O SORRISO DE PANDORA

“Jamais reconheci e nem reconhecerei a autoridade de nenhuma pretensa divindade, de alguma autoridade robotizada, demoníaca ou evolutiva que me afronte com alguma acusação de pecadora, herege, traidora ou o que seja. Não há um só, dentre todos os viventes, a quem eu considere mais do que a mim mesma. Contudo nada existe em mim que me permita sentir-me melhor do que qualquer outro vivente. Respeito todos, mas a ninguém me submeto. Rendo-me à beleza de um simples torrão de terra, à de uma gotícula de água, à de uma flor, à de um sorriso de qualquer face, mas não me rendo a qualquer autoridade instituída pela estupidez evolutiva da hora. Enfim, nada imponho sobre os ombros alheios, mas nada permito que me seja imposto de bom grado Libertei-me do peso desses conceitos equivocados e assumi-me como agente do processo de me dignificar a mim mesma, como também a vida que me é dispensada. Procuro homenageá-la com as minhas posturas e atitudes e nada mais almejo. É tudo o que posso dizer aqueles a quem considero meus filhos e filhas da Terra. “ In O SORRISO DE PANDORA, Jan Val Ellam

quarta-feira, julho 07, 2004



EU QUERIA POISAR COMO UMA ROSA
SOBRE O MAR O MEU AMOR NESTE SILÊNCIO


SOPHIA de Mello Breyner




DIANTE DO MAR, ainda...

Vulgaridade, vulgaridade que me acossa.
Ah, compraram-me a cidade e o homem.
Faz-me ter a tua cólera sem nome:
já me cansa esta missão de rosa.

Vês o vulgar? Esse vulgar faz-me pena,
falta-me o ar e onde falta fico.
Quem me dera não compreender, mas não posso:
é a vulgaridade que me envenena.

E a minha alma é como o mar, é isso,
ah, a cidade apodrece-a engana-a;
pequena vida que dor provoca,
quem me dera libertar-me do seu peso!


EXCERTOS DO POEMA de Alfonsina Storni

terça-feira, julho 06, 2004


Diante do mar


Oh, mar, enorme mar, coração feroz
de ritmo desigual, coração mau,
eu sou mais tenra que esse pobre pau
que, prisioneiro, apodrece nas tuas vagas.

Oh, mar, dá-me a tua cólera tremenda,
eu passei a vida a perdoar,
porque entendia, mar, eu me fui dando:
"Piedade, piedade para o que mais ofenda".

Vulgaridade, vulgaridade que me acossa.
Ah, compraram-me a cidade e o homem.
Faz-me ter a tua cólera sem nome:
já me cansa esta missão de rosa.

Vês o vulgar? Esse vulgar faz-me pena,
falta-me o ar e onde falta fico.
Quem me dera não compreender, mas não posso:
é a vulgaridade que me envenena.

Empobreci porque entender aflige,
empobreci porque entender sufoca,
abençoada seja a força da rocha!
Eu tenho o coração como a espuma.

Mar, eu sonhava ser como tu és,
além nas tardes em que a minha vida
sob as horas cálidas se abria...
Ah, eu sonhava ser como tu és.

Olha para mim, aqui, pequena, miserável,
com toda a dor que me vence, com o sonho todos;
mar, dá-me, dá-me o inefável empenho
de tornar-me soberba, inacessível.

Dá-me o teu sal, o teu iodo, a tua ferocidade,
Ar do mar!... Oh, tempestade! Oh, enfado!
Pobre de mim, sou um recife
E morro, mar, sucumbo na minha pobreza.

E a minha alma é como o mar, é isso,
ah, a cidade apodrece-a engana-a;
pequena vida que dor provoca,
quem me dera libertar-me do seu peso!

Que voe o meu empenho, que voe a minha esperança...
A minha vida deve ter sido horrível,
deve ter sido uma artéria incontível
e é apenas cicatriz que sempre dói.


Alfonsina Storni

segunda-feira, julho 05, 2004

OS MISTÉRIOS ELEUSIANOS
A HEURESIS - O ENCONTRO DA MÃE E DA FILHA


"Somente em um momento posterior, nos Mistérios Eleusianos, de Ísis e outros, é que os mistérios se voltam também para a questão da consciência na mulher e de sua autoconsciência; de acordo com uma característica essencialmente inerente à psicologia feminina, os primeiros mistérios ocorrem no nível da experiência directa, porém inconsciente. A mulher passa por uma experiência interior ao configurar uma porção da realidade, como “vida simbólica”, na qual não há a necessidade de se tornar consciente de qualquer um desses factores. Somente a intensidade e o teor emocional acentuado de sua conduta e, frequentemente, a confidencialidade da qual se vê revestida denunciam seu carácter de mistério.
O feminino, cuja essência procuramos discernir à luz das funções e dos símbolos do carácter elementar e de transformação, se torna criativo nos mistérios primordiais e assim actua como um factor determinante no inicio da cultura humana.
Enquanto os mistérios ligados ao instinto, envolvem os pontos centrais da vida feminina – nascimento, menstruação, concepção, gravidez, climatérico e morte -, os mistérios primordiais projectam um simbolismo no mundo real e assim transformam-no.

Os mistérios femininos podem ser divididos nos mistérios referentes à preservação; à formação, à alimentação e à transformação.
(...)
O grande motivo essencial dos Mistérios de Elêusis e, portanto de todos os mistérios matriarcais é a heuresis, a redescoberta de Core por Deméter, a reunião da mãe e da filha.
Esse reencontro significa, sob o ponto de vista psicológico, anular o assédio e o rapto masculinos e reconstruir a unidade matriarcal da filha e da mãe, depois do casamento. Isto significa que a hegemonia do grupo matriarcal _ legitimada pela relação da filha com a mãe -, que havia sido colocada em risco pela incursão do homem no mundo das mulheres e pela reacção destas àquele, é renovada e segurada nos Mistérios". (...)
In “A GRANDE MÃE” de Erich Neuman


NOTA Á MARGEM:

O que daqui se conclui, grosso modo, é que com o decorrer dos tempos, as mulheres perderam a ligação às mães pelo domínio exclusivo dos homens, pais, maridos, chefes e irmãos e, portanto, perderam a chave dos mistérios e a consciência que lhes dava a dimensão do seu ser total e a liberdade do seu ser também, passando a serem apenas utilizadas e exploradas nas sociedades patriarcais como reprodutoras e objectos de prazer. Circunstância essa que se mantém nos nossos dias apesar das tentativas da mulher para se libertar ou julgar que é já livre! A emancipação verdadeira da mulher só se poderá consumar na consciência do seu ser total e completo e, portanto, quando a filha e a mãe se voltarem a unir no Conhecimento inato de si próprias e em defesa da Natureza Mãe e da Deusa! Afinal a Deusa era a detentora desse conhecimento da Natureza e da Terra com a qual estava em harmonia. É essa ligação que falta ao mundo para poder haver harmonia e Paz. Sem a consciência das mulheres os homens nunca conseguirão restabelecer a paz no mundo, pois foram eles ao dividir a humanidade em duas partes explorando uma através da espada que destruiram a civilização do Cálice. Por isso é urgente a demanda do Graal ou do Feminino por excelência!
É URGENTE QUE A MULHER ACORDE PARA SI PRÓPRIA!


a mulher como oráculo

“As mulheres por vezes ficam histéricas e fazem e dizem as coisas mais estranhas. Mas esta observação vai dar a volta e morder a própria cauda: talvez a verdade da vida e do viver resida nas estranhas coisas que as mulheres fazem e dizem quando estão histéricas”

in “ As Duas Vozes”- de William Golding

O QUE A MULHER PRECISA DE SE LEMBRAR:
AS TRÊS ETAPAS DA SUA VIDA


(…)
"Nas culturas celtas, a jovem donzela era vista como a flor; a mãe, o fruto, e a mulher mais velha, a semente. A semente é a parte que contém o conhecimento e o potencial de todas as outras partes de si. O papel da mulher pós-menopáusica é voltar a semear toda a comunidade com a sua semente concentrada de verdade e sabedoria. Em algumas culturas nativas, considerava-se que as mulheres na menopausa retinham o “sangue da sabedoria”, em vez de o expelir ciclicamente, e eram portanto consoderadas mais poderosas que as mulheres que menstruavam. Nessas culturas, uma mulher não podia ser “xamã” até ter ultrapassado a menopausa.

A “menopausa”, observa Slayton, “quando compreendida e apoiada, fornece às mulheres o nível seguinte de iniciação ao poder pessoal. Como parte do tabu menstrual que ainda perdura na nossa cultura, a voz da mulher menopáusica é temida e negada. Foi tornada invisível ou encorajada a permanecer jovem para sempre através da terapia de substituição hormonal, ou outra intervenção médica. Esta alienação cultural de um rito de passagem vital faz com que as mulheres mais velhas se sintam inúteis, isoladas e impotentes”

(...)
Quando uma mulher compreende que o verdadeiro significado da menopausa foi invertido e degradado, como muitos outros processos do corpo da mulher, consegue fazer o seu caminho durante o resto da vida, fortificada com objectivos e discernimento.



In “CORPO DE MULHER SABEDORIA DE MULHER” de Christiane Northrup

domingo, julho 04, 2004

"Um poeta sem sentimento de morte não é um grande poeta."

"Curiosamente, há muitas pessoas que não conhecem o sentimento da morte, não querem ou não podem pensar nela. Os que compreendem o que significa a morte são uma minoria. Aos demais falta valor e mesmo os filósofos evitam o problema.

Em Baudelaire existe a morte, em Sartre não. Os filósofos têm se esquivado da morte fazendo dela uma questão, ao invés de experimentá-la como algo existente. Não a consideram como algo absoluto, mas entre os poetas é diferente. Eles entram profundamente no fenómeno, rastreando-o. Um poeta sem sentimento de morte não é um grande poeta."


Emile Cioran

sábado, julho 03, 2004

Exílio (definitivo...)

Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades



1919 2004

SOPHIA DE MELLO BRYNER ANDRESEN


- Estou cansada - disse a mulher.
- Quando chegarmos à terra para onde vamos, descansarás, estendida na relva, à sombra das árvores e dos frutos.
(...)

Compreendeu que lhe restavam somente alguns momentos.
Então virou a cara para o outro lado do abismo. Tentou ver através da escuridão. Mas só se via escuridão. Ela porém pensou:

- Do outro lado do abismo está com certeza alguém.
E começou a chamar.


in CONTOS EXEMPLARES

sexta-feira, julho 02, 2004

"A GRANDE DEUSA"

>"Apesar dos discursos que se pretendem feministas, apesar de importantes concessões feitas ao apostolado das mulheres, a regra é sempre masculina: só um homem pode representar Jesus, e, portanto, Deus pai, pois admitir as mulheres à função sacerdotal seria voltar aos cultos julgados escandalosos anteriores ao cristianismo."
de Jean Markale

Assim, na continuação dos tempos até hoje ainda é legítimo (legal) continuarem a ser os homens os chefes de família, os médicos...os directores e ministros e presidentes de um País, embora as mulheres enfeitem os mesmos, mas sem Voz e sem crédito algum. Mesmo com leis equlitárias...a mulher continua, como na igreja, a limpar o pó e a arranjar as flores ou a dizer uns salmos sem perigo (fiel à voz do dono, seja ele deus padre ou patrão...) Porque se a Mulher um dia voltar a ser detentora legítima do Orácula da Deusa, então a Justiça e a Verdade impor-se-ão de novo na Terra como nos tempos da Grande deusa...
Para isso as mulheres têm de recuperar a VOZ DO ÚTERO e o seu DOM INATO DE ORÁCULO que une a capacidade do Saber intrínseco e da Piedade humana, qualidades extintas na sociedade patriarcal há muito.

quinta-feira, julho 01, 2004



O SABER E A PIEDADE


E, assim, o saber por inspiração pertence inteiramente ao mundo da piedade, é recebido de algo diferente e é sentido em si mesmo como distinto de quem o tem; é um hóspede a quem se deve saber receber e tratar para que não desapareça deixando alguma coisa pior ainda que o seu vazio. Porque toda a inspiração luminosa tem o seu perigo numa inspiração contrária.

Assim a poesia é o primeiro saber que nasce deste piedoso saber inspirado. Conservará sempre a marca da sua origem inspirada, de algo que vem de outro lugar, que vem e foge, claridade que, quando se apresenta, recorda o que nãos e sabia, inesperada memória repentina que por instantes liberta o homem desse sentir que não se lembra de algo que é o que mais lhe interessa.

Poesia é criação, a criação humana, e é palavra inspirada, recebida, passiva ainda. Daí o carácter sagrado do poeta, carácter indelével em todas as suas efígies de qualquer tempo. O poeta nunca sabe totalmente o que diz, menos ainda quando o dirá; habitado por um saber de inspiração, não estranha que se sinta inicialmente sentindo como que habitado por um deus que nele se manifesta. O poeta original é um oráculo.

Mas o oráculo não fala sempre que se necessita dele, nem é entendido no que diz. E, além disso, quem está no oráculo? Quem fala? A inspiração é um saber que põe em relevo a angústia que este mundo tem so outro: a angústia da descontinuidade, angústia dos múltiplos instantes separados entre si por abismos, de vazio e de silêncio. (...)


In O HOMEM E O DIVINO
Maria Zambrano

NOTA À MARGEM

Esquecida está a Mulher cuja essência é fonte do Oráculo da Deusa. A mesma Deusa que foi destronada por Apolo que reduziu o Oráculo a vaticínio político e económico até aos nossos dias, condenando a última das Sacerdotisa fiel da Deusa, Cassandra, ao descrédito e consequentemente todas as mulheres até hoje ...

Uma história oculta da Humanidade e que as mulheres precisam de reconstituir. É a Voz, a outra voz, a que deu origem ao Oráculo e que é pertença da Mulher, como é eterno o Saber e a Piedade da Deusa Mãe.

"PRÓXIMO É AQUELE QUE SOFRE
E DE QUEM NÓS NÃO TEMOS PIEDADE"

Y.K. Centeno

SOMOS DOMINADOS PELO NOSSO EGO...
DESCONHECENDO O NOSSO VERDADEIRO EU...


De facto respiramos no múltiplo; o nosso reino é o do "eu", e não há salvação através do "eu". Existir é condescender com a sensação, e portanto com a afirmação de si; de onde o não-saber (com a sua consequência directa: a vingança), princípio de fantasmagoria, origem da nossa peregrinação na terra.

Para que possamos manter a fé em nós mesmos e em outrem, e para que não nos apercebamos do carácter ilusório, da nulidade de toda e qualquer acção, a natureza tornou-nos opacos a nós próprios, sujeitos a uma cegueira que dá o mundo ao mundo e o que o governa.
Se empreendêssemos uma indagação exaustiva sobre nos próprios, a repulsa paralisar-nos-ia e condernar-nos-ia a uma existência sem rendimento. A incompatibilidade entre o acto e o conhecimento de si parece ter escapado a Sócrates; sem o que, na qualidade de pedagogo, de cúmplice do homem, não saberiamos se teria ousado adoptar a divisa do oráculo, com todos os abismos da renúncia que ela supõe e nos convida.

Enquanto possuímos uma vontade própria e lhe permanecemos apegados (tal é a acusação endereçada a Lucífer), a vingança é um imperativo, uma necessidade orgânica que define o universo da diversidade, do "eu", e que não poderia ter fosse que sentido fosse de identidade. Se fosse verdade que "é no Uno que respiramos" (Plotino), de quem nos vingaríamos aí onde toda a diferença se esbate, onde comungamos no indiscernível e perdemos os nossos contornos?
(...)
Quanto mais procuramos arrancar-nos ao noSso eu, mais mergulhamos nele. Bem podemos tentar fazê-lo explodir, no próprio momento em que julgamos ter conseguido, ei-lo que nos surge mais seguro do que nunca; tudo o que empreendemos para o arruinar só serve para aumentar a sua força e a sua solidez, e tais são o seu vigor e a sua perversidade que ele se dilata ainda mais no sofrimento do que na fruição. É assim com os o eu, é assim, por maioria de razão com os actos."


A ODISSEIA DO RANCOR...
in HISTÓRIA E UTOPIA - E. CIORAN