quinta-feira, fevereiro 28, 2013

A RAIVA RESIDUAL


 Antes do zen, as montanhas eram montanhas, e as árvores eram árvores. Durante o zen, as montanhas eram tronos dos espíritos, e as árvores eram as vozes da sabedoria. 

Depois do zen, as montanhas eram montanhas, e as árvores eram árvores. Enquanto a mulher estava na montanha, aprendendo, tudo era mágico. Agora que ela desceu da montanha, o pêlo supostamente mágico foi queimado no fogo que destrói a ilusão, e chegou a hora de "depois do zen". A vida deve voltar ao plano prático. Mesmo assim, a mulher tem o tesouro da sua experiência na montanha. Ela tem o conhecimento. A energia que estava enfaixada pela raiva pode ser empregada em outras atividades. Ora, a mulher que conseguiu se entender com a raiva volta à vida cotidiana com novos conhecimentos, com um novo sentido de poder viver sua vida com maior habilidade.

No entanto, um dia no futuro, alguma coisa — um olhar, uma palavra, um tom de voz, a sensação de estar sendo tratada com condescendência, de não estar sendo apreciada ou de estar sendo manipulada contra a própria vontade — qualquer uma dessas coisas emergirá novamente. E então novamente a mulher se incendiará.

 A raiva residual de antigas feridas pode ser comparada aos efeitos traumáticos de um ferimento por estilhaços. A pessoa pode conseguir catar praticamente todos os pedaços de metal estilhaçado do míssil, mas os caquinhos menores permanecem. Seria de se pensar que, se a maioria foi retirada, tudo bem. Mas não é assim. Em certas ocasiões, esse caquinhos minúsculos se torcem e retorcem, causando uma dor semelhante à do ferimento original (o ferver da raiva) mais uma vez.  Não é, porém, a imensa raiva original que provoca esse jorro, mas são ínfimas partículas dela, elementos irritantes deixados na psique que nunca são completamente eliminados. Eles causam uma dor que é quase tão intensa quanto a do ferimento original. É assim que a pessoa se retesa, temendo o golpe violento da dor e, de fato, gerando mais dor. Eles se envolvem em manobras drásticas em três frentes: uma que tenta conter o evento objetivo; uma que tenta conter a dor que se espalha , a partir do antigo ferimento interno; e uma terceira que tenta garantir a segurança da sua posição mergulhando de cabeça numa posição psicológica de defesa. É demais pedir a um único indivíduo que enfrente o equivalente a um bando de três e tente no cautear todos eles ao mesmo tempo.
 
É por isso que é imperativo parar no meio de tudo isso, recuar e procurar a solidão. É demais tentar lutar e lidar ao mesmo tempo com a sensação de que se foi atingido nas vísceras. A mulher que escalou a montanha retira-se, trata do evento anterior em primeiro lugar, em seguida do evento mais recente, toma decisões acerca da sua posição, sacode o pêlo, ergue as orelhas e volta a aparecer para agir com dignidade. Nenhuma de nós pode fugir inteiramente da nossa história. Sem dúvida, podemos mantê-la num segundo plano, mas ela está ali do mesmo jeito. No entanto, se você quiser agir em seu próprio benefício, você superará a raiva e acabará se acalmando e se sentindo bem. Não perfeita, mas bem. Você será capaz de seguir em frente. Ficará para trás o tempo da raiva em estilhaços. Cada vez você lidará melhor com ela, pois saberá quando chegar a hora de voltar a procurar a curandeira, de escalar a montanha, de se livrar das ilusões de que o presente é uma reapresentação exata e calculada do passado. A mulher lembra-se de que pode ser feroz e generosa ao mesmo tempo. A raiva não é como o cálculo renal — se esperarmos tempo suficiente, a dor passa. Não e não. Você precisa tomar a atitude correta. Só assim ela passará, e sua vida será mais criativa.
(...)
CLARISSA PINKOLA ESTEES

MULHERES QUE CORREM COM OS LOBOS

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