente verdade quanto às mulheres por elas estarem sujeitas a uma grande repressão da sua verdadeira natureza instintiva e intuitiva, e daí de facto sofrerem mais de doenças degenerativas.
Mas é igualmente verdade para os homens, embora estes não sofram tanto dessa pressão pois à partida estão mais confiantes por serem machos e acabam por ter mais confiança no seu poder…
Por isso, sinto ser um imperativo maior obedecer aos impulsos do nosso coração na busca de uma sinceridade e confiança no que somos, a fim de franquear as barreiras comuns do medo e dos complexos de superioridade ou de inferioridade que todos temos baseados no medo de não se ser amado, ou de não se ser aceite pelo que realmente somos, e consequentemente de não se poder confiar ao próximo a nossa verdade…

O maior sofrimento do ser humano advém do facto de
querer mostrar ou provar ser uma coisa que não é…


Isso acontece quando queremos corresponder às expectativas que foram geradas e projectadas pelos nossos progenitores ou pelos namorados, amantes ou maridos etc.
É essa sisão em nós (sobretudo em nós mulheres na divisão das duas mulheres) que provoca a curto ou longo prazo toda a espécie de distúrbios a nível emocional e psicológico, e é ainda devido a esse stress enorme e luta interior contínua, entre o que se é e o que se quer ser, digo aparentar, na maior parte das vezes de forma inconsciente, que acabamos vítimas de doenças e depressões graves…

Devíamos por isso confiar MAIS no nosso coração, no ser e não no parecer, na nossa inteligência não racional, o nosso lado intuitivo, o lado feminino do ser… devíamos deixar de ceder à essa carga infernal dos meios de comunicação e consumo e de entretenimento que nos exigem uma imagem e nos escraviza ao sistema.

A pior poluição que afecta a Humanidade é a poluição mental.
A sociedade marcha nesse ritmo acelerado para o seu fim numa cadeia cada vez maior em produzir-consumir e morrer, impelida pelos meios de propaganda e da publicidade que nos faz consumir tudo para compensar todos esses medos e complexos…
Assim, torna-se imperiosa a necessidade de uma compensação material para se ser alguém: ter a casa fantástica, o carro de marca, a roupa de estilo e o culminar no corpo ideal, mutilado e transformado até à castração (o mudar de sexo), para responder a uma imagem ou a um padrão de consumo obrigatório…

Se olharmos para as auto-estradas cheias de carros e formos a um Super-Mercado ao fim de semana, todos sentimos a asfixia e o peso da loucura a que todos nós chegámos…

(publicado na Revista Espaço & Design em 2003)
Rosa Leonor Pedro

CONFIAR NAS MULHERES...




Ninguém espera que as mulheres de um dia para o outro, depois de séculos de rivalidade e competição acérrima com as outras mulheres, possam ser amigas e confiar incondicionalmente umas nas outras...

Não pretendo nem nunca pretendi ou defendi isso. Já vi muito bem e durante muitos anos a forma como, simulando que estão em sintonia umas com as outras, as mulheres, em pequenos ou grandes grupos, mesmo partilhando coisas e ideias  comuns, tudo muito lindo à partida, tudo  muito conivente, ou muito cor-de-rosa, sejam elas espiritualistas, feministas ou revolucionárias, intelectuais ou politicas, seja no trabalho, as mulheres, sim, as mulheres, á primeira oportunidade lhes salta a inveja e a raiva, a competição e a tentativa de superiorização...e isto sem se dar por isso....mas por vias ínvias aparece sempre uma a querer vencer a outra ou a ganhar protagonismo num grupo ou a lutar para passar por cima da outra e ainda como se forjam amigas e admiram ou competem para ser mais amigas de A e de B para se manipularem as situações para haver ascendência afectiva ou de outros interesses, reproduzindo velhas cenas familiares de intriga antiga entre amigas irmãs e mães...etc.
O pior é que tudo isso se passa de forma inconsciente e sub-reptícia...Há muita susceptibilidade a permear esses encontros...

Por isso aconselho a todas as mulheres que convivem e vivem em grupos, que reúnem para fins alternativos, a uma grande vigilância sobre si e atenção ás suas reacções e sentimentos...às suas antipatias e simpatias...pois por vezes manipulamos e somos manipuladas afectivamente e não percebemos porquê nem como.
Para se estar com mulheres em grupos, virtuais ou não, é preciso ter muita consciência psicológica...saber muito bem de si e ter um grande despojamento do ego.
O ego é um inimigo sempre à espreita (eu sou boa eu sou melhor do que ela e eu sou assim e assado, eu sei tudo e ela não sabe nada, eu sou a mais bela...) quando não é apenas a protecção natural de uma persona social...que todas somos obrigadas a usar em comunidade ou em sociedade e sem ele corremos o risco de sermos engolidas pela mente alheia. Não digo que isto se passe só com mulheres mas é com mulheres muito  mais acentuadas  estas questões do que entre homens, fruto dessa velha e antiga trivialidade e competição...vejam só...pelo macho!
Mas quando chegamos a um certo nível de entendimento e de consciência e queremos fazer  um trabalho em profundidade com mulheres e a sua realidade e o seu saber milenar,  isso implica sinceridade e abertura, entrega e confiança e então temos de deixar cair as máscaras e perder o medo...temos sempre que arriscar um pouco...mesmo que não seja 100 por cento garantida a confiança, o que é mais do que normal, é possível confiar um mínimo dentro destas premissas.
Senão fizermos isso também não se faz nenhum trabalho válido em grupo e  estamos  apenas a fazer de conta...que somos mulheres em busca de si...
Contudo confiar umas nas outras é preciso.



Republicando
Rosa Leonor Pedro



 

MULHERES E AMIGAS?



“As conexões com e entre as mulheres são as mais temíveis, mais problemáticas e as forças mais potencialmente transformadoras do planeta.”  Adrienne Rich

terça-feira, junho 02, 2015

AS DEVOTAS DO SENHOR...e do OM...

 
 
Devotas de senhores não me arrepiam, acho-as apenas candidamente ignorantes.
Arrepiam-me sim...as que pensam que são deusas, devotas da Deusa, representantes da Deusa, escolhidas da Deusa, que dançam para atrair sexualmente homens, que canalizam a Deusa mas as canalizações consecutivamente fazem uso da palavra "Eu Sou" (mas não foi isso que disse a Árvore Incandescente a Moisés?) , que acham que s
ão os homens que mais as entendem e não as mulheres, que se escandalizam perante outras linhas de espiritualidade que não as suas (no bom espírito inquisidor), que se ajoelham perante a Deusa e pedem vingança e castigo para uma outra mulher que invejam, as que têm um corpo dotado com vagina mas que servem os mesmos paradigmas sociais-executivos-legislativos-governativos masculinos!
E acrescento à colecção, as aprendizes de pagãs que mantêm uma mentalidade maniqueísta, as mulheres que se juntam em grupos para tentar vencer outras mulheres, mulheres que se escondem por detrás das palavras ou da imagem de uma mulher que consideram forte para tentarem vencer uma mulher que não conseguem vencer pelos seus próprios meios.
Sim, estas mulheres existem e estão votadas ao meu desprezo!
 

A DIVISÃO DAS MULHERES



A OUTRA ...


Nós mulheres ainda estamos pagando nossas contas com o mundo patriarcal, pagando pelas que nos antecederam, e que se amalgamaram a esse sistema. Ainda somos as devedoras pelo crime da insubordinação cometido por nossa mãe Eva contra o Criador, pelos anseios que Sophia tinha por seu Amado, assim como ainda somos cativas da reação pelo medo e temor despertado por Lilith, a Bruxa Primordial, em nossos antepassados.
A quem Lilith ameaça? Às Instituições, ao casamento est...abelecido, às regras, à submissão, ao sistema de valores advindos do patriarcado.
Fomos todas separadas e isoladas desde nossa mais tenra infância em boa ou má, feia ou bonita, desejável ou não desejável, casável ou titia, Lilith ou Eva, enquadrada ou bruxa, esposa ou a outra.
Nosso destino foi a dualidade e nos agarrando em uma das extremidades como em uma brincadeira de cabo de guerra, cada vez mais nos obstamos ao contato com o extremo oposto, nosso rival e amiga, uma parte de nós mesmas, agora encarada como nossa antagonista.
Tal qual Hera, a deusa-esposa do Olimpo grego, projetamos em uma outra tudo o que somos capazes de entender como o mal, e isentamos de culpa por seus erros, o masculino.
Uma vez mais ferindo, castrando, agredindo e amputando a nós mesmas, em proporções iguais, ou ainda maiores, do que o ambiente em volta e o sistema foram capazes de fazer por nós.
Carregamos o sistema de valores vigente em cada uma de nós, ele está em nós e atua por nosso intermédio.
Nos esquecemos do quanto necessitamos de nossa sombra, tão negligenciada, que se encontra lá na outra ponta na brincadeira de cabo de guerra.
Cada uma de nós, ao longo de nossa vida, precisa soltar a ponta do cabo, ir pouco a pouco enrolando a corda e ir se aproximando da aceitação plena de nossa sombra rejeitada, se almejamos nossa totalidade.

Anna Geralda
in janeladaalmablogspot.com