domingo, maio 03, 2015

Nunca me disseste: “Mulher!”



(...)
A tua voz dizia qualquer coisa da tristeza,
qualquer coisa longe, qualquer coisa de ter saudades.
Mas nunca disseste do quê e o do porquê do coração.
Sei que a tua ausência me segreda sonhos
que talvez só eu sinta, como teus.
Nunca me disseste: “Mulher!”
que são coisas que se não podem dizer pela boca das mães.
Nunca disseste: “Poeta!” Mas eras a musa.
E as musas, filhas eternas das mães,
vivem para sempre nas palavras ditas.


- poema de maria sarmento


A MORTE DA MÃE...

Hoje apetecia-me escrever como se houvesse alguém - a minha mãe? - para eu escrever uma carta - uma carta que não mandarei, como diz o poeta...sim, penso, não vale a pena escrever uma carta a ninguém...mas afinal que necessidade eu tenho de escrever aqui e portanto a alguém por suposto, uma carta que não é para ninguém? É que de certo modo busco ainda alguém, um eco...sim, admito e confesso - buscamos sempre a piedade dos outros e o que é a poesia senão ter... pena de nós e a necessidade que alguém a sinta também?
Ah A minha mãe...e a criança abandonada que em mim chora às vezes a quem nada lhe valerá senão ter tido uma mãe ...e eu já não tenho mãe, nem irmã... e por isso é inútil escrever uma carta a alguém ou até um poema, mesmo que seja um poema sublime...e que fique para sempre...
E mesmo que eu saiba que esse "alguém" é apenas imaginação minha ou invenção dorida numa tarde de chuva miudinha, quase que não chuva, num dia triste...é uma mágoa só minha...tal como a dor que cai na alma e não dói coisa nenhuma, mas dói...E a alma chora e nós não sabemos quanto nem porquê afinal - se não há ninguém, nem ninguém me fez mal, por assim dizer...- é este o velho pranto contido... um mal congénito em nós e que está comigo desde o nascer e certamente me seguirá até morrer...
Não, hoje eu sei, que ao partir não haverá essa mão bondosa...a estender-se deste lado a confortar-me, como eu não estive quando partiste mãe e te deixei só...e fui em busca do sonho, mas talvez do outro lado sim, tu mesma, mas deste lado não, não haverá ninguém...pois ninguém tem piedade senão de si mesmo...Por isso mãe...eu quase cresci e fiz-me mulher...e hoje sou velha e a única coisa certa que sei é que não há ninguém que nos valha ou nos socorra no momento mais sentido do abismo do ser ...e que todas nós no intimo temos ou intuímos a mesma dor que umas calam - filhas e mães - e outras dizem e outras nem sequer querem ver...
Mas porque não escrevo no meu diário só para mim esta dor de ninguém e insisto nisto de escrever...para o publico?
ah que raios...há sempre um resquício de busca e esperança de compreensão humana mesmo quando sabemos que ela não existe e o que existe é tudo o que não é...quando o sonho se desvanece...e já nada responde ao apelo da alma senão a própria alma...


rosaleonorpedro

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