domingo, julho 07, 2019

A violência psíquica na pornografia é insuportável.



TODAS AS MULHERES DEVIAM ESTAR DE LUTO
Andrea Dworkin, texto traduzido por Erica Oliveira


Pornografia e Luto foi um discurso escrito para a Marcha Retomar a Noite que foi parte da primeira conferência feminista sobre pornografia nos Estados Unidos, em São Francisco, novembro de 1978. Idealizada pela organização, atualmente extinta, “Mulheres Contra a Violência na Pornografia e na Mídia’’ (WAVPM), participaram mais de 5000 mulheres de trinta diferentes estados e nós fechamos o distrito de pornografia de São Francisco por uma noite. O território foi tomado mas não foi mantido.

Eu queria dizer aqui hoje algo bem diferente do que vou dizer agora. Eu gostaria de chegar aqui militando, orgulhosa, e possessa de raiva. Porém, cada vez mais, eu vejo que a raiva é uma sombra esquálida do luto que sinto. Se uma mulher tem um pingo de noção de sua dignidade intrínseca, ver pornografia pode fazer com que pouco a pouco ela adquira uma raiva profícua. Mas estudar pornografia em grande quantidade e profundidade, como eu tenho feito por mais tempo do que consigo lembrar, deixará esta mesma mulher de luto.

A pornografia é vil por si mesma. Caracterizá-la de qualquer outra maneira seria uma mentira. Nenhuma pandemia de intelectualismos e sofismas masculinos pode mudar ou esconder esse simples fato. Georges Bataille, um filósofo da pornografia (que ele chama de “erotismo’’), diz claramente: “Essencialmente, o campo do erotismo é o campo da violência, da violação.’’ ¹ O Sr. Bataille, ao contrário de muitos de seus pares, deixa satisfatoriamente explícito que a ideia geral na pornografia é a de violentar a fêmea. Usando a linguagem eufemista tão popular entre homens intelectuais que escrevem sobre pornografia, Bataille nos informa que “o lado passivo, feminino, é essencialmente aquele que é dissolvido, como uma entidade a parte.’’ ² Ser “dissolvida’’ — custe o que custar — é o papel da mulher na pornografia. Os grandes cientistas e filósofos (homens) que estudaram a sexualidade, incluindo Kinsey, Havelock Ellis, Wilhelm Reich, e Freud, apoiam esta visão de propósito e destino. Os grandes escritores (homens) usam mais ou menos formosamente a linguagem para nos conceber como fragmentos auto-servidos, como se fôssemos meio-dissolvidas, e daí prosseguem nos “dissolvendo’’ por inteiro, custe o que custar. Os biógrafos de grandes artistas (homens) comemoram as atrocidades da vida real que homens cometeram contra nós, como se essas atrocidades fossem primordiais na produção de arte. E na história, da maneira como homens viveram, eles nos “dissolveram’’ — custe o que custasse. Nossa esfola e nossa desossa são as fontes de energia da arte masculinista e da ciência, pois elas são o teor essencial da pornografia. A experiência visceral de ódio às mulheres que literalmente não tem limites me levou para além do ódio e das lágrimas; só consigo falar com vocês de luto.

Todas nós esperávamos que o mundo fosse diferente do que ele é, não é verdade? Não importa a dificuldade material ou emocional pela qual passamos enquanto crianças ou adultas, não importa o que entendemos de história ou os depoimento de sobreviventes sobre como e porquê as pessoas sofrem, todas nós acreditávamos, confidencialmente, na possibilidade humana. Algumas de nós acreditamos na arte, ou na literatura, ou na música, ou na religião, ou na revolução, ou nas crianças, ou no potencial salvador do erotismo ou do afeto. Não importa o quanto sabíamos sobre crueldade, todas nós acreditamos na bondade; e não importa o quanto conhecíamos o ódio, todas nós acreditamos na amizade ou no amor. Nenhuma de nós poderia imaginar ou acreditar nos fatos da vida como a conhecemos: a rapacidade da ganância masculina por dominação; a nocividade da supremacia masculina; o desprezo virulento por mulheres que é a própria fundação da cultura na qual vivemos. O Movimento das Mulheres forçou-nos todas a encarar os fatos, mas não importa o quão corajosas e esclarecidas sejamos, não importa o quão longe estejamos dispostas a ir ou somos forçadas a ir para enxergar a realidade sem romance ou ilusão, ficamos simplesmente perplexas com o ódio masculino da nossa espécie, sua morbidez, sua compulsoriedade, sua obsessividade, sua celebração de si em cada detalhe da vida e da cultura. Nós pensávamos ter compreendido esse ódio de uma vez por todas, tendo visto sua crueldade extraordinária, desvendado seus segredos, nos acostumado, superado ou tendo nos organizado contra ele de modo a ficarmos protegidas dos piores abusos. Nós pensamos que sabemos tudo o que há para saber sobre o que homens fazem com mulheres, mesmo que nós não possamos imaginar porque eles fazem o que fazem, quando acontece algo que simplesmente nos deixa furiosas, fora de controle, de modo que voltamos a ficar aprisionadas como animais engaiolados na realidade de torpor do controle masculino, da vingança masculina contra ninguém-sabe-o-que, do ódio masculino contra nossa própria existência.

É possível saber de tudo e ainda assim não imaginar filmes snuff.³ É possível saber de tudo e ainda se chocar e espantar quando um homem que tentou fazer filmes snuff é absolvido, apesar dos depoimento das agentes infiltradas, as quais ele queria torturar, matar e, é claro, filmar. É possível saber de tudo e ainda ficar atônita e paralisada ao conhecer uma criança que tem sido constantemente estuprada por seu pai ou algum parente do sexo masculino. É possível saber de tudo e ainda se contentar em só poder cuspir de raiva como um idiota quando uma mulher é processada por tentar abortar sozinha usando agulhas de crochê, ou quando uma mulher é presa por matar um homem que a estuprou ou torturou, ou que ainda está estuprando ou torturando. É possível saber de tudo e ainda querer matar e morrer ao mesmo tempo quando se vê uma imagem celebrativa de uma mulher sendo triturada num moedor de carne na capa de uma revista nacional, por mais podre que seja a revista. É possível saber de tudo e ainda assim se recusar internamente a acreditar que a violência pessoal e social, culturalmente aceita, contra mulheres é ilimitada, imprevisível, generalizada, constante, impiedosa, e alegremente e inconscientemente sádica. É possível saber de tudo e ainda não conseguir aceitar o fato de que sexo e assassinato estão fundidos no imaginário masculino, de modo que um sem a iminente possibilidade do outro é impensável e impossível. É possível saber de tudo e ainda assim, no fundo, se recusar a aceitar que a aniquilação de mulheres é a fonte de significado e da identidade de homens. É possível saber de tudo e ainda assim querer desesperadamente não saber de nada, porque encarar o que sabemos significa questionar se a vida sequer vale a pena.

Os pornógrafos, atuais e antigos, visuais e literários, vulgares e aristocratas, apresentam uma tese sólida: o prazer erótico para homens deriva e é baseado na destruição violenta de mulheres. Como escreveu o mais consagrado pornógrafo mundial, Marquês de Sade (chamado por homens acadêmicos de “Marquês Divino’’), em um de seus momentos mais contidos e civilizados: “Não haveria uma mulher na face da Terra que tivesse motivos para reclamar de meus serviços se eu tivesse a garantia de poder matá-la depois.’’ ⁴ A erotização do assassinato é a essência da pornografia, como se fosse a própria essência da vida. O torturador pode ser tanto o policial arrancando as unhas de uma vítima numa cela bem como o assim chamado cidadão de bem empenhado em foder uma mulher até a morte. O fato é que o processo de matar — e tanto o estupro como o espancamento são etapas desse processo — é o principal ato sexual para homens na realidade e/ou na imaginação. Mulheres enquanto classe devem ficar em bondage, sujeitas ao desejo sexual masculino, porque o conhecimento do imperativo de matar, seja ele exercitado em plenitude ou apenas parcialmente, é necessário para alimentar o apetite e o comportamento sexual. Sem mulheres como potenciais ou reais vítimas, homens têm, no jargão atualmente utilizado, “disfunção sexual’’. Esse mesmo tema também opera entre homens homossexuais, onde à força e/ou por convenção designam alguns machos como fêmeas ou feminilizados. A infinidade de couro e correntes entre homens homossexuais e a recente invenção de ringues de prostituição de rapazes, voltados para gays, são provas das persistência da compulsão masculina em dominar e destruir, que é a fonte de prazer sexual para homens.

A pior coisa sobre a pornografia é que ela revela a verdade masculina. A coisa mais insidiosa sobre a pornografia é que ela revela a verdade masculina como se fosse a verdade universal. As caracterizações de mulheres algemadas sendo torturadas supostamente representam nossas aspirações eróticas mais profundas. E algumas de nós acreditamos nisso, não acreditamos? A coisa mais importante sobre a pornografia é que seus valores normalmente são os valores de homens. Esse é o fato crucial que tanto a Direita masculina como a Esquerda masculina, de modos diferentes mas mutuamente unidos, querem esconder das mulheres. A Direita masculina quer esconder a pornografia, e a Esquerda masculina quer esconder o significado da pornografia. Ambos querem acesso à pornografia de modo que homens possam ser encorajados e energizados por ela. A Direita quer acesso secreto; a Esquerda quer acesso público. Mas quer nós vejamos ou não pornografia, os valores nela expressos são os valores expressos nos estupros e espancamentos de esposas, no sistema legal, na religião, na arte e na literatura, na discriminação econômica sistemática contra mulheres, nos institutos acadêmicos moribundos, e pelos bons, sábios, gentis e iluminados homens de todos esses campos e áreas. A pornografia não é uma forma de expressão separada e diferente do resto da vida; é uma forma de expressão em completa harmonia com qualquer cultura na qual ela desabrocha. E assim o é, quer ela seja legal ou ilegal. E, em ambos casos, a pornografia opera para perpetuar a supremacia masculina e crimes de violência contra mulheres porque ela condiciona, treina, educa e inspira homens a desprezarem mulheres, a usarem mulheres, a machucarem mulheres. A pornografia existe porque homens desprezam mulheres, e homens desprezam mulheres em parte porque a pornografia existe.

A mim, a pornografia derrubou-me de uma maneira que, pelo menos até então, a vida não havia conseguido. Para quaisquer batalhas e dificuldades que tive na vida, eu sempre quis encontrar uma maneira de seguir em frente mesmo sem saber como, de viver mais um dia, de aprender mais uma coisa, de dar mais uma caminhada, de ler mais um livro, de escrever mais um parágrafo, de ver mais um amigo, de amar mais uma vez. Quando eu leio ou vejo pornografia, eu quero acabar com tudo. Por que, eu me pergunto, por que eles são tão cruéis e tão orgulhosos disso? Às vezes, um detalhe me deixa furiosa. Há uma mostra de fotografias: uma mulher cortando seus seios com uma faca, esfregando seu próprio sangue em seu próprio corpo, enfiando uma espada em sua vagina. E ela está sorrindo. E é o sorriso que me deixa furiosa. Há uma capa de vinil estampada numa enorme vitrine expositora. A foto do álbum é a vista de perfil das coxas de uma mulher. Apesar de não aparecer explicitamente, sabemos que sua genital está lá; O título do álbum é “Plug Me to Death’’ (“Me plugue até a morte’’). E é o uso da primeira pessoa que me deixa furiosa. “Me plugue até a morte’’. A arrogância. A arrogância a sangue-frio. E como é possível que essa lógica continue operando, insensivelmente, de maneira completamente brutal, ilógica, dia após dia, ano após ano, com essas imagens, ideias e valores sendo despejados, empacotados, comprados e vendidos, promovidos, perdurando, e ninguém impeça isso, e que nossos queridos garotos intelectuais defendam isso, e que advogados elegantes debatam por isso, e que homens de todo tipo dizem não poder e não querer viver sem isso. E a vida, que significa tudo para mim, torna-se sem sentido, porque essas celebrações de crueldade destroem a minha própria capacidade de me importar e de ter esperança. Eu odeio os pornógrafos, acima de tudo, por me privarem da minha esperança.

A violência psíquica na pornografia é insuportável. Ela age como um cassetete até que sua sensibilidade seja aplacada e seu coração morra. Você fica anestesiado. Tudo pára, e você olha para as páginas ou imagens e sabe: isso é o que homens querem, e isso é o que homens sempre tiveram, e isso é do que homens não querem abrir mão. Como aponta a feminista lésbica Karla Jay em um artigo chamado “Pot, Porn, and the Politics of Pleasure’’, os homens podem abrir mão de uvas, alface, suco de laranja, vinho português e atum, mas homens não abrem mão da pornografia. E sim, é preciso tirar isso deles, queimar, rasgar, bombardear, demolir seus cinemas e editoras. Você pode participar de um movimento revolucionário ou ficar de luto. Talvez eu tenha encontrado a verdadeira razão do meu luto: nós ainda não nos tornamos um movimento revolucionário.

Hoje à noite iremos caminhar juntas, todas nós, para retomar a noite, como mulheres fizeram em outras cidades ao redor do mundo, porque, em todos os sentidos, nenhuma de nós pode caminhar sozinha. Toda mulher caminhando sozinha é um alvo. Toda mulher caminhando sozinha é caçada, assediada, e machucada por violência física ou psíquica uma vez atrás da outra. Somente ao caminharmos juntas poderemos verdadeiramente caminhar com alguma sensação de segurança, dignidade ou liberdade. Hoje à noite, caminhando juntas, nós proclamaremos aos estuprados e pornógrafos e espancadores de mulheres que seus dias estão contados e que a nossa hora chegou. E amanhã, o que faremos amanhã? Porque, minhas irmãs, a verdade é que nós temos que retomar a noite todas as noites, ou a noite nunca será nossa. E uma vez que tivermos conquistado a escuridão, temos que buscar a luz, para retomar o dia e fazê-lo nosso. Essa é a nossa opção e essa é a nossa necessidade. É uma opção revolucionária, e é uma necessidade revolucionária. Para nós, as duas são inseparáveis, assim como nós devemos ser inseparáveis em nossa luta pela liberdade. Muitas de nós já caminhamos vários quilômetros — duros e intrépidos quilômetros — mas ainda não fomos longe o bastante. Nesta noite, a cada lufada e a cada passo, devemos nos comprometer com a jornada: transformar a terra em que caminhamos, de sepulcro e prisão em uma alegre morada, que é nossa por direito. Nós devemos e iremos fazer isso, por nós e por todas as mulheres que já viveram.

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