O SORRISO DE PANDORA

“Jamais reconheci e nem reconhecerei a autoridade de nenhuma pretensa divindade, de alguma autoridade robotizada, demoníaca ou evolutiva que me afronte com alguma acusação de pecadora, herege, traidora ou o que seja. Não há um só, dentre todos os viventes, a quem eu considere mais do que a mim mesma. Contudo nada existe em mim que me permita sentir-me melhor do que qualquer outro vivente. Respeito todos, mas a ninguém me submeto. Rendo-me à beleza de um simples torrão de terra, à de uma gotícula de água, à de uma flor, à de um sorriso de qualquer face, mas não me rendo a qualquer autoridade instituída pela estupidez evolutiva da hora. Enfim, nada imponho sobre os ombros alheios, mas nada permito que me seja imposto de bom grado Libertei-me do peso desses conceitos equivocados e assumi-me como agente do processo de me dignificar a mim mesma, como também a vida que me é dispensada. Procuro homenageá-la com as minhas posturas e atitudes e nada mais almejo. É tudo o que posso dizer aqueles a quem considero meus filhos e filhas da Terra. “ In O SORRISO DE PANDORA, Jan Val Ellam

quinta-feira, outubro 31, 2019

AS BRUXAS...

O HOLOCAUSTO DAS MULHERES

- Porque não se fala dele? Porque ele continua...


"As mulheres temem ser chamadas de bruxas por razões históricas de peso. A Inquisição foi criada em 1252 pelo papa Inocêncio IV e a tortura prosseguiu durante cinco séculos e meio até ser abolida pelo papa Pio VII em 1816. Entre 1560 e 1760 a perseguição de mulheres por bruxaria atingiu o seu auge. É chamado a este tempo o “holocausto das mulheres”. Estima-se entre cem mil e oito milhões o n.º de mulheres condenadas á morte na fogueira. "  Shinoda Bolen


"Porquê atacar as mulheres? Porque foram elas, durante séculos, acusadas de bruxaria, de pactuarem com o diabo entregando-se à cópula com a besta que lhes daria poderes sobre-humanos? Nessa desconfiança do feminino afastou-se na verdade a mulher do espaço político e da possibilidade de se expressar, de exercer poder, de destabilizar a hierarquia masculina vigente."
*


"BRUXARIA E RESISTÊNCIA

O uso da palavra resistência para uma BRUXA, é simplesmente uma expressão em que se coloca num lugar comum. Resistência sempre foi uma palavra símbolo nutricional das nossas ancestrais, caso contrário não estaríamos aqui, agora em um novo momento histórico, em pleno terceiro milênio, caindo nesse lugar “comum”, RESISTÊNCIA”...

Não nos vitimizamos, não somos sentimentalistas em relação aos mandos de poderes opressores. Não somos omissas...

Ao longo da nossa trajetória nas mais diversas civilizações, nenhum déspota nos calou, sequer nos neutralizou. Nossas “resistências magicas” sempre fomentaram a PAZ desarmadora, cuja a arma mais eficaz que usamos sempre foi o silêncio reformador pela vontade, pela fé e pela coragem de sermos livres ‘pensadoras.

A revolução feminina sempre se fortaleceu pela coragem de existir nos momentos mais cruéis, mais intensos que a humanidade vivenciou. Principalmente ao enfrentar o poder do famigerado macho desconectado com o poder do útero materno. Em contra partida, Bruxas sempre contaram com a parceria de Homens, verdadeiramente conectados com a força uterina, que respeitavam e respeitam as mulheres de igual para igual, em perfeita parceria.

Existe hoje urgência em desbloquear situações cômodas e omissas, de alguns Bruxas e Bruxos que se dizem conscientes pela preservação das obras da grande Mãe a Natureza, pelo respeito as diversidades, pela melhor qualidade de vida com mais educação, cultura e principalmente a consciência da PAZ.

É triste, constatar que Bruxas (o) missionárias (o) da Deusa, permanecem deitadas (o) em berços esplendidos, enquanto outros seguimentos filosóficos /religiosos defendem o respeito de “ser integral o sagrado feminino.”

Definitivamente é chegado o momento de ações mágicas, que fortaleçam as diretrizes da existência íntegra da mulher. Seja politicamente, seja socialmente, seja religiosamente.

Não somos e nunca fomos manipuladas por machos opressores... Não seguimos déspotas, não fortalecemos fêmeas que fazem questão de ignorar sua sagrada missão no Grande útero que nos acolhe, o Planeta Terra. Que essas mulheres despertem para desenvolver uma sexualidade saudável, bem como o respeito ao seu sagrado invólucro carnal. Que seja prioritária a formação da ética e da moral nas crianças, sem desvios da base que é a formação do caráter.

Em todo o mundo hoje, as Bruxas se unem pela expansão da consciência, pelo despertar da honra de ser MULHER, e dar ordem ao caos de uma civilização decadente.

Basta de intolerância religiosa, chega de “idiotas” que se arvoram de políticos, que sejam ridicularizados os preconceituosos de qualquer espécie.

Que se busque refletir, por todos os momentos históricos relevantes, em que as mulheres fizeram alas de frente e estabeleceram a ordem pela Paz.

Que assim seja e assim se faça para o bem de todos!"

Graça Azevedo / Senhora Telucama

Suma Sacerdotisa da TRADIÇÃO TELUCAMA



*in "AS PUTAS DO DIABO" de Armelle Le Bras-Chopard

AS LEIS NÃO MUDAM OS HOMENS


A LEI MUDA, MAS O HOMEM CONTINUA O MESMO...


«LEI, IGUALDADE E VIOLÊNCIA», 2011


«Durante muito tempo, a lei atribuía às mulheres, enquanto seres autónomos, pouco ou nenhum valor. E este variava em função das suas características enquanto objecto de direitos de um homem. Mulher casada ou não, virgem ou não, “séria” ou “desonesta”.

A consideração das mulheres como seres autónomos e livres, e a protecção da sua integridade, através do Direito – em especial do Direito Penal, no campo da integridade física, vida e liberdade sexual – é historicamente muito recente.

A evolução foi lenta e difícil mas, a partir de certa altura, em parte por efeito da pressão dos movimentos defensores dos direitos das mulheres, sofreu aceleração evidente. Neste momento, a lei escrita é satisfatória. Assim ela seja devidamente aplicada.


Mas o desequilíbrio de poder efectivo entre homens e mulheres, omnipresente e particularmente evidente em certas áreas – decisão pública, mercado de trabalho, relações familiares – significa que a lei “sozinha” não conseguirá alterar o que hoje é vulgarmente denominado por “relações sociais de género”. Uma mulher com emprego remunerado, independência económica, auto-estima forte e apoio nas tarefas familiares tem muito maior probabilidade de conseguir sair de uma relação em que é maltratada, ou de sequer nela não aceitar entrar; sobretudo se a sua capacidade de se entender como ser humano livre acompanhar esse estatuto geral de autonomia.


Que a lei não a declare imbecil e incapaz, como fez durante séculos, sujeita à autoridade do marido que substitui o pai, é já um grande avanço.

(...)»


TPB, «LEI, IGUALDADE E VIOLÊNCIA», 2011

"conscientes e responsáveis"?


COMO SERMOS CONSCIENTES...


"PARA A MAIOR PARTE DOS HOMENS, aquilo que eles classificam de consciência é o registo de noções, de impressões e de convicções compostas pela reflexão cerebral e pela educação. Essas formações são tão fugitivas como o reflexo das nuvens num espelho. Elas não nos pertencem de si, porque podem ser modificadas pelas mais diversas influências. Nada, neste conjunto de ideias e conceitos, sobrevive à dissolução do ser físico, emocional e mental. É uma consciência que não se inscreve no nosso ser imortal.
Quantos homens na Terra acordaram em si a Consciência real, aquela que os tornará "conscientes e responsáveis"? É portanto necessário, para falar "conscientemente", entendermo-nos quanto às palavras, depois considerar os meios de acordar essa consciência".
(...)
In L' OUVERTURE DU CHEMIN
ISH SCWALLER DE LUBCZ

SEGUIMOS COMO SONÂMBULOS


EXCERTO DE ENTREVISTA COM EDGAR MORIN

(...)
- O senhor frequentemente fala da prosa e da poesia na vida, sendo a prosa a sobrevivência, o cotidiano do que somos obrigados a fazer, e a poesia, as relações de afeto, o jogo. O espaço da poesia está diminuindo e a prosa está ganhando?

Edgar Morin: Ela não poderá jamais vencer totalmente, mas eu diria que a prosa fez progressos consideráveis com a industrialização não só do trabalho mas da vida, com a burocratização que encerra as pessoas num pequeno espaço especializado, com a técnica, que se serviu tanto dos homens quanto dos materiais.
Mas há uma resistência da poesia na vida privada, nas relações amorosas, de amizade, nos afetos, no prazer do jogo, no futebol, por exemplo. Há momentos de ambiguidade e devemos resistir a esse progresso enorme da prosa, que significa uma degradação da qualidade de vida.
(…) 
Edgar Morin: Todas as sociedades, desde a pré-história, têm uma religião, uma crença na vida após a morte. A religião traz pela reza um sentimento que dá calma. Marx tinha razão ao dizer que a religião é o suspiro da criatura infeliz.

Com a morte do comunismo, houve um retorno das religiões. Temos o retorno dos evangélicos aqui no Brasil, do islamismo. Nos países árabes houve movimentos laicos enormes, mas tudo deu errado. A religião ganha onde a democracia falha, a revolução fracassa, o mundo moderno falha. A religião triunfa no fracasso da modernidade.

Como aceitar a incerteza e lidar com a angústia ou até mesmo o cinismo que advém disso? 

Edgar Morin: Mais do que sucumbir à incerteza, que nos dá angústia e medo, e que nos leva a buscar culpados e bodes expiatórios, é preciso enfrentar a incerteza com coragem, com ideias humanistas de fraternidade. As ciências acharam formas de encontrar certezas em incertezas. Eu digo sempre que a vida é uma navegação num oceano de incertezas passando por arquipélagos de certezas. Assim é a vida, não se pode mascarar a realidade.

Às vésperas de completar 98 anos, o que o estimula a continuar escrevendo e dando conferências? 

Edgar Morin: Há um demônio em mim, uma força no meu interior de intensa curiosidade. Eu conservei uma curiosidade da infância —eu tive um grande choque aos dez anos com a morte da minha mãe, eu envelheci muito, mas também isso me bloqueou na infância com a curiosidade e o amor pelo jogo. A sorte do mundo é cada vez mais incerta, não sabemos aonde vamos, então não podemos não estar preocupados com o futuro da espécie humana sobre a Terra.

Ainda há lugar para utopias? 

Edgar Morin: Há duas utopias. A má e a boa. A má é sonhar com uma sociedade perfeita, totalmente harmonizada; isso não é possível. Mesmo numa sociedade melhor, sempre haverá conflitos. A perfeição não está no universo, não está na humanidade.

A boa utopia é sonhar com coisas impossíveis mas que são, de certa forma, possíveis intelectualmente. Por exemplo, hoje há muita fome, mas poderíamos alimentar toda a humanidade, basta desenvolver as culturas, a agricultura orgânica. É possível criar uma sociedade nova com a paz sobre a Terra, podemos pensar no fim dos conflitos entre nações; essa é uma boa utopia. Um mundo que não seja totalmente dominado pelo poder econômico e que seja mais fraterno — é preciso ainda ter utopias.



(Via Folha)

segunda-feira, outubro 28, 2019

A MULHER ODIADA



ESCREVER MULHER

"Aqueles de nós que adoram ler e escrever acreditam que ser escritor é uma confiança sagrada. Significa dizer a verdade. Significa ser incorruptível. Significa não ter medo e nunca mentir. Aqueles de nós que adoram ler e escrever sentem muita dor porque muitas pessoas que escrevem livros se tornaram covardes, palhaços e mentirosos. Aqueles de nós que adoram ler e escrever começam a sentir um desprezo mortal pelos livros, porque vemos escritores sendo comprados e vendidos no mercado — nós os vemos vendendo seus batidos produtos em todas as esquinas. Muitos escritores, de acordo com o estilo de vida americano, venderiam suas mães por um centavo. Manter a sagrada confiança do escritor é simplesmente respeitar as pessoas e amar a comunidade. Violar essa confiança é abusar de si mesmo e causar danos aos outros. Acredito que o escritor tenha uma função vital na comunidade e uma responsabilidade absoluta para com as pessoas. Peço que este livro seja julgado nesse contexto.

Especificamente, o ódio às mulheres é sobre mulheres e homens, os papéis que desempenham, a violência entre eles. Começamos com os contos de fadas, os primeiros cenários de mulheres e homens que moldam nossa psique, ensinados a nós antes que possamos conhecer de maneira diferente. Seguimos para a pornografia, onde encontramos os mesmos cenários, explicitamente sexuais e agora mais reconhecíveis, nós mesmos, mulheres carnais e homens heroicos. Continuamos a mulheristória — a amarração de pés na China, a queima de bruxas na Europa e na América. Aí vemos as definições pornográficas e de conto de fadas de mulheres funcionando na realidade, a verdadeira aniquilação de mulheres reais — o esmigalhar até o nada da sua liberdade, vontade, vida — como foram forçadas a viver e como foram forçadas a morrer. Vemos as dimensões do crime, as dimensões da opressão, a angústia e a miséria que são uma consequência direta da definição polar de papéis, das mulheres definidas como carnais, más e “Outras”. Reconhecemos que é a estrutura da cultura que cria as mortes, violações, violência, e procuramos alternativas, maneiras de destruir a cultura como a conhecemos, reconstruindo-a como podemos imaginar.

Escrevo, contudo, com uma ferramenta quebrada, uma linguagem sexista e discriminatória em sua essência. Tento fazer distinções, sem “história”* como toda a história humana, sem “homem” como termo genérico para a espécie, sem “masculinidade” como sinônimo de coragem, dignidade e força. Mas não consegui reinventar a linguagem.

Este trabalho não foi realizado isoladamente. Devo muito às outras. Agradeço às minhas irmãs que em todos os lugares se levantam, por si mesmas, contra a opressão. Agradeço às minhas irmãs, as mulheres que estão pesquisando nosso passado comum, por escrevê-lo para que possamos conhecê-lo e ter orgulho. Agradeço a minhas irmãs, a essas mulheres em particular, cujo trabalho contribuiu muito para minha própria consciência e determinação — Kate Millett, Robin Morgan, Shulamith Firestone, Judith Malina e Jill Johnston." (...) 
Andrea Dworkin
Nova York, julho de 1973
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SER ESCRITORA OU NÃO ...

Um dia uma amiga dizia-me que eu tinha todos os defeitos de um escritor...não sei porque nem a propósito ela me disse isso...Na altura não tinha escrito nenhum livro e não ia além do meu diário intensivo ao longo dos anos...Depois que escrevi alguns livros...devo continuar a ter os mesmos defeitos - não sei quais - menos o de me considerar "escritora"...é coisa que não entra na minha pele...
Talvez porque o que eu gostaria de escrever...não possa ser escrito...talvez porque o que eu gostaria dizer não haja palavras...talvez porque tudo o que leio em geral não me diz já nada...talvez porque a palavra se tenha tornado negócio escuro, pântano social onde todos vivemos atolados, só troca de interesses e comércio sexual...mentira e lisonja, engano e perfídia, prostituída da sua essência...e significado!
Talvez porque a PALAVRA perdeu o seu dom sagrado....e para mim escritor/a ou escriba também devia ser algo SAGRADO...alguém consagrado!
rlp

O FEMININO E MASCULINO



…"Para masculinistas de ambos os sexos, "feminilidade" significa tudo o que os homens têm embutido na imagem feminina nos últimos séculos: fraqueza, imbecilidade, dependência, masoquismo, insegurança, e uma certa sexualidade "bonequinha" que é na verdade apenas uma projeção dos sonhos masculinos. Para "feministas" de ambos os sexos, feminilidade é sinônimo do eterno princípio feminino, conotando força, integridade, sabedoria, justiça, confiança, e um poder psíquico estrangeiro e portanto perigoso para os laboriosos masculinistas de ambos os sexos.“ — Elizabeth Gould Davis


O DESEJO INCONSCIENTE DOS HOMENS, 
QUE REVELA COMO ELES  VEEM AS MULHERES...


Eu queria ser mulher pra me poder estender
Ao lado dos meus amigos, nas banquetes dos cafés.
Eu queria ser mulher para poder estender
Pó de arroz pelo meu rosto, diante de todos, nos cafés.

Eu queria ser mulher pra não ter que pensar na vida
E conhecer muitos velhos a quem pedisse dinheiro -
Eu queria ser mulher para passar o dia inteiro
A falar de modas e a fazer 'potins' - muito entretida.

Eu queria ser mulher para mexer nos meus seios
E aguçá-los ao espelho, antes de me deitar -
Eu queria ser mulher pra que me fossem bem estes enleios,
Que num homem, francamente, não se podem desculpar.

Eu queria ser mulher para ter muitos amantes
E enganá-los a todos - mesmo ao predilecto -
Como eu gostava de enganar o meu amante loiro, o mais
[esbelto,
Como um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes...

Eu queria ser mulher para excitar quem me olhasse,
Eu queria ser mulher pra me poder recusar...


Mário Sá Carneiro

A obsessão urbana e radical chic...



UM EFEITO DE DISTRACÇÃO...

(Saias, peúgas, malinhas e quejandos…)

“A obsessão urbana e radical chic com as questões de género e as causas fracturantes tem um efeito de distracção em relação ao que se passa em grande parte do país, para além de um menosprezo pelas questões de segurança dos mais fracos, seja na cidade, seja no campo”.

Sempre este “argumento”, que hierarquiza causas e questões ao pretender criticar uma... hierarquização de causas e questões. Nada impede pessoas e instituições de tratar das várias ao mesmo tempo e é isso que deve ser feito. Não há questões “fraturantes” (esta expressão, ainda, really?) versus questões de segurança ou sociais (essas já não são fraturantes?), há as duas ao mesmo tempo e com a mesma importância.
E temos, como sociedade e estado, perfeita capacidade para isso, sem cair nesta falácia da escolha. Ou na demagogia anti-elitista." - Pacheco Pereira


A JUSTIÇA HUMANA

"Neste mundo nada está em seu lugar, começando pelo próprio mundo. Não devemos surpreender-nos então com o espetáculo da injustiça humana. E igualmente vão repudiar ou aceitar a ordem social: somos obrigados a sofrer suas transformações para melhor ou para pior com um conformismo desesperado, como sofremos o nascimento, o amor, o clima e a morte. A decomposição preside as leis da vida: mais próximos de nosso pé do que estão do seu os objetos inanimados, sucumbimos antes deles e corremos para o nosso destino sob o olhar das estrelas aparentemente indestrutíveis.
Mas mesmo elas virarão pó em um universo que só nosso coração leva a sério para expiar depois com dilacerações sua falta de ironia...
Ninguém pode corrigir a injustiça de Deus e dos homens: todo ato é apenas um caso especial, aparentemente organizado, do caos original. Somos arrastados por um turbilhão que remonta à aurora dos tempos; e se esse turbilhão tomou o aspecto da ordem, é apenas para nos arrastar melhor..."


— Emil Cioran, in "Breviário de Decomposição".

quarta-feira, outubro 23, 2019

A MULHER FORTE...



E INTEIRA!

"A mulher corajosa não tem medo de investigar o pior. Isso garantirá um aumento do poder da sua alma através das percepções e oportunidades para examinar de novo a sua própria vida e o seu próprio eu. Neste tipo de exploração da terra da sua psique brilha nela a mulher selvagem. Não teme a escuridão mais escura, porque na verdade pode ver no escuro. Ela não teme os despojos, os desperdícios, a podridão, o fedor, o sangue, os ossos frios, as mulheres jovens morrendo ou os maridos assassinos. Ela pode ver tudo, pode resistir a tudo porque pode também ajudar."

Clarissa Pinkola Estes


MULHERES BRAVAS 

"Quando estamos obcecadas pelos sapatinhos vermelhos, todo tipo de fato importante do ponto de vista cultural, pessoal ou ambiental é deixado de lado."

"Quando os instintos estão feridos, os seres humanos trivializam uma agressão após a outra, atos de injustiça e destruição que afeiam a elas mesmas, à sua prole, aos seres amados, à sua terra e até mesmo aos seus deuses."

Existem muitas mulheres brabas por aí, famosas e brilhantes. Quando Clarissa mencionou Janis Joplin tudo ficou mais claro. Na adolescência sentia uma atração inexplicável por essa cantora. Agora vejo que era na verdade uma identificação. Me via nela. Claro, ela era uma mulher braba!

"Não foi a música, o canto nem a vida criativa finalmente liberada de Janis Joplin que a mataram. Foi a falta de instinto para reconhecer as armadilhas, para saber quando basta, para criar limites para a defesa da saúde e do bem-estar, para entender que os excessos quebram alguns ossinhos psíquicos, depois outros maiores, até que finalmente todo o esqueleto de sustentação da psique cai por terra e a pessoa vira uma massa amorfa em vez de uma força poderosa."

E porque escrevo tudo isso?

Por causa da voz da mulher selvagem que anseia em ser ouvida.

"Só esse anseio, esse desejo já faz a pessoa prosseguir. Ele faz com que a mulher continue a procurar. E, se não consegue encontrar a cultura que a estimule, geralmente ela resolve criar, ela mesma, essa cultura. Isso é bom, pois, se ela a criar, outras que vinham procurando há muito tempo chegarão misteriosamente um dia, proclamando com entusiasmo o fato de estarem procurando por ela o tempo todo."

(…)

"Apesar de os contos de fadas acabarem ao final de dez páginas, nossas vidas não acabam junto. Nós somos coleções de muitos volumes. Na nossa vida, mesmo que um episódio represente um desastre total, sempre há um outro episódio à nossa espera e depois mais outro. Há sempre outras oportunidades para acertar, para moldar nossa vida do jeito que merecemos que ela seja. Não percam tempo amaldiçoando alguma derrota. O fracasso é um mestre mais eficaz do que o sucesso. Ouçam, aprendam, insistam. É isso o que estamos fazendo com essa história. Estamos ouvindo sua mensagem antiqüíssima. Estamos aprendendo lições sobre modelos deteriorantes para podermos prosseguir com a força de quem sabe pressentir as armadilhas, arapucas e iscas antes de nos defrontarmos com elas ou de com elas nos envolvermos. "

in Mulheres correndo com lobos

clariça pinkola estes

segunda-feira, outubro 21, 2019

RADICAL MAS NÃO FEMINISTA

"O CORPO DA MULHER, O CORPO DE QUE O HOMEM USUFRUI.
PELO AMOR, QUE NÃO É SENÃO UMA FORMA INDIRECTA DE VIOLÊNCIA"
in IRREFLEXÕES de Yvete Centeno
MULHERES, "Não esperem que o mundo vos ampare ou reconheça a vossa identidade enquanto mulheres. O mundo (dos homens) despreza-vos" Marian Willianson Vejo com imensa pena como nos empenhamos em discutir e a defender algo sempre contra qualquer coisa, seja a luta politica, religiosa ou social, seja entre grupos e pessoas e como vamos para o campo de batalha pensando que temos armas adequadas e não temos, porque nos estamos a destruir ao alimentar  apenas o Sistema e o predador - e mesmo que uma mulher se exponha para defender as outras mulheres, penso que não vale a pena fazê-lo no campo de batalha do homem. Acreditem que eles sairão ou ficarão sempre por cima, como a policia… porque esta é a luta de Adão…a força e violência da Espada, ou um sexo de afronta. E vocês serão sempre as suas Evas!
Sim, vejo com muita pena que não há tanto empenhamento no aprofundamento de si mesmas e na consolidação de uma identidade Mulher, nem uma dádiva de si  na construção de uma visão mais independente de nós mulheres e sem conflito umas com as outras...construindo uma plataforma de entendimento e partilha sem ser sempre a favor ou contra os homens. Não, não se trata de lutar contra os homens e as suas leis. Trata-se de sermos nós mesmas mais Mulheres e fraternas...
Porém o que é que vemos por ai? Vemos como a inimizade entre mulheres e a intriga e a perfídia move mais o seu interesse do que um trabalho verdadeiro consigo mesmas; vejo a falta de coesão em manter um vivo e activo interesse na Mulher em si e a incapacidade de uma discussão livre e centrada na Mulher entre mulheres sem medo de se desvelarem nos seus defeitos e complexos; vejo a falta de uma sinceridade sobre nós mesmas - falta de sinceridade sobre as dificuldades de qualquer processo e das angustias que nos tomam e dos retrocessos com medo de perder clientela - e com isso impedimo-nos de dizer sem pruridos o que nos assola , dando assim um contributo sincero para sermos mais conscientes de nós e de toda a problemática que implica ter acesso a essa Consciência de ser mulher em si…
Não, sinceramente não sei, porque se continua a dar tanta importância aos homens e ao que eles dizem nem a valer-mo-nos deles para nos defendermos ou atacarmos as outras mulheres… 
Sei que muitas mulheres confundem a minha posição de não incluir nem dar qualquer importância ao homem como  se eu estivesse contra eles ou lhes fosse alérgica: não, não o sou, nem sofro de androfobia, nem estou contra os homens...mas já não vou ALIMENTAR a criança "desprotegida" nem o predador sexual, nem as suas querelas e vontade de domínio intelectual ou espiritual. Não compro as suas brigas, nem aceito a sua complacência ou cumplicidade de homens sejam feministas sejam espiritualistas. Quero que façam apenas o seu caminho, sejam homens por si e deixem de caluniar ou acusar a mulher e a mãe da sua incapacidade de amar...do seu egoismo e da sua dependência narcísica. também. Não precisei nunca de um homem para ser mulher inteira nem para me afirmar como ser. Pensem o que quiserem. Agora mulheres que defendem mulheres mas precisam de um homem para as apoiar e se afirmarem-se...eu NÃO acredito nelas. Foi esse o trabalho de Lilith em mim. Libertar-me de Eva…e de Adão! E custe o que custar não cairei na ARMADINHA DO PATRIACADO. Não fui nem serei nunca essa costela de Adão...
O meu caminho não é só o da iluminação, mas também da escuridão; o mergulho nas nossas trevas, no oculto, no que nos foi roubado, não na luz do sol mas da Lua, no passivo e receptivo e negativo. Sim, acabemos com a alienação  do positivo e do olhar solar…da ascenção e do céu,  nós somos terra  e húmus e somos Utero e precisamos de mergulhar nas nossas raízes...ir ao fundo do nosso abismo buscar essa luz que nasce das trevas...precisamos de resgatar essa Mulher  das profundezas! O mundo da Mulher é dela mesma na sua luz própria e também essa escuridão-fecundação onde a criança nasce e a semente rompe e brota cheia de vida… Essa é a Mulher como a mais pura manifestação da vida na Terra!
MAS ATENÇÃO, NÃO,
Não preconizo nem declaro o fim do par, da relação homem mulher nem do sexo, ou do amor a seu tempo como iniciação consciente durante o período fecundo da mulher, sendo a mulher consciente de si e do seu poder intrínseco, e que faz a sua escolha consciente de si e livre e não como serva do homem ou ao serviço da espécie. No entanto sei que essa não é a realidade dos nossos dias porque a mulher dentro deste Sistema e neste  Paradigma é e será sempre tendencionalmente uma serva, diga o que disser, faça o que fizer, porque o é biologicamente enquanto continuar a alimentar o homem.   Seja o amante ideal, o filho querido ou o Pai-deus ele sentirá sempre que é o seu dono e senhor, mesmo que diga que não, porque é um registo atávico e talvez genético. Nenhum homem deixará fugir este seu poder e domínio da mulher enquanto ela não for uma MULHER auto-suficiente…  E se queremos ser essa mulher sejamos cientes dos obstáculos, lucidas diante da realidade, focadas  dentro e persistentes na nossa Senda ou então continuemos a farsa e a enganarmo-nos a nós mesmas e a lutar com a lei do mais forte... creio pessoalmente que estamos a perder tempo ao confrontar o Sistema e acreditar na igualdade entre os sexos. 
Custa-me ver como a mulher em geral se mantem presa ao predador e alimenta o seu Síndrome de Estocolmo… ver como sente e  faz-lhe falta  a sua "protecção" (nem que seja na foto) ...e mesmo quando é  rebaixada, explorada sexual e emocionalmente pelo homem, ela acaba por ceder-lhe  (ah o amor) e ela renuncia a si mesma à menor recaída mesmo quando ele a abandona  ou morre… às vezes mesmo já velha…Sei, tenho em conta que a mulher tem dentro dela o chipe dessa formatação, está lá cravado no seu peito. Nunca a deixará ser inteiramente  livre  ou lucida - é preciso um esforço tremendo, uma vigilância constante, para a mulher se libertar e ser livre. E raras serão as mulheres livres a curto prazo. Sim, a grande maioria tem de cumprir a sua escravidão não sei até quando. Mas se querem renascer e ser uma dessas mulheres deixem de ser cúmplices dos homens, seja a que nível for, deixem de suportar os vossos heróis e santos, os vossos mestres e doutores, ou pensadores, psicólogos, tutores e facilitadores… rlp
ADENDA - as mulheres que escolhem viver em paridade com os homens, seja a que nível for, pelo casamento, pelo trabalho, pela politica ou pela religião, nada tenho a dizer. Falo apenas das e para as mulheres que pretendem ou dizem estar no caminho da Deusa - principalmente as que se identifiquem com Lilith e sentem o o seu apelo  ou que aspiram a se encontrarem consigo mesmas no mais profundo do seu coração, essas  terão de fazer um grande trabalho interior de resgate do seu Ser Mulher In-teira. 

sábado, outubro 19, 2019

O MEDO DA MULHER



“No patriarcalismo ocidental, os homens tentam submeter o campo feminino e o mundo material às suas capacidades e hegemonia": dominar, escravizar, possuir e violar…

Isso está expresso nas relações de força entre homem e mulher e “Quando a relação homem-mulher se desequilibra, então a relação humana com a natureza também se desequilibra de maneira perigosa."

Os homens "tratam a Terra como a sociedade trata a mulher. Na minha opinião, a crise ambiental do Ocidente baseia-se em modelos de relacionamento."




O MEDO DA MULHER...

"O CORPO FEMININO É O LABIRINTO ONDE O HOMEM SE PERDE"


“Os ciclos da natureza são os ciclos da mulher. A feminidade biológica é uma sequência de retornos circulares, que começa e acaba no mesmo ponto. A centralidade da mulher confere-lhe uma identidade estável. Ela não tem que tornar-se, basta-lhe ser. A sua centralidade é um grande obstáculo para o homem, cuja busca de identidade é bloqueada pela mulher. Ele tem que se transformar num ser independente, isto é, libertar-se da mulher. Se o não fizer acabará simplesmente por cair em direcção a ela. A união com a mãe é o canto da sereia que assombra constantemente a nossa imaginação. Onde existiu inicialmente felicidade agora existe uma luta. As recordações da vida anterior à traumática separação do nascimento podem estar na origem das fantasias arcádicas acerca de uma idade de ouro perdida. A ideia ocidental da história como movimento propulsor em direcção ao futuro, um desígnio progressivo ou providencial que atinge o seu apogeu na revelação de um Segundo Advento, é uma formulação masculina. Não creio que alguma mulher pudesse ter concebido tal ideia, já que a mesma é uma estratégia de evasão em relação à própria natureza cíclica da mulher, na qual o homem teme ser aprisionado. A história evolutiva ou apocalíptica é uma espécie de lista de desejos masculinos que desemboca num final feliz, num fálico cume”*


*In Personas Sexuais de Camille Paglia

terça-feira, outubro 15, 2019

CORAÇÃO - RAZÃO



ONTEM COMO HOJE...

"Eu acho que não há inteligência sem coração. A inteligência é um dom, é-nos concedida, mas o coração tem que a suportar humildemente, senão é perfeitamente votado às trevas." AGUSTINA BESSA-LUIZ

"Primitivamente, a cabeça devia ser regida pelo coração; ela só devia servir para engrandecê-lo. Hoje a cabeça do homem reina sobre o seu coração, quando é ao coração que o ceptro deveria pertencer; vale dizer que o amor é superior à ciência, dado que a ciência deve ser apenas o archote do amor e que esse archote é inferior àquele que ele ilumina."  Louis-Claude de Saint-Martin


UMA NOTA 

- Grandes escritores, místicos e filósofos colocaram a mão na ferida desta humanidade dividida, mas nenhum viu ou quis ver que aquilo que chamamos o coração, a emoção, ou os sentimentos é a parte caracteristica e integrante da mulher, parte  da sua realidade intrínseca, e que a causa dessa divisão e conflito entre os sexos e  não só, se devia ao facto de esse lado do ser (mulher) ter sido sonegada e subestimado ao longo dos séculos. É o lado feminino  na mulher, que foi denigrido e completamente desprezado como ente, assim como o seu papel na história, que cavou esse fosso entre o pensamento e o sentimento e tudo  isto em prol da supremacia da razão e da logica masculina que fez com que a humanidade fosse reduzida a uma metade homem, pela sua mente activa e racional, dando-lhe primazia absoluta no seu mundo - religião, cultura arte e filosofia - pelo poder da força, sonegando a Mulher e a Mãe e impondo a Ordem da Espada (Pai-filho) como principio único e  contra a Civilização do Cálice, a Mãe-Filha .
Sempre que a mulher se expressa de forma particular como representante do Principio Feminino da humanidade, ela é denigrida e é e foi considerada histérica e louca, +porque a emoção a intuição e o sentimento é previligiado. Sendo assim e ao negar a mulher na sua manifestação subjectiva o homem perdeu ele também essa metade instintiva e emocional (o amor) que corresponde à sua parte feminina e de que a Mulher é o expoente máximo. E sabemos hoje também que não foi elegendo uma Deusa Mãe imaculada e lenitiva nos altares a quem reza, a quem pede perdão e paz que vamos encontrar a harmonia e o equilíbrio entre ambos os sexos, mas elevando a Mulher real à sua dignidade de ser individual e livre que o mundo  vai encontrar paz.
Se o Homem representa a "cabeça" a Mulher representa o "coração" nesta Humanidade e isso foi ignorado quase sempre pelas Tradições esotéricas e mesmo por grandes Mestres, mas só elevando os dois às mesmas alturas, unindo a Terra e o Céu o SER HUMANO poderá recuperar a sua verdadeira estatura de humano e para o qual foi criado!
Os homens e as mulheres continuam a escamotear verdades fundamentais como o facto do desequilíbrio do mundo derivar da falta do princípio feminino e do seu justo valor não ser efectivamente atribuído à Mulher e à Mãe. Em quase todo o mundo e em todos os países, uns mais do que outros, existe uma óbvia discriminação do ser mulher...e a negação dos valores que ela representa.
Ninguém quer ver que essa descriminação começa e é feita entre nós na própria linguagem, na omissão da mulher nos discursos, sempre no masculino, na falta de entendimento de que sem a emoção-coração - o polo que a mulher representa - e nela está a origem dos grandes dramas no Planeta?

Sim, “As mulheres por vezes ficam histéricas e fazem e dizem as coisas mais estranhas. Mas esta observação vai dar a volta e morder a própria cauda: talvez a verdade da vida e do viver resida nas estranhas coisas que as mulheres fazem e dizem quando estão histéricas” in “As Duas Vozes” - de William Golding (Prémio Nobel).

UM bom exemplo de dois grandes escritores...


Fiódor Dostoiévski — por Albert Camus


"Todos os heróis de Dostoiévski se questionam sobre o sentido da vida. Nisto são modernos: não temem o ridículo. O que distingue a sensibilidade moderna da sensibilidade clássica é que esta se nutre de problemas morais e aquela de problemas metafísicos. Nos romances de Dostoiévski, a questão é colocada com tal intensidade que só admite soluções extremas. A existência é enganosa ou é eterna. Se Dostoévski se contentasse com essa análise, seria filósofo. Mas ele ilustra as consequências que esses jogos do espírito podem ter na vida de um homem e por isso é um artista. "


Albert Camus, in O Mito de Sísifo. Editora Nova Ortografia, pág. 106.



A assim vemos como os grandes autores mencionam as grandes questões do espírito como homens sem pensar na mulher que por natureza é diferente e pensa e sente de forma diferente também. Por isso o Homem nunca poderá representar homem e mulher. Humanidade ou ser humano poderá incluir a mulher, mas O Homem não inclui a mulher. Quando se fala do Homem e se enumera factos e feitos e razões, eu não me sinto incluída, talvez porque na realidade a grande maioria das vezes nem implícitas as mulheres estão pelas suas caracteristicas e natureza bem diferente da do homem. Enfim, para alguma coisa se fala em linguagem inclusiva, onde o ele e o ela se revejam na comunicação de uma forma individualizada e particular e com as características especificas e diferenciadoras de cada sexo. Esta falta do feminino é uma das razões que aponta para a perda de identidade feminina...
A Mulher ao se deixar aglutinar à historia e cultura de domínio do Homem perdeu completamente a noção da sua singularidade e especificidade...ao ponto a chegamos hoje de haver toda esta confusão de Géneros...
Mulheres é tempo de repensarem a comunicação e a linguagem pois ela reflete comportamentos, pensamentos e ações. A mulher permite, autoriza e compactua com comportamentos machistas fomentados pelo patriarcado sem na maioria das vezes ter consciência de que o faz, pois toda a aculturação ao longo dos últimos séculos não tem permitido que ela visualize para além da manta negra que a separa de si própria da sua essência feminina. As coisas estão mudando e a mulher após mulher vai despertando e sentido a necessidade absoluta de compreender a verdadeira e poderosa mulher em si, aquela que é livre do poder patriarcal.


Rosa Leonor Pedro

segunda-feira, outubro 14, 2019

A MORTE DA MÃE



A MORTE DA MÃE NA ORISTEIA 
    

… " Lembremos a história: Orestes mata a sua mãe durante a guerra de Tróia. Passamos então do Matriarcado ao Patriarcado: passamos da linhagem da mãe para a linhagem do pai. A antigas deusas matriarcais pre-olímpicas da Justiça, as Erínias, perseguem então o matricida. Mas Athena, a Virgem anti-matriarcal ao serviço de seu pai, Zeus, absolve Orestes."

A partir daí este é o princípio que rege a nossa história e a nossa cultura grego romana: a partir do assassínio da Mãe pelo filho com consentimento de Atena. A Oresteia é escrita como fundamento de uma nova sociedade patriarcal, onde a mãe não existe - tal como o afirma Atena na absolvição de Orestes: ela diz: "não há crime porque não há Mãe..." Esta é a sua lei. Ela impera até hoje!

rlp

ATENA A FILHA DO PAI
A Deusa não conheceu sua mãe, Métis...

"Talvez o maior diferenciação da Deusa Atena está em não ter conhecido e não ter convivido com a mãe, Métis. Na verdade Atena parecia não ter consciência de que tinha mãe, pois considerava-se portadora de um só genitor, Zeus. Na qualidade de tão somente "filha do pai", Atena tornou-se uma defensora dos direitos e dos valores patriarcais.
Ela era o "braço direito" de Zeus, com crédito total para usar bem sua autoridade e proteger as prerrogativas dele. Muitas dedicadas secretárias executivas, que devotam suas vidas a seus patrões, são bons exemplos das convicções da Deusa Atenas." (...)

(?)

QUANDO UMA MULHER DIZ A VERDADE






"As mulheres têm sido levadas à loucura, " Gaslighted," durante séculos pela refutação da sua experiência e dos seus instintos numa cultura que valida apenas experiência do sexo masculino... Quando uma mulher diz a verdade, ela está a criar a possibilidade para mais verdade em volta dela ." - Adrienne Rich



NOTA

* Gaslighting ou gas-lighting[1] é uma forma de abuso psicológico no qual informações são distorcidas, seletivamente omitidas para favorecer o abusador ou simplesmente inventadas com a intenção de fazer a vítima duvidar de sua própria memória, percepção e sanidade.[2] Casos de gaslighting podem variar da simples negação por parte do agressor de que incidentes abusivos anteriores já ocorreram, até a realização de eventos bizarros pelo abusador com a intenção de desorientar a vítima. Wikipedia

QUE DEUSA É FIDEDIGNA?



- Se o que sabemos ou julgamos saber das deusas antigas não é fidedigno, então o que é fidedigno? Por outro lado, se as verdadeiras noções sobre essas deusas se perderam há muito, que pessoa actualmente viva é que pode dizer o que corresponde à verdade ou não? Qual dos vivos poderá dizer a outro vivente 'a tua noção não é verdadeira' se nenhum dos vivos pode averiguar nem a sua veracidade nem, obviamente, a sua falsidade?
Por outro lado, se as deusas adoradas na antiguidade europeia já são hoje mal conhecidas, o mesmo não se poderá dizer das deusas ainda hoje adoradas na Índia sem interrupção histórica. Poderá então a mulher portuguesa, a italiana, a inglesa, a holandesa, a russa, dedicar-se ao culto de deusas hindus sem que lhe possam dizer que já não as entende? Se, por outro lado, a ocidental encontra semelhanças entre o que sabe das deusas antigas e o que é sabido das deusas hindus, isso quer dizer que está enganada e deve portanto abdicar da sua própria capacidade de avaliar o que vê e o que sente? Não é aliás por acaso que no movimento neo-pagão há muito mais mulheres do que homens, nalguns casos o dobro, quando não o triplo, algo que não se deve apenas ao maior pendor religioso da mulher mas, creio, à sua identificação com religiões de culto a deusas. Como bem diz, tudo isto se aplica também a homens, consoante os casos, mas esses têm tido desde há séculos a sua religião patriarcal, as mulheres e os maricas é que não e agora começam a tê-las, à medida que antigos cultos regressam paulatinamente.
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  • Rosa Leonor Pedro Eu disse que não podemos dizer com toda a certeza que é exactamente assim como julgamos ver, porque lemos a nossa maneira de ver a distância de milhares de anos e digo também  que a maneira de saber o que é verdadeiro, é a forma como a informação  ressoa com cada mulher como um ser total e com a memória das suas células. O que eu queria alertar é para o perigo de trocarmos de cultos se a Deusa no sentido do absoluto, energia e Principio feminino, não estiver integrado. Não no plano mental-intelectual porque ai é que está o perigo de se julgar que se sabe, mas não haver essa conexão interior com a energia da Deusa. A Deusa é uma experiência no amago da mulher e para mim, basicamente Ela é só uma, não muitas deusas. Seja na India seja no Egipto as deusas eram representação e emanação de forças e poderes… Hathor e Bastit etc. cada qual representando as facetas da mulher a integrar. Essas deusas são princípios da Natureza e do Cosmos como Nout deusa do Céu e Maat, como Principio da justiça e verdade, mas tudo faz parte integrante de um ser . Assim vejo todas as deusas que proliferam na antiguidade clássica, como diferentes nomes da mesma Deusa e diferentes facetas que a mulher de acordo com a sua natureza pessoa melhor encarna, mas a essência da Deusa como geradora de vida e Matriz da vida é só uma. Seja como for, o que eu quero significar  no texto anterior, é que se a mulher não for inundada dessa energia catalisadora que harmoniza e equilibra todas essas diferenças não há uma mulher integral e continuaremos a ter as mulheres cindidas e divididas em arquétipos e estereótipos… Portanto podemos adorar a deusa X ou Y mas isso não quer dizer que toquemos a nossa essência telúrica e divina…
    Em suma penso e afirmo que a Mulher DESPERTA tem em si uma natural sabedoria que lhe permite saber o que é a verdade mas no sentido actual e dos nossos dias criar uma nova realidade e não imitar os antigas religiões a risco de perdermos tudo o que evoluímos ou não nestes últimos séculos.

ESCUTAR O SILÊNCIO




A ESCUTA INTERIOR

"Penetramos numa história pela porta da escuta interior. A história falada toca no nervo auditivo, que atravessa a base do crânio até chegar ao bulbo do cérebro logo abaixo da ponte de Varólio. Ali, os impulsos auditivos transmitidos para cima para o consciente ou, segundo dizem, para a alma... dependendo da atitude de quem ouve.

Antigos anatomistas falavam de o nervo auditivo dividir-se em três ou mais caminhos nas profundezas do cérebro. Eles concluíram que o ouvido devia, portanto, funcionar em três níveis diferentes. Um deles seria o das conversas rotineiras da vida. Um segundo seria dedicado à aprendizagem e à arte. E o terceiro existiria para que a própria alma pudese ouvir orientações e adquirir conhecimentos enquanto estivesse aqui na terra." Clarissa Pinkola Estés

Talvez esse arrebatamento seja possível quando deixamos entreabertas as janelas da alma.


O SILÊNCIO DA MULHER


"Às vezes penso que a mulher tem muito mais poder através do silêncio. Não digo do silêncio da vítima, do silêncio por não ter capacidade de expressão ou outra que a impossibilita. Menciono um outro tipo de silêncio que trabalha activamente nos bastidores e direcciona as situações ou os acontecimentos. Isto parece-me paradoxo, no entanto quase que às vezes tenho essa leve percepção que a mulher detêm muito mais poder através desse silêncio que ainda não foi consciencializado. A mulher inspira medo devido ao seu poder de olhar qual lente macro para determinada coisa, contrário, o homem inspira medo devido ao seu carácter, o de posse sobre as coisas. Mulher que se dá e entrega, o homem terá que a aceitar porque lhe vampirizará a força interna em beneficio de si mesmo. Vejamos as situações em que mulheres com carisma, quando casaram viraram sombra de si mesmas, enquanto eles se tornaram homens de força e cujo charme pessoal aumentou..."  nsseeao - Ana M. Fernandes

sábado, outubro 12, 2019

Cultos



O PERIGO DOS CULTOS...
A DEUSA COMO UMA NOVA FÉ?


Antes tínhamos fé em Deus... em deus-pai-filho e espirito santo. Hoje abriram-se novas perspectivas e a mulher desperta para uma nova consciência de si e do sagrado e de uma Deusa Mãe que não apenas a Virgem e mãe de Jesus. Falo aqui do renascer de um Feminino Sagrado, como um valor inerente ao ser mulher com referências num matriarcado. Este absorção da Grande Deusa pagã pelas mulheres foi um passo muito importante e de valor inestimável para a mulher do nosso tempo face ao patriarcalismo e o materialismo redutor da vida destas ultimas décadas, por isso mais importante talvez do que o feminismo, e falo por experiência própria, mas no mundo moderno tudo tem duas faces e o "novo" também pode ser uma armadilha. Se a mulher não estiver atenta ela pode cair na armadilha do que é falso e aparente. É que dentro do quadro social e económico, a mulher continua a viver debaixo do poder patriarcal, sujeita as suas ideias e leis e aos seus padrões, programada e avaliada dentro do Sistema. O sistema falocrático que a usa e anulou no seu potencial instintivo e a impede ainda hoje de entrar em contacto com o Principio Feminino e portanto com as forças da natureza e do mundo cósmico telúrico e isso muitas vezes impede que a mulher tenha um verdadeiro discernimento do que representa a Deusa e a Mãe e a Mulher, ou seja, a Mãe e a Filha como referência psiquica e emocional, integrando e restabelecendo de forma consciente a sua relação com a sua mãe de carne e osso, e não o Pai e o Filho, ou a deusa nesta caso e apenas mude de fé…Sim, em vez de cultuar o deus pai cultua a deusa mãe mas não muda a sua programação interior nem a sua consciência de si como mulher integral, pois continua dividida nos estereótipos ou arquétipos que separam as mulheres nessa fragmentação abusiva e secular do seu ser cindido na mulher decente e séria, a mulher respeitável pelo sistema, a mulher casada com homem e filhos e a mulher livre solteira e sensual, que consideram promíscua e depravada, associada a prostituta.
Enquanto as mulheres viverem debaixo destes padrões e se avaliarem entre si com estas bitolas e se olharem entre si como rivais, más ou boas, deste ou daquele grupo, mesmo subtilmente e tiverem medo umas das outras, não há qualquer representatividade da Deusa na mulher seja como devotas, seja como sacerdotisas. Porque neste caso apenas substituíram um culto por outro... e o mesmo medo e auto-censura do dogma e o conceito bem e o mal as tolhe... vivem nessa mentira de que são todas doces e submissas e alegres e positivas!
Enquanto as mulheres não se amarem a si mesmas e aceitaram como são e às outras mulheres e forem efectivamente abertas e livres e capazes de se olharem na sua sombra e integrarem os seus medos e traumas, sem auto-censura, sem repressão do seu lado feio ou dito negativo, nunca estarão prontas para serem autênticas e exemplos a seguir ou fontes de inspiração para outras mulheres.


rosaleonorpedro