O SORRISO DE PANDORA

“Jamais reconheci e nem reconhecerei a autoridade de nenhuma pretensa divindade, de alguma autoridade robotizada, demoníaca ou evolutiva que me afronte com alguma acusação de pecadora, herege, traidora ou o que seja. Não há um só, dentre todos os viventes, a quem eu considere mais do que a mim mesma. Contudo nada existe em mim que me permita sentir-me melhor do que qualquer outro vivente. Respeito todos, mas a ninguém me submeto. Rendo-me à beleza de um simples torrão de terra, à de uma gotícula de água, à de uma flor, à de um sorriso de qualquer face, mas não me rendo a qualquer autoridade instituída pela estupidez evolutiva da hora. Enfim, nada imponho sobre os ombros alheios, mas nada permito que me seja imposto de bom grado Libertei-me do peso desses conceitos equivocados e assumi-me como agente do processo de me dignificar a mim mesma, como também a vida que me é dispensada. Procuro homenageá-la com as minhas posturas e atitudes e nada mais almejo. É tudo o que posso dizer aqueles a quem considero meus filhos e filhas da Terra. “ In O SORRISO DE PANDORA, Jan Val Ellam

quinta-feira, abril 02, 2015

SÓ A MULHER PODE INICIAR AOS MISTÉRIOS DA VIDA E DA MORTE...




O VASO DA TRANSFORMAÇÃO
 
"O Vaso da Transformação só pode ser efectuado pela mulher,
porque ela própria, em seu corpo que corresponde ao da Grande Deusa, é o caldeirão da encarnação, nascimento e renascimento. E é por isso que o caldeirão mágico está sempre nas mãos de uma figura humana feminina, a sacerdotisa e a bruxa".

...
(in A GRANDE MÃE  de Erich Neumann)

quarta-feira, abril 01, 2015

" O lisonjeador é o que há de pior no mundo. "



Tantos Arautos do nada....
Tantos mistificadores espirituais...tantos simulacros de verdade...tantas palavras repetidas e vazias de sentido, sem ressonância nenhuma em imitação do sagrado...sem transcendência, sem eco...
Tanta gente infecta...vazia e sem alma a clamar por deuses, deusas e anjos...conspurcando o mundo de perversas intenções, enganadores...não sois senão monstros disfarçados de homens...e mulheres...

Oh hominídeos......
Oh vampiros,
Oh predadores...
A vossa raça infecta não perdurará...

rlp

"O lisonjeador é o que há de pior no mundo. Podem estar certos de que, na primeira ocasião, vos dará um golpe, que se vingará de se ter inclinado perante vós. E como se inclina perante toda a gente… Os lisonjeadores são traidores, sem excepção. Desprezei-os sempre, mas não desconfiei suficientemente deles. Para nossa infelicidade, suportamos melhor alguém que nos elogia do que quem nos diz sobre nós coisas verdadeiras, portanto desagradáveis. Assim, somos ...nós mesmos quem favorece, quem encoraja, os nossos piores inimigos.
(…)
O lisonjeador não é um futuro caluniador; ele é um caluniador disfarçado; enquanto vos canta louvores, prepara os seus golpes."



in HISTÓRIA E UTOPIA
Emile Cioran

SER MULHER



"É um previlégio estar viva como mulher neste momento crucial de despertar. Você é parte desta re-emergência, eu também sou. Isto está acontecendo nos mais diversos contextos culturais. É um fenómeno global.
O processo de criação de uma nova cultura onde o poder, beleza e mistério coexistem não é algo que possa ser adiado. Para tal precisamos de nos comprometer na jornada interna que leva à profunda transformação do registo patriarcal na psique feminina. A arte atemporal de participarmos de círculos, articulada de forma essencial por Jean Shinoda Bplen, renova a visão e revela um caminho."

  May East

sábado, março 28, 2015

O AMOR É A CHAVE...




O AMOR MÁGICO

As mulheres de hoje são apenas um pálido reflexo das mulheres de outrora…
Por tudo isso não há, na sociedade actual neste mundo globalizado, lugar para o verdadeiro amor e ele é cada vez mais raro. Ninguém sabe o que é o Amor Mágico. Porque as mulheres deixaram de ser mágicas…de ter magia e poder.
Tudo é conectado sexualmente, com baixa sexualidade, em que se confunde genitalidade com sensualidade, mas mesmo a sexualidade mais séria, a dos manuais como o kamasutraa ou o tantra, está cada vez mais longe da sua essência e o que temos cada vez mais é pornografia, sado-masoquismo em vez de erotismo. Não vimos nem pensamos que o amor verdadeiro nunca é só sexual...que é sempre outra coisa mais além, uma corrente de vida, um fluxo de energia, uma ressonância do ser que abrange outro ser à partida; não, não vimos que o amor vem da alma, e que pode e deve expressar-se sexualmente se houver reciprocidade, integridade e respeito humano, seja em que situação for, e tal como dizia Fernando Pessoa, “no amor o sexo é um acidente”, não é factor determinante. Mas as mulheres de hoje e que se pretendem modernas e emancipadas vivem o sexo mesmo sem amor…sem nada...quase sempre…
Hoje em dia ninguém deixa sequer o Amor acontecer, o namoro...o conhecer...do outro/a...antecipam-se as experiências sexuais, só pelo “prazer” do sexo…ou pelo dinheiro…


Publicado in mulheres e deusas - 2012
rlp

sexta-feira, março 27, 2015

Humanidade para lá dos paradigmas...




DUAS GRANDES SENHORAS:
a Humanidade para lá dos paradigmas...

Este beijo cúmplice e terno entre duas mulheres, grandes atrizes brasileiras, protagonistas de uma nova telenovela, Babilónia, levantou grande polémica no Brasil...
 
Por minha parte e como escrevi algures volto a citar - O patriarcado afastou a mulher de toda a interioridade, de toda a afectividade que não fosse ou seja relacionada com o homem e o filho. O pai e o filho! A relação com as outras mulheres seria e é sempre um perigo para esse império do domínio do homem sobre a mulher, a justificar a sua violência e posse. No caso das mulheres homossexuais (ainda que ficção, neste caso) essa violência é extrema e  vê-se a assombrosa e negativa  reacção das mentes machistas, tanto de  homens como de mulheres, que não perdoam esta infração ao domínio e sujeição total da mulher ao homem; pensarem que as mulheres possam viver sem depender de um homem sexualmente ou afectivamente isso assusta tanto o patriarcado e os fanáticos "cristãos", que antes pregam o ódio e preferem ignorar a violência doméstica e os crimes cometidos contra as mulheres... de facto, fora desse quadro tradicional conservador do par amoroso, eles temem tanto a liberdade das mulheres, das mulheres com força e com classe, (como é o caso destas duas atrizes)  que o demonstram claramente  na sua reacção a uma simples telenovela, de forma  violenta e instantânea,  e isso mesmo até da parte das mulheres que se assim se revelam ignorantes e estúpidas, e contra si mesmas reagem.
rlp


Tal como diz  Teresa Pizarro Beleza isto ainda acontece...
 
"Que engraçado, as pessoa continuam convencidas de que o Mundo, aliás, a Humanidade, se divide entre homossexuais e heterossexuais... que ideia tão estranha. Como se a atracção pela BELEZA tivesse sexo. O que a Medicina e a Psiquiatria do século XIX fizeram à mente humana.
Ide ler as leis antigas e depois vinde contar-me dessa divisão... e, já agora, Michel Foucault (História da Sexualidade, I. A Vontade de saber). E Platão, O Banquete... etc.
Desculpem, não me levem a mal, mas esta coisa de trabalhar continuamente na desconstrução do senso comum é muito cansativa. "

ALMA FEMININA E O PRAZER



O PRAZER FEMININO


"El placer sexual femenino, correctamente entendido, no trata solo de sexualidad o solo de placer. Sirve, también, como medio para el autoconocimiento femenino y la esperanza, la creatividad de la mujer y su coraje, el foco de la mujer y su iniciativa, el gozo femenino y su trascendencia; y también, como medio de una sensibilidad que se siente como libertad. Entender la vagina apropiadamente es darse cuenta de que no solo es una extensión del cerebro de la mujer, sino también y esencialmente, parte del alma femenina."

Vagina. A New Biography.
Naomi Wolf

O CORPO DA MULHER



"O corpo é como um planeta Terra. É um país em si mesmo.

 É tão vulnerável ao excesso de construção, à divisão em parcelas, ao esquartejamento excessivo e despoj...ado do seu poder, como qualquer paisagem. A mulher mais selvagem não será facilmente influenciada por esquemas de renovação. Para ela, as questões não se colocam quanto à forma, mas sim como se sentem. Os peitos, com todas as formas que assumem, têm a função de sentir e amamentar. Estão a amamentar? Estão a sentir? São bons peitos.
As ancas são largas por uma razão: encerram um espaço ebúrneo onde irá ter lugar o nascimento de uma nova vida. As ancas de uma mulher são os alicerces da parte superior e inferior do seu corpo; são portões, são uma almofada sumptuosa, são os apoios das mãos no acto de fazer amor,
servem para as crianças se esconderem. As pernas servem para nos levar, às vezes para nos dar impulso, são elas que carregam o nosso peso e nos ajudam a levantarmo-nos, formam a cerca, o laço para envolver o amante. Não podem demais nem de menos. São o que são.
Nos corpos não há 'o que devia ser'. A questão não é o tamanho, nem a forma, nem os anos, ou mesmo ter dois elementos de cada, pois com algumas pessoas isso não acontece. A questão que interessa é: este corpo sente, tem ligação ao prazer, ao coração, à alma, ao que é natural? Sente felicidade e alegria? Consegue, à sua maneira, mover-se, dançar, balançar-se, empurrar? Nada mais interessa."



CLARISSA PINKOLA ESTÉS

In "Mulheres que correm com os lobos"

terça-feira, março 24, 2015

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.

 
 
O Amor em Visita
 
Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar.
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas -
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes.
Ele - imagem vertiginosa e alta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.
Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.

Em cada mulher existe uma morte silenciosa.
E enquanto o dorso imagina, sob os dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Oh cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.
- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.
Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada
beleza.

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura, não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida - e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe a força
maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.

Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz
sobre as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira - para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.

Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.
Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.

Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.

Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

Se te aprendessem minhas mãos, forma do vento
a cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros
do crepúsculo
- aspiram longamente a nossa vida.

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho,
no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.
Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.

Herberto Helder, in 'O Amor em Visita'

terça-feira, março 17, 2015

Para que não confundam mais Lilith com outra que não ela...

POEMA DE JOUMANA HADDAD


QUANDO EU ME FIZ FRUTO...
 
...
A sombra da lua fui concebida rapaz e rapariga ...
mas quando nasci foi sacrificado Adão,
foi imolado aos vendedores da noite.
Minha mãe baptizou-me nas águas do mistério
para encher o vazio da minha outra essência,
colocou-me à beira de todos os abismos
e entregou-me ao estrondo das perguntas.
Dedicou-me à Eva das vertigens
e amassou-me em luz e trevas
para que me tornasse mulher centro e mulher lança
trespassada e gloriosa
anjo dos prazeres sem nome.
Estrangeira cresci e ninguém me colheu o trigo.
Desenhei a minha vida numa folha branca,
maçã que nenhuma árvore gerou,
mas depois rompi-a e saí dela
em parte vestida de vermelho, em parte branco.
Não habitei no tempo
nem estive fora dele
porque amadureci nas duas florestas.
Lembrei-me antes de nascer
que sou uma multidão de corpos
que dormi longamente
que longamente vivi
e quando me tornei fruto
conheci o que me esperava.
Pedi aos feiticeiros que cuidassem de mim
e levaram-me com eles.
Era
o meu riso
terno
a minha nudez
azul
e o meu pecado
tímido.
Voava numa pena de pássaro
e fazia-me travesseiro na hora do delírio.
Eles cobriram-me o corpo de amuletos
e untaram-me o coração com o mel da loucura.
Guardaram os meus tesouros e os ladrões dos meus tesouros
trouxeram-me silêncios e histórias
e prepararam-me para viver sem raízes.
E fui-me embora a partir daí.
Nas nuvens de cada noite reincarno
e viajo.
Só eu me despeço de mim
só eu me abro a porta.
O desejo é o meu caminho e a tempestade a bússola.
Em amor, em nenhum porto lanço ferro.
Abandono à noite a maior parte de mim mesma
e reencontro-me apaixonadamente.
Misturo fluxo e refluxo
vaga e areia da margem
abstinência da lua e os seus vícios
amor
e morte do amor.
De dia
o meu riso pertence aos outros
e é meu o meu jantar secreto.
Conhecem-me os que entendem o meu ritmo,
seguem-me
mas não me alcançam nunca.

(Tradução: Pedro Tamen- Laureano Silveira)

UMA VISÃO BEM A FRENTE DAS "FEMINISTAS"...



O Matrismo sim - NÃO FEMINISMO
 
Acho que não vale a pena a mulher libertar-se para imitar os padrões patristas que nos têm regido até hoje. Ou valerá a pena, no aspecto da realização pessoal, mas não é isso que vem modificar o mundo, que vem dar um novo rumo às sociedades, que vem revitalizar a vida. Ora bem, a mulher deve seguir as suas próprias tendências culturais, que estão intimamente ligadas ao paradigma da Grande Mãe, que é a grande reserva, a eterna reserva da Natureza, precisamente para os impor ao mundo ou pelo menos para os introduzir no ritmo das sociedades como uma saída indispensável para os graves problemas que temos e que foram criados pelas racionalidades masculinas. E no paradigma da Grande Mãe que vejo a fonte cultural da mulher; por isso lhe chamo matrismo e não feminismo.

Natália Correia, in 'Entrevista (1983)