"NÃO SOU FEMINISTA, SOU ANTROPOLOGICAMENTE LÚCIDA" Ana Hatherly

quarta-feira, setembro 04, 2013

QUAL O VERDADEIRO EROTISMO DA MULHER?


FOGO POSTO...

Deve ser por causa dos incêndios. Comecei a suspeitar que isto do erotismo pode ser fogo posto...
Há que distinguir no erotismo, o inato e o produzido. É como os alimentos: há os naturais e os processados com químicos, corantes, conservantes; já para não falar nos geneticamente modificados...
Dei por mim a interrogar-me se a Mulher é ou não é erótica, ou se ( e também ) se tornou erótica. Porque foi levada a sê-lo? Por obrigação? Por opção? Ou porque o é?
Ser erótica pode ser uma escolha fabricada por sociedades em decadência, ou pode ser a " classe dominante" "masculina" a "organizar" a consciência à maneira que lhe interessa...
Antes de pensar na mulher e no homem, não posso ignorar que subjacente a isso há biologicamente a fêmea e o macho. De um modo geral, na natureza, as fêmeas nem seduzem. Como em tudo há excepções e lembro exemplos. Das que matam o macho depois da cópula ( louva-à-deus ), das que utilizam o macho livremente segundo o seu apetite ( certas símias ), das que juntamente com os machos criam pares monogâmicos ( pinguins, cegonhas ).
Mas como estava dizendo, de um modo geral, os machos é que perseguem as fêmeas pelo odor delas, e são eles que se exibem pela força ou pela beleza, lutando por conquistá-las. As fêmeas ( continuo a falar no geral ) são mais ligadas a tudo que significa maternidade. Escolhem entre machos o mais capaz de lhes assegurar crias com condições aptas para a sobrevivência. São relações funcionais, restritas à cópula.
Mas observem bem o comportamento de manadas de fêmeas elefantes, das leoas, das vacas, das cadelas, das gatas, etc, com as suas crias. Imaginem que essas fêmeas tinham capacidade para se expressar eroticamente. Não estão a sentir mesmo que essa expressão não seria ligada ao macho, mas a uma simbiose delas com a natureza? Eu empaticamente sinto-o.
Os animais não questionam os seus papeis. Está à vista que com os humanos não é assim. Talvez que algures no tempo, muito remoto, mesmo antes do matriarcado, as mulheres não se agradassem, não de si, mas do seu papel passivo na sexualidade fêmea. Talvez verificando que o macho as procura se quisessem erotizar, competindo entre si e entre eles.
Curioso que Eros, segundo Platão, é filho de Pénia, quer dizer da Pobreza. Essa Pobreza é a inacessibilidade, é a impossibilidade e nasce da abundãncia visível a que não se tem acesso. Hoje, no Ocidente , esse acesso foi conseguido, e digamos que as mulheres passaram a ser as" novas ricas "da sexualidade masculina.
A dúvida, que acrescentei a tantas das minhas dúvidas, vem de me interrogar se mesmo no matriarcado, apesar da Mulher ser tão considerada, como seria no concreto a relação sexual com o homem na intimidade? Onde está documentado? Quem sabe? Uma coisa é o sexo na superestrutura duma sociedade, outra hormonas e instinto no terreno, outra ainda a expressão individual do desejo. Do desejo da mulher pelo homem afere-se mais dos relatos de histórias libidinosas do que pelo verdadeiro que a mulher sente em si, e que a maior parte das vezes nem sabe definir. Quando o define cai em estafados lugares comuns.
Pergunto-me quando é que na História a Mulher foi tocada no seu âmago pela Consciência da sua Sacralidade e em que medida isso iluminou a sua sexualidade, a sua sexualidade íntima, antes da sua sexualidade social. Na falta de respostas, para mim, Lilith é um marco na consciência da fêmea humana em ser Mulher. Aquela que não se submete às contingências, e que não usa o erotismo ao serviço seja de quem for. Para mim, mesmo o erotismo a dois é um simulacro, é uma ilusão que exprime a ãnsia da Fonte. Uma Mulher tem que perceber que está ligada directamente à Fonte, é a Fonte, tem o erotismo inacto da Vida. É um erotismo substantivo e não essa profusão de manifestações adjectivas, forçadas e pirosas, que vai consentindo que lhe atribuam, e que depois em requebros papagueia.
Não é que as coisas sejam assim, preto no branco, mas não deveria ser A CONSCIÊNCIA DA NOSSA SACRALIDADE a pura atmosfera do nosso erotismo?


texto de Graça Mota

2 comentários:

Cintia Abruzzini disse...

Que reflexão interessante... Há alguns anos comecei a observar a função da libido, dentro do casamento, mais especificamente em relação ao chamado 'dever conjugal'. Fui me assustando em perceber que se a mulher não se permite ser usada como objeto do prazer do 'esposo', a legitimidade do seu casamento é questionada. Tomei a decisão de ser fiel ao meu desejo ou não desejo, e o casamento acabou.

Rosa Leonor disse...

sim uma excelente reflexão...
e a sua também!
grata por ter partilhado!

abraço
rleonor