quinta-feira, julho 12, 2018

HISTÓRIA E MITOS II


“Na pessoa de Enheduana, estamos na presença de uma mulher que foi ao mesmo tempo princesa, sacerdotisa, poeta, enfim, uma personalidade que estabeleceu padrões em todos os três papéis que desempenhou por muitos séculos que se sucederam, e cujos méritos foram reconhecidos muito depois, como tantos fatos que marcaram a cultura e civilização mesopotâmicas”
W. Hallo and J.J.A. van Djik, The Exaltation of Inanna.

Enheduana, a primeira escritora na história a assinar a autoria de suas obras


Enheduana, Princesa Lunar Acádia, filha de Sargão (2334-2279 a.C.), “Rei de Acádia, comissário de Innana, Rei de Kish, sacerdote de Anu, governador de Enlil”, fundou o primeiro Império do mundo (posteriormente seria a Babilônia), entre Pérsia e o Mediterrâneo. Nascida cerca 2300 a.C., é a primeira pessoa a colocar seu nome em uma obra que estão preservados na história da literatura.

As evidências da obra desta sacerdotisa literata, erudita e notável poeta que temos disponíveis incluem um ciclo de três hinos à deusa Inana e um ciclo de 45 hinos de templo. Escolhida por seu pai Sargão, Enheduana começa uma tradição que vai perdurar por cerca de 500 anos, através da qual o rei vigente instalava sua filha como Alta Sacerdotisa de Nana, o deus da Lua, em Ur. Inana é o grande regente do tempo, da passagem das estações, da fertilidade da terra e do sangue sagrado de todas as mulheres.

Por 500 anos após Enheduana, temos nomes registrados em tábuas de argila de princesas que desta forma exerceram tanto poder religioso como secular em Ur, algo ainda não atingido pelo sexo feminino no século XXI. Enheduana teve importante papel teológico na Suméria. Ela foi a autora de dois ciclos de hinos escritos em honra dos templos da Suméria, expressando portanto o desejo de unidade cultural, tão importante para o império em formação de seu pai.

Os poemas de Enheduanna estão dirigidos a deusa Suméria do amor, Innana: Ela fala a uma deidade que as vezes traz a felicidade e as vezes o desastre sobre a Terra.
Estas sete estrofes pertencem a um só poema, chamado “A exaltação de Enheduanna a Innana”, que contem um total de dezoito. Representam uma mostra parcial de seu estilo poético, e podem completar-se em uma segunda apresentação, mais adiante.

Todos estes hinos são em parte poemas narrativos. A imagem da deusa Inana é sempre a de uma deusa forte, poderosa, unificadora, tal qual a imagem que Sargão e seu império queria e foi bem sucedida em propagar.

Sem dúvida, como filha de um grande monarca e a primeira princesa a ser instalada no posto de Alta Sacerdotisa, Enheduana gozava de invejável posição e autoridade. É também extremamente estimulante ver a espontaneidade, paixão e técnica de seus escritos, que nos deixam um testemunho precioso de uma mulher que detinha poder tanto temporal como espiritual, além de ser grande poeta e gozar de considerável erudição.


O primeiro artefato descoberto com inscrições sobre sua existência é um disco (Figura 1), que foi descoberto por Sir Leonard Woolley em 1925.

Na Universidade de Yale estão guardados um disco de 25 cms. de diâmetro, em rocha calcária (Figura 1), em que aparece a imagem de Enheduanna acompanhada por três mulheres, e as tábuas cuneiformes em que estão escritos estes versos:











“LA EXALTACION DE ENHEDUANNA A INANNA”

l. INNANA Y LAS ESCENCIAS DIVINAS

Señora de todas las escencias, luz plena,
buena mujer vestida de esplendor
a quien el cielo y la tierra aman,
amiga de templo de An,
tu llevas grandes ornamentos,
tú deseas la tiara de la alta sacerdotisa
cuyas manos sostienen las siete escencias,
O mi señora, guardiana de todas las grandes escencias,
las has escogido y colgado
de tu mano.
Has reunido las escencias sagradas y las has puesto
apretadas sobre tus pechos.

2. INANNA Y AN

Como un dragón has cubierto el suelo
de veneno.
Como el trueno cuando ruges sobre la tierra,
árboles y plantas caen a tu paso.
Eres una inundación descendiendo desde una montaña,
¡Oh primaria,
diosa lunar del cielo y de la tierra!
Tu fuego sopla alrededor y cae sobre nuestra nación.
Señora montada sobre una bestia,
An te da cualidades, órdenes sagradas,
y tú decides.
Tú estás en todos nuestros grandes ritos.
¿Quién puede entenderte?

3. INNANA Y ENLIL

Las tormentas te prestan alas, destructora de nuestras tierras.
Amada por Enlil, tú vuelas sobre nuestra nación.
Tú sirves a los decretos de An.
Oh mi señora, al oir tu sonido,
colinas y llanuras reverencian.
Cuando nos presentamos ante tí,
aterrados, temblando en tu clara luz tormentosa,
recibimos justicia.
Nosotros cantamos, nos lamentamos, y lloramos ante tí
y caminamos hacia tí a través de un sendero
desde la casa de los enormes suspiros.

4. INANNA E ISHKUR

Tú lo derribas todo en la batalla.
Oh, mi señora sobre tus alas
llevas la segada tierra y embistes enmascarada
en una atacante tormenta,
ruges como una rugiente tormenta,
truenas y sigues tronando, y resoplas
con vientos malignos.
Tus pies están llenos de inquietud.

En tu arpa de suspiros
yo escucho tu canto fúnebre.

5. INANNA Y LA ANUNNA

Oh, mi señora, la Anunna, los grandes dioses,
aleteando como murciélagos delante tuyo,
se vuelan hacia los farallones.
No tienen el valor de caminar
delante de tu terrible mirada.
¿Quién puede domar tu furibundo corazón?
Ningún dios menor.
Tu malevolente corazón está más allá de la templanza.
Señora, tu sedas los reinos de la bestia,
tú nos haces felices.
Tu furia está más allá de la templanza,
¡Oh hija mayor de Suen!
¿Quién te ha negado alguna vez reverencia,
señora, suprema sobre la tierra?

6. INANNA Y EBIH

En las montañas en las que no eres venerada
la vegetación está maldita.
Tú has convertido en cenizas sus grandes entradas.
Por tí los ríos se inflan de sangre
y la gente no tiene nada que beber.
El ejército de la montaña va hacia tí cautivo
espontáneamente.
Saludables hombres jóvenes desfilan ante tí
espontáneamente.
La ciudad danzante está colmada de tormenta,
conduciendo a los hombres jóvenes hacia tí, cautivos.

7. INANNA Y LA CIUDAD DE URUK

Has dicho tu sagrado mandato sobre la ciudad
que no ha declarado:
“Esta tierra es tuya,”
que no ha declarado:
“Le pertenece a tu padre y al padre de tu padre,”
y tú has bloqueado su paso hacia tí,
tu has alzado tu pie y abandonado
su granero de la fertilidad.
Las mujeres de la ciudad ya no hablan de amor
con sus maridos.
Por las noches ellos no hacen el amor.
Ya no están desnudas delante de ellos,
revelando íntimos tesoros.
Gran hija de Suen,
impetuosa vaca salvaje, suprema señora comandante de An,
¿quién se atreve a no venerarte?


DEl “HIMNO A INANNA”

Señora de todos los poderes
En quien la luz aparece,
Una luz radiante
Amada por Cielo y Tierra,
Tiara-coronada
Sacerdotisa del Más Alto Dios,
Mi Señora, tú eres la guardiana
De toda grandeza.
Tu mano sostiene los siete poderes:
Tú alzas los poderes de ser,
Tú los has colgado sobre tus dedos,
Tú has reunido los muchos poderes,
Los has abrochado ahora
Como collares sobre tu pecho.

****

Como un dragón,
Envenenaste el suelo-
Cuando le rugiste a la tierra
En tu trueno,
Nada verde podía vivir.
Una inundación cayó de la montaña:
Tú, Inanna,
Primera en el Cielo y en la Tierra.
Señora cabalgando una bestia,
Tú lloviste fuego sobre la cabeza de los hombres.
Tomando tu poder del Altísimo,
Señora de los grandes ritos,
¿Quién puede entender todo lo que es tuyo?

*****

Fue en tu servicio
Que entré por primera vez
En el templo sagrado,
Yo, Enheduanna,
La más alta princesa.
Portaba el canasto ritual,
Cantaba tu alabanza.
Ahora he sido arrojada
Al lugar de los leprosos.
Llega el día,
Y la luminosidad
Es oculta a mi alrededor.
Sombras cubren la luz,
La entapizan en tormentas de arena.
Mi bella boca sólo conoce la confusión.
Aún mi sexo es ceniza.

****

Oh, mi Señora
Bienamada del Cielo,
He dicho tu furia con verdad.
Ahora que su sacerdotisa
ha regresado a su lugar,
El corazón de Inanna se restaura.
El día es auspicioso,
La sacerdotisa está vestida
En hermosas túnicas,
En femenina belleza,
Como en la luz de la ascendente luna.
Los dioses han aparecido
En sus legítimos lugares,
El umbral del Cielo exclama “¡Salve!”
Alabanza a la destructora dotada de poder,
A mi Señora envuelta en belleza.
Alabanza a Inanna.

HISTÓRIA E MITOS I


Inana

O superior e o inferior: qualidades do feminino

A deusa Inana, cujo nome semítico é Ishtar, apresenta uma imagem simbólica multifacetada, um modelo do feminino que se proteja para além do meramente maternal. Outras deusas da Suméria eram grandes mães do mar e da terra. Ao assumir em um culto o símbolo do duplo eixo das divindades antigas, Inana combina céu e terra, matéria e espírito, luz, generosidade telúrica e orientação celestial. Na origem talvez ela estivesse ligada aos grãos e aos silos comunais enquanto recipientes, aos armazéns de tâmaras. Cereais e outros víveres. Entre os seus emblemas e rituais antigos incluem-se essa casa de armazenamento e um laço ou trouxa de tecido, feitos talvez das fibras que fechavam as portas dos silos, sendo o deus tâmara um de seus mais antigos noivos divinos. Dessa forma a deusa se manifesta, do mesmo modo que Deméter e Ieriduwen, como nume de fertilidade impessoal. Diz-se, numa canção, que do seu útero jorravam cereais e legumes. Desde o início ela também aparece impressa em la_ cores e vasos antigos como deusa celestial, representada por uma estrela. Enquanto deusa de chuvas suaves e terríveis tempestades e enchentes, bem como do céu carregado (cujas nuvens são seus seios), é chamada rainha do céu e considerada esposa de Na, o antigo rei sol. Inana é também, desde tempos antiquíssimo, a deusa da imprevisível e radiante estrela da manha e do entardecer, despertando a vida e fazendo-a dormir, controlando as temas das fronteiras, chamando o deus sol, seu irmão, ou ô-deus lua, seu pai, para a actividade ou o repouso. Ela representa as regiões limítrofes e intermediárias, e as energias impossíveis de conter ou definir, das quais não se pode ter certeza ou segurança. Não se trata do feminino enquanto noite, mas muito mais da simbolização da consciência da transição e dos limites, dos lugares de intersecção e passagem que implicam criatividade, mudança e todas as alegrias e dúvidas peculiares a uma consciência humana flexível, lúdica e nunca estável por longo tempo. Sob a forma de estrela do entardecer, Inana congrega a corte pela época da lua-nova para ouvir os pedidos dos deuses, e para ser celebrada com música, festas e encenações de batalhas sangrentas. Ela reclama o eu: os princípios ordenadores, as potências, talentos e ritos do mundo civilizado e superior. Enquanto juíza, congrega a corte para "decretar o destino" e "tripudiar sobre o transgressor", simbolizando a capacidada do sentimento de avaliar periódica e rejuvenescida mente, e que acompanha o senso da vida como um processo de mutação. Como rainha da terra e sua fertilidade, ela desmama realeza sobre o mortal escolhido para ser o pastor do povo, e o acolhe em seu leito e trono da vida cortada de seu jardim por Gilgamesh) Como consorte ela dá o trono, o ceptro, assessores, o báculo a coroa, bem como a promessa de boas colheitas, junte com as alegrias de sua cama. Mas Inana também é a deusa da guerra. À batalha a "dança de Inana" e ela, ao conceder a vitória, "é o arco e porta-flechas sempre à mão.. . o coração da batalha, o braço dos gurreiros".
Mais apaixonada do que (por ser dotada das energias dos instintos selvagens mais tarde atribuídos a Ártemis), a deusa é descrita hino como omnidevoradora na força atacando como uma tempestade agressiva", mostrando um "rosto assustador" e um "coração feroz" .
E é com profundo gozo que ela canta as suas glórias e proezas: "O céu é meu, a rainha é minha. Sim. Eu sou uma guerreira. Haverá um ser que possa enfrentar-me?" "Os deuses não passam pardais; eu sou falcão; os Anunaki (deuses) capturando-os. Entre os animais Inana tem por companheiro o leão, e sete deles puxam sua carruagem. Em alguns por aí - eu sou uma magnífica vaca selvagem". Um mito apresenta-a lutando com o dragão do kur e antigos um escorpião aparece ao seu lado. É de modo igualmente apaixonado que ela se apresenta como a deusa do amor sexual. Entoa canções de desejo , enquanto se enfeita e fala do desejo e das delícias fazer amor. Clama pelo consorte e amado, seu "pote de mel", que "sempre me acaricia", atraindo-o o seu "colo sagrado" para desfrutar-lhe as delícias das horas de vida e a ternura sexual em seu leito de sagradas. Mais extrovertida que Afrodite, quer arrebatar, -deseja e destrói, para depois sofrer e compor canções de lamentação. Inana nem sempre desperta -um desejo interior; o que ela faz é reclamar suas necessidades afirmativamente, e celebrar o próprio corpo em canções. Trata-se de uma receptividade ativa. Ela clama pelo preenchimento do corpo, cantando louvores à sua vulva, convidando Dumuzi, “vem para o meu leito para amar a minha vulva, homem do meu coração". É por isso que Inana é considerada a deusa das cortesãs, a prostituta que chama os homens de dentro das tavernas" ao levantar-se no céu como estrela da tarde. E, uma vez no céu, é chamada de noiva e esposa, e hierundela (como suprema sacerdotisa do amor ritual) dos deuses. Fala-se dela como propicia a cura, e ela é fonte de vida, compõe canções - diz-se que as faz nascer, sendo criativa em todos os aspectos. E o desencadear das emoções também está na sua dependência:

Infernizar, instigar, escarnecer, profanar - e venerar - eis o teu domínio, Inana. Depressão, calamidade, mágoa - e alegria e exultação - eis o teu domínio, Inana. Tremor, susto, apavoramento - e deslumbramento e glória - eis o teu domínio, Inana... Inúmeros poemas retratam-na apaixonada, ciumenta, ressentida, alegre, tímida, exibicionista, sorrateira, exaltada, ambiciosa, generosa, e assim por diante: toda a gama de epítetos pertence à deusa. Com frequência Inana é descrita como ,'filha dos deuses" e "donzela" e, na verdade, na época em que seus últimos hinos foram escritos, a deusa, da mesma forma que Atenas, é frequentemente vista como condicionada pela ligação paterna", embora alguns poemas sugiram que ela tenha uma ligação próxima e alegre com a mãe.

23 Kramer, Poetry ol Sumer, p, 94.

DO LIVRO SONHOS LUCIDOS...


A MULHER É ESCRAVA DO HOMEM...

—Como mulher deveria entender muito bem essa condição. Tem sido uma escrava toda sua vida. —Do que está falando, Delia? — perguntei, irritada por sua impertinência, mas de imediato me acalmei, pensando que sem dúvida a pobre índia tinha um marido prepotente e insuportável. — Acredite em mim, Delia. Sou inteiramente livre. Faço o que quero. —Talvez você faça o que quer, mas não é livre — insistiu. —Você é mulher, e isso automaticamente significa que está à mercê dos homens.
—Não estou à mercê de ninguém! — gritei. Não sei se foi minha afirmação ou o tom de minha voz que fizeram com que Delia se desatasse em gargalhadas, tão fortes como as minhas de momentos antes. —Parece estar gozando de sua vingança — observei incomodada. —Agora é a sua vez de rir, não é? —Não é o mesmo — replicou, repentinamente séria.
—Você riu de mim porque se sentia superior. Escutar a uma escrava que fala como seu amo sempre diverte ao amo por um momento. Desejei interrompê-la, dizer-lhe que nem me havia passado pela cabeça pensar nela como uma escrava, ou nem a mim como a um amo, mas ela ignorou meus esforços, e no mesmo tom solene explicou que o motivo pelo qual havia rido de mim era porque eu me achava cega e estúpida ante minha própria feminilidade.
—O que está acontecendo, Delia? — perguntei intrigada. —Você está me insultando deliberadamente.
—Muito certo — respondeu rindo, por completo indiferente à minha raiva crescente. Logo depois, golpeando-me forte no joelho, acrescentou:
O que me preocupa é que você não sabe que, pelo simples fato de ser mulher, é escrava. Recorrendo a toda a paciência que pude reunir disse-lhe que estava equivocada:
—Ninguém é escravo hoje em dia.
—As mulheres são escravas — insistiu Delia —, os homens as escravizam. Eles aturdem às mulheres, e seu desejo de nos marcar como propriedades suas nos envolve em névoa, a névoa resultante se prende a nós como uma bigorna. Meu olhar vazio a fez sorrir. Recostou-se no assento, abraçando o peito com as mãos.
—O sexo desorienta as mulheres — acrescentou de maneira suave, mas enfática —, e o faz tão irrefutavelmente que não podem considerar a possibilidade de que sua baixa condição seja a consequência direta do que se lhes faz sexualmente.
—Essa é a coisa mais ridícula que jamais escutei — declarei; logo, pesadamente, embarquei numa longa discussão acerca das razões sociais, econômicas e políticas que explicavam a baixa condição da mulher. Com grande detalhe falei das mudanças ocorridas nas últimas décadas, e de como as mulheres haviam tido bastante êxito em sua luta contra a supremacia masculina. Incomodada com sua expressão irreverente, não pude conter o comentário de que ela, sem dúvida, era vítima dos prejuízos de sua própria experiência e perspectiva do tempo. Todo o corpo de Delia começou a sacudir-se com o esforço que fazia para controlar seu riso. Conseguiu fazê-lo e me disse:
—Na realidade nada mudou. As mulheres são escravas. Temos sido criadas como escravas. As escravas que foram educadas estão hoje atarefadas denunciando os abusos sociais e políticos cometidos contra a mulher. Não obstante, nenhuma dessas escravas pode enfocar a raiz de sua escravidão — o ato sexual — a não ser que envolva um estupro, ou esteja relacionado com alguma forma de abuso físico — um leve sorriso adornou seus lábios quando disse que os religiosos, os filósofos e os homens da ciência têm mantido durante séculos, e certamente o seguem fazendo, que tanto os homens como as mulheres devem seguir um imperativo biológico ditado por Deus, que diz respeito diretamente à sua capacidade sexual reprodutiva. —Temos sido condicionadas para acreditar que o sexo é bom para nós — ressaltou. —Esta crença e aceitação inata nos têm incapacitado para fazer a pergunta certa.
—E qual é essa pergunta? — inquiri, esforçando-me para não rir de suas convicções totalmente erradas. Delia pareceu não haver me escutado; esteve tanto tempo em silêncio que pensei se haveria dormido, e por isso me surpreendeu quando disse:
—A pergunta que ninguém se atreve a fazer é: o que é quê o ato de que nos montem nos faz a nós, mulheres? 
—Vamos, Delia… — retruquei jocosamente. —O aturdimento da mulher é tão total que enfocamos qualquer outro aspecto de nossa inferioridade, menos aquele que é a causa de tudo — manteve. —Mas Delia — disse rindo —, não podemos viver sem sexo. O que seria do gênero humano se…? Parou minha pergunta e meu riso com um gesto imperativo de sua mão.
—Hoje em dia mulheres como você, em sua febre por se igualar ao homem, imitam-no, e o fazem até ao extremo absurdo de que o sexo que lhes interessa não tem nada que ver com a reprodução. Equiparam o sexo à liberdade, sem sequer considerar o que o sexo faz a seu bem-estar físico e emocional. Temos sido tão cabalmente doutrinadas que acreditamos firmemente que o sexo é bom para nós — me tocou com o cotovelo e, como se estivesse recitando uma ladainha, acrescentou:
—O sexo é bom para nós. É agradável, é necessário. Alivia as depressões, as repressões e as frustrações. Cura as dores de cabeça, a hipertensão e a pressão baixa. Faz desaparecer as espinhas da cara. Faz crescer a bunda e os seios. Regula o ciclo menstrual. Resumindo: é fantástico! É bom para as mulheres. Todos o dizem. Todos o recomendam. — fez uma pausa para depois declamar com dramática finalidade: —Não há mal que uma boa trepada não cure. Suas declarações me pareceram muito engraçadas, mas de repente fiquei séria ao recordar como minha família e amigos, inclusive nosso médico particular, o haviam sugerido (é claro que não de maneira tão crua) como uma cura para todos os males da adolescência que me angustiavam por crescer em um meio tão estritamente repressivo. Havia dito que, ao casar-me, teria ciclos menstruais regulares, aumentaria de peso e dormiria melhor. Inclusive adquiriria uma disposição de ânimo mais doce.
—Não vejo nada de mal em desejar sexo e amor — me defendi. —Minhas experiências neste sentido têm sido muito prazerosas, e ninguém me domina ou atordoa. Sou livre! Eu faço com quem quero e quando quero. Nos olhos escuros de Delia vi um lampejo de alegria ao dizer: —O fato de escolher seu companheiro não altera o fato de que te montam. —Em seguida sorriu, como para mitigar a aspereza de seu tom, e acrescentou:
—Equiparar o sexo com a liberdade é a suprema ironia. A ação de aturdir, por parte do homem, é tão completa, tão total, que nos tem drenado a energia e a imaginação necessárias para enfocar a verdadeira causa de nossa escravidão. — Logo enfatizou:
—Desejar a um homem sexualmente, ou enamorar-se romanticamente por um, são as únicas opções dadas às escravas, e tudo o que nos tem sido dito acerca dessas duas opções não são outra coisa que desculpas, que nos submergem na cumplicidade e na ignorância. Indignei-me, pois não podia deixar de pensar nela como em uma reprimida que odiava aos homens.

—Por que odeia tanto aos homens, Delia? — perguntei, apelando ao meu tom mais cínico. —Não me desagradam — assegurou —, ao que me oponho apaixonadamente é à nossa renúncia a examinar quão profundamente doutrinadas estamos. A pressão que têm exercido sobre nós é tão terrível e fanática que nos convertemos em cúmplices complacentes. Aquelas que se animam a discordar são rotuladas como monstros que detestam aos homens, e sofrem a conseguinte zombaria. Corada, observei-a sub-repticiamente, e decidi que ela podia falar de forma depreciativa do amor e de sexo pois, no fim das contas, era velha, e por estar mais além de todo desejo. Rindo contidamente, Delia colocou as mãos atrás da cabeça.

—Meus desejos físicos não caducaram porque seja velha — confessou — e sim porque me foi dada a oportunidade de usar minha energia e imaginação para converter-me em algo diferente da escrava para a qual me criaram. Porque havia lido meus pensamentos me senti mais insultada que surpreendida. Comecei a defender-me, mas minhas palavras só provocaram sua risada. Quando parou de rir me encarou; seu rosto mostrava-se tão sério e severo como o de uma professora a ponto de dar uma reprimenda a um aluno. —Se você não é uma escrava, como é que te criaram para ser uma Hausfrau que não pensa em outra coisa que em heiraten e em seu futuro Herr Gernahl que dich mitnehmen? Ri tanto ante seu uso do alemão, que precisei parar o carro para não correr o risco de bater, e meu interesse por averiguar de onde havia aprendido tão bem esse idioma fez com que esquecesse de defender-me de sua pouco lisonjeira acusação, de que tudo o que eu ambicionava na vida era encontrar um marido que se unisse comigo. Com respeito a seu conhecimento de alemão, apesar de minhas insistentes súplicas, manteve-se desdenhosamente refratária a fazer revelações.

Florinda Donnar Gau

AS MULHERES MODERNAS...


AS mulheres em geral, mas as mais MODERNAS sobretudo, tem de tal forma a violência sobre si interiorizada que não se apercebem de como foram e são ainda hoje vitimas de violência a todos os níveis, seja da forma mais subtil, verbal e psicológica, seja a manipulação emocional,  seja a prepotência do homem em todos os aspectos da relação homem-mulher. Elas pensam-se livres ou emancipadas e portanto não conseguem ver por dentro (a nível psicológico e emocional) os estragos nem as repercussões dos maus tratos que sofreram, e por isso branqueiam e escamoteiam as realidades que possam contrariar uma ideologia marxista feminista, devia dizer a ideologia machista, que valida os valores do homem exclusivamente na sua maioria ...

MAS SIM, "tenemos la violencia tan interiorizada que ni siquiera somos conscientes de ella."*-

Isto é um facto inegável e indesmentível para quem pensar minimamente olhando a nu a realidade deste mundo COMERCIAL em que vivemos; e é de tal forma verdade que  temos a violência tão interiorizada em nós que não damos por ela e acabamos por lhe chamar doenças. Mas vejamos como e porquê...ela se instala e se dilui no hábito dos comportamento do homem para com a mulher.

Ela começa em casa e talvez na mãe, a má e reprimida mãe ...ou no pai austero e autoritário logo de pequenina .. Pode variar um pouco a forma como somos desvalorizadas desde meninas mas não podemos ignorar esta verdade. Ela acontece sobretudo a partir da adolescente, pelo parte dos pais e irmãos, na repressão da mulher feminina e sensual, ou pelos homens em geral, pelo seu olhar e "piropos"...
O facto é que acabamos tão habituadas a esse olhar que já adultas, no trabalho, nos habituamos à falta de respeito que nutrem por nós, sejam professores, patrões,  e maridos ou amantes e chefes ao longo da vida, tão habituada a ser olhadas como meros objectos sexuais na publicidade, nos placards, nas montras e nos cartazes e anúncios que mostram a mulher de forma degradante, desde a moda a pornografia...que já não a conseguimos distinguir quando a temos de fazer parar... é ai que começamos a adoecer...a morrer aos poucos...a ficar deprimidas ou bipolares... e a sofrer todos os tipos de sintomas e doenças, e da forma com essa violência e dor foi interiorizada ela se transforma em dores físicas, em transtornos psiquicos…

Sim, e as doenças de foro feminino começam ai...nós conhecemos jovens mulheres traumatizadas abusadas por irmãos e pai...sabemos a dor e sabemos que não é só lá longe mas bem perto de nós que tudo isso acontece e nos nossos dias AINDA.
Por isso temos de olhar bem e ver como aceitámos e nos habituamos a esta desvalorização do nosso ser desde pequenas, e entender porque estamos hoje tão habituadas ao desprezo e à violência feita sobre nós mulheres que ela nos passa ao lado...

Por exemplo, nós passamos ao lado da propaganda comercial...do cinema - mas eu sempre que entro num Centro Comercial e olho os cartazes de cinema em que as mulheres estão sexualmente expostas fico constrangida, revoltada e enojada...mas claro vão-me dizer que isto é a vida moderna ou chamar-me "retrógada"...ou démodé… mas eu interrogo-me como é que nenhuma mãe pensa no que uma criança (menino ou menina) pensa e sente quando vê a mulher assim exposta...o que pensa um filho quando vê a irmã ou a mãe à imagem dessas mulheres???

Nós não pensamos no efeito desses cartazes de cinema nas crianças, nem nos filmes (se os chegarem a ver) nem como elas se veem, como se identificam com aquela mulher semi nua exposta de forma aviltante...mas eu asseguro-vos que a VIOLÊNCIA e o abuso sexual e a violação da Mulher ou a VIOLÊNCIA DOMÉSTICA e o FEMINICIDIO começam ai …
Sim, começa dentro de casa e é dentro de casa e em família que se praticam os abusos e falta de respeito de todo o tipo sobre as meninas e as mulheres…

Sim, É nessa educação machista e tratamento inferior da mulher que tudo começou e que vai desaguar nos filmes e telenovelas e que, mesmo sem serem pornográficos, que começa e se alastra o desrespeito pela mulher;

SIM, hoje...em todo mundo são prostituídas milhares de meninas e mulheres, neste momento no mundo inteiro e a toda a hora estão a ser violadas e exploradas milhares de mulheres... algumas mortas e torturadas na guerra e tudo isso PORQUE NÓS INTERIORIZAMOS DE TAL FORMA A VIOLÊNCIA QUE NOS FAZEM QUE ACHAMOS ISSO NATURAL...todos estes crimes contra a Mulher! Digo CONTRA a metade da população do mundo…

Pensem nisso...

  rlp

* citação de Casilda Rodrigañez

segunda-feira, julho 09, 2018

SER JOVEM ENQUANTO VELHA...



"Talvez você tenha vindo à minha porta por estar interessada em viver de um modo que a abençoe com a perspectiva de, como eu digo, "ser jovem enquanto velha e velha enquanto jovem" — o que significa estar plena de um belo conjunto de paradoxos mantidos em perfeito equilíbrio. Está lembrada? A palavra paradoxo significa uma idéia contrária à opinião de aceitação geral. E o que acontece com a grand mère, a maior das mulheres, a grande madre... porque ela é uma sábia em preparação, que mantém unidas as grandes e totalmente úteis capacidades aparentemente ilógicas da psique profunda. Os atributos paradoxais do que é grande são principalmente ser sábia e ao mesmo tempo estar sempre à procura de novos conhecimentos; ser cheia de espontaneidade e confiável; ser loucamente criativa e obstinada; ser ousada e precavida; abrigar o tradicional e ser verdadeiramente original. Espero que você entenda que todos esses atributos se aplicam a você de modo geral e em detalhes, como algo em potencial, meio realizado ou já perfeitamente formado.
Se você sente interesse por essas contradições divinas, sente interesse pelo arquétipo misterioso e irresistível da mulher sábia, do qual a avó é uma representação simbólica. O arquétipo da mulher sábia pertence a mulheres de todas as idades e se manifesta sob formas e aspectos singulares na vida de cada mulher. Falar da imagem profunda da grande avó como um dos principais aspectos do arquétipo da mulher sábia não é falar de alguma idade cronológica ou de algum estágio na vida das mulheres. A grande perspicácia, a grande capacidade de premonição, a grande paz, expansividade, sensualidade, a grande criatividade, argúcia e coragem para o aprendizado, ou seja, ser sábia não chega de repente perfeitamente formada e se amolda como uma capa sobre os ombros de uma mulher de determinada idade. A grande clareza e percepção, o grande amor que tem magnitude, o grande autoconbecimento que tem profundidade e amplitude, a expansão da aplicação refinada da sabedoria... tudo isso é sempre uma "obra em andamento", não importa quantos anos de vida a mulher tenha acumulado. Os fundamentos do que é "grande", em oposição ao que é "apenas comum", são conquistados no início da vida, no meio ou mais tarde... muitas vezes mediante enormes fracassos, elevações do espírito, decisões equivocadas e recomeços impetuosos. O que se recolhe depois do desastre ou da sorte inesperada... é isso que é moldado e então praticado pela mulher e seu espírito, coração, mente, corpo e alma... até que ela se torne não apenas competente em seu modo de ser paradoxalmente sábio... mas também, muitas vezes, perfeita em seus modos de viver, enxergar e ser.(…)"



clarissa pinkola estes - ciranda das mulheres

sexta-feira, julho 06, 2018

A DEGENERESCÊNCIA DA MULHER ...OU DO HOMEM?


Tem 23 anos e diz que nunca foi discriminada. Chama-se Ángela Ponce. É a primeira transexual a concorrer ao título de de MIss Espanha.



Desde há muitos anos que a eleição das Misses se faz a partir de uma imagem estereotipada de mulher que corresponde ao imaginário masculino do que é uma mulher e os padrões de beleza de acordo com as modas e os costureiros, quase sempre gays.  Essa mulheres de algum modo e ao longos das décadas sempre foram uma espécie de seus TRAVESTIS...Mulheres cujos padrões de beleza, pelas suas  medidas e pelos seus corpos estilizados, sempre estiveram longe da mulher natural, estando muito longe de representar a verdadeira BELEZA da mulher-Mulher. 
Portanto estamos agora e finalmente diante desta proeza a de um ser nascido homem que se  transformou  em "mulher" na sua aparência, mas não é uma mulher biologicamente falando; este é apenas  um ser hibrido quimicamente alterado. Ele não tem Utero nem Ovários...
Mas há muito tempo que estas aberrações  se anunciavam através de uma  mutação genética fabricada pela "ciência" materialista  que busca a destruição do que resta da Mulher biológica e ontológica a mulher  real e também do homem…

Não! Não, não se constrói nem fabrica-oficina-sala de operações um 3º Sexo...não se fabrica nem constrói por mão humana ou química  aquilo que a VIDA teceu nas nossas células, no nosso coração misterioso...e em todos os seres EXISTE a possibilidade de TRANSCENDÊNCIA, de elevação, de saída, de metamorfose INTERIOR...de Mutação interior, de complementação do Ser…de integração dos pólos opostos, de Amor interior, de ligação com o Cosmos. Mas nunca poderemos atingir o nosso cerne, nem o cerne da questão se não for a nível da CONSCIÊNCIA ONTOLÓGICA.
Assim, faz todo o sentido o grito do escritor, referindo-se a mulheres comuns masculinizadas e estereotipadas, muito longe da sua essência e natureza profunda, e tenha dito o que agora podemos dizer perante seres fabricados pela Máquina macabra desta ciência maligna que mutila corpos e  que DEFORMA O QUE A NATUREZA CRIOU e assim esse grito faz mais do que nunca  todo o sentido:  

"Senhores, o ser que chamamos de mulher não é A mulher. É uma degenerescência, uma cópia. A essência não está aí, nossa alegria e nossa salvação não estão aí...

...Chamamos mulheres a seres que dela não têm senão a aparência, tomamos em nossos braços imitações de uma espécie inteiramente ou quase destruída."

Louis Pawels

quinta-feira, julho 05, 2018

A filha bondosa; a filha agradável, dócil e delicada...



A MULHER E " A filha bondosa; a filha agradável, dócil e delicada; a companheira diligente, discretamente encorajadora ou brilhante.
Como tantas escritoras feministas declararam pelos tempos afora, esse modelo colectivo e o comportamento daí resultante é inadequado para a vida; "

A vida, qual vida? A vida tal como é definida e formada ou deformada pelos homens. Só numa escala de valores masculina é que os valores referidos acima são implicitamente dados como inferiores. Pelo contrário, um mundo onde estes valores sejam promovidos a virtudes cardinais será menos apreciado por uma perspectiva masculina, daí que muitos conservadores do sexo masculino já se estejam a queixar da actual feminização da sociedade, porque os valores (ditos) femininos - paz, igualdade, compaixão, empatia - são cada vez mais "mainstream"(tradicionais ou convencionais)

Os homens e as mulheres continuam a escamotear verdades fundamentais como o facto do desequilíbrio do mundo derivar da falta do princípio feminino e do seu justo valor não ser efectivamente atribuído à Mulher e à Mãe. Em quase todo o mundo e em todos os paises, uns mais do que outros, existe uma óbvia discriminação do ser mulher...
Ninguém quer ver que essa descriminação começa e é feita entre nós na nossa linguagem, na omissão da mulher nos discursos sempre no masculino, na falta de entendimento de que sem a emoção-coração - o polo que a mulher representa - e nela está a origem dos grandes dramas no Planeta?


Pessoalmente tenho cada dia mais dificuldade em ouvir mulheres ou ler mulheres (escritoras, jornalistas, ou ensaístas) a falar exclusivamente no masculino, em nome do Homem, em Deus e em irmandade, como se elas não existissem...fico sempre a pensar se aquilo tem alguma coisa a ver comigo...E é uma sensação estranha...estar fora do discurso, sentir esta exclusão do feminino na linguagem oral e escrita...enfim no discurso espiritual, académico e cientifico.


Ah pois "feminista" dizem...os homens e essas mulheres sem identidade...


Aqui tem um discurso que não me diz nada...ou diz tudo...onde não há lua, não há deusa, não há mãe, não há irmã, não há feminino...não entendo este "altruísmo"...este "eu comum" só aos homens....obviamente a mulher está fora da sua "era dourada"! Até porque hoje sabemos bem que o caminho da Mulher não é propriamente o caminho do homem dado os valores dos dois princípios serem de algum modo "opostos" mas complementares...no entanto são claramente diferentes e que passou pelo maior branqueamento da história da humanidade quer a  nível da linguagem quer na leitura do ser homem ou ser mulher a nível psicológico ou a  nível mesmo físico e biológico que são obviamente diferente entre si. Não é uma diferença cultural ou social como hoje se quer fazer crer reduzindo os sexos a um desejo meramente libidinal, genital. Portanto a mulher como ente esteve quase sempre fora dos estudos da Psique (sempre analisada pelo homem e os seus dele complexos) esteve fora dos estudos da biologia e da sexualidade...e isto, embora mudado, é ainda uma tremenda falta de bom senso… 

Ora leia-se isto...escrito por uma mulher consagrada na "espiritualidade"...


… "Só existe um Sol, e cada energia em nossa Terra não passa de alguma forma de força solar; e assim como um só Sol alimenta toda a Terra, um só Eu brilha em todos os corações. Só existe uma blasfêmia - a negação de Deus no homem. Só existe uma heresia - a heresia da separatividade, que diz: "Sou outro além de ti, nós não somos um só". Para a redenção do mundo nós precisamos mais do que altruísmo, por mais nobre que ele seja. Precisamos aprender a anulação do eu individual, o sacrifício, a auto-entrega, mas não estaremos firmes no Um antes de podermos dizer "Não há outros; é o Eu em tudo". Quando todos os homens disserem isso o mundo conhecerá sua Era Dourada: quando um homem diz isso através de sua vida, sua presença é uma bênção onde quer que ele vá. Somos irmãos, mas mais que irmãos. Os irmãos têm apenas um mesmo pai; nós temos um Eu comum. Em tudo à nossa volta vejamos a Glória do Eu, e lembremos que negar o Eu no mais baixo é negá-lo em nós mesmos e em Deus."  - Anne Besant


rlp

terça-feira, julho 03, 2018

"A destruição do tecido social


"A destruição do tecido social é antes de tudo a destruição da relação mãe-filha, sendo esse o sustendo de toda a urdidura humana, e compreender isso é compreender que essa má relação mãe-filha é a interiorização básica, e mais profundamente arreigada dentro do sistema…” *


A DESTRUIÇÃO DO TECIDO SOCIAL começa no ódio às mulheres, na sua divisão secular religiosa (a santa e a puta versus a esposa e a prostituta)  e na consequente  rivalidade entre as mulheres em luta pelo homem…Um Sistema onde a mulher não tem valor nem identidade, senão através do sexo e do utero ao serviço da familia patriarcal. rlp


UMA HUMANIDADE "FORA DA MÃE": 
Uma humanidade Homem sem mãe...

Na encruzilhada na qual a humanidade se encontra, o que precisamos de fazer se queremos acabar com este sistema de dominação e sobreviver é recuperar a verdadeira mãe, e com ela as qualidades básicas dos seres humanos, que nos capacitam para a concórdia e nos incapacitam para o fratricídio. Recuperar a mãe verdadeira é recuperar o habitat que a rodeia. Bachofen criou um termo em alemão para o definir: é o Muttertum, sendo que o sufixo “tum” (equivalente ao “dom” em inglês) significa o sítio, o lugar da mãe.

Não se trata apenas dum espaço físico, mas antes dum conjunto de relações travadas com o seu fluxo libidinal específico, o fluido feminino-materno, o hálito materno, porque a produção do nosso sistema orgânico libidinal, desenhado para organizar as relações humanas, é a matéria-prima do tecido social humano original. O Muttertum é assim como a urdidura da tela social, como lhe chamou na sua preciosa metáfora Martha Moia: um conjunto de fios, porque um fio sozinho não consegue fazer a urdidura.

Recuperar a mãe verdadeira pressupõe então recuperar o coletivo de mulheres e a sua função coletiva dentro dum determinado grupo social. A recuperação da mãe não é uma recuperação individual (embora tenha uma dimensão individual e corporal), mas a recuperação do feminino coletivo, de todas nós. Segundo Malinowski, as mulheres trobriandesas dum clã (in The Sexual Life of Savages in the Western Melanesia) tinham um nome coletivo, “tábula”, a “tábula” é que se ocupava do parto das mulheres do clã.

Em castelhano há uma aceção do nome "mãe" que é um vestígio dessa mãe ancestral, que se encontra na expressão "salirse de madre", "sair da mãe", que seria sair do Muttertum, que nos faz amadurecer e nos torna consistentes. Há também uma aceção em que a palavra significa "fonte originária de algo" ("a mãe do vinagre", por exemplo), ou como a raiz de algo, quando dizemos que encontrámos a "mãe do cordeiro". Se um rio sai da "madre", tudo se inunda e é o desastre. Pois assim anda a humanidade, "fora da mãe", em permanente estado de esquizofrenia e cada vez com mais ataques de violência..."*


*Cacilda Rodrigañez Bustos


domingo, julho 01, 2018

Isto é uma catástrofe humana


PORQUE JÁ NÃO COMUNICAMOS?

Hoje em dia e cada vez mais as pessoas optam por não dizer nada, não interagem, ficam no seu canto, fechadas numa concha e ou tem preguiça de responder e de comunicar ou já não sabem expressar-se...e desde que não seja um simples LIKE como no Facebook, duas frases como no Twiter, cada vez mais superficiais e incapazes de dizer o que realmente sentem. Incapazes de ter ideias próprias ou opiniões...Incapazes de intervir...e assistimos a cenas de violência e de horror e toda gente filme e ninguém acode ninguém…
Estamos a perder a faculdade de interagir e viver uns e umas com as outras e de sentir as coisas em profundidade, incapazes de nos olharmos olhos nos olhos.

Parece que temos medo umas e uns dos outr@s e não ousamos sair da nossa gaiola de oiro (o PC ou o Telemóvel)...criando avatares e seres simulacros, máscaras, valendo-nos apenas de aparências, cada vez mais rebuscadas e esquisitas, cobrindo o corpo de tatuagens e transformando o ser humano real em seres híbridos e falsos, completamente plastificados...trans - formados por químicos e silicones, mudando de sexo como quem muda de camisa e invertendo todos os valores saudáveis e uma vida simples, natural... em um negação completa da vida e tornando-nos monstros…

Isto é uma catástrofe humana. Estamos a tornar-nos VIRTUAIS.

Como bem diz a escritora Nancy Huston, cada vez mais "As pessoas estão sozinhas e angustiados. Nas nossas cidades civilizadas, vivemos uma existência feita de ilusões, em que nos esquecemos de estarmos juntos. E bem pelo contrário, escondemo-nos, tornamo-nos solitários e secretos, atrás de 4 paredes, como se tivéssemos vergonha do nosso sofrimento, da nossa fraqueza, ou da nossa fealdade. Esquecemos a nossa espiritualidade, a celebração da nossa ligação entre humanos.

Quando passamos seis a doze horas por dia em frente a ecrãs, ficamos indefinidamente à superfície da vida presente. Que espiritualidade se pode imaginar viver uma humanidade que foge da sua corporalidade e não acredita na vida depois da morte, para quem a vida material é a única que conta?

Se queremos perceber melhor a espiritualidade, devemos voltar a dar valor ao nosso mundo físico e concreto.

É preciso parar com a prostituição e a pornografia. Encorajemos, ao contrário disso, a dança a sedução e o amor.
Aceitemos que somos seres múltiplos, maleáveis, permeáveis, que se emocionam.
Olhemos para as flores e percebamos que os nossos sexos são flores, que se abrem e se procuram, que os nossos corações batem e vão parar de bater, que todos nós somos frágeis e preciosos porque mortais." (…)

Nota final: 
De vez em quando lembro-me de leitoras e amigas que costumavam comentar o Blog e alguns temas e que me davam uma ideia do que escrevo tinha eco ou não…Isso aconteceu ao longo de anos o que me dava um prazer imenso receber essas missivas e incentivos e agradecimentos e até contestações, claro...
Sinto imensa falta dos emocionantes testemunhos de mulheres que se descobriam a si mesmas…

Muitas vezes me pergunto o que será feito de A e de B...você…?

Sim, que é feito de si? Por onde anda agora?

rlp

MULHERES MÃES?



"Uma mulher sem filhos não deixa de ser completa ou natural; seus filhos são as ideias que ela carrega com ela, e o nascimento deles é a forma que ela lhes dá no mundo material " 
Miranda Gray


HÁ MÃES E MÃES E HÁ MÁS MÃES?

Há mães más, sem duvida...há mães desnaturadas, há mães que não queriam ser mães e foram obrigada pelas circunstâncias porque ficaram grávidas ou foram forçadas a casar; há mães pobres e desgraçadas como há mães mal tratadas como se fosse a coisa natural desde sempre…

Há mulheres que não teriam apetência nem natureza nem disponibilidade para serem mães...há mulheres que querendo ter filhos não os amaram porque não sabiam e sobretudo porque se odiavam a si próprias...outras que amaram demasiado e cegamente e tiveram-nos por pura compensação do seu vazio. Outras eram histéricas e loucas.

Como ser boa mãe se ao longo das décadas, quase todas as nossas mães e avós e tias e mulheres pobres e até ricas e rainhas do passado que aturavam maridos violentos e bêbados, impotentes e prepotentes e que sempre se serviram das mulheres para apagar os seus ódios e as suas frustrações...todas essas mulheres sofreram horrores de opressão e dores, humilhações e sevícias como hoje isso acontece e cada dia mais à vista de toda a gente…

É esta humanidade filha - filhos e filhas - dessas mães desrespeitadas, tantas delas espancadas só por serem mulheres, foram as mães de gerações e gerações de homens e mulheres…

ESSAS MULHERES TODAS NÃO FORAM NEM PODIAM TER SIDO BOAS MÃES...por isso temos as taras que temos, os complexos e as carências, os crimes e as guerras, a raiva e o medo, toda a falta de amor que uma Mãe naturalmente não deu se transformou em ódio...e por isso se vive  num mundo cada vez mais de loucos…

Há de certo hoje todo o tipo de mães, Há, mas o GRANDE DRAMA não é apenas a  Mãe boa ou má...é a  CRIANÇA… É QUE TODAS AS CRIANÇAS PRECISAM DE UMA MÃE presente…de uma mãe dedicada quase tempo inteiro, de uma mãe consciente, de uma mãe segura de si…não essa mãe part time, distraída e ocupada com o trabalho e a politica e o emprego etc.. Mas esse não nem nunca foi o pior dos males, o pior dos males é como o Sistema trata as mulheres, como a sociedade trata mal as MÃES E AS MULHERES - DESPREZA AS MÃES SOLTEIRAS e elas não tem culpa da loucura da sociedade que as despreza, que as calunia, dos homens que a assediam e abusam e explora, elas não tem culpa de como a sociedade trata e vê a Mulher e a Mãe por si só. 

E querem agora resolver tudo isso com  a ADOPÇÃO?
Por mais que ela seja uma resposta ela não é solução à falta de amor genuíno que só a mãe pode dar… Por isso não há nenhum pai nem nenhuma mãe adoptiva que lhes possa dar aquilo que só A MÃE VERDADEIRA PODIA DAR - mas seja, terão suporte material e até  afecto, sim, então  adoptem crianças abandonadas e crianças com pais disfuncionais, MAS NUNCA COMPREM CRIANÇAS, nem promovam Barrigas de aluguer que é perverter a vida e a natureza no que ela tem de mais sagrado!!!
rlp


A IMPORTÂNCIA DAS MÃES

"O nosso subconsciente é programado pelas nossas primeiras experiências com a nossa mãe e como fomos criados. A medida em que nos sentimos nutridas/os e incondicionalmente amadas/os determina a forma como as impressões da nossa mãe se traduzem numa sensação de proteção, segurança e confiança no ser, na vida e em poderes superiores, ou não.

Quase todos carregam feridas relacionadas com as suas impressões de maternidade precoce. Nós experimentamos essas feridas como pessoais, mas de facto são geracionais e culturais. A nossa mãe passou para nós o que foi passado para ela, e assim por diante por um longo, longo tempo. Essas impressões dizem respeito à programação cultural em relação ao valor e ao poder de ser mulher. A nossa cura, neste momento, não é a culpa das nossas mães ou de nós mesmos, mas percebermos que temos a oportunidade de libertar a programação baseada no medo que suprimiu o feminino, as mulheres, as emoções e, de facto, toda a humanidade por muito tempo."

Guru Rattana