sábado, setembro 02, 2006

A TERRA É NOSSA MÃE

”A Terra é a nossa mãe. Dela recebemos a vida e a capacidade para viver. Zelar por nossa mãe é nossa responsabilidade e zelando por ela, estamos zelando por nós próprias. Nós, mulheres indígenas, somos manifestações da Mãe -Terra em forma humana. Molestar, destruir, minimizar as manifestações da Mãe-Terra é ir contra a sua natureza, pois na natureza tudo deve fluir, assim como os rios que correm, os mares que enchem e esvaziam, como as cachoeiras que caem, como as pedras que rolam, como os filhotes que nascem e crescem, como a chuva que cai, como as luas que se enchem e vão, como o sol que esquenta e esfria, como a vida humana e animal que brota e transforma-se em húmus para a terra. Ir contra todos esses segmentos é violar o sagrado. A base filosófica de nossas vidas, como mulheres e povos indígenas, (…) é o respeito pelo sagrado, pelo que foi criado pela natureza e a mulher faz parte deste sagrado, por isso sua palavra é sagrada, tanto quanto a Terra. E toda a sua cultura e espiritualidade relacionadas ao sagrado humano, deve ser respeitada.”

ELIANE POTIGUARA
(Escritora e activista brasileira candidata ao Prémio Nobel da Paz…)

- Se esta é a consciência de uma mulher indígena, então todas as mulheres e todos os homens do planeta deviam ser indígenas…

Se esta é a luta de uma mulher indígena, então essa devia ser a luta de todos os seres vivos sem mais reticências!

Se olharmos para a Planeta o que vemos é perfeitamente assustador e a nível humano e pessoal não há já ninguém que não se dê conta das alterações climáticas nem do ritmo acelerado das intempéries assim como todo o tipo de epidemias e doenças ou da ameaça constante da Guerra se alastrar assim como a fome…

O rastilho arde…a agressão a países perpetra-se e em nome de ou contra fundamentalismos, outros iguais ou maiores se lhes sobrepõem…

E vemos a Terra-Mãe, esta Terra abundante e resplandecente a ser totalmente desrespeitada pela agressão e violência dos homens de poder e os senhores da Guerra. Os políticos e os Media ao serviço dos poderes que devastam o planeta, pelas economias de mercado e os seus interesses financeiros, pensam apenas no seu triunfo (o triunfo dos porcos”?) e no sucesso das suas políticas globais e interesses de audiências, sem qualquer ética ou consciência do perigo a que toda a Humanidade está sujeita!

As massas alienadas pelo futebol mundial, associado ás indústrias do sexo, difundidas largamente pelos Media, favorecem as máfias de exploração e escravização das mulheres e crianças em todo o mundo que as leva para a prostituição organizada ao mais alto nível, sendo mais um flagelo para o qual as pessoas também de “elevado” estatuto social e económico, as elites e os governantes nada fazem nem querem saber.

A alienação do Princípio Feminino e da Terra Mãe é tal que em nome de uma pretensa liberdade aceita-se sem espírito crítico nem ético, organizações que promovem “Feiras de Erotismo” – a mais completa e insana pornografia - como feiras de gado em que as mulheres são expostas e se expõem como animais de circo na mais baixa e repulsiva prática-amostra do sexo abjecto-objeto, ficando os homens a olhar para as mulheres como quem olha para gado bovino (e não é por acaso que lhes chamam “vacas”) e mesmo no caso dos animais de circo e outros animais mal tratados e abandonados, para não falar do crime organizado contra as baleias e os golfinhos, toda o mercantilismo dos seres vivos, seja da fauna seja da flora, nomeadamente a forma como as mulheres e os animais são tratados em sociedade reflectem a nossa miséria humana. Miséria moral e nacional que discute o destino de um feto e não vê a par disso a exploração do corpo da mulher…

Miséria mais do que miséria comparável a dos mais miseráveis indigentes é aquela que nos permite coabitar na maior indiferença e alienação com as práticas mais monstruosas da violação não apenas dos direitos humanos, mas da essencial dignidade que começa a faltar ao ser humano comum, que se acomoda diante da violência, da violação ou da guerra como se um filme de ficção se tratasse…

Sonâmbulos, drogados do consumo, presas as consciências numa matriz de controlo que domina o Planeta através da televisão, que fomenta os ódios raciais e as guerra, as pessoas simples ou analfabetas são mantidas na mais elementar ignorância e as outras, meras consumidoras de culturas de plástico, anestesiadas pelo ecrã e pelas modas, enquanto as mais ressentidas com o consumismo a que não têm acesso, a ficar perigosamente identificados com os heróis cultivados pelos filmes de terror e crime, começando a matar violando e roubando, alastrando assim essas práticas ao quotidiano das cidades, vilas e mesmo aldeias. É assim que começamos a ver no pacato País do fado-futebol-fátima, os gangues de ladrões às navalhadas na rua Augusto Rosa, entre a Sé e o Castelo, sem que a Polícia nada faça…A polícia de “segurança pública” chamada a intervir queixa-se dos baixos salários com uma testemunha…Enquanto o Exército e a Armada servem para Folclore nacional, para exibir nas Paradas ou para ajudar a manter a “paz” onde os outros fazem a guerra…

Estamos todos a ir contra a corrente da Vida, a ir contra a Natureza-Mãe, a destruir a Terra que nos alimenta; estamos todos a caminhar a passos largos para um abismo sem fazer nada dando por garantido a água o ar e a comida… sem ver que a precariedade não é só dos salários nem da reforma, mas da Consciência Colectiva que nos falta e dita a nossa miséria humana!

Se os homens continuarem a querer submeter as forças da natureza e a destruir o Planeta, qualquer dia acordamos todos debaixo da ponte se acordarmos vivos de um tsunami ou algo parecido…

Lawlor observa que “no patriarcalismo ocidental, os homens tentam submeter o campo feminino e o mundo material às suas capacidades e hegemonia.(…)
“Quando a relação homem-mulher se desequilibra, então a relação humana com a natureza também se desequilibra de maneira perigosa. “Eles tratam a Terra como a sociedade trata a mulher. Na minha opinião, a crise ambiental do Ocidente baseia-se em modelos de relacionamento."*


*Robert Lawlor
(Voices of the first Day: Awakening in the Aboriginal Dreamtime)

ROSA LEONOR PEDRO
ARTIGO PUBLICADO NA REVISTA "ESPAÇO & DESIGN" de Jullho-Agosto 2006

Sem comentários: