"NÃO SOU FEMINISTA, SOU ANTROPOLOGICAMENTE LÚCIDA" Ana Hatherly

quinta-feira, março 14, 2013

A FALTA DA MÃE E A NEGAÇÃO DA MULHER...

AQUI ESTÁ O QUE PENSA O NOVO PAPA:  

"AS MULHERES SÃO NATURALEMENTE INAPTAS PARA EXERCER CARGOS POLÍTICOS, DISSE REFERINDO-SE A CRISTINA KIRCHNER. "A ORDEM NATURAL E OS FEITOS NOS ENSINAM QUE O HOMEM É O SER POLÍTICO POR EXCELÊNCIA; AS ESCRITURAS MOSTRAM-NOS QUE A MULHER SEMPRE É O APOIO DO HOMEM PENSADOR E DE ACÇÃO, MAS NADA MAIS DO QUE ISSO" -  Dito por Francisco I


A MULHER E O HOMEM...

O CÉU E A TERRA

 “No Quinto Império haverá a reunião das duas forças separadas há muito, mas de há muito aproximando-se: o lado esquerdo da sabedoria – ou seja a ciência, o raciocínio, a especulação intelectual; e o seu lado direito – ou seja o conhecimento oculto, a intuição, a especulação mística e cabalística.” - Fernando Pessoa (copiado de Templários na formação de Portugal)

 

O que eu me pergunto e algo perplexa é como tantos humanistas, poetas e homens sábios, de entre eles tão poucos ou mesmo nenhum se tenha lembrado da correspondência dos sexos quanto a esses dois lados do ser e em como o homem, à partida, representa apenas um lado, o lado racional e a mulher o intuitivo e emocional.

Não esquecendo, como diz Dion Fortune:

“A individualidade é bilateral, positiva e negativa; tem uma fase dinâmica e outra estática, e é, portanto, masculina e feminina, ou feminina e masculina de acordo coma relação existente entre “força” e “forma” em sua estrutura. A personalidade, porém, é unilateral e tem um sexo definido."
(…)
E diz ainda: “que a masculinidade e a feminilidade são sempre relativos nos planos internos, e tal como o vigor físico dos indivíduos que formam um par oscila num sentido ou noutro, o mesmo se pode dar com a sexualidade; assim, um homem pode ser puramente masculino em suas relações com uma mulher e puramente feminino, ou negativo, em suas relações com outra. A forma determina o sexo do indivíduo no mundo físico, porém a força relativa é a que determina nos planos internos; e este facto serve de chave para muita coisa”.

Independentemente desta visão esotérica da ambivalência sexual do ser humano, só a um nível da estrutura do par, eu não entendo como é que eles não compreenderam ou ainda não enxergaram, que o facto da mulher se manter ignorada e ignorante do seu papel na sua dimensão ontológica, na manifestação dos princípios, não pode expressar nem dar corpo à sua parte integrante se os homens continuam a desrespeitá-la e a depreciá-la como o fizeram os doutores da igreja, os filósofos e até os poetas que não elegem a Deusa e a musa como fonte de inspiração. E que não há verdadeira Mística sem a Mulher e a Rainha tal como é dito e apresentado na obra alquímica, como não há espiritualidade sem a mulher integrada!
Eu pergunto-me como é que tantos autores de renome e de valor subestimaram ou nem se lembraram que a mulher ao ser minimizada e a sua natureza dividida mantendo-se cativa dos preconceitos religiosos seculares que se reflectem nos nossos dias em sentimentos bastante vastos e empedernidos de misoginia, do qual nem sei se Fernando Pessoa também não padecia…

Quase todos os escritores, historiadores, antropólogos, psicanalistas e cientistas em geral padeceram deste mal ao ponto dos antropólogos julgarem que as deusas de Willendorf, encontradas nas suas escavações e outras estatuetas de deusas, encontradas ás centenas, representantes do princípio feminino e maternal, símbolos de fecundação e do sagrado tal como era vivido e encarada a Deusa Mãe na antiguidade, serem para eles meros objectos eróticos à imagem do que hoje se fará com as mulheres na pornografia e na publicidade. Aí se percebe a mente tacanha do Homem em relação à mulher e se não fossem as antropólogas feministas dos meados do século XX tudo continuaria na mesma! Também algumas psicanalistas abordaram aquestão, como Marie-Louize Von Fraz np seu livro Alquimia que diz:

“ A experiencia da anima para o homem e do animus para a mulher está de facto, inteiramente fora de uma experiência real com um parceiro humano. A extensão em que o parceiro humano desempenha um papel – apenas como uma imagem longínqua ou como uma conexão genuína – varia de caso para caso, mas essa experiência é a suprema experiência, que culmina na experiência de Si – mesmo.
(…)
A Igreja não encorajou esse género de literatura mística e religiosa, que, portanto, afectou profundamente a literatura semi-religiosa dos romances medievais, sobretudo a poesia do ciclo do Santo Graal e as suas lendas.”

- Precisamente por causa desta sua atitude a igreja provocou o afastamento da mulher, que por isso mesmo, com o passar do tempo, deixou de ser a musa inspiradora dos poetas e a Dama para os cavaleiros. Não só a mulher foi privada da sua essência como também toda a humanidade se perdeu da sua matriz. Nessa medida temos o homem isolado, rejeitando o seu próprio feminino.
E eu pergunto estupefacta, como é que ainda hoje os homens não vêem que essa separação da mulher e a sua cisão em duas no ocidente (sexualidade por um lado e maternidade por outro) priva a mulher da sua totalidade e idoneidade como pessoa e que ao privá-la da sua sexualidade sagrada e capacidade mediúnica, a mulher tornou-se um ser amorfo e subalterno, obediente ao homem sem discernimento próprio e sem capacidade sequer para ser mãe nem amante.

Perante tantos autores consagrados reparo que nenhum dos autores e as suas mais prementes questões de ordem metafísica se debruçam sobre o que deveria ser o papel da mulher na vida do homem e da história - partindo do princípio de que a mulher é apenas o que eles quiseram que fosse e está muito bem assim na sua ocultação religiosa, ignorada e silenciosa - e consequentemente deveriam elevar a mulher à sua condição integral e dar-lhe o seu lugar no mundo para que efectivamente ela seja o contributo da parte de inteligência emocional e vibratória que falta ao homem e à Humanidade.

Sim, eu pergunto como é que os homens, salvo raras excepções, nunca lhes tenha passado pela cabeça que sem a Mulher autêntica, a Mulher Integral, a Mulher Iniciada, a sacerdotisa dos templos da antiguidade, a que os padres cristãos destronaram para lhes ocupar os lugares e vestir as vestes, não podem chegar a nenhum lado?
Com excepção penso dos tântricos e dos yoguis hindus não sei se mais alguma cosmogonia presta o devido culto e respeito à Deusa e à Mulher na sua função primordial. A Shakti…a Dakini, as Golpis…
Sim, tirando o Egipto, a Índia, o Tantra Yoga e o Gnosticismo raras são as visões da espiritualidade e da Realização do Ser que considerem a Mulher e a Deusa como essencial.
Será que não é tempo dos homens e mulheres se aperceberem deste clamoroso erro histórico, filosófico e religioso e começarem a atribuir ao Feminino por excelência o seu papel e ver que esta é a peça que lhes falta?

rosaleonorpedro

Republicando

9 comentários:

Else Schumann disse...

Qto ao questionamento de outras crenças, tb os lamas em suas disputas quiseram depreciar a mulher contrariando os ensinamentos de Buddha. Infelizmente, todas as religiôes (que n começaram como religiões) são manipuladas pelos homens (homens gênero).
Há algumas ramificações do budismo que diz que uma mulher não pode alcançar a iluminação por ter vários obstáculos para se desenvolver (socioculturais, por exemplo).
No fundo, religião é um lixo criado para manipular!

ME disse...

Não percebo bem o que quer dizer quando, ao procurar denunciar (e muito oportunamente, aliás),a negação do direito das mulheres terem individualidade própria e vida pública pelo Catolicismo, remete para tempos que não devem ter sido idílicos e em que, talvez, nenhuma de nós gostaria, eventualmente, de viver. Por exemplo, ser uma sacerdotisa com "deveres sexuais" num tempo em que a consciência de si está muito mais desenvolvida seria regressivo, porque sê-lo não implica que a mulher não poderia negar um enlace, nunca poderia dizer que não lhe apetecia - o que às vezes acontece?

Deolinda Blathorsarn disse...

Obrigada Rosa!Prossigo acompanhando acompanhando os teus escritos, que são sempre palavras cheias de sabedoria e alento...Eu me retirei do Facebook, sinto uma imensa falta do grupo...Mas tentarei sempre acompanhar tuas palavras...Abraços a ti e ao grupo...

Deolinda Blathorsarn disse...

Quanto às palavras do novo papa, eram o esperado vindo de uma instituição misógina como é a igreja católica,

Rosa Leonor disse...

Me

Digamos que o que refere em relação a mulher como sacerdotisa da Deusa e em função de iniciação sexual dos homens - o Amor energia da Deusa e da Mulher em si, lhe daria a plenitude de uma entrega sem ser forçada...o pouco que eu sinto da energia da deusa dá para entender isso...o drama nosso não é o daquele tempo em que não havia tabu nem culpa na mulher nem pelo sexo e portanto não podemos pensar através da nossa mentalidade o que significava essa entrega a deusa do amor...a realidade era completamente outra...enquanto o ritual era fiel a sua origem, mas ele tronou-se venda-prostituição com as invasões patriarcais...

Rosa Leonor disse...

Deolinda obrigada por estar aqui. Pena ter saído do face...mas eu entendo. Aquilo é muito volúvel e disperso.
grande abraço

vá sempre dando noticias
rl

Rosa Leonor disse...

Sim, Else...o budismo embora não apresente a mulher como culpada do sexo nem da queda do homem ele acaba na mesmo por acusar a mulher como a tentação e impedimento a realização espiritual que é a renuncia ...a vida na sua plenitude.
abraço grande

rl

ME disse...

RLP,

Agradeço os esclarecimentos, que me permitiram perceber melhor a sua publicação! Mas gostava de lhe perguntar se o facto de não podermos hoje pensar o que significava a entrega à deusa (por muitos factores), não é parecido ao que nos sucede quando deixamos de ser crianças - mais mental, menos pré-racional? No segundo caso, não evoluímos voltando atrás no sentido de regredirmos para uma fase da vida em que tudo era mais fácil para nós mas sarando o que ficou ferido, reprocessando memórias, integrando. Se percebi, no que respeita às mulheres de hoje, os arquétipos femininos mais antigos podem auxiliar-nos hoje, pondo-nos a vibrar de modo mais puro, mais simples, e ajudando-nos a tomar consciência do que nos têm feito e continuam a fazer.

Deolinda Blathorsarn disse...

Estou muito feliz por ter tido coragem de deixar o facebook, por vários motivos...Aquilo estava me tomando muito tempo, pois ali há muita gente superficial e percebi que estava sendo controlada por uma força desconhecida e injusta, pois sempre procurei ser amistosa e útil nessa rede social e o que que colhi uma punição de dois dias por alguém, que não sei quem foi... Por duas vezes falei com as pessoas que estavam em meus contatos, deixei minha direção de email e retirei-me...A maior perda foi para mim sair do nosso grupo...Tenho lido os livros do Mircea Eliade e estou gostando muito por que etão elevando a minha consciência espiritual...Obrigada por seu comentário Rosa..Manterei o contato..Abraços..