domingo, setembro 24, 2017

Aceitamos a crença...

 

A DIFERENÇA ENTRE O DIVINO E A CRENÇA...

" “[…] noutros tempos, o divino fez parte, intimamente, da vida humana.
Mas, está claro que esta intimidade não pode ser percebida a partir da consciência actual. Aceitamos a crença – ‘o feito’ da crença – mas é difícil reviver a vida em que a crença não era fórmula cristalizada, senão um hálito vivente que em múltiplas fórmulas indefiníveis, indistinguíveis perante a razão, levantava a vida humana, a incendiava ou a adormecia levando-a por lugares secretos, promovendo ‘vivências’, cujo eco encontramos nas artes e na poesia, e cuja réplica, talvez, deu origem a actividades da mente tão essenciais como a filosofia e a própria ciência”

 1955, Maria Zambrano

escrever ou não escrever



Nota para não Escrever


Se o conhecimento é uma forma de escrita, mesmo sem palavras, uma respiração calada, a narrativa que o silêncio faz de si mesmo, então não se deve escrever, nem mesmo admitindo que fazê-lo seria o reconhecimento do conhecimento. Pode escrever-se acerca do silêncio, porque é um modo de alcançá-lo, embora impertinente. Pode também escrever-se por asfixia, porque essa não é maneira de morrer. Pode escrever-se ainda por ilusão criminal: às vezes imagina-se ...que uma palavra conseguirá atingir mortalmente o mundo. A alegria de um assassinato enorme é legítima, se embebeda o espírito, libertando-o da melancolia da fraternidade universal. Mas se apesar de tudo se escrever, escreva-se sempre para estar só. A escrita afasta concretamente o mundo. Não é o melhor método, mas é um. Os outros requerem uma energia espiritual que suspeita do próprio uso da escrita, como a religiosidade suspeita da religião e o demonismo da demonologia. A escrita - inferior na ordem dos actos simbólicos - concilia-se mal com a metamorfose interior - finalidade e símbolo, ela mesma, da energia espiritual. O espírito tende a transformar o espírito, e transforma-o. O resultado é misterioso. O resultado da escrita, não.


Herberto Helder, in 'Photomaton & Vox'

sexta-feira, setembro 22, 2017

SAUDADE DE MIM...



"Estou com saudade de mim. Ando pouco recolhida, atendendo demais ao telefone, escrevo depressa, vivo depressa. Onde está eu?
Preciso fazer um retiro espiritual e encontrar-me enfim - enfim, mas que medo - de mim mesma."

clarice Lispector


CARTA A UMA AMIGA

A meditação não cura doenças nem resolve problemas psíquicos ou físicos...como vulgarmente se pretende, nem é uma mentalização qualquer (como a meditação guiada) ou o recitar de mantras ou olhar para uma vela!
A Meditação é uma concentração, um FOCO (um fogo) em algo inatingível pela mente, incompreensível ao intelecto...e pertence a uma parte de nós que é nuclear e sejamos nós quem formos ou o grau da nossa inteligência ou educação, cultura, nível social-económico ou espiritual...em nada interfere senão com a Alma e o Ser que está para além de tudo isso.
É meditando que fortalecemos essa parte de nós que é interna e eterna e que não é influenciada pela mente nem pelo físico, mas que é o nosso centro energético (consciência pura, diria) e se esse centro estiver acordado e nós firmes e centradas nele, tudo o que nos afecta na superfície do nosso ser é atenuado pela consciência de algo superior mas não nos tira nem os problemas, nem os conflitos emocionais e psíquicos...apenas alivia e relativiza tudo isso que se passa fora e dentro de nós, se nos mantivermos focadas nele...é como alguém dizia: nós caímos na mesma, mas em chão parece acolchoado...
A ideia de que a meditação é uma terapia ou age sobre as questões físicas e psíquicas para mim é errada. É como o Respirar...respirar não nos cura...faz-nos viver ou permite-nos viver...RESPIRAR FUNDO, pode até equilibrar os chakras e outros centros nervosos talvez, activar a pineal, como dizem...sim, pode minimizar, mas não nos salva dos conflitos da psique nem dos problemas que criamos na prática em acções diárias, as nossas escolhas, os nossos sentimentos, o que não resolvemos, etc. se nós não fizermos nada por isso.
A vida em si é uma coisa e as circunstâncias da vida são outra...não confundamos! Temos de viver dentro desta realidade e compreender qual é o nosso papel na cena - Maya - ou no mundo em que vivemos...temos inclusive que trabalhar para “viver” - só isso é um drama ...somos escravos do dinheiro quer o tenhamos ou não...Também há sentimentos ou paixões que nos aprisionam e mantêm escravas deles. Há a fome e o desejo, há as necessidades do corpo...do sexo, mas há sobretudo o medo da doença, da morte e a inconsciência total do sentido profundo da vida e do milagre da nossa existência - a absoluta e incrível arquitetura deste corpo magnífico...que nós usamos sem saber quem somos e o que somos...ignoramos a nossa majestade como seres, a nossa grandeza, e que o ferimos e matamos e o usamos como se fosse nosso e o tivéssemos garantido...e contudo...não nos pertence. Essa é a nossa miséria...
Talvez essa ignorância de quem somos e do nosso valor intrínseco como SERES HUMANOS seja a fonte de todo o nosso desequilíbrio, nomeadamente nós mulheres, afastadas da nossa essência e força vital.
rosaleonorpedro
Republicando...

A CISÃO DA MULHER FOI UM EMPOBRECIMENTO


..."Sim chamar-lhe-ei poetisa. A homenagem que distingue o génio poético feminino com o prémio de lhe masculinizar o estro ultraja uma poesia que quer feminizar o mundo com magia e claridade lunar." - Natália Correia
......
vem, lira divina,
e me responde;
encontra, tu mesma, ...
tua própria voz
e
de [vossa casa] dourada,
vinde a mim, ó Musas
Safo

UMA ANTÍTESE INVENTADA - a fim de cindir a humanidade feminina...
(...)
"Entendo que essa antiga e venerável missão das prostitutas é uma ética congenitalmente feminina que só por um desvio de uma religião patrística foi reservada às sacerdotisas do amor a fim de cindir a humanidade feminina na projecção do abominável e do sublime masculino. Uma antítese inventada por esse ser eminentemente melodramático que é o homem, sem a mínima verosimilhança no cosmo da realidade da mulher que não distingue o espírito da carne. Eis porque as mulheres honestas sempre no fundo invejaram as prostitutas e vice-versa.” (...) In A MADONA de Natália Correia

"A razão poética é uma razão de amor, porque é “reintegração da rica substância do mundo”, ou seja, porque procura a reunião, a ligação. Se atendermos à definição dada – “reintegração da rica substância do mundo” – temos de reconhecer nesta racionalidade a vontade de restituir algo perdido para que a riqueza do mundo se recomponha. Ou seja, algo se cindiu e essa cisão foi um empobrecimento; restaurar a perdida riqueza do mundo supõe superar essa cisão e retornar a uma unidade originária.” FERNANDA HENRIQUES


A cisão aplicada à Mulher (a sua divisão em duas) foi o que fez o ser humano perder a ligação do cósmico e telúrico - a perda de contacto com a natureza da mulher instintiva e da mulher como  oráculo e o seu afastamento da mulher original, originou uma perca substancial da ligação ao  universo a partir do momento em que a mulher, mediadora das forças cósmico telúricas, deixou de o fazer condenada ao descrédito por Apolo e depois ,condida em duas pelo catolicismo e com essa cisão perdeu-se a possibilidade de “reintegração da rica substância do mundo” uma vez que é  a mulher em essência essa mesma substância ou Sophia e ainda a  Musa e a própria poesia - sem a musa não há poetas...etc.
 Este tema...é intuído de forma muito próxima do grande cisma que divide o mundo pela anulação divisão da mulher; estas escritora  intuem a cisão do mundo e da mulher mas não colocam na própria mulher essa substância, porque a mulher foi desviada dela como um ser-sentir e pensa-se em abstracto, tal como o homem pois o seu feminino profundo - a sabedoria está desligada na mulher intelectual que usa  o ego do homem (filosofo) e não o seu dom inato de vidente... 

A mulher intelectual,  regra geral, não se revê certamente nem revê em si mesma a divisão das duas mulheres, não vê dentro de si o conflito entre uma parte, a má, a parte reprimida da mulher, a sombra de Lilith, a puta  diria, e a parte boa, a Virgem, a esposa...creio bem que ela não vê essa cisão na própria mulher e como ela se repercute no exterior e no mundo...como a cisão da mulher se reflecte a cisão da "rica substância do mundo"  que corresponde ao feminino por excelência...e o que realmente falta no mundo...

 rlp

A SABEDORIA É FEMININA


ELA CONTEM EM SI A SABEDORIA

"A sabedoria é mesmo feminina. Correndo o risco de me repetir ou citar a mim mesma, direi que a «sophia» é feminina. A sabedoria é feminina e a filosofa é masculina. O homem enamora-se da sabedoria, mas nunca chega lá. E o percurso para... A mulher, ela própria, é ovularmente o segredo do Universo. Ela contém em si a sabedoria. As vezes não têm é consciência disso."

Entrevista (1983), Natália Correia


..."A mulher tem em si a sabedoria, um tipo de sabedoria inata, um catalisador único da realização. (...) A mulher potencialmente está directamente ligada ao conhecimento e a sabedoria, que são as duas forças complementares da grelha de base.* A mulher realizada domina a dualidade e ajuda o homem a transcendê-la. Enquanto o homem tem acesso ao conhecimento que está no início de tudo e além disso da vontade."

A mulher já é portadora do mundo transcendental - a Virgem Maria, Ísis, as Virgens negras. O homem, em contacto com a mulher, teria acesso ao germe da iluminação. E o casal alquímico exteriorizaria isso.


Etienne Guille in O HOMEM ENTRE A TERRA E O CÉU


'' As mulheres são efectivamente sábias por natureza, mas para os homens a sabedoria tem de ser ensinada pelos manuais.''

Do drama indiano "O pequeno cesto de barro" escrito pela mão do rei Śūdraka, sec II A.C.   

terça-feira, setembro 19, 2017

Arundhati Roy:

 «Na Índia, é mais seguro ser uma vaca do que ser uma mulher»

Arundhati Roy               
 
Entrevista de Catarina Pires | Fotografia de Orlando Almeida/Global Imagens

É uma mulher enorme, de corpo franzino, voz baixa, olhar doce e sorriso sereno. Há vinte anos escreveu O Deus das Pequenas Coisas, romance de estreia que lhe valeu o Booker Prize (vamos esquecer o Man incluído no nome do prémio) e fez dela uma escritora conhecida em todo o mundo, com milhões de livros vendidos e traduzidos em 42 línguas.
Elevada a rosto da nova Índia, recusou o rótulo que a tornaria cúmplice de uma ideia de sociedade e de país que deplora e tornou-se ativista pelos direitos humanos, contra os ensaios nucleares e a ocupação de Caxemira, contra o sistema de castas e a forma como as mulheres são tratadas. Por isso, sofreu ameaças e perseguições. Teve (tem) medo, mas nem este a deteve. Parece que é isso a coragem.
Os vinte anos que separam os dois livros deram-lhe o mundo que construiu no seu segundo romance, O Ministério da Felicidade Suprema, lançado este ano e que a colocou de novo entre os candidatos ao Booker Prize, a mais alta distinção da literatura em língua inglesa.
Diz que não sabe o que é um país, mas nunca conseguiu viver noutro senão aquele em que nasceu.

Entre O Deus das Pequenas Coisas e O Ministério da Felicidade Suprema percebe-se uma visão maior do mundo. Foi o que fez nos 20 anos de intervalo entre os dois livros: ganhar mundo?
Sim. Depois de escrever O Deus das Pequenas Coisas, viajei, escrevi ensaios de não-ficção, envolvi-me no que estava a passar-se na Índia. É um país que mudou de forma muito dramática nestas duas décadas.
O primeiro livro ganhou o Booker Prize, foi um sucesso internacional e a Arundhati partiu para a luta. Escolheu o caminho mais difícil.
Não me sentia confortável com o facto de ser uma escritora de sucesso, conhecida em todo o mundo, mas que vivia num lugar onde as pessoas não sabiam ler, não tinham o que comer. Qual deveria ser o meu papel? Era essa a questão que colocava a mim própria. Decidi dedicar a minha energia a pensar sobre esse lugar e, através disso, a pensar sobre o mundo.
 (...)
Esteve envolvida em diversas causas. O que a revolta mais?
Pouco depois de O Deus das Pequenas Coisas ter sido publicado, em 1997, e ter ganho o Booker Prize, foi eleito na Índia um governo de extrema-direita fundamentalista hindu. Foram feitos uma série de ensaios nucleares, celebrados não só pela classe política, mas também pelos media, por artistas e escritores, de uma forma que considerei muito feia. Senti que o discurso público tinha mudado. Nessa altura, eu era apresentada como a cara desta nova Índia e considerei isso muito perturbador porque não concordava com aquele tipo de posição política.
Quis demarcar-se?
Sim. Por isso, escrevi um ensaio, chamado O Fim da Imaginação, que desencadeou muita raiva contra mim, da parte das mesmas pessoas que antes me celebravam. Comecei a viajar e a escrever e a verdade e a perceber que o que me revolta é a ideia de uma sociedade que glorifica a injustiça. Não há nenhuma sociedade completamente justa, mas pelo menos tenta-se alcançar a justiça. Aqui (na Índia), a começar pelo sistema de castas, celebra-se a injustiça, faz-se desta uma coisa sagrada.

«O sistema de castas é o motor da Índia moderna»

Como se explica que até hoje esse sistema não tenha sido abolido?
Arundhati Roy
O sistema é questionado. Um dos grandes intelectuais na Índia, um homem chamado Dr. Ambedkar da casta dalit (intocáveis) foi um dos grandes opositores de Gandhi. Gandhi é na verdade uma pessoa cujas visões deviam ser olhadas com mais atenção e seriedade porque há muita falsa propaganda sobre quem era e o que defendia, sobretudo acerca do sistema de castas e as mulheres. Mas não só ele. Quando escrevi O Deus das Pequenas Coisas, a esquerda em Kerala ficou muito zangada com o livro, porque este questionava o facto de os partidos comunistas não fazerem nada para acabar com as castas. A questão é que os grandes intelectuais, escritores e artistas na Índia, mesmo os de esquerda, não olham para isso, agem como se o problema não existisse (é como escrever sobre o período do apartheid na África do Sul e esquecer que existiu apartheid), quando na verdade o sistema de castas é o motor da Índia moderna.
O tipo e a quantidade de violência que existe na Índia é completamente impensável. mas está tudo encoberto por esta capa da democracia-bollywood-críquete-gandhi-yoga.
Nesses vinte anos viu a morte e a violência de perto?
Não presenciei, mas conheci muita gente que… Quando estive na floresta, conheci gente como a camarada Revathy, [personagem de O Ministério da Felicidade Suprema], mãe verdadeira da Menina Jebben, a segunda, que foi violada por seis homens e torturada e mais tarde morta. O tipo e a quantidade de violência que existe na Índia é completamente impensável. E está tudo encoberto por esta capa da democracia-bollywood-críquete-gandhi-yoga. Mas em Caxemira foram mortas cerca de 60 mil pessoas, muitos milhares foram torturadas, há 10 mil desaparecidos. E as pessoas não sabem de nada. É a mais densa ocupação militar no mundo.
E sente que tem que denunciar isso?
Não foi esse o meu principal objetivo com este livro. Se quisesse denunciar, teria escrito um ensaio, mas precisava de perceber. O mundo todo está envolvido em coisas destas…
A Índia de O Ministério da Felicidade Suprema é também um espelho do mundo?
Sim, é um microcosmos do mundo e da evolução da civilização. A Índia fez testes nucleares, abriu os seus mercados, começou a chamar a si própria de superpotência. Outras superpotências têm colónias, a Índia não tem, por isso coloniza-se a si própria. É também sobre a história do colonialismo, este livro. Mas não é só sobre opressores e oprimidos, é sobretudo acerca de como essa opressão funciona, como é que os oprimidos a vivem e a veem, como é que se vive isso, como é o ar que se respira, como é a atmosfera.
O que vai acontecer a este planeta se continuarmos a viver assim? Quando estou otimista penso que é bom que todo este horror venha à superfície, para que todos vejam e reajam. Quando estou pessimista, penso que antes de reagirmos o mundo já se afundou.
Grande parte parte da ação deste seu livro passa-se num cemitério, onde vivem as suas personagens. Disse numa entrevista que vivemos todos num cemitério. Porquê?
Quando falei nisso, estava a pensar nas alterações climáticas, no facto de estarmos a viver num planeta moribundo e não reconhecermos isso. E isso não vai mudar a não ser que consigamos construir uma casa de hóspedes, como fez Anjum, e consigamos pensar de forma diferente. O que vai acontecer a este planeta se continuarmos a viver assim? Quando estou otimista penso que é bom que todo este absoluto horror e esta estupidez venham à superfície, para que todos vejam e reajam. Quando estou pessimista, penso que antes de reagirmos o mundo já se afundou.
(...)
Quando escreve, pensa se deve ou não escrever. Tem medo?
Tenho muitos medos. Quando estava a escrever O Ministério da Felicidade Suprema disse para mim própria: escreve-o como queres e depois guarda-o numa gaveta, mas depois de escrito o ego de escritora não permite que se mantenha guardado numa gaveta. Mas, até agora, tem sido tranquilo. Não tem havido problemas.
 (...)
A Índia é um país que vive em vários séculos simultaneamente. Estamos no século XXI e no século IX e por vezes em cinco minutos pode passar-se de um para outro.
A forma como as mulheres são tratadas também. Considera-se feminista?
Claro. A Índia é um país que vive em vários séculos simultaneamente. Estamos no século XXI e no século IX e por vezes em cinco minutos pode passar-se de um para outro. Pode ter uma mulher como eu, que é completamente independente, que diz o que quer e que vive como quer – eu sou talvez das mulheres mais livres em todo o mundo e tenho um lugar na Índia – mas também tem mulheres a matar os bebés do sexo feminino quando nascem e a destruir os fetos quando sabem que são meninas e a alimentar as filhas menos do que alimentam os filhos, tem mulheres que são oprimidas das mais abjetas formas e isto acontece tudo na mesma sociedade.
E porque é que acontece? Tem a ver com a condição sócioeconómica?
O condicionamento cultural é determinante. Todo o mundo tem conhecimento das violações e das manifestações contra as violações. Mas, mais uma vez, é muito complicado porque a violação foi (tem sido) tradicionalmente usada como arma feudal. Um homem de uma casta superior pode violar uma mulher dalit, tirá-la de casa, fazer o que quiser com ela (o exército em Caxemira também a usa como arma), mas há agora também uma raiva contra as mulheres modernas, que percebem que existe outra maneira de viver e se recusam a viver de acordo com as regras tradicionais e também ela é brutalizada. A mulher é brutalizada por ser tradicional e brutalizada por ser moderna e por tentar mudar as regras e recusar esse controlo hegemónico dos homens. Hoje, na Índia, é mais seguro ser vaca do que ser mulher porque as vacas são protegidas e as mulheres são atacadas.

Arundhaty Roy
Apesar disso, e de ter sido acusada de anti nacionalista, escolheu viver sempre no seu país.
Porque não o vejo como um país, mas como um lugar onde vivo e onde estão as pessoas que conheço e que amo. Continuo a perguntar: o que é um país? Até há 70 anos Índia, Paquistão e Bangladesh eram um país, agora apontam mísseis uns aos outros. Na verdade, mesmo nessa altura não éramos um país. Os ingleses desenharam um mapa e havia 500 reinos separados dentro dele. A Partição criou violência, mas a assimilação também. Caxemira tem a ver com isso. O que está a passar-se no norte da Índia é isso, assimilação forçada. Por isso, o que é um país? Não percebo, não consigo ficar entusiasmada. Percebo do ponto de vista administrativo, mas não do ponto de vista da emoção, do país como algo sagrado, que pode levar mesmo à morte de quem falar contra ele.
Porque vive lá, então? Não terá, no fundo, a ver com uma ligação emocional ao seu lugar?
Vivo lá como uma árvore, se tiver que ser transplantada serei, as minhas folhas vão cair, envolverá trauma, mas talvez voltem a crescer.
O que teme mais?
Neste momento, que todos os dias, no sítio onde vivo, esteja a ser injetado veneno no sangue das pessoas comuns e para o qual não há um antídoto simples. Estão a criar-se as condições atmosféricas para algo terrível. E por causa desse horrível nacionalismo cultural e religioso, que está a dominar a sociedade indiana, milhões de pessoas estão ser empurradas para a destituição absoluta de tudo. Caminhamos para uma situação assustadora.
A situação que se vive na Índia é um manifesto do ódio com subcamadas e subcamadas e subcamadas, sobre quem deve ser odiado e quanto.
Quem são os que estão em situação mais frágil?
Os muçulmanos, que estão a ser destituídos de todos os direitos, os indígenas que estão a ser expulsos das suas terras por causa da exploração mineira, as mulheres, que são as mais frágeis entre os frágeis, os dalit que levam milhares de anos de opressão. A situação que se vive na Índia é um manifesto do ódio com subcamadas e subcamadas e subcamadas, sobre quem deve ser odiado e quanto.
A religião é a raiz destes males?
Não é só a religião. É sobretudo o impulso hegemónico. Por isso é que o santo de O Ministério da Felicidade Suprema – Hazrat Sarmad Shaheed – é um santo que resistiu a todas as hegemonias. O judeu arménio homossexual que chegou a Deli, tornou-se islâmico, cortaram-lhe a cabeça e mesmo assim continuou a dizer poesia. Resistiu a todas as formas de hegemonia.
Ganhou o Booker Prize há 20 anos. O que significou na altura e o que significaria voltar a ganhá-lo?
Deu-me muita proteção. A visibilidade funciona em dois sentidos, é-se mais atacado, mas também se está mais protegido. Não era só uma pessoa anónima a quem podiam fazer o que quisessem e isso foi importante. E o facto de o livro ter ganho o Booker Prize deu-me independência financeira, o que também é bom – não veio de uma herança, veio do meu trabalho e isso significa muito.
E se o ganhar novamente?
Fico contente.
Quanto tempo teremos que esperar por um novo livro?
Não sei, não sei.

sábado, setembro 16, 2017

SER MULHER

O QUE PENSAM OS FILÓSOFOS DAS MULHERES

 “Ser-se mulher é algo de tão peculiar, de tão misto, de tão complexo, que nenhum predicado pode por si só exprimi-lo, e os muitos predicados, caso os quiséssemos utilizar, contradir-se-iam mutuamente de tal maneira que só uma mulher seria capaz de suportar tal coisa; aliás, pior ainda, seria capaz de encontrar prazer nisso.”...
  SÖREN KIERKEGAARD (1813-1855)



Por  causa destas e de outras considerações sobre as mulheres eu acho  que nenhum homem por mais erudito e culto ou bem intencionado que seja pode ou deve manifestar-se - ensinar o que quer que seja - sobre o que é a Mulher e a sua natureza...embora possam existir homens sábios que sentem e percebem a mulher.

Quanto a mim, nenhum homem deveria ser autorizado legalmente...a falar daquilo que não é nem conhece por experiência própria. Dai eu considerar  que é perniciosa toda a abordagem que o homem faz teoricamente da mulher pela simples razão de que não ele não nasceu mulher  e projecta toda a carga secular subjectiva/objectiva,  psíquica e religiosa que traz consigo e viveu como macho  dentro do Sistema e que o afecta acerca da mãe e da mulher tal como a sua ideia  do Pecado ou da sua leitura da Génese.

Há séculos que o Olhar do Homem sobre a condição e o saber da mulher é expandido de forma alienante para a própria mulher não só por a mitificar, seja inferiorizando-a na sociedade e a elevar aos céus e no altar, seja por a condenar aos infernos por ser pecadora promiscua ou infiel.
Não dou crédito a nenhum homem que se pronuncie seja a que nível for sobre uma Mulher. Sejam eles místicos sejam teólogos sejam os mais simples e honestos.
O homem, qualquer homem  tem - para não dizer todos - que aprender sobre e com a Mulher  mas não pode nem deve em consciência e se for honesto propor-se falar para as mulheres sobre elas  em circunstância alguma. É tempo de as mulheres falarem de si. Não ouvir os homens! Não seguir mestres nem guias nem facilitadores. Na verdade eles estão tão habituados a viver à conta das mulheres que não resistem à manipulação sexual e religiosa e não conseguem perder as fieis seguidoras que são as mulheres em todos os sectores do conhecimento "espiritual" e não só pois  no fundo querem continuar a manter o controlo das mulheres servindo-se delas de todas as formas como o fazem os políticos e os religiosos.  

Só a mulher pode e deverá falar de si mesma! Apesar de a própria mulher não estar  ainda em contacto com a sua essência primeira, ela devia primeiro recordar-se QUEM ERA  e ir ao fundo da sua psique.  Portanto o que elas ouvem dos homens e dos mestres e lhe ensinam sobre si nas escolas é precisamente tudo o que a alienou da sua natureza profunda, que contribuiu para a sua manipulação e ignorância de si e assim qualquer tentativa de mestres e de guias falarem da Mulher e da sua sexualidade é falseada e não é mais do que o homem sempre fez com a mulher: servir-se da sua ignorância e manipulá-la para o seu serviço seja qual for o seu interesse imediato. Assim o olhar do homem, por melhor intencionado que seja,  sobre a condição e saber da MULHER é quase sempre o olhar mais pernicioso e nefasto porque melhor pode afastar a mulher de si mesma e da sua essência, enganando-a com ideias e conceitos que a condicionam a ser esse travesti a que eles deram forma e que os gays copiam.
As mulheres, essas mulheres que foram as descendentes das nossas mães e tias  foram afastadas dos valores do feminino em nome da emancipação e da liberdade sexual, mas esquecemos que sem esses valores a sociedade regride e adoece...e por isso como diz no inicio o autor citado o mundo está em ruinas e digo eu à beira de uma guerra tremenda - a começar com a migração muçulmana que eu não posso nem por um minuto esquecer. O que a mulher feminista fez foi deitar fora com a água suja o bebé...
Precisamos de voltar a esses valores do verdadeiro feminino, sem esquecer que somos livres e para isso a mulher tem de estar consciente de si também ao nível do seu ser mais profundo. Que valores são esses pois?

"ESSES VALORES FEMININOS SÃO: O AMOR, O AFECTO, AS RELAÇÕES HUMANAS o contacto com a natureza e a vida. E as crianças, visto que a mulher também é mãe. Esses aspectos fundamentais do seu ser não os citei logo para evitar que a mulher que ler este texto suspeite da intenção camuflada de voltar a encerrá-la nos três famosos "K" Kinder, KUche, Kirche - crianças, cozinha e igreja."

E endosso as palavras de J. Guendher, em yuganaddha, The Tantric View of live:

"A consciência da mulher é diferente; ela já percebeu as coisas quando o homem ainda tateia na escuridão. A mulher percebe as circunstâncias que a cercam e as possibilidades a elas ligadas, algo que um homem costuma ser incapaz. Por isso, o mundo da mulher parece-lhe pertencer ao infinito, para fora do tempo e para o transcendente, pode fornecer as indicações e os impulsos mais válidos. Essa transcendência é a sabedoria, e esta supera o saber intelectual...A mulher e tudo a ela associado parecem bem estranhos ao macho e,, no entanto, isso faz parte de seu universo mais íntimo, à espera de se realizar por ele" (p.172)

rosa Leonor pedro 

PS: Eu sei que me repito infinitamente, mas esta é uma lição árdua de aprender...

sexta-feira, setembro 15, 2017

O HOMEM "CRIA" A MULHER...



UM OLHAR SOBRE A DOMINAÇÃO DO MASCULINO

"...pertencer a um tempo e a uma cultura significa possuir uma herança, constituída por um conjunto de recursos de interpretação, com a qual nos orientamos como humanos. Contudo, tal interpretação deve configurar‑se como um comportamento reflexivo perante a herança cultural e não representar uma aceitação passiva dela. Ou seja, “ter sentido histórico” obriga a reconhecer o legado cultural que recebemos, mas, obriga, igualmente, a re‑avaliá‑lo e a re‑interpretá‑lo, de tal forma que possamos re‑configurar, com maior equidade, a herança cultural que vamos deixar.

No caso das representações do feminino, o trabalho de interpretação do legado cultural é particularmente delicado porque tem de ser feito ao arrepio daquilo que mais profundamente nos constitui, tendo de começar por uma desconstrução e por uma hermenêutica da suspeita, uma vez que as representações do feminino mais enraizadas advêm de uma concepção antropológica assimétrica, que toma o masculino como padrão e o feminino como derivado.

Nesse contexto desconstrutor e de suspeição, um olhar reflexivo sobre a tradição ocidental deve deixar‑se orientar pela ideia de que a dominação masculina não foi universal e pacificamente aceite, mas apenas assumiu o aspecto de parecer ter sido absolutamente aceite. Ou seja, re‑significar a nossa História comum, de homens e de mulheres, obriga a procurar os ruídos à aceitação universal da dominação masculina que ocorreram e trazer à luz os sinais da ambiguidade e da complexidade nas relações de poder entre os sexos, que todas as épocas testemunham. Sem a desocultação desses acontecimentos não será possível fazer um novo caminho de entendimento do nosso modo de ser e de estar e, nós, mulheres, estaremos desmunidas de figuras femininas que materializem a possibilidade de nos olharmos como seres humanos integrais. Além disso, se aceitarmos passivamente a ideia de que a dominação masculina foi sempre completamente aceite, estamos a fazer uma nova discriminação em relação à nossa herança cultural, porque não fazemos justiça a quem se insurgiu contra a dominação do masculino, e estamos, por nossa vez, a invisibilizar o seu esforço, reiterando o legado cultural que o conseguiu escamotear.
Tal interpretação reflexiva da tradição ocidental vai mostrar‑nos um modo de pensar as mulheres e o feminino, a que se poderá chamar pensar canónico − que dá das mulheres e do feminino uma visão negativa e subalterna −, mas também uma contracorrente de pensamento ou ruídos marginais ao pensar dominante que evidenciam o facto de a aceitação da dominância do masculino nem sempre ter sido pacífica."


FERNANDA HENRIQUES
(Docente na Universidade de Évora)

MULHERES QUE PENSAM...



KATE MILLETT  (1934-2017)


"A imagem da mulher tal como a conhecemos é uma imagem criada pelos homens e moldada para servir as suas necessidades"

"O conceito de amor romântico possibilita um meio de manipulação emocional que o macho é livre de explorar, dado que o amor é a única circunstância em que a fêmea é (ideologicamente) perdoada por ter actividade sexual."...



KATE MILLETT

terça-feira, setembro 12, 2017

A DIVISÃO DO HOMEM...




O grande Mistério do Homem é a Mulher...

Ao sonegar a mulher o homem  não a conhece, e não a conhecendo a Ela nem A reconhecendo como Deusa, não se conhece a si mesmo, nega o seu feminino, pois é a Mulher a grande reveladora dos Mistérios...é Ela que une o Céu e a Terra; assim, sem a mulher, o homem é um ser puramente desnaturado, violento e vingativo. Ao estar incompleto ele divide a mulher também, em uma mulher "mãe", a santa e obediente ao marido (Eva) e uma mulher fatal, sexual, a prostituta ...daí o Caos do Mundo que ele criou...na sua face deus-pai, banindo e sacrificando a Mulher e a Mãe da Humanidade.
Sem acesso ao Mistério, que é Mãe, ele não tem acesso ao seu Feminino e ao Universo composto dos dois lados os polos opostos da Manifestação.
Mas o nosso maior drama é que a mulher não sabe de si nessa proporção de grandezas, a sua porque foi  diminuída e se tornou a  ínfima espécie, pelo Homem...ao dominar e destruir a Natureza e a Vida e a Mulher...escravizando-a como ser e prostituindo-a como mulher - dividindo-a em duas -  e tornando-a infame aos olhos do Homem.

AS mulheres acreditam nas religiões e num deus que sempre as ostracizou e condenou como pecadoras e culpadas; foram mortas e perseguidas como bruxas e queimadas vivas em fogueiras da Inquisição - são ainda apedrejadas, violadas e mortas...e em pleno sec. XXI continuam a seguir as mesmas religiões e credos que as castigaram ao longo dos milénios...
As mulheres são mesmo "servas do Senhor"...nunca se ergueram por si, sempre se submeteram a Lei de Deus e do Homem.

rosaleonorpedro