terça-feira, abril 30, 2019

A ESCRAVIZAÇÃO DA MULHER


VERDADES CRUAS E DURAS...

" Andrea Dworkin demonstra que o domínio masculino é um domínio sexual na prática: os homens dominam as mulheres ao fodê-las. Porque eles carregam no ato todo o ódio que sentem em relação a elas, por isso o sexo e a violência estão estreitamente ligados. Moldou-se uma norma sobre a relação sexual que, mesmo nos meios ditos progressistas e liberais, assenta necessariamente no domínio das mulheres pelos homens. O coito não pode ser pensado como um encontro de corpos robotizados sem alma. São precisamente esses esforços de desumanização que escravizam as mulheres. Dworkin reclama para se reinventar as relações sexuais, começando por se interessar pela própria relação sexual em si, o que ele expressa da nossa humanidade, e das nossas relações com os outros, em toda a sua complexidade. Enquanto continuar a tolerar-se a violência sexual que são a prostituição e a pornografia, vamos continuar a tolerar a violência masculina. E não vamos nunca deixar de ser fodidas."*


Nota - A palavra Foder significa: ferir, magoar, rasgar, violar, e diz tudo como homens e mulheres veem a relação sexual.


* Andrea Dworkin, "Coïts", éditions Syllepse, traduction de Martin Dufresne.

A DEPRESSÃO



"Objetividade é a denominação que a sociedade Patriarcal dá à subjetividade masculina"
Adrienne Rich (1929-2012)



MULHERES ATENÇÃO:

"A maioria das depressões, tédios e confusões errantes da mulher é causada por uma severa restrição da vida da alma, na qual a inovação, o impulso e a criatividade são proibidos ou limitados. As mulheres recebem um enorme impulso para agir proveniente da força criadora. Não podemos ignorar o fato de ainda ocorrerem muitas apropriações e mutilações dos talentos das mulheres através das restrições culturais e do castigo aos seus instintos naturais e saudáveis."*


Clarissa Pinkola estes também nos fala sobre os predadores:


"Na vida diária, também existem muitos ladrões de luz e assassinos da consciência. Em geral, o predador se apodera do suco criativo da mulher por simples prazer ou para seu próprio uso, deixando-a mais pálida do que a cera e sem saber o que aconteceu enquanto ele está cada vez mais alegre e saudável. A pessoa predadora quer que a mulher não preste atenção aos seus instintos por medo que se dê conta de que aplicaram um sifão à sua mente, sua imaginação, seu coração, a sua sexualidade ou o que seja.

O esquema da entrega da vida do próprio núcleo começa às vezes na infância, favorecida pelas pessoas que cuidam da criança e pretendem que as suas qualidades e seu charme encham seu próprio vazio e mitigar a fome que sentem. O fato de que a criança seja educada desta maneira confere um enorme poder ao predador natural e a expõe que mais tarde se transforme em barragem de outros. Até que seus instintos tornam-se a colocar em sua respectiva ordem, a mulher que foi educada desta maneira é extremamente vulnerável à possibilidade de ser vítima das tácitas e devastadoras necessidades psíquicas dos outros. Em Geral, uma mulher com os instintos bem desenvolvidos sabe que o predador a espreita quando se vê presa em um relacionamento ou uma situação que apequena sua vida em vez de engrandece-la."*


AS DUAS MULHERES, como um todo...


"Embora cada lado da natureza de uma mulher represente uma entidade separada, com funções diferentes e capacidade de discernimento, eles devem, à semelhança do cérebro com seu corpo caloso, ter uma tradução um do outro e, portanto, funcionar como um todo. Se a mulher esconde um dos lados ou privilegia um dos lados em demasia, ela tem uma vida desequilibrada que não lhe permite acesso ao seu pleno poder. Isso não é bom. É necessário desenvolver os dois lados." - C.P.E.

Esta nota é demasiado importante para não a fixarem ou comentarem...nela está implícita a consciência da divisão da mulher ou seja - essas duas partes da mulher formam um todo quando estão unidas e esse é o nosso propósito. Enquanto isso não acontece as mulheres vivem separando a sua parte instintiva sexual da sua parte racional maternal, de acordo com o que os homens exigem delas e a sociedade...é ai que se dá o conflito interior da mulher que não compreende que dentro dela há essas duas forças e que se desequilibrando ela perde o seu poder. 

rlp
excertos de Clarissa Pinkola Estees

A ARTE ACTUAL E O FIM DA CIVILIZAÇÃO?




"Uma erupção do desafio anal"
(...)
“Devemos esperar uma erupção do desafio anal e dos impulsos sádicos, masoquistas e destrutivos. Não se limitam a declarar guerra as normas e aos valores da cultura, ufanam-se com imagens de destruição. E os artistas dão expressão pública às suas fantasias: corpos são dilacerados, revelando visões de sangue, esqueletos, pedaços de pele e intestinos, excrementos desfilando em desafio, seres humanos apresentados em formas grotescas de catatonia, dor e terror - todas as nossas defesas são deliberadamente abaladas e os nossos sentidos ultrajados.
Imagens sádicas orais, crânios com dentes ameaçadores, garras rasgando corpos, corpos dilacerados, esvaídos em sangue, figuram proeminentemente; corpos esqueléticos, macilentos, lagostas com caninos misturados com figuras humanos, enormes vaginas sangrentas com dentes, auto-retratos com horríveis crânios agressivos simbolizando a supremacia do sadismo sobreposto ao ego consciente podem ser vistos numa infinidade de temas em inúmeras pinturas."


IN Os Fundamentos da Moralidade
De George Frankl

quinta-feira, abril 18, 2019

domingo, abril 14, 2019

ONDE A EMANCIPAÇÃO FEMININA?


"Pornografia: O Novo Terrorismo?” em As Políticas do Corpo, N. 45, Livro publicado em Agosto 1978

O QUE É QUE MUDOU EM 40 ANOS?

(…)
Uma mulher, quase nua, em uma cela, em cadeia, carne arrancada do chicote, peitos mutilados por uma faca ela é entretenimento, a fantasia favorita do garoto, o direito precioso de cada homem, o destino potencial de cada mulher.

A mulher torturada é entretenimento sexual.
A mulher torturada é sexualmente excitante.
A angustia da mulher torturada é sexualmente excitante.
A degradação da mulher torturada é sexualmente fascinante.
A humilhação da mulher torturada é sexualmente prazerosa, emocionante, gratificante.

Mulheres são pessoas degradas e aterrorizadas. Mulheres são degradadas e aterrorizadas por homens. Estupro é terrorismo. Violência de marido contra esposa² é terrorismo. O massacre médico é terrorismo. O abuso sexual em suas cem milhões de formas é terrorismo.


Os corpos das mulheres são possuídos pelos homens. As mulheres são forçadas a ter filhos
involuntariamente porque homens, não mulheres, controlam as forças reprodutivas das mulheres. As mulheres são uma população escravizada — a colheita que colhemos são as crianças, os campos nos quais trabalhamos são as casas. Mulheres são forçadas a cometer atos sexuais com homens que violam suas integridades porque a religião universal — desprezo pelas mulheres — tem como seu primeiro mandamento que as mulheres existem puramente como forragem sexual para os homens.

As mulheres são pessoas ocupadas. Nossos próprios corpos são possuídos, levados por outros que tem um direito inerente de leva-los, usados ou abusados por outros que tem um direito inerente de usá-los ou abusá-los. A ideologia que energiza e justifica essa degradação sistemática é uma ideologia fascista — a ideologia da inferioridade biológica. Não importa o quão disfarçada ela seja, não importa qual refinamento a deixe mais apresentável, essa ideologia, reduzida a sua essência, postula que mulheres são biologicamente adequadas para funcionar apenas como criadoras, pedaços de bundas e serventes. Essa ideologia fascista da inferioridade feminina é a ideologia predominante nesse planeta. Como Shulamith Firestone colocou na Dialética do Sexo, “a classe de sexo é tão profunda quanto é invisível”. Que mulheres existem para serem usadas por homens é, muito simplesmente, o ponto de vista comum, e o ponto de vista concomitante, inexoravelmente ligado, é que a violência usada contra mulheres para nos forçar a cumprir nossas tão chamadas funções naturais não é na verdade violência. Todo ato de terror ou crime cometido contra mulheres é justificado como uma necessidade sexual e/ou é descartado como absolutamente sem importância. Essa extrema insensibilidade passa como normalidade, de modo que quando as mulheres, após anos ou décadas ou séculos de abuso indescritível, elevamos nossas vozes com indignação contra os crimes cometidos contra nós, somos acusadas de estupidez ou loucura, somos ignoradas como se fossemos manchas de poeira ao invés de carne e sangue.

Nós, mulheres, estamos levantando nossas vozes agora, porque em todo esse país uma nova campanha de terror e vilificação contra nós está sendo travada.
A propaganda fascista celebrando a violência sexual está varrendo essa terra. A propaganda fascista celebrando a degradação sexual das mulheres está inundando cidades, campus de faculdades, pequenas cidades. A pornografia é a propaganda do fascismo sexual. A pornografia é a propaganda do terrorismo sexual. Imagens de mulheres encadernadas, machucadas e mutiladas em praticamente todas as esquinas da rua, em toda as lojas de revista, em todas as farmácias, em casas de cinema após casa de cinema, em outdoors, em cartazes colados em paredes, são ameaças de morte a população feminina em rebelião. A rebelião feminina contra o despotismo sexual masculino, rebelião feminina contra a autoridade sexual masculina, é agora uma realidade em todo este país. Os homens, enfrentando a rebelião com um crescimento de seu terror, penduram fotos de corpos femininos mutilados em todos os lugares públicos.

Nós somos forçadas a ou capitular, sermos espancadas por essas imagens de abuso até a aceitação silenciosa da degradação feminina como um fato da vida, ou a criarmos estratégias de resistências derivadas de uma vontade completamente consciente de resistir. Se nós capitularmos — sorrirmos, sermos boas, fingirmos que a mulher em correntes não tem nada a ver conosco, desviarmos nossos olhos quando passarmos pela imagem dela cem vezes por dia — nós perdemos tudo. Ao que, afinal de contas, todo o nosso trabalho contra o estupro ou a violência de maridos contra mulheres equivale quando uma foto delas vale mil palavras nossas?

Estratégias de resistências estão se desenvolvendo. As mulheres estão cada vez mais se recusando a aceitar a mentira perniciosa e debilitadora de que a humilhação sexual de mulheres por diversão, prazer e lucro é um direito inalienável de cada homem. Petições, folhetos, piquetes, boicotes, vandalismo organizado, discursos afora, palestras, campanhas de escrita de cartas, assédio intenso e militante a distribuidores e exibidores de filmes misóginos, e uma recusa inflexível de dar ajuda e conforto aos amigos de trabalho dos pornografistas, politicamente convencidos de sua moralidade³, estão aumentando, conforme as feministas se negam a se acovardar diante dessa nova campanha de aniquilação. Estas são ações iniciais. Algumas são rudes e algumas são civis. Algumas são ações de curto prazo, espontaneamente inflamadas pela indignação. Outras são estratégias de logo prazo que demandam extensiva organização e comprometimento. Algumas desconsideram a lei masculina, quebram ela com militância e orgulho. Outras ousam exigir que a lei proteja as mulheres — mesmo as mulheres — do terrorismo descarado. Todas essas ações surgem da verdadeira percepção de que a pornografia ativamente promove o desprezo violento pela integridade e pela liberdade legítima das mulheres. E, apesar das reivindicações masculinas em contrário, feministas, não pornógrafos, estão sendo presas e processadas por agentes da lei masculinos, todos de repente “libertários civis”, quando o privilégio masculino é confrontado nas ruas por mulheres irritadas e insolentes. O conceito de “liberdades civis” nesse país nunca incorporou, e nem agora incorpora, os princípios e comportamentos que respeitam os direitos sexuais das mulheres. Portanto, quando pornógrafos são desafiados pelas mulheres, a polícia, os advogados de distrito e os juízes punem as mulheres, ao mesmo tempo que ritualmente afirmam ser guardiões legais da “liberdade de expressão”. Na verdade, eles são os guardiões legais do lucro masculino, da propriedade masculina e do poder fálico.

Ações feministas contra a pornografia devem cobrir o país, de forma que nenhum pornógrafo possa se esconder, ignorar, ridicularizar ou encontrar refúgio da indignação de mulheres que não serão degradadas, que não se submeterão ao terror. Onde quer que essas mulheres reivindiquem qualquer dignidade ou desejem qualquer possibilidade de liberdade, nós devemos confrontar a propaganda fascista que celebra a atrocidade contra nós de cabeça erguida — expor ela pelo que ela é, expor aqueles que a fazem, aqueles que a anunciam, aqueles que a defendem, aqueles que consentem com ela, aqueles que gostam dela.

No curso dessa difícil e perigosa luta, nós seremos forçadas, conforme nós experimentarmos a intransigência daqueles que cometem e apoiam esses crimes contra nós, a nos fazermos perguntas mais difíceis e profundas, as que tanto tememos:
O que é essa sexualidade masculina que requer nossa humilhação, que literalmente se incha com orgulho da nossa angústia;
O que significa mais uma vez — após anos de análise e ativismo feminista — os homens (gays, de esquerda, que seja) que proclamam um compromisso com a justiça social estarem decididos a recusar-se a enfrentar o significado e significância de sua defesa entusiástica de mais uma praga misógina;
O que significa os pornógrafos, os consumidores da pornografia e os apologistas da pornografia serem homens com os quais crescemos, homens com quem falamos, com quem vivemos, os homens que são familiares para nós e muitas vezes queridos por nós como amigos, pais, irmãos, filhos e amantes;
Como, cercadas por essa carne da nossa carne que nos despreza, defenderemos o valor de nossas vidas, estabeleceremos nossa integridade autêntica e, por últimos, alcançaremos nossa liberdade?

EXCERTO DE ARTIGO EM M.
“Pornografia: O Novo Terrorismo”, publicado primeiramente sob o título de “Pornografia: O Novo Terrorismo?” em As Políticas do Corpo, N. 45, Agosto 1978; depois publicado sob seu título real, sem o ponto de interrogação, na Revisão de Lei e Mudança Social da Universidade de Nova Iorque, Vol. III, №2, 1978–1979. Direitos autorais © 1977 por Andrea Dworkin. Todos os direitos reservados.

O DIABO



O MAIOR PRECONCEITO ANTIFEMININO
DE NOSSA CIVILIZAÇÃO...


"...Personificações do diabo na prédica cristã, as bruxas absorveram a herança das sibilas,magas e sacerdotisas, as quais consumaram seu mais alto êxito na cultura druídica ao lado de fadas que ideavam as cidades anglo-saxônicas. Acentuaram-lhes a fealdade ao relacioná-las ao pecado; reduziram -nas à ponte emblemática entre o visível e o tenebroso, habitantes de um mundo intangível ou irreal, e a mera travessura da criação entre o humano e o sobrenatural, até diminuírem-nas à caricatura humanoide de Lúcifer. Ao tipificar a perversidade na mulher madura, que traz às costas a experiência e, seguramente, muitas tristezas não resolvidas, os moralistas impingiram à elas O MAIOR PRECONCEITO ANTIFEMININO DE NOSSA CIVILIZAÇÃO.

Mesmo em nossos dias, com idéias próprias e juízos críticos, AS MULHERES QUE DESAFIAM O DIFERENTE OU O PROSCRITO AINDA SÃO QUALIFICADAS DE BRUXAS, especialmente quando manifestam condutas contrárias ao preestabelecido, embora se tente camuflar este termo com o de "velhas terríveis", aplicado aquelas inconformistas que provocam medo por causa de seus atrevimentos ofensivos às pessoas de "boa consciência".


In: "MULHERES, MITOS E DEUSAS, feminino através dos tempos", Martha Robles, ed. Aleph

sábado, abril 13, 2019

CURAR O FEMININO E A TERRA


A MINHA PARTICIPAÇÃO:

A Cisão das Mulheres e a Mulher Integral

Rosa Leonor Pedro

Parecerá estranho que evoque a cisão das mulheres quando queremos celebrar a união e a harmonia entre mulheres em prol da Grande Deusa. A verdade é que me apetecia apagar desde logo toda a desunião vinda de ideias e ideologias que criaram a divisão e a desunião das mulheres no mundo. Fingir que ela não existe e ignorar o que está a acontecer contra as mulheres não é a melhor forma de construir um mundo diferente. E se o digo é porque o meu maior anseio é chegar a esse momento em que as mulheres se darão as mãos de forma verdadeira e inequívoca. Para isso temos de ser inteiras, apelando à nossa força anímica e à Deusa Mãe, para que através da restauração do Princípio Feminino, essa Consciência de si possa acordar em todas as mulheres.
Não há canto, nem união, sem que as mulheres se consciencializem daquilo que as divide e antagonizou entre si durante séculos. Por isso o meu trabalho dirige-se exclusivamente para uma tomada de consciência dessa cisão interior da mulher e a sua superação, o que seria impossível sem o amor da Mãe e o meu amor pela Mulher. É sobre isso que escrevo e falo há mais de 30 anos…

O VERDADEIRO EGIPTO


A CIVILIZAÇÃO EGIPCIA 

"O modelo do Egipto antigo permanecerá insubstituível para nós, mesmo que seja ilusório querer aplica-lo ao mundo moderno. Ele continua a brilhar com suas mil facetas em suas obras de pedra e a magia dos seus hieróglifos. Ele impregnou o olhar dos turistas, que voltam iluminados interiormente e com frequência se perguntam, depois do seu primeiro contacto com o pais bem amado: "O que é que a civilização egípcia descobriu que nós esquecemos?"


Étienne Guilée

DEDICADO A QUEM AMA OS GATOS




A MESTRIA DO SER (OU NÃO SER…)

(...) O ser humano ainda não iluminado pela sua consciência espiritual quanto aos valores reais ou relativos, deixa o seu mental apoiar os desejos instintivos do seu ser inferior, cujas exigências anárquicas criam tumultos de aceleração de impaciência, e de caprichos incoerentes.
Sofrendo dessas influências, o Autómato humano assemelha-se a certo tipos de animais. O cão treme de impaciência diante do osso avidamente desejado. A inconstância do macaco é típica pela sua dispersão de ideias. A agitação da mosca lança-a para a armadilha da aranha. A pressa é a preocupação da abelha pelo dever social; é também a inquietação da formiga que tem sempre qualquer coisa que fazer, mas que se precipita em voltas supérfluas, sabendo a direcção, mas não a maneira de contornar os obstáculos.


Ao contrário de outros animais que nos dão uma lição de mestria, sendo exemplo disso o gato cuja sabedoria é um modelo porque junta a maior paixão à mais indiferente calma.


Na sua imobilidade reflecte o seu salto, sempre exacto;
a força dos seus rins é proporcional ao relaxe do seu sono:
há no seu sono, o abandono da criança recém-nascida,
enquanto que o seu instinto está sempre de vigília;
a sua leveza sem resistência torna a sua queda sem perigo;
Caça e luta são para ele alegria do jogo: ele caça sem ódio e joga sem finalidade;
constantemente pronto ao ataque sem animosidade,
e pronto a defender-se sem apreensão:
vencedor indiferente, ele nunca é vencido.

A serenidade é o fruto da independência.
Cria em ti esta independência, que não é indiferença, mas neutralidade face às impressões recebidas do exterior: bonito e feio, bom e mau, alegre ou triste, agradável ou penível... Um a coisa é discernir as qualidades, outra é deixá-las afectar a nossa disposição.
(...).
La paz sobre esta Terra não pode ser a supressão das forças opostas, mas a sua conciliação no interesse de um fim comum: a vida indestrutível.


In « L’OUVERTURE DU CHEMIN » de ISHA s. DE LUBCZ

O LIVRO AMADO



Á ESPERA DO LIVRO AMADO...


"... Não sei. Mas faço tantas fantasias a respeito desse livro desconhecido e já tão profundamente amado. Uma das fantasias é assim: eu o estaria lendo e de súbito, a uma frase lida, com lágrimas nos olhos diria em êxtase de dor e de enfim libertação: "Mas é que eu não sabia que se pode tudo, meu Deus!"

clarice Lispector

DOR PSIQUICA



"A DOR PSIQUICA É UMA AUTORIDADE ESPIRITUAL* 


É através do sofrimento psíquico e a capacidade de integração do saber-conhecer-pela experiencia interna, "Non cogitat Qui non experitur “ que a autoridade espiritual se forma e é...SABEDORIA.

RLP
* andré louro de almeida

O CONTINENTE PERDIDO...




"Nos homens, diz o Upanishad, o Auto-Existente cortou as portas da consciência abrindo-a para fora, mas uns poucos voltam os olhos para dentro e são estes que vêem e conhecem o Espírito e desenvolvem o ser espiritual."
Sri Aurobindo



O CONTINENTE PERDIDO...

A superação da dualidade - para lá dos cinco sentidos...


..."O ser "desperto" é aquele que pode ultrapassar em qualquer lugar as linhas de recife que separam o continente perdido do continente acessível aos nossos sentidos . Isso não significa que ele não sofra mais ao atravessar os obstáculos num sentido ou noutro, mas, conhecendo a natureza das causas dos seus sofrimentos, se liberta deles...Ele continua a experimentar emoções, a sentir, a amar e...tc., mas as suas sensações são magnificadas e iluminadas porque nascem do continente perdido. É um retorno ao centro, à unidade principal do ser que faz com que não estejamos mais à espera da satisfação dos nossos cinco sentidos. Ao mesmo tempo, os prazeres da vida não nos são estranhos, mas mudaram as suas qualidades ao adquiriram uma nova densidade. Eles se encontram agora enriquecidos pela luz da alma e do espírito, uma luz interior que irradia até a menor das nossas células.
Os caminhos que levam ao despertar são caóticos e semeados de obstáculos imprevistos. Eles envolvem processos de desestruturação e reconstrução tais como são hoje assinalados nas fases de renovação dos seres humanos. "


in O HOMEM ENTRE A TERRA E O CÉU - ETIENNE GUILEÉ

quinta-feira, abril 04, 2019

Será que eu estou a dizer uma blasfémia...?


A MULHER - ESSA MULHER


A mulher essência, essa Mulher Real e Eterna que começa a aparecer senhora de si e não falo das executivas nem das deputadas e escritoras ou das feministas em geral, falo de outras mulheres que ninguém sabe nem ninguém lê...e que tanto assusta os homens... - mas não, que ninguém se iluda, nem todas as mulheres são mulheres nem todos os seres humanos são humanos...e eu tenho horror as mistificações e aos simulacros e não perdoo...Não, não vou em conversinha mole de bondade e compreensão e de gente muito piedosa...perante as mulheres e homens - psiquiatras, padres, professores cientistas e filósofos - que são expoente dessa sabotagem permanente do que é SER MULHER e que hoje tantos deles e mesmo mulheres pretendem defender o Feminino,  e  que não só não  sabem o que é esse feminino sagrado e ontológico, como não o representam de modo algum por experiência vivida ou saber próprio...


AS MULHERES OBJECTOS...


Eu penso que que o Sagrado Feminino devia ser antes de tudo a expressão dessa Mulher Inteira, a Deusa na mulher, sim, mas de modo a tornar a mulher um ser uno e uma só...sem faces - tirando as fases e faces da Lua de cada mulher como o processo natural do seu crescimento humano? - uma Mulher que é jovem depois madura e se torna velha...e que pode viver para além de ser mãe e amante...ou avó…
Ou além disso, por outro lado, será que estamos condenadas a ser também só as divas e as musas e os objectos sexuais, e o vaso de despejos seminal dos homens e a viver eternamente dependentes do prazer e do orgasmo...ou será que há uma CONSCIÊNCIA SUPERIOR E ONTOLÓGICA QUE REDIMENSIONA A MULHER ao nível da sua Psique e da sua Alma e lhe dá um novo estatuto na sociedade humana e cujo FOCO é ELA mesma como INdivíduo, como  mulher em si e não, por amor da Deusa, sempre focada no "outro/a" e no prazer do sexo e do corpo? Ser a  mulher objecto, o eterno diabo, a sedutora, a mulher vazia de si, fatal, a frívola, ou agora a prostitua "sagrada" que ousam profanar...e confundir com a verdadeira sacerdotisa da Deusa?
Será que as mulheres não sonham com esse SENTIR-SE em si inteiras, com uma identidade própria, para que possam de uma vez por todas serem APENAS MULHERES, independentemente do papel/função que escolhem ter? Sim, a aposta das mulheres não devia ser antes de tudo o mais numa Mulher Integral, com significado e vida em si mesmas, sem precisar do homem nem do filho para se realizarem?

Será que eu estou a dizer uma blasfémia...?


Não, eu não nego a sexualidade nem o corpo vital...mas a mulher é muito mais do que um corpo e do que um sexo! Ela tem Alma afinal...e coração também...e tem um potencial imenso a desenvolver, uma grandeza e uma dignidade que lhe trará a VERTICALIDADE - elevação da Kundaline...sem ser pelo orgasmo...

(Publicado em 16 de Março de 2014 em Mulheres & Deusas)

rosaleonorpedro

(en general una cosa como una muerte)



O PODER DAS PALAVRAS

Há muito que ando a escrever sobre as palavras...
Já o fiz muitas  vezes, mas hoje queria focar um aspecto algo diferente, talvez no intuito de querer perceber  como há palavras, que embora em si às vezes pouco ou nada digam, para além do seu significado, mas que em determinadas circunstâncias tem um peso devastador.
Sabemos que há palavras que nos salvam, que há palavras que beijam, como diz o poema, como há palavras que matam…Palavras que matam não a pessoa, mas os afectos, que matam a confiança em alguém, que afastam inexoravelmente irmãs e amigas do coração…
Com a minha irmã aconteceu uma vez…e com um tio outra vez, e várias vezes aconteceu com amigas que estavam acima de qualquer reserva…(dos homens nunca acreditei na sua palavra…)
Sim, as palavras tem uma força enorme e veiculam uma energia da forma como se diz e como se sente...por isso há palavras de excomunhão, que excomungam, que exorcizam, palavras de evocação e mantras, palavras que ferem de morte sim… e leva muito tempo a sarar… ou que talvez nunca sarem.
Eu sou uma pessoa que perdoa facilmente, que relativizo o mal que me fazem e que não tenho dificuldade em compreender e aceitar os males entendidos e sem retaliação...mas nunca esqueço as ofensas - não retribuo, não reclamo -...apenas me fecho… e nunca mais sou a mesma. O interessante disso e que acho deveras curioso, é que não depende de mim nem da minha vontade. É uma coisa que acontece por uma ordem oculta e interna, penso que a nível do coração...É o coração que decide, porque o coração é sábio e ele sabe melhor que nós e os nossos conceitos de bem e mal o que é justo e injusto.
Normalmente eu suporto muitos mal entendidos e desfeitas e mágoas e até ofensas...sim porque compreendo a nossa susceptibilidade e o nosso ego...sei que também erro! Mas quando alguém nos fere e o nosso coração sofre, ele resguarda-se e não se abre mais à pessoa que desfere o golpe. Aí é definitivo. Eu até tenho pena, por mim continuaria exposta e a dar-me de coração aberto, mas o coração é mais exigente e só ele pode saber quando se deve fechar ou abrir, porque conhece o poder da palavra e filtra o sentido exacto do mal e do bem que nos fazem… só ele sabe a intenção, só ele sabe a razão...
Sim, há palavras que nos salvam e palavras que nos matam por dentro. Por isso temos de ter muito cuidado com elas…


rlp


(en general una cosa como una muerte)

"Conocemos a las personas durante años, incluso decenas de años, habituándonos a evitar los problemas personales y los asuntos verdaderamente importantes, pero guardamos la esperanza de que, más tarde, en circunstancias más favorables, se puedan justamente abordar estos asuntos y estos problemas.
La esperanza, siempre aplazada, de una relación más humana y más completa no desaparece totalmente, porque ninguna relación humana se contenta con límites definitivos, restringidos y rígidos.
Permanece, por tanto, la esperanza de que haya un día una relación "auténtica y profunda".
Y permanece durante años, incluso durante décadas, hasta que un acontecimiento definitivo y brutal (en general una cosa como una muerte) viene a decirnos que es demasiado tarde, que esa "relación auténtica y profunda", cuya imagen hemos amado, tampoco existirá; no existirá, tal como las otras."


Michel Houellebecq "las partículas elementales"



"A palavra "luta"




A LINGUAGEM



"A palavra "luta" está sempre em nossas vidas. A luta pela sobrevivência, a luta contra o cancro, ser um guerreiro, enfrentar, dar a cara, pegar o touro pelos chifres, batalhar, lutar pelo que se quer, perseguir os desejos, ir à caça...
É verdade que a vida é muitas vezes dura. E que recebemos ataques. E que temos que ter força para aguentar ou para sobreviver, sobreviver literalmente.
Não devemos dissociar-nos da nossa dor, mas que tal se as metáforas da nossa linguagem nos colocassem menos tensos? Talvez fossemos menos rígidos, construiríamos menos couraças? Quem sabe... poderíamos dizer: dá ânimo ao teu impulso vital, dá carinho a teu sistema imunológico, cuida das tuas necessidades e desejos, respeita os teus direitos e não os escondas... Talvez assim a cultura e as suas linguagens não fomentassem atitudes tão defensivas e proporcionariam mais a ligação social e a empatia compassiva."



Ana Cortiñas Payeras

segunda-feira, abril 01, 2019

A DUPLICIDADE DA VIDA



"Todos fazemos sofrer quando nascemos e sofremos quando morremos. Mas não é nada que a vida seja atroz; o pior é que seja vã e sem beleza."*

Estava a pensar na nossa superficialidade humana em querer ver o lado "bom" em tudo e pensar a vida como algo que devemos desfrutar como se de uma coisa estável se tratasse e de forma garantida, seja ter o amor a paz a alegria como referências únicas etc. e acharmos que é possível que tudo se submeta à nossa acção "transformadora", como é o caso do "pensamento positivo". O absurdo que é pensarmos que tudo é susceptivel de se submeter a nossa vontade mental…como se a mentalização positivista de fazer acontecer ou mudar algo em nós e no mundo através de ideias positivas fosse possível só por si. 
Ah como eu abomino o pensamento positivo! Nunca houve uma armadilha tão nefasta para a humanidade depois da religião. Porque o lado negativo da vida é tão importante como o lado positivo  e a sua fusão  é essencial. O positivo é o masculino, o solar e a força, enquanto que o negativo é a o feminino a lua e o sentir, é a emoção … os contrários e opostos são fundamentais para o equilíbrio humano e a nossa evolução. Sem um dos lados ficamos coxos e mancos, e esta é a realidade da humanidade que apenas defende e difunde o lado positivo ou masculino da vida em detrimento do feminino e da mulher .

Como nos diz Esther Harding, no seu livro Os Mistérios da Mulher: "Não raramente ouvimos a informação de que não há nenhuma diferença essencial entre homens e mulheres, excepto a diferença biológica. Muitas mulheres têm aceite esse ponto de vista e têm feito muito para alimentá-lo. Têm se sentido contentes em serem homens de sais e assim perderam o contacto com o princípio feminino dentro delas mesmas. Essa talvez seja a causa principal da infelicidade e instabilidade emocional hoje em dia. Ora, se a mulher está fora de contacto com o seu princípio feminino, que dita as leis da integração, não pode assumir o comando do que é, afinal de contas, o domínio de feminino, ou seja, o das relações humanas. E, até que o faça, não poderá haver muita esperança de ordem nesse aspecto da vida. Muitas mulheres sofrem seriamente na sua vida pessoal por esse abandono do princípio feminino.
São incapazes de relacionamentos satisfatórios, ou podem mesmo cair em neurose pela inadequação do seu desenvolvimento nessa área, que é das mais essenciais. Por essa razão, a relação de uma mulher com o princípio feminino dentro de si mesma não é um problema pessoal, mas também um problema geral, até universal para todas as mulheres. É um problema da humanidade. "

Mas voltando ao nosso tema inicial, vemos a maneira como as pessoas sofrem  em vão face à  manifestação  de tudo o que se revela fora do nosso controlo e é incontornável e inalterável, tal como é patético o quanto nos rebelamos diante do que são os nossos fracassos e insucessos, e gritamos contra os deuses e os anjos  como se a vida fosse algo garantidamente de bom e feliz e nos tivéssemos nascido como se diz banalmente para "sermos felizes" e que contraria toda a história da Humanidade Homem.
Eu penso perplexa em como é que somos tão imaturos e tão ignorantes ainda que não vemos as duas faces de tudo, quando tudo à nossa volta se mostra permanentemente com dois lados opostos e concomitantes , quando vemos como ao dia sucede a noite e ao sol a chuva e à alegria a tristeza. Sim, como é estupido queremos agarrar só uma face da medalha, quando a vida tem sempre duas faces!!
Passamos a vida nisto sem qualquer aceitação, sem compreensão ou discernimento de uma realidade que nos entra pelos olhos a dentro na sua impermanência constantemente. 
Sim, tudo tem duas faces e a vida é como um caleidoscópio, gira incessantemente nas suas cores e variantes, e só sofremos o atroz da vida porque estamos tão agarradas a uma só face, a um só lado, por suposto o bom, ou aquilo que achamos que é o bem ou que nos interessa como o prazer e a alegria… que não vemos a beleza colateral que há em tudo. Não vemos sequer  a paisagem… 
E mesmo que a vida seja atroz, difícil e amarga e às vezes trágica, ela tem sempre os seus opostos: ela já foi suave e fácil e doce ... Mas teimamos em querer ver o mal naquilo que rejeitamos e não gostamos de forma tão primária e egoista porque não queremos aceitar os lados da moeda não aprendemos a lição, isto é um ciclo vicioso. Talvez por isso só largamos mão da nossa vida e de querer controlá-la quando envelhecemos e já nada nos ilude ou engana…quando já nada temos a perder ou a ganhar.

Sim, todas fazemos sofrer quando nascemos e sofremos quando morremos, mas ao menos vejamos a beleza que está nesta dinâmica ou alternância das coisas porque ela é perfeita para quem souber viver em pleno, a dor e o prazer a tristeza e a alegria, o positivo e o negativo...Só essa aceitação nos permite adquirir sabedoria… e sermos livres! Deixar a vida fluir...não é para tod@s... e só tarde se aprende a lição.
rlp

M. Yourcenar. A Alexis ou o tratado do inútil combate.