sexta-feira, outubro 16, 2020

PORQUE NÃO TENHO ESCRITO...

  



É BOM QUE NÃO LEIAM...

"É de pequenino que se torce o pepino..."


Tenho tido muita dificuldade em escrever no Blog ou no facebook... uma espécie de alergia a este voyarismo... a forma despudorada como as pessoas se desnudam no sentido literal e figurado, a forma insana como desvelam a sua intimidade e expõem a suas mazelas e dores e sofrimento; como se alguém aqui estivesse interessad@ em saber de alguém, ou da sua vida intima ou do seu animal de estimação ou sequer o que pensam e acham disto e daquilo... Para quê estes directos a vender a sua purga, a sua verdade, toda a gente agora em directo... a dizer o quê? Da "sua" justiça? da sua crença...?

Vejo ainda a que nível de solidão e vazio o ser humano chegou que precisa se mostrar e vangloriar e expor a sua vida ao publico, ainda que se chamem "amig@s", sem perceber que somos todo@s estranhos perante uma realidade cada vez mais estranha e ANORMAL, asfixiante, literalmente. E teimamos em branquear tudo e alimentar a nossa ilusão de um mundo melhor e mais feliz??

Não, nada disto é normal, ainda que a normalidade seja apenas o domínio da mediocridade sobre a originalidade do individuo, mas esta Nova Normalidade de Hoje... em que se pretende viver com o MEDO e no terror, alimentados pelo ódio social - distanciamento social, familiar etc. dizem - e fazer o que sempre se fez: andar na rua, ir ao mercado, ir trabalhar, ir andar... ao café ou ao restaurante... com um trapo na cara enfiado como se fosse uma nova peça de vestuário, já moda... já motivo de fotos e risos e cores e simbolos (o club de futebol, o escudo nacional), e futilidades...é realmente impossível continuar A VIVER SEM VER ESTA LOUCURA.

E se eu escolher NÃO SAIR DE CASA não é por medo do vírus nem de ficar doente...é para não ver este triste e desumano espectáculo de animais amestrados, açaimados e rosnando uns para os outros, fiéis aos donos e prontos para um servilismo total, por uns trocos, por uns miseráveis ordenados e pensões etc. etc. Uma humanidade totalmente vendida a uma mentira que nos asfixia e mata todos os sentimentos... e eles começaram a matar a vivacidade das crianças, a impedir o mais genuíno do ser humano... o convívio e a fraternidade, sim, "é de pequenino que se torce o pepino..."

Não, esta "normalidade" do terror e do medo de viver eu não a quero , não quero viver num mundo de alienados e doentes mentais o mundo transformado num manicómio, isso eu não quero. Felizmente sou velha, e já não me resta muitos anos de vda... (enfim, que sabemos nós da morte e da vida), mas prefiro morrer isolada a olhar tantos doentes mentais à minha volta...e até mesmo este mundo virtual serve para nos enganar e iludir e manter a distância da realidade e das pessoas reais. Isto as Redes Sociais, já foram uma preparação para o afastamento social e da realidade. Andamos tod@s aqui a fingir que está tudo bem... e que somos muito humanos, sem ver a ARMADILHA QUE ISTO É TUDO.


rlp

O Si mesmo não se encontra em parte alguma da superfície do ser


O SI MESMO, O EGO E A INDIVIDUALIDADE

"...esta mente, esta vitalidade e este corpo mesquinhos que chamamos de nós mesmos (ego) são apenas movimentos superficiais, não são o nosso si mesmo de maneira alguma. São um fragmento externo da personalidade que, por gosto da Ignorância, chega a primeiro plano no decorrer de uma brevíssima existência. Esse ser parcial é dotado de uma mente ignorante que tacteia em busca de fragmentos de verdade; de uma vitalidade ignorante que se movimenta caoticamente em busca de fragmentos de prazer; de um corpo físico obscuro e predominantemente subconsciente que recebe impactos das coisas e sofre – não possui – a dor e o prazer resultantes desses impactos. Este estado de coisas é aceite e considerado como normal até ao momento em que a mente se enoja e começa a perguntar-se se por acaso não existe felicidade real: e o corpo físico se cansa e começa a libertar-se dele e das suas dores e prazeres. Então, esse fragmento da personalidade, ignorante e mesquinho, adquire a possibilidade de retornar ao seu verdadeiro Si Mesmo e aceder no conjunto a todas essas coisas superiores – ou então extinguir-se no Nirvana…

O Si mesmo não se encontra em parte alguma da superfície do ser, mas bem lá dentro e acima. Lá dentro existe a alma que sustenta a mente interior, a vitalidade interior e o ser físico interior, que tem juntos a capacidade de amplitude universal e, assim, ter acesso a todas essas coisas que foram concebidas – o contacto directo com a verdade do ser e das coisas, o gosto da bem-aventurança universal, o romper dos grilhões da mesquinhez e dos sofrimentos do corpo físico grosseiro.”

In UMA PSICOLOGIA MAIOR

Sri Aurobindo


UMA FICÇÃO: APOCALIPSE NOW




HOJE, como ontem... 

Primeiro os químicos...depois os fogos, depois as cheias e enxurradas, depois a migração em massa para as cidades...a fome e a desordem...a policia, a violência e os militares ...as cargas...a bomba nuclear? E ... os escravos a dançar e a cantar, os mortos vivos errantes, ao telemóvel, eles fotografam as mortes e o caos em directo...vamos assistir até ao fim sentados...Isto não é nada - é só mais um filme de Hollywood ...made in USA!
rlp
(Escrevi este  apontamento em 2015)

O mundo e os homens estão numa lenta agonia a caminhar para a derrocada final de todos os sonhos altruístas e comunitários, seja de uma humanidade justa, livre e fraterna, seja de uma qualquer salvação divina e colectiva ou de um amor qualquer ao "próximo"...mesmo que se pregue e se imite Cristo e se diga sim aos "migrantes e aos (in)fiéis" - vivemos à sombra de genocidios brutais que branqueamos. 

Sem falar do Holocausto das mulheres - perseguidas como bruxas e queimadas nas fogueiras da Inquisição aos milhares - ,em 1915 inicio do século passado, o monstruoso Genocidio dos arménios cristãos pelo Imperio otomano, islamicos ...e 30 anos depois dos judeus pelo Nazismo de Hitler da culta Alemanha e que os americanos herdaram...e agora temos genocidios por todos os lados...bem mais sofiticados. Como conviver com estas Sombras de horror e mortes calculadas quando tudo o que vemos a nossa volta é a queda desse véu e vemos já a grande mentira dos homens, a suas guerras macabras e o ódio... Já não há frestas, nem portas, nem janelas para utopias ou qualquer esperança de um mundo melhor. O mundo pertence agora completamente aos corruptos, aos ladrões, aos mentirosos, aos criminosos, aos políticos...e aos Partidos e Governos que representam TODOS, sem excepção, a escória humana dos que governam o mundo e que do alto dos seus fortes, bancos, ilhas e palácios manipulam o mundo e reduzem os seres humanos a escravos... 
 E tudo começa na grande mente  assassina  que cria o branqueamento colectivo!

 rlp

segunda-feira, outubro 05, 2020

ENTREVISTA POR CLARA FERREIRA ALVES


Entrevista com ANTÓNIO DAMÁSIO (excerto) por CLARA FERREIRA ALVES

 

É o mais reputado neurocientista nacional, há muito radicado nos Estados Unidos. Nesta conversa com Clara Ferreira Alves, essencial para compreender o mundo em que vivemos, vai da pandemia à política, da filosofia à ciência

CFA - Em Portugal, o documentário da Netflix “The Social Dilemma”, está a ser muito visto e comentado nas redes. Os efeitos nefastos das novas tecnologias, e o enriquecimento não à custa da venda dos nossos dados, mas do uso espúrio desses dados, obtidos através dos metrics, do código, para obter um efeito algorítmico. Para modular os cérebros e assim predizer os comportamentos e gostos, vendendo essa modulação aos anunciantes, às corporações. Enriquecimento através do controlo invisível das nossas mentes e vontades. Uma teia invisível e uma máquina de rendimento, que se sabe ser hoje a base do Facebook, por exemplo. Dinheiro. Pior e muito mais sofisticado do que o Big Brother. O que dirá um neurocientista disto? O nosso cérebro modificar-se-á? A nossa cognição será propriedade alheia?

 

AD “O nosso cérebro modificar-se-á primeiro do ponto de vista prático e depois do ponto de vista estrutural. As pessoas adotam certos comportamentos porque eles funcionam. É um problema maior que está ligado a outro, o de respeitar ou não respeitar os afetos. Uma das características do mundo de Silicon Valley e que tem a ver com a personalidade das pessoas que criaram esse mundo, é o cuidado extremo e atenção a tudo o que é cognitivo. Processos intelectuais, processos de recolha de dados. Processos de manipulação de dados e de raciocínio. Esses criadores têm querido fazer isto da forma mais pura, para obter o melhor e mais rápido resultado. O algoritmo triunfante. E menosprezando, não prestando atenção, ao que é afectivo. Não há qualquer dúvida, mesmo as pessoas que não têm preocupação com afetos e querem a razão dura e pura, a objetividade dos dados, fazem escolhas constantemente. E as escolhas têm a ver com os afectos. Sobrevalorizar os dados e menosprezar os afectos. É impossível compreender seres humanos sem prestar atenção ao afecto.”

 

CFA - O like seria uma expressão do afecto?

 

AD - “O like acabou desvalorizado, demonstrou que é impossível estar fora de uma valorização dos afetos. Silicon Valley, espalhado hoje por toda a parte, criou um desequilíbrio entre a vida e a biologia. Hoje, posso dizer com toda a confiança que não é possível ter consciência sem ter afeto. Durante muito tempo quis equilibrar esta minha ideia, antiga de 20 anos, com o raciocínio, como formas de controlar a mente humana. Não há consciência sem sentimento. A consciência começa no momento em que há sentimento. E não é possível compreender a consciência sem compreender a relação entre mente e corpo. E não só para os seres humanos. A mente existe e atua dentro do corpo. O sentimento é o processo biológico que permite essa relação. É um processo híbrido. O sentimento que temos do estado do nosso corpo. Acabei de escrever um livro, ‘Feeling & Knowing’, sobre isto. Escrevi vários ensaios sobre isto, e acabei de dar uma conferência sobre isto. Pedi aos editores para porem assim ‘Feeling & Knowing’, ‘&’ em vez de ‘e’. E todos estes problemas de que temos estado a falar, os animais, a pandemia, as tecnologias, têm a ver com a mesma coisa. Ascendemos à consciência através do sentimento. Mesmo os vírus e as bactérias têm uma competência intelectual. Uma competência evolutiva e reprodutiva, uma competência para a administração dos problemas. Devido à ligação entre o sistema nervoso e o corpo ascendemos à possibilidade de sentir. E de ter consciência. E aqui acontecem coisas muito boas e muito más. A boa é a capacidade de conquistar o mundo e transformá-lo à nossa medida. A coisa muito má é que podemos sofrer.”

 

CFA - Já posso dizer com toda a confiança que não é possível ter consciência sem ter afecto E em que categoria dos afetos entram as baixas e primárias paixões? A raiva, o ódio, a desconfiança, o egoísmo, a agressão, tão visíveis na política populista ou em grupos extremistas como o QAnon? Ou na linguagem das redes? Tão visíveis no nazismo? No estalinismo? Comportamentos que fazem as bactérias parecerem mais expeditas. Quase mais conscientes. As baixas paixões não conduzem ao nosso bem-estar nem à homeostase.

 

AD - “As bactérias têm certas vantagens, se quisermos ter humor. Essas paixões não são a negação da homeostase mas contribuem para a sua perda. Todas estas reações emocionais têm um lado protetor. O medo e a raiva são sistemas de defesa. Houve momentos históricos em que não seríamos capazes de nos defendermos do agressor sem o medo. Quando tens uma emoção como a gratidão ou a compaixão crias bem-estar, para ti e para os outros. Os benefícios destas emoções, do amor, da alegria são ótimos porque duram, são longos. Tem uma curva temporal longa. Na raiva e no medo a curva é rápida. Veja-se a inveja, que pode levar um adolescente, por exemplo, a competir melhor. Mas logo a seguir, entramos em perda. Precisamos cancelar o processo, que é autodestrutivo. A superabundância de raiva e medo geram esses fenómenos que apontaste. Fenómenos de destruição.”

 

CFA - Em Portugal, a vantagem competitiva da inveja não parece óbvia. Detestamos o sucesso alheio e reproduzimos o ressentimento, sendo menos competitivos.

 

 AD - “Mas esse processo tem a ver com o modo com as sociedades evoluíram, não é estático, tem enorme variação, como todas as descobertas da natureza. Nós não inventamos as soluções, foram inventadas para nós. As emoções fazem parte do armamentário para lidar com a vida à nossa volta. E têm longos anos. Não aparecem nas primeiras criaturas vivas. Nas bactérias há aspectos emocionais, mas não há emoções. E muito menos sentimentos. A emoção está ligada ao comportamento e não à mente, nada tem de subjectivo. O que é subjectivo é o sentimento. A emoção é a reacção ao exterior, é comportamento, e o sentimento é a forma como aprecias mentalmente a reacção. Até ao momento em que aparecem os primeiros sistemas nervosos, há cerca de 500 milhões de anos, a possibilidade de ter uma emoção existe, mas a possibilidade de sentir não existe. Um vírus não pode sentir. É improvável que a nossa vida mental, a tua e a minha e a de todos, exista há mais de 100 mil anos. Existem prolegómenos. A mente humana é muito recente.”

 

in EXPRESSO, 26 de Setembro, Edição 2500

A Ela Desconhecida Sabedoria Feminina para uma Nova Era

 

Existe uma dimensão de sabedoria divina particularmente natural para as mulheres? E em caso afirmativo, qual o papel que desempenha na evolução espiritual da humanidade? Essas perguntas me levaram de um mosteiro budista no sopé verde-dourado do Himalaia a Glastonbury, um lugar de lendas arturianas; do caos de Las Vegas à escuridão quente de uma cabana de suor em Denver. Por dois anos trabalhei em estreita colaboração com oito místicos - sete mulheres e um homem - de uma ampla gama de tradições, incluindo Lakota Sioux, Sufismo, Budismo e Xamanismo da África Ocidental, o tempo todo em busca de pistas que ajudassem a desvendar as muitas faces de uma consciência espiritual que um colaborador chama de Ela Desconhecida. Esses místicos responderam minhas perguntas com poder e clareza, indicando que uma dimensão feminina do divino está emergindo em nossa consciência coletiva e que, ao nos alinharmos com essa sabedoria, podemos ajudar o mundo a passar para a próxima fase de sua evolução espiritual. Eles apontam que este mundo e seus recursos - humanos, ecológicos e espirituais - estão sendo rapidamente esgotados em parte por valores patriarcais desatualizados relativos à vida e nosso relacionamento com Deus. Uma orientação patriarcal, que guiou grande parte de nossa compreensão espiritual nos últimos dois mil anos, revelou o sagrado além das limitações da vida mundana, permitiu um distanciamento das restrições do corpo e nos despertou para realidades muito além do mundo físico . Mas o divino está vivo e mudando e anseia por se revelar de novas maneiras. Os céus não são mais a fonte de nosso sustento espiritual. Quando olhamos para o céu em busca de respostas que não existem mais, deixamos o mundo para trás em uma névoa de esquecimento, alienação e desespero espiritual. Ao nos alinharmos com a consciência feminina divina, podemos chamar Deus dos céus e começar a retificar a divisão entre espírito e matéria, luz e escuridão, e céu e terra que caracterizou nossa era recente. Este não é um retorno aos tempos matriarcais, mas uma união da sabedoria feminina eterna com os frutos da consciência masculina contemporânea, um novo equilíbrio que dará origem à próxima era na consciência espiritual. Nesta volta da espiral em nossa evolução, podemos despertar com uma consciência de unidade que a vida nunca conheceu. A própria vida se tornará viva de uma nova maneira, o coração do mundo pode começar a se abrir e recursos não descobertos do planeta começarão a se revelar. Quando me encontrei com esses professores inspiradores - Sobonfu Somé, Ani Tenzin Palmo, Lynn Barron, Angela Fischer, Andrew Harvey, Ginny Matthews, Pansy Hawk Wing e Jackie Crovetto - pedi instruções práticas sobre como consertar essas divisões e reconhecer a presença divina dentro vida. Cada um me orientou a me voltar para as qualidades femininas dentro de mim e honrar as qualidades femininas do mundo. Para as tradições espirituais femininas, eles apontaram, e os elementos místicos dentro de muitas tradições espirituais, sempre nos mostraram que o mundo criado é sagrado, que a luz está escondida na escuridão, e que o caminho para casa é através do serviço amoroso à unidade orgânica de da qual todos fazemos parte. Homens e mulheres têm um papel a desempenhar nestes tempos. A sabedoria feminina contém muitas respostas e temos a responsabilidade de reconhecer sua presença e permitir que surja como uma força no mundo. E as mulheres têm uma responsabilidade particular neste processo.

A consciência espiritual das mulheres, que guarda o segredo de como o espírito e a matéria se unem para criar uma nova vida, é necessária para o processo místico que está ocorrendo dentro do todo. Para atender às necessidades desta nova era, as mulheres devem realmente viver quem são sem hesitação e deixar para trás padrões de insegurança, dependência e medo que as inibiram de expressar o que sabem ser real. Os homens podem servir desenvolvendo sua própria natureza feminina e também apoiando e protegendo as mulheres enquanto elas aceitam suas responsabilidades durante esses tempos de mudança.

 

Como descobrimos e vivemos nossa sabedoria feminina? O primeiro passo, concordam muitos desses místicos, é descer da montanha, descer da postura transcendente que há tanto tempo caracteriza nossa espiritualidade e tornar-se realmente parte da vida.

 

Descendo da transcendência

Em uma fria noite de outubro, me sento com Andrew Harvey, acadêmico, tradutor e místico, em um parque deserto perto de sua casa em Las Vegas. Observando as cores vivas do deserto brilharem nos penhascos diante de nós, discutimos a ênfase das religiões patriarcais na transcendência. Por muito tempo, as principais religiões do nosso mundo nos direcionaram a Deus, afastando-nos da vida comum na Terra. Práticas ascéticas, que incluem uma supressão ou transmutação de energias instintivas, como sexualidade e outros desejos, foram enfatizadas. Os aspirantes espirituais se esforçam para ir além dos apegos e responsabilidades neste mundo para estar com um Deus que existe em outro lugar. O lado sombrio dessas abordagens, explica Andrew, nos alienou da glória e da maravilha da própria vida. 'Tudo o que você já ouviu sobre o divino é prejudicado por distorções patriarcais que definem o divino quase obsessivamente em termos transcendentes, não imanentes', afirma Andrew. 'O vício da transcendência mantém todos em coma. Esse vício é, na verdade, a heroína definitiva porque o mantém alto, absorvido em si mesmo e falsamente desligado.'

Durante todas as minhas reuniões, a mensagem era a mesma - precisamos entrar plenamente na vida, pois é aqui que nosso amor e atenção são necessários. Quando desenvolvemos nossa consciência espiritual por meio do envolvimento na vida, nutrimos a vida como parte de nosso próprio processo de evolução e ajudamos a despertar o mundo para sua natureza divina. Sentada com Angela Fischer à mesa de piquenique em sua casa no norte da Alemanha, seus filhos brincando atrás de nós no quintal, esta sufi me pergunta, sorrindo: 'Por que não ir a Deus abraçando a vida? Por que não se render a Ele enquanto dança, para que Ele possa celebrar Sua beleza e Sua alegria através de nós? '

Quase dois anos depois de minhas conversas com Andrew e Angela, me encontro com Ginny Mathews, uma freira ordenada por leiga na tradição Rinzai Zen, em sua casa no norte da Califórnia. Bebendo chá com Ginny no domingo de manhã enquanto seus filhos dormem em seus quartos, discutimos a armadilha de muitos buscadores espirituais de projetar Deus além de nossa experiência comum. 'Acho que tendemos a identificar erroneamente os estados espirituais como' transcendentes', Ginny me disse. “Como se, ao experimentar esses estados, estivéssemos acima ou além de algo. Portanto, somos encorajados a lutar por algo 'acima' e 'além'. Claro que é verdade - a pessoa vai além das limitações do ego. Mas não é mais correto dizer que esses são estados de presença real? Eles refletem algo de nós realmente estarmos aqui? Para mim, eles dependem até de um enraizamento na terra. Eles incluem meu centro de gravidade, minha fisicalidade. ' Mais tarde, ela continua, 'Tudo morre sem forma e emerge da ausência de forma. Tudo morre e nasce. Mas transcendência não é morrer nem nascer. A transcendência é apenas uma fuga. '

Sobonfu Somé, um xamã da África Ocidental, também enfatiza que o caminho feminino não é transcender a vida, mas estar totalmente conectado a ela. Conversando com ela em sua casa de campo na Califórnia em uma tarde de primavera, seu vestido africano brilhante e seu lenço na cabeça ecoando nas flores do lado de fora, ela explica: 'A energia feminina é uma energia de conexão. Meu poder vem de estar conectado com a totalidade da vida, com a grande teia de vida e luz que conecta tudo. ' Por meio de sua relacionalidade natural, as mulheres podem facilmente se tornar conscientes de sua conexão com uma teia de unidade, de luz e vida, que flui através do mundo e além. 'A teia de vida e luz contém sabedoria, conhecimento e uma energia de cura para o mundo inteiro', diz Sobonfu. 'Energia de cura que nos une e ajuda a limpar o que não é necessário de nossas vidas.' Pansy Hawk Wing, uma anciã Lakota Sioux que conheci em Denver, concorda que é por meio da conexão que o poder feminino flui e permite que o que é necessário seja dado. Um dos objetivos de Pansy é encorajar as mulheres a liderar mais cerimônias Lakota, trazendo assim o poder feminino de volta à sua tradição. O tempo de conquistas por superar os outros acabou, ela me diz enquanto nos sentamos à mesa da cozinha, observando a neve girando do lado de fora das janelas.

“O guerreiro está mais interessado em adquirir coisas. Ser o chefe de um território, exercendo poder sobre coisas externas. Adquirindo mais terras, mais cavalos, mais força. Este é o foco do guerreiro. Indo para fora. O aspecto feminino é: você vai para dentro e nutre. Você entra e ama, entra e traz equilíbrio. Assim fica mais forte. Isso permite a liberdade das pessoas. A liberdade de se conectar com o Espírito, a liberdade de caminhar nesta terra, a liberdade de ter acesso à segurança, ao cuidado e ao amor. '

 

Amor A dimensão feminina da consciência divina atua por meio do amor.

Como Lynn Barron, uma mística sufi, me diz quando visito sua pequena casa no deserto fora de Los Angeles, 'O amor é o elemento feminino'. O amor é um poder de conexão, de relacionamento, de unidade. O amor não conhece limites ou fronteiras, ele nos leva para onde somos necessários e nos traz o que precisamos. O amor nos une no nível físico e nos conecta através de muitos planos de existência para que energias superiores possam fluir para o mundo através de nossos corações. A própria Lynn foi aniquilada nas chamas do amor divino, seu ego foi queimado durante uma experiência mística de cinco anos. Ela foi tomada pelo amor e conduzida cada vez mais fundo em seu coração e além. Por fim, ela passou a viver em uma consciência que descreve como a Ela Desconhecida, um estado de puro ser. Sentada ao lado de seu fogão a lenha uma noite, na escuridão da noite do deserto, ela descreve o processo de descer do céu para o seu coração. 'A ascensão espiritual é trabalho, esforço. Você dá um passo de cada vez, passa por um estágio após o outro, aproxima-se cada vez mais da luz. Mas de repente a luz se torna tão brilhante que fica preta. E a descida começa. Você se rendeu e não depende de você. Você é levado pelo amor. Você se foi. Você está perdido no preto luminoso, no doce silêncio, no vazio dinâmico e vivo da Ela Desconhecida.' Como Lynn, muitos dos místicos com quem conversei enfatizaram o poder transformador do amor. Amar plenamente requer uma força incrível, pois nos desperta para nossas conexões profundas dentro e fora da vida, e nos deixa vulneráveis a como a vida e o divino precisam de nós. Quando viajei para a Inglaterra para visitar outro sufi, Jackie Crovetto, mãe de três filhos que trabalha meio período em uma clínica de saúde, recebi a mesma mensagem. O amor incondicional pela Verdade, ela explica, queima os apegos que surgem dentro do ego, revelando um amor infinito que unifica todas as experiências dentro de uma unidade divina. 'Se você ficar no fogo, fiel ao Amor, fiel ao anseio mais profundo do seu coração, uma estranha alquimia acontece. Suas expressões de amor se aprofundam e se tornam mais inclusivas; um amor irrestrito começa a permear todos os seus relacionamentos. ' Mais tarde, ela continua, seus olhos selvagens brilhando: 'O amor está no âmago do meu ser e está presente em todos os meus dias. E estar apaixonado é viver no amor, é estar vitalmente vivo! Cada momento nasce de novo. Isso é amor, amor que não conhece limites, que flui através do mundo criado e não criado, que traz o vazio à forma e traz a liberdade da morte a cada momento! ' O amor é uma energia divina dentro da vida e flui para a vida a partir de planos mais subtis, através da consciência de nossos corações. O amor é a chave da encarnação divina, de como o espírito e a matéria se entrelaçam e de como todos podemos nos relacionar em um estado de unidade divina. Ginny apresenta o paradoxal potencial do amor quando me diz em sua cozinha: 'Na vastidão do amor, podemos realmente nos encontrar.' Quando as mulheres realmente vivem o amor que já existe em suas vidas e aceitam a profunda vulnerabilidade que o amor exige, elas serão guiadas pelo amor no trabalho espiritual que precisam fazer. Como Angela me disse: 'O transcendente e sem forma se tornaram os objetivos, o mundo foi deixado para trás. E, no entanto, para as mulheres, isso vai contra a nossa natureza, que é estar envolvida, por meio do amor, em todo o processo de criação. '

Guiando amor e luz para a criação Místicos - homens e mulheres - sempre trabalharam nas fronteiras entre este mundo e o invisível, guiando o que é necessário do vazio criativo do além para a criação. As mulheres conhecem intuitivamente esse processo na consciência de seus corpos; manifesta-se em como elas recebem a alma de um ser no útero. E as mulheres sabem que suas responsabilidades não terminam com o processo de nascimento, elas permanecem conectadas por meio do amor ao que guiaram ao mundo. Todos nós podemos honrar essas qualidades instintivas e permitir que nutram a vida.

 

Como fazemos esse trabalho?

 

O primeiro passo é acessar o silêncio escuro dentro de nós. Em muitas tradições, o vazio escuro e silencioso é descrito como o local de nascimento de toda a criação. O budismo tradicionalmente identifica o vazio como um princípio feminino, conforme aprendi em minha viagem à Índia para me encontrar com Ani Tenzin Palmo, uma freira budista tibetana britânica que se mudou para a Índia quando tinha apenas 19 anos e passou 12 anos em retiro em uma montanha caverna. Sentada em seu pequeno escritório - fora do mosteiro onde as jovens freiras de seu novo convento estão temporariamente morando, ela resume uma compreensão budista do vazio. “O lado feminino é algo aberto, inclusivo, intuitivo. Esse vazio, essa qualidade espaçosa, inclui tudo, mas dentro de si não é uma coisa.' Jackie explica que o vazio é uma qualidade de nosso ser, às vezes reconhecida no amor. 'O amor tem um elemento de espaço infinito. Para participar da vida em um nível muito profundo, precisamos estar cientes desse espaço. E todos nós temos a responsabilidade de ser zeladores desse espaço - que é o silêncio receptivo, a quietude, que é onde o divino flui para a vida, um limiar onde podemos vir a conhecer Deus.' E Lynn nos lembra que o vazio não é apenas algo que buscamos, mas uma força viva que nos busca: 'Lembre-se, é dito que existe um tesouro escondido que anseia ser conhecido. Entre na luz dela e a luz dela o levará ao tesouro. Entre nesta escuridão luminosa, e Ela, que é o próprio amor, o levará cada vez mais fundo no amor. ' Acessar o vazio de nossa natureza real é o primeiro passo. Despertados no silêncio, veremos o que vem a seguir. Vulneráveis ​​ao amor, recebemos o que está sendo dado e o orientamos onde for necessário.

 

Texto por Hilary Hart

O LIVRO LILITH ,A MULHER PRIMORDIAL EM ACÇÃO


«Lilith, a Mulher Primordial - o Feminino e o Sagrado» de Rosa Leonor Pedro

Quando um dia parti em busca do Psicotelurismo, mal sabia eu que buscava a mim mesma, ao meu reverso, à mulher ancestral que eu sentia cristalizada nas paisagens ibéricas que me apelavam à alma, mais do que ao olhar, veios energéticos que eu seguia por apenas acreditar nas rochas.

Mas quando conheci «Lilith», percebi que algo faltava ao meu trabalho, algo que eu quase tocava, fugidio como uma serpente por entre a resteva da minha colheita meramente intuída. Faltavam-me as palavras certas para nomear esse vazio em mim, um direccionamento mais profundo que durante muito tempo procurei em vão na Alquimia, na Metafísica e na Psicanálise, quando estava tão-só no meu sentimento pela Terra e pelos seus vapores telúricos, no apelo mitocondrial dessa bactéria que habita o nosso citoplasma e que nunca esqueceu o chão prístino, mátrico, de onde proveio. Eu buscava, afinal, a Mulher, a humanidade genuína, aquela que a História dos homens apagou para que dela não tivéssemos hoje qualquer memória e caminhássemos cegas na aceitação religiosa de um Deus-Pai e da sua santa ciência corrupta e criminosa que nos separou da Natureza sem sequer tentar compreendê-la. Que nos separou da Mãe.

O trabalho da Rosa Leonor Pedro explicou-me o meu, o porquê de cada uma das minhas escolhas na senda da ancestralidade feminina, esquecida já pelas mulheres, jamais aprendida pelos homens.

As pedras são minhas avós, guiam-me os passos pelas veredas da vida, onde tantas vezes me perco e reencontro. Haverá ainda caminho neste mundo para quem como eu prefere abraçar o chão?

Isabella G. 

Imagem: «Lilith, a Mulher Primordial - o Feminino e o Sagrado» de Rosa Leonor Pedro
Fotografia: Justin Novello

quinta-feira, outubro 01, 2020

Uma Definição do Feminino

Desde que tive o sonho visionário da mulher cósmica, fico imaginando qual seria a mensagem dela. Por que essa imagem apareceu para mim e o que ela estava pedindo de mim? O que, em seu sentido mais profundo, significa a palavra "Feminino"? Como estou definindo neste livro, não se refere à atractividade sexual feminina que é tão promovida no mundo de hoje, nem às qualidades de cuidado e gentileza geralmente, embora não exclusivamente identificadas com as mulheres, nem à agenda feminista do empoderamento de mulheres num mundo masculino. Significa o reconhecimento de que vivemos dentro de uma Ordem Sagrada e que temos a responsabilidade de proteger a vida do planeta e toda a variedade de espécies que ele abrange, em vez de explorá-las para o benefício apenas de nossa espécie. Em suma, a palavra ‘Feminino’ representa uma perspectiva totalmente diferente da vida, uma visão de mundo ou paradigma da realidade totalmente diferente e os valores de sentimento que podem reflectir e apoiar essa visão de mundo. Significa uma nova consciência planetária e a árdua criação de um novo tipo de civilização. Sem nos reconectar com a Alma e com a orientação e sabedoria do Feminino, sem ir em busca dos valores que ela representa e abrir nosso próprio coração para sua orientação subtil, não entenderemos o propósito de nossa presença neste planeta, nem seremos capaz de enfraquecer as tendências atávicas inconscientes que nos aproximam cada vez mais da destruição de nosso habitat e, portanto, da auto-aniquilação. O ressurgimento do Feminino convida a uma nova consciência planetária onde os mais profundos instintos do coração em homens e mulheres - compaixão, inteligência informada e um desejo de proteger, curar e tornar completo - são capazes de encontrar expressão de maneiras que podem ser melhor descritas como devoção à vida planetária e cósmica. Christopher Bache, em seu livro extraordinário, LSD e a Mente do Universo descreve esse novo e poderoso despertar da alma: “A grande dificuldade que tenho é descrever a enormidade do que está sendo gerado. O verdadeiro foco deste processo criativo não são os indivíduos, mas toda a humanidade. Na verdade, está tentando despertar a espécie inteira. O que está emergindo é uma consciência de proporções sem precedentes, toda a espécie humana integrada em um campo unificado de consciência. A espécie se reconectou com sua Natureza Fundamental. Nossos pensamentos sintonizados com a Consciência da Fonte." À medida que se torna mais consciente em nós, já estamos nos tornando conscientes de nossa dependência, para nossa existência continuada, da integridade e sustentabilidade da biosfera planetária. Nossa imagem da realidade e nosso relacionamento com o planeta e uns com os outros estão sendo transformados à medida que assimilamos as implicações deste "casamento" dos dois princípios arquetípicos primários que, na Cabalá, correspondem aos pilares esquerdo e direito da Árvore da vida. O retorno do Feminino tem o impacto de um terremoto planetário, dissolvendo padrões sociais há muito estabelecidos, sistemas políticos e financeiros e instituições religiosas, pedindo uma transformação radical de nossos valores, nossas relações e nossa compreensão da vida. Acho que podemos encontrar esse novo impulso evolutivo reflectido em um desenho de Henry Moore, feito na época mais sombria da Segunda Guerra Mundial. Mostra um grupo de pessoas reunidas em torno de uma enorme figura, sua pequenez diminuída por sua altura elevada. Por baixo da mortalha e das cordas que a prendem no lugar existe uma forma feminina. Este desenho sugere que uma nova imagem do espírito, ou talvez uma imagem há muito perdida, estava despertando para a vida na alma colectiva da humanidade, esperando para ser desvelada, esperando para ser reconhecida e recebida por nós. As maiores esculturas de Henry Moore têm a mesma impressão feminina. Seus desenhos de “Abrigo” nos levam de volta ao útero materno escondido sob a terra - as passagens subterrâneas em forma de caverna onde buscamos refúgio enquanto bombas causavam a morte de nossas cidades. Muitas de suas esculturas e desenhos focalizam a imagem de uma mãe e filho ou a figura monumental de uma mulher. Seu trabalho aponta para o ressurgimento do arquétipo feminino na alma humana e o despertar global do Anima-mundi ou Alma-Mundo.

 

Texto de Anne Baring

 Pintura: Abrigo de tubo cinza, 1940, Henry Moore

quinta-feira, setembro 17, 2020

PRINCIPIOS, FEMININO E MASCULINO


 

 

"O primeiro estágio do "retorno do feminino" é redescobrir essas qualidades femininas frequentemente reprimidas, distorcidas ou rejeitadas por nossa cultura patriarcal dominante. Chegamos a reconhecer como elas são centrais para qualquer trabalho de transformação, para o trabalho de renascimento que por sua própria natureza pertence ao feminino. Compreender a sabedoria e a natureza transformadora do feminino (em homens e mulheres) é essencial se quisermos nos mover individual e colectivamente para fora da terra devastada criada pela consciência e valores masculinos, se quisermos despertar para uma consciência mais profunda e natural de nossa própria natureza, bem como a de toda a vida. Por exemplo, podemos mais uma vez aprender a ouvir a Terra, sentir seus ritmos e batimentos cardíacos e voltar à "grande conversa" com o mundo natural. O feminino pode nos dar as ferramentas de que precisamos para começar o trabalho de transformação individual e global."

Adaptado de um novo prefácio de The Return of the Feminine and World Soul, de Llewellyn Vaughan-Lee

 

MULHERES CONSCIENTES DE SI

 

Creio que as mulheres conscientes de si, que fizeram um trabalho profundo consigo mesmas, e que se mantem fiéis ao Principio Feminino, aquelas que não se promoveram à custa do seu corpo nem da sua beleza ou sexo, em busca de dividendos, nem puseram o dinheiro e o seu ego acima dos valores comuns da Deusa e da Mulher, valores de união e sororidade, possam manter uma verticalidade e inteireza no seu conjunto e espero que não deixem que uma causa como o FEMININO SAGRADO se transforme numa bandeira de arremesso, uma banalidade comercial, ou uma forma de iludir e enganar as mulheres menos conscientes que se buscam valorizar e são desviadas para a promessa de uma união feliz com o masculino sagrado...criando novos mitos amorosos, praticas fraudulentas, repetindo os mesmos erros. Elas não só se desviam a si mesmas dos caminhos iniciáticos femininos como estão desviando as mulheres do trabalho de desbravar o seu caminho interior da mulher selvagem, sim, "Mulheres que correm com lobos" (e não com homens...) juntando-se ao homem que ela quer resgatar e que julga iniciar ou curar... Mas sem que ela própria se tenha resgatado e ser consciente de si ela não vai saber ajudar sem projectar também a sua ferida, a sua dependência ou carência. Mesmo lendo um bom autor sobre o feminino sagrado, e lendo o que ele diz tal como: "Compreender a sabedoria e a natureza transformadora do feminino (em homens e mulheres) " eu não sei se concordo inteiramente com ele nesse sentido, o de se trabalhar o feminino e o masculino um no outro, porque eles homens e mesmo a grande maioria das mulheres e apesar do  autor citado ser alguém integro, ignora a cisão da mulher e que a mulher não estando na posse do seu verdadeiro feminino à partida - uma vez que apenas exercita o seu hemisfério direito, o masculino  - tem de primeiro integrá-lo e esse é um trabalho individual e solitário e não a fazer em conjunto com o homem e é ai que reside a maior confusão das mulheres e homens que apelam a fusão do masculino e do feminino ou de se trabalhar em conjunto... Além disso penso que à mulher dos dias de hoje, isto em primeira instância, já não cabe ser essa metade apenas, complemento de um par romantizado ao longo dos tempos, e a não ser que ela mesma seja inteira e fiel a si mesma como ente, a partir de uma individualidade separada do par e se sinta autonoma, ela não vai poder ajudar o homem nem as outras mulheres. Inutil pensar que o homem a vai ajudar a ela no processo da sua descoberta interior... quando foi ele quem mais a afastou de si para o poder servir a ele... Assim, o par amoroso, tal como a busca do amor do outro, nada tem a ver com o processo de descoberta da mulher selvagem, porque além de ser um aspecto instintivo e de cariz obviamente sexual, faz parte da sujeição da mulher ao macho, que como escolha de vida, pode ser um designio seu, ou um objectivo de vida de uma mulher que quer servir o Pai e o filho. Mas esse não é o objectivo do feminino sagrado, nem do caminho da mulher em si na conquista da sua autonomia do macho e do patriarcado que a manteve prisioneira há centenas de anos, forçando-a a serví-lo de todas as maneiras e mesmo recentemente, depois do propalado feminismo e dita emancipação, a mulher nesses planos - emocional e sexual - não se libertou do seu jugo, apenas teve algumas vantagens financeiras com as quais afinal acabou por beneficiar os homens igualmente... A divisão - cisão - interior da mulher criada pelo patriarcado, que gera a sua fragmentação emocional e psiquica, que se reflecte na sua disputa psicologica e afectiva com a mãe pelo pai ou contra a outra mulher rival, leva-a de forma inconsciente a uma luta acerrima e permanente contra as outras mulheres embora possa estar muitas vezes disfarçada de "amizade" ou simpatia, mas onde existe sedução e controlo, dominio da outra através do jogo passional mesmo que não implique uma sexualidade explicita. Esta sedução exibição de si - sou a maior e a melhor, a que seduz e controla - continua a ser em muitas mulheres uma forma de defesa da sua ferida que projectam de forma insidiosa nas outras mulheres. É tipico da psique ferida, cair nestas armadilhas e elas são muitas... por isso alerto para que todas nós não esqueçamos qual é o nosso trabalho e o nosso propósito como Mulheres. Para que como diz Clarissa Pinkola Estees, não ferirmos @s outr@s no ponto em que nós mesmas estamos feridas... Não há duvida que antes de querer curar @ outr@ ou usar um Dom, temos de nos curar a nós mesmas primeiro e por isso ser consciente dos nossos movimentos atávicos padronizados e inconscientes é fundamental e sem um trabalho psicologico básico, tudo é ambiguo e duvidoso... SER MULHER hoje em dia requer uma independência cabal de todos esses jogos viciados da psique cindida da mulher e portanto fazer o seu caminho de encontro consigo mesma requer um grande recuo e sabedoria da alma... grande honestidade e sinceridade consigo própria, algo que só uma grande maturidade nos pode dar.

rosa leonor pedro

quarta-feira, setembro 16, 2020

Encontro Online "Lilith - A Mulher Primordial" com Joana Saahirah & Rosa...

UM PEQUENO ENSAIO: A DOR DOS HOMENS



 MUITAS AMIGAS INSISTEM PARA EU ESCREVER SOBRE OS HOMENS…


Bom, em primeiro lugar eu não posso discorrer sobre os homens em termos da sua natureza masculina e psiquica. Teria de ser homem para o fazer. Assim como estou farta de que sejam homens a escrever sobre as mulheres e acho erróneo, eu não iria escrever sobre o masculino em si. Mesmo admitindo o principio dos dois em Um, que todo o ser humano é composto de uma parte feminina e masculina (hemisfério esquerdo e hemisfério direito respectivamente ), eu não confundo "alhos com bugalhos"… sendo este um outro assunto bem mais vasto e complexo, que concerne a alquimia. 
Contudo poderei vir a escrever sobre como a cisão da mulher se reflecte no homem e do sofrimento que dai lhe advém, seja como marido, seja como filho ou mesmo pai, sendo esse facto uma espécie de ciclo vicioso: o homem Pater divide a mulher em duas espécies desde os primórdios do cristianismo e todo o homem à partida  foi obrigado a escolher entre uma mulher séria para casar e constituir família e a relegar a mulher livre e sensual e desassombrada, a mulher solteira e independente, para o campo da prostituição, mesmo que ela tivesse meios de subsistência, era sempre apelidada de rameira - puta vadia ou cabra. Uma mulher livre e bonita é sempre suspeita...
Ora acontece que essa mulher assim assumida e se for bonita ainda mais perigosa parece aos olhos do homem, pois parece que nascer mulher e bela é trágico, uma má sina  - é sem duvida uma ameaça para o pai ou marido ou irmão ou filho - o medo de ser conectado como o famoso "filho da puta e o cornudo" - e por isso este é o pior dos perigos para o homem e portanto uma mulher a abater... que é o que ele faz quando a mulher o abandona ou o trai…

Sim,  o homem não se livra facilmente da sua atracção pela mulher sensual e livre que o seduz e magnetiza...mas ele opta sempre - para casar - pela rapariga séria e insipida e bem comportada que não é nem bonita nem sensual porque lhe dá mais garantias de não ser afectado por esse drama. E assim nasce o pior das ofensas a qualquer homem que se despreza - "Puta que o pariu…filho de uma grande put… vai para a put que te pariu, ou ainda pior...vai para o "buraco" da tua mãe"- este é o tratamento infame que os homens se dão uns aos outros… e a Mulher Mãe…
Esta é uma história muito dolorosa para homens sensíveis e amantes da Mulher...homens que amam as suas mães...que conhecem o seu sofrimento; vejo como filhos hoje em dia sofrem com os divórcios das mães  com medo que pensem que as mães são put… e enfim, todo este peso acrescido ao peso de uma falsa masculinidade e a impossibilidade de manifestarem emoções, é realmente um drama masculino, para não falar da "dor de corno"...
Sem duvida que os homens tem todas essas feridas com a mãe...e há mães odiosas toxicas e narcisistas e incapazes de amor - claro que há e ai voltamos ao mesmo e a necessidade de valorizar e libertar a mulher desses estigmas restituindo-lhe toda a sua dignidade o que não é possível sem uma verdadeira consciência de si e do seu feminino sagrado. Todo um percurso que as mulheres tem de fazer indo ao mais fundo da sua psique e perceber o que ainda tem de andar antes de poderem curar o homem e esperar dele o par ideal, por mais que sonham e o desejem. Isso não vai acontecer antes que as mulheres despertem verdadeiramente para si e sejam unas e mulheres inteiras. Não é a Deusa que as vai curar...são elas mesmas e por esforço próprio que tem de se curar a si mesmas e deixar de projectar as suas feridas nas outras mulheres com quem rivalizam o tempo todo, mesmo diante da deusa… em defesa do seu culto...ou lutando por se serem as melhores as mais fiéis...etc.
Quanto aos homens que sentem a sua alma e vivem neste sistema eles devem abrir Portas e serem os guardiões em lugares em que as mulheres sofrem e onde deviam ser respeitadas. Em casa e na família, nos empregos. ...serem eles dentro do Sistema vigente a fazer a sua defesa e não virem-se refugiar no colo das boas mães e da Deusa...se são guerreiros, lutem pela mulher digna sendo um homem digno. Sendo um homem consciente também.

rosa leonor pedro