sábado, setembro 22, 2012

Porque não sou cristã e me digo pagã de corpo e alma…

"O Cristianismo retirou-lhe o seu aspecto divino desfigurando-a numa mulher feia e decrépita, de longos nariz e dentes exagerados, de espessos e irisados cabelos. Nascia assim a mítica imagem da bruxa ma que amedrontava o sono inocente das crianças."
 
 

 

HOLDA
 
A FEITICEIRA DE INVERNO
(…)

A cavalgada selvagem varria os ares à procura de almas errantes como se fossem impurezas que entupiam a energia produtiva imanente dos solos. A verdadeira e original função da tétrica comitiva era a renovação das forças espirituais da terra, repondo uma nova camada e de células frutíferas, ao mesmo tempo que purificava a atmosfera infestada pela invasão de defuntos atraídos pelas noites invernais. Da inofensiva e generosa Divindade, Holda foi vulgarizada pelas escrituras cristãs num ser maligno e diabólico, sem espaço na etnografia reescrita sob o novo credo. O nome Holda passou a a anunciar pavor e castigo e tudo o que com ela estivesse relacionado seria sinónimo de delito. A palavra holde catalogava seres fantasmagóricos e as sombras errantes pelas densas florestas. Holda aparecia na companhia de espíritos simpáticos, holden o povo silencioso que habitava os meandros subterrâneos. Uma relação proibitiva e incómoda por  manter  os vínculos do ser humano (homem no texto) ao mundo numinoso da Natureza. O Cristianismo retirou-lhe o seu aspecto divino desfigurando-a numa mulher feia e decrépita, de longos nariz e dentes exagerados, de espessos e irisados cabelos. Nascia assim a mítica imagem da bruxa ma que amedrontava o sono inocente das crianças.

 

In AS MÁSCARAS DA GRANDE DEUSA de Cristina Aguiar

Pag. 143/144

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