O SORRISO DE PANDORA

“Jamais reconheci e nem reconhecerei a autoridade de nenhuma pretensa divindade, de alguma autoridade robotizada, demoníaca ou evolutiva que me afronte com alguma acusação de pecadora, herege, traidora ou o que seja. Não há um só, dentre todos os viventes, a quem eu considere mais do que a mim mesma. Contudo nada existe em mim que me permita sentir-me melhor do que qualquer outro vivente. Respeito todos, mas a ninguém me submeto. Rendo-me à beleza de um simples torrão de terra, à de uma gotícula de água, à de uma flor, à de um sorriso de qualquer face, mas não me rendo a qualquer autoridade instituída pela estupidez evolutiva da hora. Enfim, nada imponho sobre os ombros alheios, mas nada permito que me seja imposto de bom grado Libertei-me do peso desses conceitos equivocados e assumi-me como agente do processo de me dignificar a mim mesma, como também a vida que me é dispensada. Procuro homenageá-la com as minhas posturas e atitudes e nada mais almejo. É tudo o que posso dizer aqueles a quem considero meus filhos e filhas da Terra. “ In O SORRISO DE PANDORA, Jan Val Ellam

segunda-feira, maio 31, 2004


"Dignidade ou vergonhosa abjecção, nada afectará aquilo que os implacáveis triunfadores decretam, tornando-se a si próprios numa força da natureza. Tão inacessíveis à piedade como o vulcão."

A CLEMÊNCIA é o que mais precisamos...

"A clemência é o que nos eleva acima das nossas naturezas, sempre bem dotadas de sentimentos cruéis. A clemência, que não é o mesmo que o perdão, significa não fazer o que a natureza, o interesse próprio, nos dizem termoe o direito de fazer.. E talvez tenhamos esse direito, assim como o poder. Mas como é sublime não o fazermos apesar de tudo. Nada é mais admirável que a clemência."


in "O AMANTE DO VULCÃO" - o livro
de SUSAN SONTAG
PRECISAMOS LEMBRAR...

"OS OUTROS NUNCA TÊM O SENTIMENTO DE SER CHARLATÃES, E SÃO-NO; EU...SOU-O TANTO COMO OS OUTROS, MAS SEI-O E POR ISSO SOFRO."

E.M.CIORAN


O EGO E O SI-MESMO
ou a Máscara e o SER...


"O ego não pode ser um vaso para receber o influxo da graça enquanto não tiver esvaziado o seu próprio conteúdo inflado. E este esvasiamento só ocorre através da experiência de alienação"

"Se a vida da pessoa é governada pelo sentido de uma tarefa divina, isso significa, psicologicamente, que o ego tem de estar subordinado ao SI-mesmo e foi libertado das preocupações que têm o ego como centro."

"A experiência do Si-mesmo é sempre uma derrota para o ego" *
* Jung


in "EGO E ARQUÉTIPO"
de Edward F.Edinger

"Chamo “ingénuo” a todo o ser humano que se não dá conta da sua insignificância face ao mundo e que, consequentemente, se regozija com elogios.
Ver-se-á que a definição engloba quase toda a humanidade."


E.M.CIORAN

sábado, maio 29, 2004

O MEU GATO CHAMA-SE KIMIT

Há dias uma amiga referindo-se ao seu cão dizia de forma expressiva, que gostava tanto do seu cão, que às vezes lhe doía...Pensei imediatamente no meu gato. Como eu a compreendi! Claro que quem não tem animais não pode compreender e já vi muito boa gente rir-se do afecto que as pessoas têm aos animais, sobretudo as mulheres aos gatos...

Só tardiamente tive um gato que felizmente ainda vive, e antes de o Ter nunca supus ou imaginei que viria a desenvolver uma relação tão estreita e tão profunda com um animal...De facto tenho-me surpreendido ao longo dos anos com o afecto crescente diria quase que o amor ou mesmo paixão doce e serena que o meu gato me foi suscitando e que aumenta ao contrário do que com os seres humanos e se transformou numa espécie de osmose que permite um entendimento tácito que parece Ter-se estabelecido entre nós com o tempo e no silêncio sobretudo que fez a cumplicidade, com que ele me olha se choro ou estou triste e me alivia tanto pegar-lhe ao colo. Sem dúvida que este meu gato, sendo igual a muitos gatos, é diferente de um cão que ladra abundantemente por tudo e por nada, mas dizia eu que este gato nãos sei se diferentemente de outros, raramente mia e quando o faz parece que fala pois é sempre para me chamar à sua “razão” e talvez à minha intuição...eu respondo-lhe no mesmo tom e assim entabulamos uma conversa que dispensa os verbos e os adjectivos. Mesmo assim não resisto a chamar-lhe os nomes mais inventivos e todo o tipo de diminutivos para expressar o que sinto, mas o que mais me fascina e enternece senão me emociona profundamente é a sua constante lição de saber e de paciência na ternura...a forma como espera sem alarde - às vezes horas - sem que eu dê por isso (distraída a escrever ou a ler) e ele a meus pés ou por perto de barriga para ao ar á espera da minha festa sem se mover e inteiramente confiante nos meus gestos. Nunca me arranhou ou soprou...nunca se zangou comigo ou amuou se lhe dou comida que não gosta ou se me esqueço de lhe limpar a areia...ou mesmo se lhe dou de tempos a tempos um banho...
Um gato é uma soberba lição de amor e de vida porque de paciência e maitrise, dizem os mestres...Ele tem a sabedoria inata que a nós nos falta, no equilíbrio dos opostos no ataque como na defesa, na entrega como na recusa...ama mas não se prende...parece indiferente e frio, mas é caloroso e quente...sempre atento e relaxado, consegue dormir e zelar pela sua segurança...Entrega-se de coração e alma - que a tem de certo! - em quem confia e não cobra nunca viver exclusivamente para quem ama porque na verdade vive só para si mesmo. O amor é o seu estado de permanente vigília. Por isso eram venerados e guardiões de templos sagrados, no Egipto. Cada sacerdotisa tinha o um gato pelo seu Dom de cura e protecção de energias negativas nas casas...

No Egipto era proibido matar um gato...Quem o fizesse cometia um crime punido com a morte...Associado muito mais tarde pela Igreja católica às Bruxas e Videntes foi perseguido e morto como elas durante toda a Idade Média e ainda hoje, qualquer rapazola na rua lhe atira pedras ou lhe agarra o rabo e mata...Tornou-se sinal de agoiro nas superstições populares normalmente de origem religiosa e associado às mulheres em geral é detestado geralmente pelos homens e também por muitas mulheres que têm medo inconsciente da sua feminilidade ou sensualidade uma associação que vem da repressão dos padres da Igreja ao feminino e que prevalece ainda o seu medo ao nível do inconsciente colectivo.

Eu digo como a minha amiga: gosto tanto do meu gato que me dói mais dói-me ainda mais só de pensar que um dia o perco...


"OS NOSSOS PERFEITOS COMPANHEIROS
NUNCA TÊM MENOS DE QUATRO PATAS."


COLETTE

sexta-feira, maio 28, 2004

“No início, diziam os gregos, existia apenas o caos amorfo: luz e escuridão, mar e terra, tudo se misturava numa massa informe. Depois o caos organizou-se numa forma e essa forma era a imensa Gaia de seio profundo, a terra. Ela existia já antes do início dos tempo, pois o Tempo foi um dos seus filhos. Nas imensidões intemporais anteriores à criação Gaia existia para si própria.” (...)



SEGUNDO ARISTÓTELES...

O problema do mais e do menos já vem de longe...
(as aspas são do seu discurso)

Este corpo de mulher está inacabado como o de uma criança, está desprovido de sémen como o de um homem estéril. Doente por natureza, consegue mais lentamente reconstitui-se na matriz, devido à fraqueza térmica, mas envelhece mais rapidamente porque “tudo o que é pequeno chega mais depressa ao fim, tanto nas produções artificiais como nos organismos naturais”. Tudo isto, “porque as fêmeas são por natureza mais fracas e mais frias, e é necessário considerar a sua natureza como uma deformidade natural.”

Assim, de acordo com Aristóteles...

A natureza feminina é uma deformação natural: chegamos finalmente à razão ùltima dos defeitos que se acumulam no corpo das mulheres. É que a mulher é ela própria um defeito. Não há nada que escape ao registo da privação pelo qual ela se define.

O problema do género

E no entanto, temos de aceitar essa realidade: os grandes homens dizem mal das mulheres, os grandes filósofos e os mais autorizados saberes consagram as ideias mais falsas e mais desdenhosas a propósito do feminino. Assalta-nos, por vezes, a tentação de tudo reduzir à anedota, ao caso pessoal. (...)
Claro que seria fácil responder com o ressentimento e a amargura, com a denúncia furiosa dos erros e dos disparates. Mas seria justamente o mais fácil.
(...)
Diria até que a convicção íntima e adquirida de Ter razão de ser das nossas pesquisas militantes. Sabemos que a nossa causa é defensável. (...) Não apenas porque possuímos os meios para analisar e desconstruir esses discursos, e porque chegou a altura de levar a sério as razões dos vencidos, mas também porque algumas ideias mestras dessa ciência antiga podem chegar a sofrer um deslocamento e uma reorganização na mais recente biologia.


O LIVRO:
A alma é um corpo de mulher

De Giulia Sissa


(...) “O mais famoso oráculo do mundo antigo, Delfos, pertencia a Gaia muito antes de um intruso, o deus Apolo, se Ter apoderado dele.” (...)

in “O CAMINHO DA DEUSA” de Patricia Monaghan

quinta-feira, maio 27, 2004

>"EVITAR O SOFRIMENTO, É CORRER O RISCO DE SE PERDER EM ABSTRACÇÕES QUE NADA TÊM A VER COM A REALIDADE HUMANA."

"TODA A INFELICIDADE, VISTA DE FORA, PARECE MÍNIMA OU INCOMPREENSÍVEL. É ESTA ÓPTICA QUE DEVEMOS ADOPTAR SE QUISERMOS SUPORTAR A VIDA"


EMIL CIORAN


"QUEM NÃO CONSEGUE SUPORTAR A SUA SOMBRA TAMBÉM NÃO SUPORTA A LUZ"

quarta-feira, maio 26, 2004

in "O VALOR DE UMA MULHER"

"...devemos reinvindicar as nossas forças místicas. Devemos avançar, contra as árduas e obscuras forças do ridículo e da resistência sejam quais forem as formas que tenham fazendo o que temos que fazer e desempenhando o papel que nos cabe.

A opressão sobre as mulheres ainda persiste, e por vezes são as próprias mulheres que tornam o mundo ainda mais difícil para as outras mulheres. Mas este fenómeno tende a desaparecer, à medida que essas mulheres opressoras conquistem a sua auto-estima. Do lado oposto a esta selva nasce um dia novo e gloriosos na terra, o dia em que as nossas filhas deixarão de ser julgadas pelas suas paixões ou postas de lado porque terão poder, força e amor."
MARIANNE WILLAMSON - 1993


A GRANDE DEUSA

(...) mas a antiga detentora da soberania sobre o universo, a causa primeira de toda a existência, e isto muito antes da manifestação do Verbo que, segundo o Evangelho gnóstico de João, era no princípio (e não no começo) do mundo das relatividades concretas.

A arte da Idade Média é o reflexo de um pensamento e esse pensamento, apesar do peso do dogmatismo romano, está longe de ser unívoco. Mesmo que ela não cesse de ser consoladora, e mesmo lenitiva, a virgem medieval transmite mais do que uma mensagem, que remonta à aurora dos tempos e que se manifesta por vezes através de especulações ditas heréticas ou mesmo por meio das aberrações fantasmáticas, a saber: o conceito de uma criação permanente que não pode ser senão de natureza feminina. Se Maria foi realmente a geradora do divino enquanto “mãe portadora”, ela apenas podia ser a incarnação de um conceito preexistente que se tornou incompreensível, incomunicável e indizível, que aparece através dos diferentes mitos referentes à criação do mundo.
(...)
É o que emana da própria tradição cristã, no que ela vai haurir ao Antigo Testamento. “Eu fui criada desde o início e antes dos séculos”, segundo o Eclesiastes.



In A GRANDE DEUSA de Jean Markale


“As serpentes
despertam-me a curiosidade, porque não são amáveis.
Apetece-me passar esta noite de vigília, não dormir, ou dormir fora do meu lugar, para que mesmo os meus sonhos, durante a noite, sigam outra corrente. Eu peço à vida continuação e silêncio; “on demande à la vie apaisement et silence”.
Um dia virá
em que será possível ver
que não sei,
mas o que procuro se desenha,
e perece.
Não tenho a força necessária para interromper ainda esta noite.”

“Le serpent qui ne peut changer de peau périt. De même les esprits que l’on empêche de changer d’opinions; ils cessent d’être esprits”.


In finita
De Maria Gabriela Llansol

terça-feira, maio 25, 2004

UM MERCADO DE CASAMENTO...
UM DESFILE DA MERCADORIA SEMELHANTE ÀS NOSSAS PASSAGENS DE MODELOS E MISSES?


AS MULHERES AS PRIMEIRAS ESCRAVAS

(...)
“AS mulheres necessitavam de protecção masculina porque muitas das alianças entre homens eram pactos militares, a conjunção de forças para capturar o que é dos outros. E uma das primeiras e preferidas formas de motim eram as mulheres jovens. Quando duas tribos guerreavam, o grupo vitorioso matava os prisioneiros homens e levava as mulheres para fazer delas escravas reprodutoras. A captura de mulheres jovens aumentava o potencial reprodutivo dos homens vencedores e também o seu satus. Sempre que há documentos escritos, estes descrevem a violação e o rapto de mulheres no rescaldo da guerra.

Na Ilíada de Homero, que supostamente reflecte as condições sociais na Grécia por volta do ano de 1200a. C., os guerreiros discutem, por vezes de forma atrevida, a devida distribuição do espólio feminino. No princípio da narrativa o rei Agamémnon concorda, com relutância, em abrir mão da sua concubina favorita, Criseide, uma prisioneira de guerra pertencente a uma família importante, quando o Sacerdote seu pai ameaça levar a questão ao tribunal divino. Como compensação pela perda, Agamémnon exige outra mulher, mas os seus homens dizem-lhe que todas as prisioneiras já foram reclamadas. Sendo rei, Ag. Volta-se e exige a escrava/concubina de Aquiles, Briseide, para si. Este simples acto por pouco não conduz à derrota de Atenas, pois Aquiles passa uma grande parte da guerra de Tróia trancado na sua tenda, a remoer a indignidade e a procurar apoio sexual de uma das suas outras concubinas, “aquela que trouxera de Lesbos, filha de Forba, Diomede, a da tez clara”. Aquiles partilha a tenda com outro guerreiro, Pátrocolo, que na sua cama tem um presente de Aquiles; Ífis, a “da bela cintura”, que Aquiles capturara ao conquistar a cidade de Eneida.(...)

Não se ouve falar muito dessas prisioneiras, é claro, tão pouco ficamos, a saber, como se sentiam, passadas de homem para homem como ingressos para um jogo de basebol. É provável que não tenham levantado problemas. Sentiam-se gratas por estarem vivas. Afina, o livro não faz referência a homens escravizados; os homens de Eneia, Lesbos, Tróia e outras cidades derrotadas eram abatidos. Posteriormente, é claro, os homens aprenderam a escravizar outros homens, como faziam com as mulheres, e a usar os músculos dos homens como se usam mulas e bois, mas, segundo alguns historiadores, e com as evidências claramente o sugerem, os primeiros escravos humanos eram as mulheres e a motivação por trás da escravatura era a posse de ventre núbeis.” (...) (Excerto pag. 290)


in “MULHER – UMA GEOGRAFIA ÍNTIMA”
De Natalie Angier
Prémio Pulitzer (Gradiva)

segunda-feira, maio 24, 2004

Trabalhamos pela nova fé

“É por isso que, sabendo nós que, actualmente, o cristianismo é o velho, o decadente, a esterilidade e o inútil – nós, conquanto não saibamos claramente, nem nitidamente prevejamos o que se lhe seguirá, temos ainda assim a consciência de que , atacando-o trabalhamos pela nova fé; (...) preparamos o terreno para o edifício novo; que, arrancando as plantas que degeneram em bravias, nós deixamos o lugar livre para a semente que germinará em planta, para no fim, degenerar também em bravia (...), e ser arrancada por outros, para que outras plantas novas nasçam, e assim indefinidamente e incompreensivelmente no suceder-se dos séculos, e em favor do mystério infinito.”


iN "Pessoa por conhecer - Roteiro para uma Expedição" de Teresa Rita Lopes

FERNANDO PESSOA