sábado, agosto 19, 2017

PERDÃO...


Perdão PERDÃO perdão PERDÃO


[ Sentara-se à soleira da porta. Sentira-se tão cansada. O tempo passava como se fosse irreal. Pusera-se a tricotar um pequeno cachecol com cachos de uvas penduradas. Tricotar, permitia-lhe meditar. Entrava em ressonância com qualquer coisa desconhecida, e sempre, tão íntima. Por vezes um medo lhe invadia a mente... era o desconhecido, esse que habita à porta de nós mesmos e que está sempre espreitando os nossos olhos.
 Nesses momentos de profunda ''tricotagem'', há um voo de passagem que  chega e quase sempre  incomoda. É preciso estarmos preparados e, a maioria das vezes, nunca estamos. No reino da mente, há milhares de discursos, de invasões, ou, de vozes. Ela é como um comboio sobre linhas, contínuo é o seu movimento... diria-se que, a mente,  sofre de ''doença crónica do pensar''! Quanto mais a reprimimos, mais ela ladra... a sua natureza, é de criar cada vez mais pensamentos e gerar todas as formas de emoção!

Nesse dia, mal sentara-se e começara a tricotar... um pensamento saíra voando do fundo da Mente e logo, se agregara à emoção, criando uma vibração sentida.  Dissera para si mesma: '' e se alguém, ainda vivo, nesta terra esteja amando-a em silencio? Portanto, sofrendo por isso.''...  Não um amor de família, de amizade... e sim, um amor no sentido de relacionamento afectivo - amoroso. 

Continuara a dizer para si mesma, ''e se alguém, nesta terra à beira-mar plantada, estiver amando-me em segredo, por tantas razões e por isso, manter-se em silencio, por outras tantas razões? Oh que dor mais insuportável!!! Se existes, oh Alma, que me amas assim tanto... quero pedir-te perdão PERDÃO por me amares assim tão silenciosamente!! Só de pensar nisso, dói-me toda a carne do corpo... e um peso toma-me a alma!! Perdoa-me PERDOA-ME a carga desse amor que carregas por mim e que eu não sei.
Amar em silencio, sem ser correspondido, ou poder confessar tal amor, deve ser um sofrimento tremendo, uma solidão sem fundo... como são os sofrimentos de quem ama e deixou de ser amado!!! 


O Amor entre os Humanos, em especial os afectivos-amorosos, são um terreno fértil de desencontros e encontros e, o palco de experiências dolorosas.
 
Criatura, oh criatura, PERDOA-ME esse sofrimento que te causo na solidão de não poderes abrir a tua boca... Não gostaria de amar alguém em silencio como tu, porque não suportaria ter o coração preso sem uma resposta. Não importa quem sejas, onde estejas... PERDOA-ME o que te faço sentir!!! PERDOA-ME se sentes dor. PERDOA-ME!!!????

Uma Alma não amada, que não se sente amada, é uma alma presa... PERDOA-ME!!! POR FAVOR, PERDOA-ME. Ajuda-me a abrir também o meu coração ao perdão de saber  perdoar-te e perdoar-me e perdoar os desígnios indiscretos da vida!!

No entanto, se o Amor que sentes por mim, é INSPIRAÇÃO e VIDA... abençoada é a vida que te ilumina... porque esse Amor liberta-te e liberta-me!! 

Se alguém que também, eu tivesse deixado, e continue a amar-me com o desejo de ainda ter-me, quando já não amo e não consegue desapegar...  também peço PERDÃO... todo o PERDÃO do Universo, e vou mais longe...  PEÇO às FORÇAS  MAIORES DA VIDA, que conduzam ao seu caminho, alguém capaz de neutralizar e transformar todo o amor dessa pessoa por mim, e que a deixe fluir num novo encontro de amor... mais pleno que aquele que viveu comigo. Assim, poderá também libertar a minha própria alma e amar também mais!!!  Porque as almas, precisam de se libertar para serem novamente amadas e amarem... só assim, a Humanidade caminhará para a evolução!!! PERDOEM-ME... por favor?? POR FAVOR, PERDOEM-ME???!!!...''

Quando parara de tricotar, já o sol havia descido no céu. Os pensamentos surreais deixaram-na surpresa... mas a maior surpresa, foi constar que todo o cachecol estava escrito com as palavras PERDÃO... cada uva tinha uma palavra com PERDOA-ME. ]



NãoSouEuéaOutra in « Aquilo que desconhecemos em nós, o PERDÃO. »
03/06/13 21:58

não sei que vidas vivi



«Não sei que Vidas vivi. Senti-me sempre um Palhaço. Como se uma Legião Oculta tivesse tido a ousadia de comandar todos os sectores que me pertenciam à nascença. Um dia, veio um Turbilhão, que se transformou num Holocausto e levou o que restava do Palhaço. Quebrou todos os risos, todos os sonhos, e o pior, a inocência que fazia mover esta engrenagem que me levava pela mão adentro em direcção ao mundo. Onde todos os lugares me pertenciam a bem ou a mal.

Essa podridão, quebrou todos os códigos para que pudesse cheirar o seu Fel, e como tal, viesse a feder tanto, que nenhum congénere se aproximasse desta Criatura. Levando, então, essa marca, insígnia prosaica que denunciava o castigo; essa a qual não deveria ter sido submetida, por não me pertencer.

O resto do Palhaço que me habitava, vive vomitando os vermes. Coça noite adentro, cujo abismo é feito de pesadelos. Pesadelos que viajam até ao reino interdito aos comuns dos mortais. Posto que, outorgaram-me um destino vil, ácido e contra-corrente.

Hoje em dia, chamam-me de Palhaço Negro. Pareço um pedaço de carvão. 

Talvez, a Fénix, seja condescendente e me dê a Vida, mais uma vez.»

NãoSouEuéaOutra in «Caderno Escorpiónico»

entre a terra e o ceu


"Quando o divino soprar a pena,
ele faz dela um anjo, para que a magia se escreva em inspiração num sussurrar de asas, em que o espaço aberto oferece horizontes..."


«Todo o cuidado é pouco nestas veredas da vida. Seres que se achegam e nos apartam de nós. São como Duendes da Desatenção. A princípio, charmosos e eloquentes, e logo reviram as moléculas nos afastando do essencial. Da trilha da vida. Da Nossa Trilha. São pequenos sorvedouros de água, Água Anímica.
A Bela tem sempre consigo a figura do Monstro ou da Besta. São quase indissociáveis. É preciso estar alerta para perceber as suas movimentações. Na maior parte do tempo, rouba-nos as faculdades de pensar uma palavra, e de pensá-la com clareza. Agora, imaginemos, se tivéssemos a ousadia de nos estendermos para lá do seu terreno de actuação? Viríamos como, a sua perspicácia, é atordoadora. Diria que: "Come-te, esse lado do hemisfério onde habitam as ciências da escrita, a construção das palavras. Obriga-te a esquecê-las. Anseia por desejá-las todas para si."

Há pessoas que constroem bibliotecas interiores, por meio de aspiração. Limpando cérebros, sorvendo-lhes o pouco que têm. Tornando-te mais inconsciente de Ti e de Pensares e de Evoluíres. Eles não querem a tua Evolução. Eles anseiam a tua ignorância e aspiram assim, o Poder da tua Inteligência. São sagazes nessa construção, e usam quem tu menos esperas para servirem de sorvedouro das tuas mais ricas capacidades.
Eles desejam o açaimo e a burka de toda a tua Alma e Corpo. Eles anseiam que descentralizes o mais que puderes de Ti, e te juntes à imbecilidade. Eles não querem a tua evolução e sim, o teu desastre humano. Eles são mais pobres de espírito, do que a tua pobreza física. Eles são os ávidos de Luz. Anseiam apagar a Luz da Vida. A tua Luz de Vida.

Eles nunca te dirão nada, dos seus reais intentos. Nunca. Nunca! Certifica-te disto, miúda. Mas serão hábeis, a fazer de ti um pião. Eles são egoístas, pensam em favor de si mesmos. Nada mais!!»


NãoSouEuéaOutra in «Cadernos Escorpiónicos

*(Quand le divin, souffle à la plume,
il fait d'elle un ange, afin que la magie écrive en inspiration dans un frémissement d'ailes, ce que l'espace ouvert offre d'horizons)

quinta-feira, agosto 17, 2017

Todas as estruturas são frágeis


Todas as estruturas são frágeis

O ego deseja sempre obter alguma coisa das outras pessoas ou das situações.
Há sempre um interesse dissimulado, uma sensação de que «ainda não chega», de insuficiência e de carência que tem de ser preenchida. O ego usa as pessoas e as situações para alcançar aquilo que deseja e, mesmo quando o consegue, nunca permanece satisfeito durante muito tempo. Muitos dos seus objetivos são frustrados e, para a maior parte das pessoas, o abismo entre «o q...ue eu quero» e «o que acontece» é uma fonte constante de preocupação e angústia. A famosa e já clássica canção pop «(I Can't Get No) Satisfaction» é a canção do ego.
A emoção dominante em todas as ações do ego é o medo. O medo de não sermos ninguém, o medo da não-existência, o medo da morte. Todas as ações do ego têm como derradeiro objetivo eliminar este medo, mas o máximo que ele consegue fazer é dissimulá-lo temporariamente através de um relacionamento íntimo, de uma nova aquisição ou ganhando isto ou aquilo. A ilusão nunca nos satisfará. Apenas a verdade de quem somos, quando sentida, nos pode libertar.

Porquê o medo? Porque o ego nasce da identificação com a forma e, no fundo, ele sabe que nenhuma forma é permanente, que todas são efémeras. Por isso, existe sempre uma sensação de insegurança em torno do ego, mesmo que, exteriormente, ele pareça confiante." ...

Eckhart Tolle (Um Novo Mundo, pág. 71)

A VIOLÊNCIA PSICOLOGICA



MULHERES PENSEM NISTO - pensem...por favor!


"Tem sido dado ênfase à violência doméstica que atinge as mulheres, na forma física. Acontece que, absolutamente mais comum e infinitamente mais danosa é a violência psicólogica, que não acontece apenas no ambiente doméstico sendo que esta, por ser continuada no tempo, até mesmo sem ser identificada pela vítima, é a forma de abuso mais difícil de ser identificada, porque não deixa marcas evidentes no corpo ( exceto talvez, uma postura corporal ). A agressão psicológica pode ficar camuflada em doenças alérgicas e auto-imunes.

Ela é comumente camuflada pela sutileza das relações intra-familiares mas causa sofrimento e conduz a mulher à alterações de comportamento, postura corporal e/ou reações psicossomáticas. Ainda o fato de esta mulher, acossada, diminuída em sua autoestima, repassar aos filhos, o amargor, mesmo que involuntária e inconscientemente levando à perpetuação, igualmente perversa ao criar modelo deste tipo de violência na vida adulta dos filhos.

O abuso psicológico também permeia todas as outras modalidades de abuso e isto é o mais dramático, pois exacerba o nível de possibilidades de toda a família em apresentar distúrbios de ordem psicológica adentrando nas suas relações afetivas, dificultando-as. O acúmulo da vivência desse tipo de violência, faz elevar os índices de frequência aos hospitais psiquiátricos, elevar globalmente o nível de distúrbios mentais, bem como elevar o índice das estatísticas dos suicidas.

Pode-se considerar que essa forma silenciosa de violência, vivida pela mulher casada no seu cotidiano, é pouco ou nada considerado até agora. Mas essa violência não acontece apenas com as mulheres, muito mais às crianças e adolescentes, vítimas mais disponíveis.

No caso das mulheres casadas, consideramos que se de um lado existe o criminoso, em geral o marido, agindo através do poder financeiro e econômico, cultura do ciúme e mais atual, a evitação da independência da mulher no imaginário que está em formação, da ascendência profissional vista como concorrência, do outro lado está a própria mulher que, principalmente, se ama o marido, aceita a posição de vítima como uma demonstração de amor. Com certeza não é difícil alcançar que o poder econômico e financeiro do marido pode servir de alavanca da medida e do grau de dependência financeira da mulher em relação ao parceiro.

Esta mulher casada, que ama o companheiro, quando vítima de atrocidades psicológicas tende, quase sempre ao sentimento de culpada, invariavelmente. Ou não consegue identificar a capacidade do companheiro em arquitetar e manietar. Sente-se confusa pois não acredita na possibilidade de intenção e mesmo não acreditam ser esta, uma forma de violência. Não acredita que o marido a está fazendo sofrer deliberadamente fazendo-a sentir o sabor do poder que ele detém.

A "confusão" sentida e vivida pela mulher vítima de atrocidades psicológicas reside, na maioria das vezes, no equívoco de "confundir" os sentimentos. Desvalia, ódio, rejeição. Esta mesma mulher que pensa que ama, pode não amar o marido. Muitos outros motivos podem estar contribuindo para que ela viva o sentimento de "confusão". Medo de encarar outra realidade que ela pensa ser mais difícil, que ela pensa que não vai conseguir alcançar. O medo da separação, do divórcio. O medo de ter "fracassado" no seu casamento e por fim, também a possibilidade de ela confudir-se no sentimento de culpa e perder-se no desconhecimento da auto-punição ou auto-destruição.

Essa violência pode estar sendo demonstrada através da ridicularização do físico mulher - gorda, magricela, pele e osso, velha, relaxada, não capaz de ganhar dinheiro para ajudar a família etc - da incapacidade intelectual - burrinha, desinformada, fora da realidade. Atitudes constantes de censura, pressões, cobranças, comparações, a exemplo.

Pode-se considerar que a forte pressão psicológica alcança características de tortura quando movida por objetivo definido da qual a vítima é o meio. Muitos exemplos poderiam ser extraídos. O marido que premeditadamente força a pressão psicológica até que ela chegue a atingir níveis insuportáveis pela vítima que cede diante da fragilidade psicológica e emocional. Esse objetivo pode ser, conseguir o descrédito da mulher ao ser considerada mentalmente incapacitada para administrar patrimônio, por exemplo. Outro tipo de tortura com objetivos de conseguir informações; essa seria a tortura política e objeto de outro enfoque."

- Encontrei esse artigo e achei interessante. Pouco ou quase nada se fala sobre isso.

(texto enviado por uma leitora, sem nome de autor?)

A ALMA GÉMEA



“A fantasia universal de ter um gémeo (alma gémea)"….
….
"Segundo Melanie Klein esta figura gémea representaria aquelas partes dissociadas que o individuo deseja recuperar com a esperança de conseguir a plenitude. Tive ocasião de verificar que esta fantasia estava implícita nos estados de enamoramento ou dependência extrema de alguns indivíduos para com certas pessoas que possuiriam, por identificação projetiva, as características vivenciadas como correspondentes às qualidades perdidas. Comportavam-se às vezes, como verdadeiros dependentes destes objetos, cuja companhia procuravam desesperada e compulsivamente, com a finalidade de recuperar esses aspetos.”* 
 

A alma gémea que muitos secretamente desejam encontrar e que com ela acreditam que irão viver um estado de simbiose, ou julgam já o ter alcançado, não é mais do que a ilusão de ver no outro, partes de nós mesmos que desconhecemos, mas que nos fazem falta para que nos possamos compreender e sentir compreendidos. Revela-se um amor narcísico.
O desejo de se complementar, na expressão do autor, é um sentimento de solidão interior que não conseguimos situar.
Nós somos inteiros e a esperança deveria estar em não vivermos em função da ideia da alma gémea, mas aprendermos a cuidar de nós próprios e a sermos capazes de integrar as características inesperadas do outro.


Mulher Ventre do Ser

Não há outro caminho de entrada no mundo que não seja pelo corpo da mulher. ...
A mulher é o portal para o universo. Ela é também o ventre do Ser.
Cada pessoa no mundo começou a vida como um traço minúsculo nas profundezas da mãe cujo ventre é o espaço onde esse traço se expande e se abre para assumir a forma humana.
Em termos de futura identidade e destino de uma pessoa caminhando pelo mundo, este é o tempo de máxima formação e influência.
No encontro humano, nada chega a ser mais próximo do que isso; nunca dois seres poderão estar mais perto como quando um está se formando nas profundezas do outro.
Naturalmente a relação é imensamente desequilibrada: um é uma pessoa completa, o outro é minúsculo, apenas começando sua jornada rumo à identidade absorvendo vida da mãe.
Porém, na noite do corpo materno, cada um está desesperadamete aberto ao outro.
Homem nenhum chega mais perto de uma mulher.
Mulher nenhuma chega mais perto de outra mulher.
Esse intricado nutrir e desabrochar de identidade se dá debaixo da luz no subconsciente físico de seu corpo.
A mãe não vê nada. A jornada é inteiramente às escuras. É a mais longa jornada humana do invisível ao visível. De cada via interna, o labirinto de seu corpo aporta um fluxo de vida para formar e liberar esse peregrino interno.
Imagine os incríveis eventos necessários para formar o embrião; de como cada partícula de crescimento equivale à formação de um mundo oriundo de fragmentos.



Do livro Beauty, The Invisible Embrace (Beleza, O Abraço Invisível) - John O’Donohue - poeta teólogo irlandês



domingo, agosto 13, 2017

ela renascerá numa saudade



«Todos os fins são dolorosos. Todos sem excepção. Não há substitutos para a dor, seja ela qual for. Uns podem lidar melhor com ela, do que outros, e isso não implica que sejam fortes. Os que vão adiante, sem dor e com desprezo total e rindo-se das atrocidades que fazem, ou daqueles que ficam pelo caminho, são meros psicopatas (como é moda ser referido pela psicologia moderna).
Todos os fins são dolorosos. Desde o fim de um amor, à morte de um ente próximo. Tudo aquilo que é ...preponderante e vital na vida, carrega sempre um preço: a dor. A dor, não tem contratos, ela é senhora do seu tempo, e é quem decidirá os termos da sua finitude. Nessa medida, não adianta nossos jogos para tapá-la, porque tem um comportamento de Lobo vestido de Cordeiro. Há sempre uma hora que ela tira a máscara e grita das profundezas.
Um dia, toda a dor, se tornará tristeza. Um dia, muito tempo depois, ela renascerá numa saudade.»


NãoSouEuéaOutra in «Cadernos Escorpiónicos»
 

"A Eterna Pergunta,

« Quem SOU Eu, oh Espelho? Quem é a mais Bela entre as minhas supostas personalidades? Qual é a que tem mais Força e Audácia de se revelar e dizer, ''Eu Sou o Teu Espelho''? Quem é que não me foge? De quem fujo Eu, para o Espelho virar-me a cara? ».
Neste jogo de espelhos, não há Príncipes e nem podem existir; trata-se de um Diálogo Mudo entre a própria Natureza e o Si-Mesmo Interno! Quem nos carrega pela Vida Inteira, somos nós mesmas... ninguém carrega ...o nosso Corpo, as horas cortadas à Pele... ninguém vive a Emoção da Dor e da Alegria por nós! Se o Espelho se revelar, a Paixão será inevitável, a não ser que a sua pele seja uma Luciferiana, e não cede a um/a ''Deus/a'' maior e mais Belo/a!
(...) A Vida sem Paixão, é Morte e Desalento... é o Deserto dos Sós, da Terra sem Sal. A Paixão, é a Respiração da Vitalidade Maior. (...)"

NãoSouEuéaOutra in «Cadernos Escorpiónicos»

quinta-feira, agosto 10, 2017

O QUE OS HOMENS PENSAM DE SI E DAS MULHERES...

SENHORA, PERDOA-LHES PORQUE ELES NÃO SABEM O QUE DIZEM...
Eis o que o Homem preconizou para a mulher e a sua exclusão!

"Mas agora a Palavra de mim, A Besta, é esta: não só estás tu, mulher,
jurada a um propósito que não é teu; tu és tu mesma uma estrela, e em ...
tu mesma um propósito para ti mesma. Não só mãe de homens tu és, ou
puta de homens; serva à necessidade deles de vida e Amor, sem
partilhar da Luz e Liberdade deles; não, tu és mãe e puta para teu
próprio prazer; a palavra que Eu digo aos Homens, Eu digo a ti nem
mais nem menos: Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei!"

in O Livro da Lei comentado por Aleister Crowley

DECLARAÇÃO DE DIFERENÇA

DECLARAÇÃO DE DIFERENÇA
(para ser inserta no Livro do Desassossego)
Bernardo Soares


(...)
"Não somos bondosos nem caritativos — não porque sejamos o contrário, mas porque não somos nem uma coisa, nem a outra. A bondade é a delicadeza das almas grosseiras. Tem para nós o interesse de um episódio passado em outras almas, e com outras formas de pensar. Observamos, e nem aprovamos, nem deixamos de aprovar. O nosso mister é não ser nada.
(...)
A nossa simpatia é grande pelo ocultismo e pelas artes do escondido. Não somos, porém, ocultistas. Falha-nos para isso a vontade inata, e, ainda, a paciência para a educar de modo a tornar-se o perfeito instrumento dos magos e dos magnetizadores. Mas simpatizamos com o ocultismo, sobretudo porque ele soe exprimir-se de modo a que muitos que lêem, e mesmo muitos que julgam compreender, nada compreendem. É soberbamente superior essa atitude misteriosa. É, além disso, fonte copiosa de sensações do mistério e de terror: as larvas do astral, os estranhos entes de corpos diversos que a magia cerimonial evoca nos seus templos, as presenças desencarnadas da matéria deste plano, que pairam em torno aos nossos sentidos fechados, no silêncio físico do som interior — tudo isso nos acaricia com uma mão viscosa, terrível, no desabrigo e na escuridão.
Mas não simpatizamos com os ocultistas na parte em que eles são apóstolos e amadores da humanidade; isso os despe do seu mistério. A única razão para um ocultista funcionar no astral é sob a condição de o fazer por estética superior, e não para o sinistro fim de fazer bem a qualquer pessoa.
Quase sem o sabermos morde-nos uma simpatia ancestral pela magia negra, pelas formas proibidas da ciência transcendente, pelos Senhores do Poder que se venderam à Condenação e à Reencarnação degradada. Os nossos olhos de débeis e de incertos perdem-se, com um cio feminino, na teoria dos graus invertidos, nos ritos inversos, na curva sinistra da hierarquia descendente.
Satan, sem que o queiramos, possui para nós uma sugestão como que de macho para a fêmea. A serpente da Inteligência Material enroscou-se-nos no coração, como no Caduceu simbólico do Deus que comunica — Mercúrio, senhor da Compreensão.

Aqueles de nós que não são pederastas desejariam ter a coragem de o ser. Toda a inapetência para a acção inevitavelmente feminiza. Falhámos a nossa verdadeira profissão de donas de casa e de castelãs sem que fazer por um transvio de sexo na encarnação presente. Embora não acreditemos absolutamente nisto, sabe ao sangue da ironia fazer em nós como se o acreditássemos.

(from above) Tudo isto não é por maldade, mas por debilidade apenas. Adoramos, a sós, o Mal, não por ele ser o Mal, mas porque ele é mais intenso e forte que o Bem, e tudo quanto é intenso e forte atrai os nervos que deviam ser de mulher. Pecca fortiter não pode ser connosco, que não temos força, nem sequer a da inteligência, que é a que temos. Pensa em pecar fortemente — é o mais que para nós pode valer essa indicação aguda. Mas nem mesmo isso às vezes nos é possível: a própria vida interior tem uma realidade que às vezes nos dói por ser uma realidade qualquer. Haver leis para a associação de ideias, como para todas as operações do espírito insulta a nossa indisciplina nativa.

FERNANDO PESSOA