sábado, julho 27, 2019

DESEJO DE SEIVA




QUE RELAÇÕES VALEM A PENA?

"Em nossas relações com os outros é também decisivo saber se o infinito se exprime ou não.” - Carl G. Jung

"É preciso que se diga com clareza: há relações que não valem a nossa atenção. 
...Há pessoas que também não valem a pena, o que não quer dizer que não as respeitemos. Mas nós insistimos, às vezes para além do suportável.
Como podemos saber se esta pessoa ou situação, merece que atravessemos os nossos limites ou o inferno, se tiver de ser? Qual o critério? Jung (psicanalista) diz que deveria ser este: esta relação exprime o infinito, ou não? Isto é, crescemos ou não, na relação.
Se nos deparamos com alguma dificuldade em compreendermos o significado do infinito, talvez se torne compreensível se dissermos que a sua ausência, é o sentimento de que “sou apenas isto” ou, esta relação “é apenas isto”. Sabe a pouco.
Mas até este despertar, pouco queremos saber do sentido dos dias vividos um a um. Andamos. O horizonte está próximo e é um manto espesso. Mas em muitos de nós, vai crescendo de maneira inusitada um desassossego. Um desejo de seiva.
Surge então o primeiro momento em que acreditamos que é mais fácil separar as coisas que são fundamentais das futilidades que nos consomem, e das pessoas que não têm nada para nos dar. O ilimitado torna-se essencial. O que nos coloca perto do mais íntimo de nós, e do mais natural em nós."


in incalculável imperfeição
Publicada por cristina simões (psicóloga)

sexta-feira, julho 26, 2019

RECUPERAR A MÃE VERDADEIRA




FALAS-ME DE CIVILIZAÇÃO…


"Do meu ponto de vista, não é a economia que está em crise, é o modelo de civilização. Na encruzilhada na qual a humanidade se encontra, o que precisamos de fazer se queremos acabar com este sistema de dominação e sobreviver é recuperar a verdadeira mãe, e com ela as qualidades básicas dos seres humanos, que nos capacitam para a concórdia e nos incapacitam para o fratricídio. Recuperar a mãe verdadeira é recuperar o habitat que a rodeia. Bachofen criou um termo em alemão para o definir: é o Muttertum, sendo que o sufixo “tum” (equivalente ao “dom” em inglês) significa o sítio, o lugar da mãe."



Cacilda Rodrigañez Bustos


RECUPERAR A MÃE VERDADEIRA


"Recuperar a mãe verdadeira pressupõe então recuperar o coletivo de mulheres e a sua função coletiva dentro dum determinado grupo social. A recuperação da mãe não é uma recuperação individual (embora tenha uma dimensão individual e corporal), mas a recuperação do feminino coletivo, de todas nós. Segundo Malinowski, as mulheres trobriandesas dum clã (in The Sexual Life of Savages in the Western Melanesia) tinham um nome coletivo, “tábula”, a “tábula” é que se ocupava do parto das mulheres do clã.


Em castelhano há uma aceção do nome "mãe" que é um vestígio dessa mãe ancestral, que se encontra na expressão "salirse de madre", "sair da mãe", que seria sair do Muttertum, que nos faz amadurecer e nos torna consistentes. Há também uma aceção em que a palavra significa "fonte originária de algo" ("a mãe do vinagre", por exemplo), ou como a raiz de algo, quando dizemos que encontrámos a "mãe do cordeiro". Se um rio sai da "madre", tudo se inunda e é o desastre. Pois assim anda a humanidade, "fora da mãe", em permanente estado de esquizofrenia e cada vez com mais ataques de violência..."



Cacilda Rodrigañez Bustos

quinta-feira, julho 25, 2019

A EDUCAÇÃO É UMA UTOPIA?




A EDUCAÇÃO É UMA UTOPIA?

"...o próprio da educação só é orientar faculdades desenvolvidas para utilidade social, o próprio da escravatura é tornar o escravo inimigo da sociedade." 

MULHERES 


"NÃO ESPEREIS SOCORRO DOS HOMENS, autores dos vossos males: eles não têm nem a vontade, nem o poder de lhes pôr cobro, e como poderiam querer formar mulheres diante das quais seriam forçados a corar? Sabei que só se escapa à escravatura com uma grande revolução. Será esta revolução possível? Só vós o podereis dizer, uma vez que ela depende da coragem que provavelmente tereis. A este respeito, não digo nada; mas até ela chegar, e enquanto forem os homens a reger o vosso destino, estarei autorizado a afirmar, e ser-me-á fácil provar que não há nenhum meio de aperfeiçoar a educação das mulheres.

Onde existe escravatura, não pode haver educação: em todas as sociedades as mulheres são escravas; portanto, a mulher social não é susceptível de educação. Se as premissas deste silogismo forem provadas, não poderemos negar a conclusão. Ora, que onde não há escravatura não pode existir educação é uma consequencia natural da definição desta palavra; o próprio da educação é desenvolver as faculdades, o próprio da escravatura é abafá-las; o próprio da educação só é orientar faculdades desenvolvidas para utilidade social, o próprio da escravatura é tornar o escravo inimigo da sociedade."

- Este texto que vós acabaste de ler, é de um homem, de seu nome: Pierre-Ambroise Choderlos de Laclos, oficial de carreira do exército francês, autor do livro, AS RELAÇÕES PERIGOSAS
Pierre-Ambroise-François Choderlos de Laclos, foi um general do exército francês que ficou famoso na literatura mundial pelo romance "As Ligações Perigosas". Fez poucas investidas e, demonstrando com uma de talento incomum, atingiu o alvo. Wikipédia
Nascimento: 18 de outubro de 1741, Amiens, França
Falecimento: 5 de setembro de 1803, Taranto, Itália


A ILUSÃO DO MUNDO CIVILIZADO



A VIDA CIVILIZADA EXIGE UM ESTADO DE ILUSÃO


“A sociedade é uma construção artificial, uma protecção contra o poder da natureza. Sem a sociedade sentir-nos-íamos a navegar no mar bárbaro e tempestuoso que a natureza é. A sociedade é um conjunto de circunstâncias herdadas que atenua a nossa humilhante passividade face à natureza. Podemos alterar essas circunstâncias, com mais lentidão ou maior rapidez, mas nenhuma alteração na sociedade poderá mudar a natureza. Os seres humanos não são a primeira escolha da natureza. Nós somos apenas uma das inúmeras espécies sobre a qual a natureza exerce indiscriminadamente o seu poder. A natureza tem uma matriz original de que só vagamente nos apercebemos.
A vida humana começou pela fuga e pelo medo. A religião emergiu de rituais de expiação, feitiços para aplacar os elementos punitivos.
(...) 
O ser humano civilizado esconde de si próprio o grau a que está subordinado à natureza. Se a elevação da cultura preenche a sua alma, o conforto da religião conquista a sua fé. Mas basta um simples encolher de ombros por parte da natureza e tudo fica um caos. Fogos, inundações, relâmpagos, tornados, furacões, erupções vulcânicas, tremores de terra – por todo o lado e a toda a hora. As catástrofes atingem tanto os bons como os maus. Mas acontece que a vida civilizada exige um estado de ilusão. E a ideia da benevolência suprema da natureza e de Deus é o mecanismo mais poderoso para a sobrevivência do ser humano. Sem ele, a cultura regressaria ao medo e ao desespero.”



CAMILLE PAGLIA, in MULHERES LIVRES HOMENS LIVRES, Quetzal 2018



OS "COLD READER"



COLD READER

"Talvez valha a pena reflectir sobre o conceito de cold reader. Uma amiga mencionou o termo há dias, durante uma conversa, aplicando-o a alguém que ambas conhecemos.
Cold reading é uma espécie de vampirismo de ideias, palavras, gestos, estilos, que uma pessoa faz da outra, através da observação e os utiliza, depois, de forma mimetizada. Sem ter integrado, é óbvio, tudo o que está por detrás de cada um deles: experiência pessoal específica, anos de estudo, uma inteligência concreta ou intuitiva, heranças da linhagem e as múltiplas e em grande parte misteriosas variáveis ligadas a cada pessoa e que a tornam única. O cold reader é hábil nessa prática e passa muitas vezes não detectado, sendo pelo contrário objecto de admiração dos demais.
Na ponta extrema deste fenómeno e com uma acepção particular, situam-se os casos mais gritantes de cold reading de auto-proclamados médiums, videntes, leitores de tarot, certos psicólogos, et cetera, que abundam nas sociedades actuais em crise e se aprimoraram na arte de manipular os seus fragilizados clientes. Isso acontece através de uma desenvolvida capacidade de, através de declarações de carácter geral, ir extraindo a informação que o cliente lhe vai passando sem que este último se dê conta disso. Perante afirmações, de carácter geral, por parte do reader, que se aplicam a um vasto numero de pessoas e situações, o cliente tende a validar subjectivamente os detalhes que se lhe apresentam correctos e a esquecer os outros. De igual modo, a leitura corporal e a gestualidade do cliente em muito auxiliam quem lê.
Existe todo um manancial de livros, guias e orientações que ensinam um cold reader a profissionalizar-se, in twelve easy lessons.
A cold reading, porém, é feita por todos nós em maior ou menor grau e a interinfluência em todos os aspectos acima referidos é um facto inescapável. O nosso software interno busca, constantemente, referências, ideias, padrões de comportamento, icons. Quanto maior for o vazio interior, a falta de cultura ou de honestidade e a insegurança pessoal, mais acentuada se torna essa apropriação instantânea e indevida daquilo que no outro pensamos poder acrescentar algo ao que somos (ou parecemos ser), enriquecer a nossa imagem e performanceperante a audiência.
Como obviar, então, aos efeitos perniciosos do cold reading? Creio que só pela consciência, no assumir das nossas reais qualidades e limitações, num sincero e aprofundado exercício constante de humildade e de respeito pelo outro, poderemos consegui-lo. A busca de criatividade que nos habita deverá ser o nosso timoneiro na auto-descoberta. O que existe – o mundo natural, os estudos para o conhecimento, a intuição, os sonhos e tanto mais – está aí para todos. E cada um tem a oportunidade de neles trabalhar, sem necessidade de roubar ao outro palavras, posições, expressão artística.
Tenho demorado toda uma vida a identificar quem é, no meu núcleo mais próximo, declaradamente cold reader. Não é fácil encarar esse facto, em especial quando existem laços de afecto com o outro. Como duro é encararmos as vulnerabilidades que nos tornam presa fácil do cold reader.
Torna-se porém deveras insuportável, até mesmo doloroso, identificar em nós próprios os indícios dessa prática, por vezes inconsciente, mas sempre aparentada da fraude.



Mariana Inverno, in “Notas à Sombra dos Tempos"

quarta-feira, julho 24, 2019

CULTOS - As mulheres são particularmente alvos para a exploração



OS CULTOS E A EXPLORAÇÃO DAS MULHERES

"Hoje, existem cultos online, com seguidores estritamente à distância. Alguns cultos consistem em apenas algumas pessoas, que podem ou não conhecer o líder do culto. Um culto pode ter vários tenentes em campo que interagem com os seguidores. Há também experiências semelhantes a cultos que envolvem apenas duas pessoas.

Com a alienação, o estresse e a solidão sendo um elemento importante em nossa sociedade, especialistas em cultos dizem que as pessoas estão cada vez mais suscetíveis a buscar uma solução rápida, encontrar consolo, fornecer respostas às perguntas que têm sobre a vida e suas circunstâncias. Elas podem ser vítimas de indivíduos cujo charme e apelo encobrem comportamentos narcísicos e sociopatas.

Tais predadores são um elemento comum em toda a gama de cultos. Eles exercem controle sobre outros membros de um grupo — ou até mesmo uma pessoa específico. Esse controle pode tomar a forma de ditar o comportamento dos outros, tomar seu dinheiro e/ou usar outros para satisfação sexual. Frequentemente escorrem carisma, definido pelo New Oxford American Dictionary como uma atratividade ou charme irresistível que pode inspirar a devoção nos outros.

“É tudo sobre líderes”, segundo Janja Lalich, pesquisadora, autora e educadora especializada em cultos e grupos extremistas. Ela diz que a maioria das pessoas é recrutada para um culto por amigos, familiares ou colegas de trabalho.

As mulheres são particularmente alvos para a exploração. Elas compõem 70% dos cultos, superando largamente os homens. A pressão social para que elas sejam complacentes é muito mais forte do que para os homens e, por causa disso, é mais fácil recrutar mulheres que irão formar uma ligação a um líder masculino.

“É esperado que as mulheres acompanhem e não acenem, não sejam assertivas”, diz Lalich, professor de sociologia na California State University, em Chico. “As mulheres tendem a não confiar em seu intestino, o que tem mais a ver com nossa cultura e socialização do que com qualquer culpa das mulheres.”

A LUA



“Da mesma forma como existem teorias mitológicas que pretendem explicar todas as coisas como tendo provindo do Sol, assim também existem teorias lunares que fazem o mesmo em relação à Lua. Isto se deve simplesmente ao fato de que existem realmente inúmeros mitos lunares, entre os quais toda uma série em que a Lua é a mulher do Sol. A Lua é a experiência mutável da noite. Por isto ela coincide com a experiência sexual do primitivo, coincide com a mulher que é para ele também a experiência da noite. Mas a Lua pode também ser a irmã interiorizada do Sol, pois durante a noite os pensamentos maus e emocionais de poder e vingança perturbam o sono. A Lua é perturbadora do sono; e é também um receptáculo das almas separadas, pois os mortos voltam de noite, durante a insônia. Assim, a Lua significa também a loucura (lunacy). São experiências desta natureza que se gravaram na alma, em lugar da imagem mutável da Lua.” 

(Jung. A Natureza da Psique )

terça-feira, julho 16, 2019

Lê-se no Diário de Anais Nin




É A MULHER MASOQUISTA?

Lê-se no Diário de Anais Nin

"Sinto que o masoquismo da mulher é diferente do homem. O dela provem do instinto maternal. Uma mãe...sofre, dá, alimenta. Uma mulher é ensinada a não pensar em si própria, a ser altruísta, a servir, a ajudar. O masoquismo é quase natural na mulher. Ela é educada nele. (Exemplo dado na família pela minha avó espanhola.) É semelhante ao masoquismo das pessoas educadas na religião católica.
É o meu instinto maternal que me põe em perigo.
Se eu ao menos me pudesse libertar desta procura do pai. o Pai Salvador? Deus?
Cada contacto com o ser humano é tão raro, tão precioso, que o devíamos preservar." (...)

Não, a mulher não é masoquista por natureza, ela é vazia dessa natureza em si mesma, foi esvaziada de sentido que não o de ser mãe e amante, por isso fica cativa do desejo exclusivo do homem e de ser mãe...Não é o instinto maternal apenas o que a move na busca do homem e do Pai ou de Deus, é a sua anulação como mulher inteira que a tornou aparentemente masoquista diante do abuso, do assedio, da violência doméstica, da violação... que a torna fraca e vulnerável…
Não, não é o instinto maternal que põe uma mulher em perigo, é o seu vazio existencial, a perda da sua identidade fulcral, o afastamento da mulher essencial, da mulher telúrica e da aculturação que sofreu em séculos de religião…
Anais Nin escrevia sobre a sua atracção doentia por um pai manipulador, quiçá abusador e a busca de homens sádicos…certamente pela falta de Mãe e referência feminina.
E ela sabia e dizia:
"Eu própria estou envolta em mentiras que me penetram a alma, como se as mentiras que eu conto fossem apenas para embalar os outros, mentira vital, nunca chegando a fazer parte de mim. São como roupagens. Mas, as mentiras de Henry?" (Anais Nin - in Diário)
rlp


A Sociedade patriarcal destruiu a teia constitutiva do mundo, ao destruir a relação Mãe-filha e ao destronar a Deusa.

A GRANDE CONFUSÃO HUMANA COMEÇA no Patriarcado com o mito do Pai e na negação da Mãe. E porque as MULHERES PERDERAM COMPLETAMENTE A SUA IDENTIDADE também se perdeu o sentido da Vida e do nascer e assim o mundo caminho para a sua destruição. Vivemos hoje num mundo totalmente pervertido em que já não há qualquer valor real do que é Humano e natural porque a mulher e a mãe se transformaram em meros objectos de consumo...
Não há mulheres conscientes e não havendo mulheres não há caminho de vida...

Porque "São mulheres individuais, conscientes, que devem guiar o caminho. Isso é muito difícil para os homens - tão perigosamente expostos, nesta era, à possessão pelo intelecto, pela tecnologia, ou por sua feminilidade inferior desintegrada -, descobrir o sentido de eros sem essa mediação de mulheres verdadeiras que não apenas vivem essas coisas instintivamente, mas "sabem que sabem". (?)


SÓ AS MULHERES QUE SABEM DE SI PODEM CONDUZIR OS HOMENS NO CAMINHO - tal como as mães conduzem os filhos mal nascem...


rlp

segunda-feira, julho 15, 2019

MULHER NEGRA OU BRANCA


O QUE EU TENHO ESCRITO (E FALADO) EXAUSTIVAMENTE NESTE BLOG:

«A identidade de uma mulher é incorporada na sua relação com o homem: ela é antes de tudo e principalmente a mãe, esposa, amante, ou filha de algum homem e não de uma mulher. Como as Radicalesbians argumentaram em 1970: “Nós somos autênticas, legítimas, verdadeiras contanto que sejamos a propriedade de algum homem cujo nome carregamos. Ser uma mulher que não pertence a nenhum homem é ser invisível, patética, não-autêntica, não-verdadeira.” Uma mulher que não pertence a nenhum homem, ou não existe ou está tentando ser um homem. Ademais, uma “mulher” é responsável pela prestação de serviços sexuais aos homens. Se ela é boa ou má, qual o seu status ético, está baseado em sua disponibilidade sexual, preço e fidelidade aos homens. Em última análise, uma “mulher” é uma virgem ou uma puta – ou seja, ligada a um homem através do sexo.

Em segundo lugar, uma “mulher” é alguém que é atraente para os homens. Se ela não tenta se fazer atraente para os homens, considera-se que ela tem um problema sério. Na sociedade mainstream dos EUA, ser atraente significa que ela é caucasiana, de classe média-alta, praticamente anoréxica (isso é, doente), e jovem o bastante para não possuir rugas na sua face, embora ocasionalmente ela possa ser negra e “exótica”. Aquelas mulheres que não se enquadram nessas categorias, embora não sejam completamente descartas como mulheres, são, não obstante, forçadas a se sentir como substitutos ruins de uma mulher. [nota: Em outras partes do mundo, padrões diferentes podem se aplicar. Em alguns lugares, ser católica é essencial para a identidade da mulher, ou ser gorda, ou ser negra, não pálida. O modelo de “mulher” em termos da manifestação física tende a aderir aos valores dos homens no poder em um determinado local.] Além disso, uma “mulher” é alguém que deve ser protegida do que é mau (ou seja, “negro”) a menos que ela própria seja negra (ou seja, má) – nesse caso, outras mulheres devem ser protegidas dela. Quanto mais branca ela é, mais pura. Quanto mais negra ela é, mais perigosamente sexual. Novamente, ela é uma virgem ou uma puta – ou seja, branca ou negra.»

quarta-feira, julho 10, 2019

ONDE A PLENITUDE DA MULHER


A DIVISÃO DA MULHER E O FEMININO INTEGRAL

Há na mulher ocidental uma divisão do seu ser em duas espécies de mulheres de acordo com a mitologia cristã que tem como modelo de um lado a Virgem Mãe e do outro Maria madalena, a pecadora arrependida, segundo os relactos bíblicos que ainda hoje tem um efeito pernicioso no inconsciente colectivo dos homens  e que se reflecte na forma como  ainda hoje  escolhem as mulheres para casar e maltratam violentam e abusam as mulheres "vadias" (as que não casam e não obedecem às normas da Igreja) e nas mulheres que se sentem todas culpadas quando não obedecem aos padrões da santa e são desde logo apelidadas de putas ou vadias.
Essa divisão da mulher em duas como naturezas separadas - na nossa cultura ocidental - deu na ideia da mulher dividida entre a "santa" e casta  e pura e na outra, a "puta", a mulher que vive de sexo,  o que criou as maiores dores e sofrimento às mulheres no mundo. É preciso unir as duas mulheres como diz Tori Amos, pois  "No cristianismo tradicional, as falsas divisões deram-nos duas personagens: a Virgem Maria e Madalena. Claro, para que uma cristã se sentisse realizada, estas duas personagens deviam ser unidas - e não polarizadas - na sua psique. A Virgem Maria foi desprovida da sua sexualidade conservando a sua espiritualidade, enquanto que Maria Madalena foi despojada da sua espiritualidade ficando apenas com a sua sexualidade. Ora cada uma delas devia aceder à sua plenitude. É o que eu chamo "casar as duas Marias"... *
RLP

O FEMININO INTEGRAL 
É QUANDO A MULHER UNE ESSES DOIS ASPECTOS DE SI 

"A iluminação é vazia de toda particularidade, excepto que inclui sensibilidades masculinas e femininas. A iluminação não é limitado pelo tempo e espaço, mas é realizado por meio da consciência feminina em toda a sua beleza e as qualidades de sombra, em sua simplicidade e complexidade, e nas perspectivas que a consciência apenas reflecte através do corpo, fala e mente de uma mulher pode revelar .

A iluminação não é limitado pelo tempo e espaço, mas, paradoxalmente, é realizado através da consciência que ocorre em nosso tempo e lugar, nesta cultura, e sob essas condições em que a pergunta "o que é o feminino Integral?" vem à tona.

O feminino é a consciência Integral à beira da evolução do corpo e da mente de uma mulher. Pode-se dizer que ela é uma manifestação da consciência evolutiva, encarnando o desenvolvimento com um sabor especial feminino. Na medida  em que ela está consciente, na medida em que ela aprende e se desenvolve, ela tem a capacidade inata de se expandir e abrir em uma identificação cada vez
maior com todas as coisas. "*

* Diane Hamilton Musho
*Tori Amos - in Os Segredos de Maria Madalena, ed. Via Medias, 2006


em poucas palavras


AS MULHERES COMO OBJECTOS DE CONSUMO

« As mulheres são consumidas por homens que as tratam como objectos sexuais; são consumidas por seus filhos (que elas mesmas produziram!) quando eles compram o papel da Supermãe; são consumidas por maridos autoritários que esperam que elas sejam servas submissas; e elas são consumidas por patrões que as mantém instáveis na força de trabalho activa e que extraem o máximo trabalho pelo menor salário. Elas são consumidas por pesquisadores médicos que experimentam nelas novos e inseguros contraceptivos. São consumidas por homens que compram seus corpos nas ruas. São consumidas pelo Estado e pela Igreja, que esperam que proliferem a próxima geração pela glória de deus e do país; são consumidas por organizações políticas e sociais que esperam que elas “voluntariem” seu tempo e energia. Elas tem pouca noção de si mesmas porque sua pessoa enquanto identidade foi vendida para os outros.»
(?)

domingo, julho 07, 2019

A violência psíquica na pornografia é insuportável.



TODAS AS MULHERES DEVIAM ESTAR DE LUTO
Por Erica Oliveira

Pornografia e Luto foi um discurso escrito para a Marcha Retomar a Noite que foi parte da primeira conferência feminista sobre pornografia nos Estados Unidos, em São Francisco, novembro de 1978. Idealizada pela organização, atualmente extinta, “Mulheres Contra a Violência na Pornografia e na Mídia’’ (WAVPM), participaram mais de 5000 mulheres de trinta diferentes estados e nós fechamos o distrito de pornografia de São Francisco por uma noite. O território foi tomado mas não foi mantido.

Eu queria dizer aqui hoje algo bem diferente do que vou dizer agora. Eu gostaria de chegar aqui militando, orgulhosa, e possessa de raiva. Porém, cada vez mais, eu vejo que a raiva é uma sombra esquálida do luto que sinto. Se uma mulher tem um pingo de noção de sua dignidade intrínseca, ver pornografia pode fazer com que pouco a pouco ela adquira uma raiva profícua. Mas estudar pornografia em grande quantidade e profundidade, como eu tenho feito por mais tempo do que consigo lembrar, deixará esta mesma mulher de luto.

A pornografia é vil por si mesma. Caracterizá-la de qualquer outra maneira seria uma mentira. Nenhuma pandemia de intelectualismos e sofismas masculinos pode mudar ou esconder esse simples fato. Georges Bataille, um filósofo da pornografia (que ele chama de “erotismo’’), diz claramente: “Essencialmente, o campo do erotismo é o campo da violência, da violação.’’ ¹ O Sr. Bataille, ao contrário de muitos de seus pares, deixa satisfatoriamente explícito que a ideia geral na pornografia é a de violentar a fêmea. Usando a linguagem eufemista tão popular entre homens intelectuais que escrevem sobre pornografia, Bataille nos informa que “o lado passivo, feminino, é essencialmente aquele que é dissolvido, como uma entidade a parte.’’ ² Ser “dissolvida’’ — custe o que custar — é o papel da mulher na pornografia. Os grandes cientistas e filósofos (homens) que estudaram a sexualidade, incluindo Kinsey, Havelock Ellis, Wilhelm Reich, e Freud, apoiam esta visão de propósito e destino. Os grandes escritores (homens) usam mais ou menos formosamente a linguagem para nos conceber como fragmentos auto-servidos, como se fôssemos meio-dissolvidas, e daí prosseguem nos “dissolvendo’’ por inteiro, custe o que custar. Os biógrafos de grandes artistas (homens) comemoram as atrocidades da vida real que homens cometeram contra nós, como se essas atrocidades fossem primordiais na produção de arte. E na história, da maneira como homens viveram, eles nos “dissolveram’’ — custe o que custasse. Nossa esfola e nossa desossa são as fontes de energia da arte masculinista e da ciência, pois elas são o teor essencial da pornografia. A experiência visceral de ódio às mulheres que literalmente não tem limites me levou para além do ódio e das lágrimas; só consigo falar com vocês de luto.

Todas nós esperávamos que o mundo fosse diferente do que ele é, não é verdade? Não importa a dificuldade material ou emocional pela qual passamos enquanto crianças ou adultas, não importa o que entendemos de história ou os depoimento de sobreviventes sobre como e porquê as pessoas sofrem, todas nós acreditávamos, confidencialmente, na possibilidade humana. Algumas de nós acreditamos na arte, ou na literatura, ou na música, ou na religião, ou na revolução, ou nas crianças, ou no potencial salvador do erotismo ou do afeto. Não importa o quanto sabíamos sobre crueldade, todas nós acreditamos na bondade; e não importa o quanto conhecíamos o ódio, todas nós acreditamos na amizade ou no amor. Nenhuma de nós poderia imaginar ou acreditar nos fatos da vida como a conhecemos: a rapacidade da ganância masculina por dominação; a nocividade da supremacia masculina; o desprezo virulento por mulheres que é a própria fundação da cultura na qual vivemos. O Movimento das Mulheres forçou-nos todas a encarar os fatos, mas não importa o quão corajosas e esclarecidas sejamos, não importa o quão longe estejamos dispostas a ir ou somos forçadas a ir para enxergar a realidade sem romance ou ilusão, ficamos simplesmente perplexas com o ódio masculino da nossa espécie, sua morbidez, sua compulsoriedade, sua obsessividade, sua celebração de si em cada detalhe da vida e da cultura. Nós pensávamos ter compreendido esse ódio de uma vez por todas, tendo visto sua crueldade extraordinária, desvendado seus segredos, nos acostumado, superado ou tendo nos organizado contra ele de modo a ficarmos protegidas dos piores abusos. Nós pensamos que sabemos tudo o que há para saber sobre o que homens fazem com mulheres, mesmo que nós não possamos imaginar porque eles fazem o que fazem, quando acontece algo que simplesmente nos deixa furiosas, fora de controle, de modo que voltamos a ficar aprisionadas como animais engaiolados na realidade de torpor do controle masculino, da vingança masculina contra ninguém-sabe-o-que, do ódio masculino contra nossa própria existência.

É possível saber de tudo e ainda assim não imaginar filmes snuff.³ É possível saber de tudo e ainda se chocar e espantar quando um homem que tentou fazer filmes snuff é absolvido, apesar dos depoimento das agentes infiltradas, as quais ele queria torturar, matar e, é claro, filmar. É possível saber de tudo e ainda ficar atônita e paralisada ao conhecer uma criança que tem sido constantemente estuprada por seu pai ou algum parente do sexo masculino. É possível saber de tudo e ainda se contentar em só poder cuspir de raiva como um idiota quando uma mulher é processada por tentar abortar sozinha usando agulhas de crochê, ou quando uma mulher é presa por matar um homem que a estuprou ou torturou, ou que ainda está estuprando ou torturando. É possível saber de tudo e ainda querer matar e morrer ao mesmo tempo quando se vê uma imagem celebrativa de uma mulher sendo triturada num moedor de carne na capa de uma revista nacional, por mais podre que seja a revista. É possível saber de tudo e ainda assim se recusar internamente a acreditar que a violência pessoal e social, culturalmente aceita, contra mulheres é ilimitada, imprevisível, generalizada, constante, impiedosa, e alegremente e inconscientemente sádica. É possível saber de tudo e ainda não conseguir aceitar o fato de que sexo e assassinato estão fundidos no imaginário masculino, de modo que um sem a iminente possibilidade do outro é impensável e impossível. É possível saber de tudo e ainda assim, no fundo, se recusar a aceitar que a aniquilação de mulheres é a fonte de significado e da identidade de homens. É possível saber de tudo e ainda assim querer desesperadamente não saber de nada, porque encarar o que sabemos significa questionar se a vida sequer vale a pena.

Os pornógrafos, atuais e antigos, visuais e literários, vulgares e aristocratas, apresentam uma tese sólida: o prazer erótico para homens deriva e é baseado na destruição violenta de mulheres. Como escreveu o mais consagrado pornógrafo mundial, Marquês de Sade (chamado por homens acadêmicos de “Marquês Divino’’), em um de seus momentos mais contidos e civilizados: “Não haveria uma mulher na face da Terra que tivesse motivos para reclamar de meus serviços se eu tivesse a garantia de poder matá-la depois.’’ ⁴ A erotização do assassinato é a essência da pornografia, como se fosse a própria essência da vida. O torturador pode ser tanto o policial arrancando as unhas de uma vítima numa cela bem como o assim chamado cidadão de bem empenhado em foder uma mulher até a morte. O fato é que o processo de matar — e tanto o estupro como o espancamento são etapas desse processo — é o principal ato sexual para homens na realidade e/ou na imaginação. Mulheres enquanto classe devem ficar em bondage, sujeitas ao desejo sexual masculino, porque o conhecimento do imperativo de matar, seja ele exercitado em plenitude ou apenas parcialmente, é necessário para alimentar o apetite e o comportamento sexual. Sem mulheres como potenciais ou reais vítimas, homens têm, no jargão atualmente utilizado, “disfunção sexual’’. Esse mesmo tema também opera entre homens homossexuais, onde à força e/ou por convenção designam alguns machos como fêmeas ou feminilizados. A infinidade de couro e correntes entre homens homossexuais e a recente invenção de ringues de prostituição de rapazes, voltados para gays, são provas das persistência da compulsão masculina em dominar e destruir, que é a fonte de prazer sexual para homens.

A pior coisa sobre a pornografia é que ela revela a verdade masculina. A coisa mais insidiosa sobre a pornografia é que ela revela a verdade masculina como se fosse a verdade universal. As caracterizações de mulheres algemadas sendo torturadas supostamente representam nossas aspirações eróticas mais profundas. E algumas de nós acreditamos nisso, não acreditamos? A coisa mais importante sobre a pornografia é que seus valores normalmente são os valores de homens. Esse é o fato crucial que tanto a Direita masculina como a Esquerda masculina, de modos diferentes mas mutuamente unidos, querem esconder das mulheres. A Direita masculina quer esconder a pornografia, e a Esquerda masculina quer esconder o significado da pornografia. Ambos querem acesso à pornografia de modo que homens possam ser encorajados e energizados por ela. A Direita quer acesso secreto; a Esquerda quer acesso público. Mas quer nós vejamos ou não pornografia, os valores nela expressos são os valores expressos nos estupros e espancamentos de esposas, no sistema legal, na religião, na arte e na literatura, na discriminação econômica sistemática contra mulheres, nos institutos acadêmicos moribundos, e pelos bons, sábios, gentis e iluminados homens de todos esses campos e áreas. A pornografia não é uma forma de expressão separada e diferente do resto da vida; é uma forma de expressão em completa harmonia com qualquer cultura na qual ela desabrocha. E assim o é, quer ela seja legal ou ilegal. E, em ambos casos, a pornografia opera para perpetuar a supremacia masculina e crimes de violência contra mulheres porque ela condiciona, treina, educa e inspira homens a desprezarem mulheres, a usarem mulheres, a machucarem mulheres. A pornografia existe porque homens desprezam mulheres, e homens desprezam mulheres em parte porque a pornografia existe.

A mim, a pornografia derrubou-me de uma maneira que, pelo menos até então, a vida não havia conseguido. Para quaisquer batalhas e dificuldades que tive na vida, eu sempre quis encontrar uma maneira de seguir em frente mesmo sem saber como, de viver mais um dia, de aprender mais uma coisa, de dar mais uma caminhada, de ler mais um livro, de escrever mais um parágrafo, de ver mais um amigo, de amar mais uma vez. Quando eu leio ou vejo pornografia, eu quero acabar com tudo. Por que, eu me pergunto, por que eles são tão cruéis e tão orgulhosos disso? Às vezes, um detalhe me deixa furiosa. Há uma mostra de fotografias: uma mulher cortando seus seios com uma faca, esfregando seu próprio sangue em seu próprio corpo, enfiando uma espada em sua vagina. E ela está sorrindo. E é o sorriso que me deixa furiosa. Há uma capa de vinil estampada numa enorme vitrine expositora. A foto do álbum é a vista de perfil das coxas de uma mulher. Apesar de não aparecer explicitamente, sabemos que sua genital está lá; O título do álbum é “Plug Me to Death’’ (“Me plugue até a morte’’). E é o uso da primeira pessoa que me deixa furiosa. “Me plugue até a morte’’. A arrogância. A arrogância a sangue-frio. E como é possível que essa lógica continue operando, insensivelmente, de maneira completamente brutal, ilógica, dia após dia, ano após ano, com essas imagens, ideias e valores sendo despejados, empacotados, comprados e vendidos, promovidos, perdurando, e ninguém impeça isso, e que nossos queridos garotos intelectuais defendam isso, e que advogados elegantes debatam por isso, e que homens de todo tipo dizem não poder e não querer viver sem isso. E a vida, que significa tudo para mim, torna-se sem sentido, porque essas celebrações de crueldade destroem a minha própria capacidade de me importar e de ter esperança. Eu odeio os pornógrafos, acima de tudo, por me privarem da minha esperança.

A violência psíquica na pornografia é insuportável. Ela age como um cassetete até que sua sensibilidade seja aplacada e seu coração morra. Você fica anestesiado. Tudo pára, e você olha para as páginas ou imagens e sabe: isso é o que homens querem, e isso é o que homens sempre tiveram, e isso é do que homens não querem abrir mão. Como aponta a feminista lésbica Karla Jay em um artigo chamado “Pot, Porn, and the Politics of Pleasure’’, os homens podem abrir mão de uvas, alface, suco de laranja, vinho português e atum, mas homens não abrem mão da pornografia. E sim, é preciso tirar isso deles, queimar, rasgar, bombardear, demolir seus cinemas e editoras. Você pode participar de um movimento revolucionário ou ficar de luto. Talvez eu tenha encontrado a verdadeira razão do meu luto: nós ainda não nos tornamos um movimento revolucionário.

Hoje à noite iremos caminhar juntas, todas nós, para retomar a noite, como mulheres fizeram em outras cidades ao redor do mundo, porque, em todos os sentidos, nenhuma de nós pode caminhar sozinha. Toda mulher caminhando sozinha é um alvo. Toda mulher caminhando sozinha é caçada, assediada, e machucada por violência física ou psíquica uma vez atrás da outra. Somente ao caminharmos juntas poderemos verdadeiramente caminhar com alguma sensação de segurança, dignidade ou liberdade. Hoje à noite, caminhando juntas, nós proclamaremos aos estuprados e pornógrafos e espancadores de mulheres que seus dias estão contados e que a nossa hora chegou. E amanhã, o que faremos amanhã? Porque, minhas irmãs, a verdade é que nós temos que retomar a noite todas as noites, ou a noite nunca será nossa. E uma vez que tivermos conquistado a escuridão, temos que buscar a luz, para retomar o dia e fazê-lo nosso. Essa é a nossa opção e essa é a nossa necessidade. É uma opção revolucionária, e é uma necessidade revolucionária. Para nós, as duas são inseparáveis, assim como nós devemos ser inseparáveis em nossa luta pela liberdade. Muitas de nós já caminhamos vários quilômetros — duros e intrépidos quilômetros — mas ainda não fomos longe o bastante. Nesta noite, a cada lufada e a cada passo, devemos nos comprometer com a jornada: transformar a terra em que caminhamos, de sepulcro e prisão em uma alegre morada, que é nossa por direito. Nós devemos e iremos fazer isso, por nós e por todas as mulheres que já viveram.

sábado, julho 06, 2019

AS DIFERENÇAS




"Os homens e as mulheres são diferentes. Aquilo que é preciso tornar igual é o valor atribuído a essas diferenças"  


 A MULHER LIVRE


A mulher não tem que se tornar igual a ninguém. Ela tem de pertencer-se.
Ela deve libertar-se da imagem que lhe é imposta por uma sociedade dominada pelos valores masculinos. Ela deve, sobretudo não fazer do homem o modelo da sua libertação. Será assim que ela vai criar uma sociedade nova.
Quanto ao homem, que ele contribua para libertar a mulher, primeiro e antes de tudo aceitando o sua parte feminina nele próprio. Reconhecendo os valores femininos que em si mesmo esperam expandir-se assim como no mundo. A fim de que possamos juntos construir uma sociedade nova.
Esta civilização, não se realizará jamais se nós não permitirmos às mulheres de a criar. O Porvir é das mulheres, porque elas interrogam-se pelos olhos das crianças. 


Diane McGUINESS et Karl PRIBRAM, Neuropsychologues à l'Université de Stanford.

La femme ne doit devenir l'égale de personne. Elle doit s'appartenir. Elle doit se libérer de l'image que lui impose une société dominée par les valeurs masculines. Elle doit surtout ne pas faire de l'homme le modèle de sa libération. C'est ainsi qu'elle va créer une société nouvelle.
Quant à l'homme, qu'il contribue à libérer la femme, d'abord et avant tout en acceptant la part féminine en lui. En reconnaissant les valeurs féminines qui demandent à s'épanouir en lui, comme dans le monde. Afin qu'ensemble nous bâtissions une société nouvelle.
Cette civilisation, ne sera jamais si nous ne permettons pas aux femmes de la créer. L'avenir est l'affaire des femmes, parce qu'elles l'interrogent par les yeux de leurs enfants.



o corpo colonizado da mulher



UMA REALIDADE INCONTORNÁVEL
(e que as feministas não querem reconhecer...)


“Nuestro cuerpo de mujer está colonizado y responde a la ideología del colonizador. La liberación sexual de los años sesenta no fue en realidad para la mujer sino en el sentido masculino del término y en relación a los intereses de os hombres”.
Leonor Taboada


A MULHER NADA GANHA EM EXPOR-SE...

...Quando eu digo que a mulher não tem identidade, que foi amestrada pela sociedade para servir e cumprir um papel, muita gente me acha radical, mas quando eu olho a Mulher e vejo que ela não é mesmo nada em si a não ser como mulher objecto ao serviço da espécie, eu não me sinto como tal. O que eu sinto é que isto é uma atrocidade enorme e que as mulheres tinham de acordar deste sono milenar, desta anestesia geral que as torna sonâmbulas e obedientes e que quando se revoltam e se despem fazem-no ainda expostas aos predadores e continuam vítimas dos seus assédios e dos seus instrumentos de propaganda. Como é o caso das marchas das vadias ou das putas…Não é expondo a sua nudez em nome da sua liberdade, nem do seu corpo que elas vão ser elas mesmas, mas saindo dessa escravidão interior, saindo desse plano de inferioridade que as leva a reagir ao mesmo nível e com as mesmas armas e em que sempre perdem…

O caminho da mulher é o redescobrir da sua força interior, da Deusa em si, da mulher que emerge dentro de si mesma, a mulher que se ergue POR SI SÓ e se distancia da mulher que foi SUBESTIMADA, que foi amestrada, narcotizada, drogada, vampirizada e negada como uma totalidade. Trata-se do resgate da sua mulher selvagem, da sua Medusa, da mulher primeva, Lilith, a mais oculta das sombras da mulher…
Afinal, trata-se da sua verdadeira identidade, a sua Anima, a sua força criativa…e só Lilith poderá libertá-la da saturação do masculino e do seu domínio sexual e emocional que a vampiriza em todos os sentidos…Sem que a mulher se redescubra e se reestruture a partir desse íntimo ser em si mesma - no mais recôndito dela mesma - ela vai continuar a “dar-se” sem limites ou a vender-se, vai continuar a ser absorvida pelos homens, pelo sexo, pelos filhos e pelo sistema. Vai continuará a escrava de um escravo…

Estas e outras coisas o Sistema  e as pessoas em geral não querem ver e deixam-se enganar pelas ideologias marxistas e de género ou de ideias feitas ou idealizações que dizem uma coisa que em nada corresponde a realidade de vida das mulheres. O facto de haver mulheres de níveis sociais e económicos ou intelectuais que pertencem as classes favorecidas nada tem a ver com a mulher comum que continua a sofrer todos os agravos.
Embora concorde que todas as mulheres estejam sujeitas à violência de género, a sua defesa não pode ser apenas considerada apanágio das feministas e quem o faz ser considerada como feminista porque estas questões são de TODAS AS MULHERES...  sendo feministas ou não. Eu não partilho da ideia de que qualquer mulher que defenda a mulher seja feminista. Eu não me considero feminista no sentido politico e social que dão ao termo e portanto o meu trabalho e o que eu escrevo é em prol de uma Consciência de Ser Mulher unificada como um todo e sem ismos…
Serei eu  uma Mulher radical talvez, mas em luta pela afirmação da Mulher Essência… radicalmente sim pela mulher consciente de si, coisa que nem as feminista são na maior parte dos casos, pois lhes falta a dimensão ontológica e a o sentido do sagrado da Vida em todos os seus aspectos. Falta as feministas a dimensão espiritual e anímica… lamento, mas essa é uma lacuna imensa que faz toda a diferença da minha perspectiva e embora concorde com quase tudo o que dizem a nível social e politico falta essa dimensão do ser Mulher em si - como algo absoluto -  para redimensionar o feminino.

Dito isto,  acrescento a visão muito clara de uma feminista por a considerar muito correcta:

«A violência contra a mulher é global, transversal e epidêmica, sob diversas formas, não se restringe a estupro (incluindo violação em encontros ou de conhecidos e estupro conjugal), agressão, molestação sexual e abuso e assédio sexual. É evidente na prática de sati – o "suicídio" forçado de uma outra viúva herdeira da propriedade sobre a pira funerária de seu marido – ainda prevalecente, embora proibida, no subcontinente da Índia. É conspícua no infanticídio feminino, ainda praticado, embora ilegal, na China. É evidente nas "tradições" da venda de noivas, casamento infantil, poliginia, assassinatos de dote e reclusão forçada no Purdah. É flagrante no tráfico internacional de escravidão sexual de mulheres e crianças. É manifesto na negação de dois direitos humanos básicos – liberdade reprodutiva e liberdade de escolha sexual – por fundamentalistas de todas as religiões patriarcais.

Talvez se torne claro por que todas as questões são questões feministas – e por que as reformas sociais, ou a igualdade com os homens em uma sociedade definida pelo homem, ou "empoderar" as mulheres para ter "autoestima", deixando intacto um status quo com uma camada de ozônio perfurada – todas são pseudossoluções que uma feminista radical considera inaceitável. As vozes lindamente irascíveis nesta coleção não podem ser compradas tão facilmente.» (autora ?)

rlp

quinta-feira, julho 04, 2019

'A Mulher cria o universo...



'A Mulher cria o universo, é o próprio corpo desse universo. A Mulher é o suporte dos três mundos, é a essência do nosso corpo. Não há outra felicidade senão aquela proporcionada pela Mulher. Não há outro caminho a não ser aquele que a Mulher pode abrir para nós. Nunca houve e nunca haverá n m ontem, nem agora, nem amanhã, outra ventura que não seja a Mulher. Nem reino, nem lugar de peregrinação, nem yoga, nem oração, nem mantra (/formula magica), nem ascese, nem plenitude além daquela prodigalizada pela Mulher.'


Shaktisangama-Tantra II. 52

quarta-feira, julho 03, 2019

"Graças, Senhor, por não me ter feito mulher".

ESTA É A "NOSSA" HERANÇA JUDAICO-CRISTÃ E ESTA MENTALIDADE ESTÁ NA ORIGEM DE TODA A VIOLÊNCIA E ABUSO DA MULHER:  

O demónio é mulher

"O livro Malleus Maleficarum, também chamado O martelo das bruxas (El maritllo de lãs brujas) recomenda o mais ímpio exorcismo contra o demônio que tem seios e cabelos compridos.

"Dois inquisidores alemães, Heinrich Kramer e Jakob Sprenger o escreveram, a pedido do Papa Inocêncio VIII, para enfrentar as conspirações demoníacas contra a Cristandade. Foi publicado pela primeira vez em 1486 e até o final do século XVIII foi o fundamento jurídico e teológico dos tribunais da Inquisição em vários países. Os autores afirmavam que as bruxas, do harém de Satanás, representavam as mulheres em estado natural: "Toda a bruxaria provem da luxuria carnal que nas mulheres é insaciável". E demonstravam que "esses seres de aspecto belo, cujo contato é fétido e a companhia mortal" encantavam os homens e os atraiam com silvos de serpentes, rabos de escorpião para aniquilá-los.

Os autores advertiam aos incautos: "A mulher é mais amarga que a morte. É uma armadilha. Seu coração, uma rede e correias, seus braços". Este tratado de Criminologia, que enviou milhares de mulheres às fogueiras da Inquisição, aconselhava que todas as suspeitas de bruxaria fossem submetidas a tortura. Se confessassem mereceriam o fogo. Se não confessassem também porque só uma bruxa, fortalecida por seu amante o Demônio nos conciliábulos das bruxas podia resistir a semelhante suplicio sem soltar a língua.

O papa Honório III sentenciara que o sacerdócio era coisa de machos: - As mulheres não devem falar. Seus lábios têm o estigma de Eva que provocou a perdição dos homens.

Oito séculos depois, a Igreja Católica continua negando o púlpito às filhas de Eva.

O mesmo pânico faz os mulçumanos fundamentalistas as mutilem o sexo e lhes cubram a cara.

E o alivio pelo perigo conjurado leva os judeus mais ortodoxos a começar o dia sussurrando: "Graças, Senhor, por não me ter feito mulher".

in "Naosoueuéaoutra"