sexta-feira, novembro 16, 2018

A MULHER NUA



"A mulher nua olha para o horizonte. O horizonte é uma cortina de palmeiras. Vê uma mancha. É um enxame. De abelhas? Não, deve ser de vespas. Ou de galinhas tolinhas acossadas pela queda de um bago de milho do tecto do celeiro. Mas a mancha vai ganhando altura, forma e movimento dos fantasmas. Uma mancha que levanta uma nuvem de pó, como uma manada furiosa, pisando solo seco. Da mancha falante ela ouve sons demolidores como dragões subterrâneos a comandar temores de terra. Sons que lhe diziam coisas. Coisas que ela entendia. Outras que não entendia. Sente cheiro de leite. Ouve o choro de uma criança - ah, afinal é um bando de mulheres zangadas. Não compreendia porque estavam ali. Não compreendia aquela procissão, nem aquela zanga. O que queriam elas? Matá-la?
O grupo de mulheres furiosas precipita-se sobre ela como aves de rapina ávidas de sangue. Um grupo numeroso. Era o instinto de defesa comandando a marcha. Inquietação. Dentro das mentes assustadas, os mitos surgem como a única verdade, para explicar o inexplicável. Imaginavam as plantas a secar e a chuva a cair e a arrasar todas as sementeiras. O gado a minguar. Os galos a esterilizar, as galinhas a não chocar nem ovos nem pintos.
Aquela presença era o prenúncio do desaparecimento da espécie dos galináceos. Nas curvas da mulher nua, mensagens de desespero.
- Hei, o que fazes ai?
A multidão vê a mulher nua sentada num trono de barro, beira do rio. Na posição de lótus, colocando a sua intimidade na frescura do rio. Vê-lhe o interior desabrochado, como um antúrio vermelho com rebordos de barro. Vê-lhe as tatuagens no seu ventre de mulher madura. Vê-lhe o corpo esguio, pequeno, recheado á frente, recheado atrás, esculpido por inspiração divina. Vê-lhe a pele macia, de café torrado. Os lábios gordos como um tutano, cheios de sangue, cheios de carne. Olhos de gata. Vê-lhe o cabelo e sobrancelhas macias e fartas como novelos de seda, com gotas de água escorrendo sobre as costas, como contas de lagrimas, na grinalda de uma noiva.
- Escandalosa, sai já dai.
Os pés da mulher nua contaram já muitas pedras no caminho. Palmilharam vários destinos á busca de um tesouro. Como uma condenada a caminhar a vida inteira. Atiraram-lhe pedras por todos os lados onde passou. Expulsaram-na com paus e pedras, como um animal estranho que invadia propriedades alheias. As vozes queriam que ela desaparecesse. Mas desaparecer para onde se ela não tinha para onde ir? Compara as pessoas aos chacais, aos abutres. Não vê diferença. Há uma pessoa no abismo pedindo ajuda. A sociedade humana apressa-se a atirar paus e pedras, a pisar a mão com que te expressas por teu ultimo desejo.
A mulher nua levantou a cabeça. Balançava os olhos entre o céu e o horizonte na visão clarividente dos poetas.
- Hei, que fazes ai? – grita uma das mulheres.
- Quem és tu?
Ela olha para a multidão, com os olhos no limbo. Deve estar a ouvir a música do amor. Deve estar a viver paixões secretas que lhe vêm do outro lado do mundo. Talvez veja imagens em movimento. Ou sombras falantes. Dentro dela deve haver sentimentos, pensamentos, vozes, sonhos, histórias, canções de embalar. Que se apresentam numa amálgama, causando-lhe confusão na mente.
- De onde viste?
Ela é solitária. Exila. Estrangeira. Surgiu do nada na solidão das águas do rio. Vindo de lugar nenhum. Os seus pés parecem ter percorrido todo o universo pólo a pólo. Parece que nasceu ali, gémea das águas, das ervas, do milho e das arvores dos mangais. A vegetação pariu um ser.
Raiva e espanto no mesmo sentimento. Bem-aventurados os olhos cegos, que jamais verão a cor do terror inspirado por esta mulher nua. Algumas mulheres protegem os olhos da imoralidade. Da infâmia. Olham para o chão. As profanas rogam pragas em grossos palavrões. As puritanas benzem-se e colocam a palma da mão sobre o rosto como um leque. Fazem de conta que não vêm o que conseguem ver pelos interstícios dos dedos.
- De onde vieste tu?
As mulheres preparam o sermão do momento, feito de moral e ameaças. Ela escuta. Supera as ameaças com um sorriso.
- Quem és tu? – Insistiam as mulheres furiosas.
As pessoas gostam muito de identidades. Chegam a exigir uma certidão de nascimento para uma pessoa presente. Haverá melhor testemunho do que a presença para confirmar que nasci?
- Porque estás nua?
A mulher nua está demasiado cansada para responder. Demasiado surda para ouvir. Desespera-se. Quantas forças uma mulher deve ter para carregar a tortura, a ansiedade e a esperança. Quantas palavras terá a oração da eterna clemência a um deus desconhecido, cuja resposta não virá jamais?
- Usa a tua roupa, desconhecida.
A roupa dela está ali, molhada. Cobrindo os arbustos verdes como um guarda-sol.
- Vá, veste-te já, mulher!
- Mulher, não tens vergonha na cara? Onde vendeste a tua vergonha? Não tens pena das nossas crianças que vão cegar com a tua nudez? Não tens medo dos homens? Não sabes que te podem usar e abusar? Oh, mulher veste lá a tua roupa que a tua nudez mata e cega!
Ela responde com a linguagem dos peixes do rio. Sorri. Olha para o chão. Para o céu. Com brandura. Com candura. Os olhos emanam muita luz e uma miríade de cores. Ela é simpática. Ela é agradável. Tem dentes muito brancos. Completos. Ela é bonita. Tem sorriso de anjo. O que é que ela vê, para além do horizonte?
- Esconde a tua vergonha, mulher.
A imagem de Maria distorce o sentido mágico da nudez das sereias. Parece trazer o presságio da tempestade á flor da pele. Os corações se dilatam de piedade. De medo. Há mensagens escondidas nas linhas nuas do corpo. Nos grãs de areia. Na Via Láctea. Nas barbas do sol. Nas pálpebras da lua. Nas pegadas de um pescador qualquer á beira do rio. Nas rajadas do vento. Esta mulher não veio ao acaso. Mensageira do destino mau.
… Ameaçaram-na. Talvez ela assim tivesse medo e se vestisse. Mas ela acomodava-se ainda mais no seu espaço., sereia rainha em trono de barro. Ela vê os olhos da multidão. Mais escuros do que a noite…Sombras em movimento.
…Mas o exército de mulheres estava de mãos nuas. Confiavam na arma da língua. Da persuasão.
…As vozes da multidão ululam furiosas como uma onda. Era a superstição e o medo aliando-se como fios da mesma corda. Punhados de areia caem no corpo da mulher nua como chuva de granizo. O seu peito incha com a força do medo. Expira ar quente que o vento colhe para o infinito. E dá um mergulho no rio e navega na impulsão das águas, como uma ninfa rolando nas ondas…Já longe, a mulher nua sibila um riso venenoso, que cai como uma espada sobre as lanças do inimigo. E celebra o seu triunfo sobre a multidão.
Ali estava a heroína do dia. Protegida na fortaleza do rio. Num trono de água. Que venceu um exército de mulheres e colocou desordem na moral pública. Que desafiou os hábitos da terra e conspurcou o santuário dos homens.”

“O Alegre Canto da Perdiz” de Paulina Chiziane

sexta-feira, novembro 09, 2018

Onde a verdadeira mulher?


O MUNDO DA MULHER…

"A consciência da mulher é diferente; ela já percebeu as coisas quando o homem ainda tateia na escuridão. A mulher percebe as circunstâncias que a cercam e as possibilidades a elas ligadas, algo que um homem costuma ser incapaz. Por isso, o mundo da mulher parece-lhe pertencer ao infinito, para fora do tempo e para o transcendente, pode fornecer as indicações e os impulsos mais válidos. Essa transcendência é a sabedoria, e esta supera o saber intelectual...A mulher e tudo a ela associado parecem bem estranhos ao macho e, no entanto, isso faz parte de seu universo mais íntimo, à espera de se realizar por ele"

(p.172 J. Guendher, em yuganaddha, The Tantric View of live)


ESSA MULHER 

Acho que as  mulheres precisam de uma nova literatura cuja abordagem do feminino não esteja eivado dos mesmos conceitos, premissas  e pressupostos que foram e continuam a ser os da velha visão-cisão estreita e preconceituosa do homem sobre a mulher, a mulher dividida em duas…
A esposa santa e a amante perigosa, a mulher sem escrúpulos e a mulher pura do lar, a mãe dos seus filhos? a quem retratam com a mesma ignorância e arrogância, uma imagem diminuída de valor e cingida  aos estereótipos já gastos, da puta e da santa e as suas variantes "modernas"; mulheres sempre olhadas como sexys, mulheres objectos e abjectas ou objectos de culto ou de misoginia encapotada, por muitos homens que se dizem feministas e até por  alguns  homossexuais mal resolvidos e invejosos, não assumidos...como o são  homens ditos muito machos,  homofóbicos, e que não fazem mais do que esconder a sua "fragilidade."

A mulher e a sua sexualidade continua ainda hoje e apesar de todo o avanço social cultural e cientifico e tecnológico a ser manipulada e explorada até ao tutano por homens mentecaptos, frustrados, que nem sonham o que seja SER uma MULHER. Assim como grande parte das mulheres não sabem quem são em essência e vemos isso na maior parte de mulheres escritoras onde encontramos o mesmo discurso machista de  submissão aos valores patriarcais e que fazem retratos fieis desses estereótipos masculinos que as definem…. e que se veem assim a si mesmas afinal de contas e se definem nos seus romances como ...apenas "mulheres, filhas e amantes",  mulheres de sucesso, mas sempre divididas  entre vampes e vadias e senhoras sérias!
E afinal de contas onde está a MULHER-mulher, a mulher em si? Essa Mulher magnética e inteira  que enfeitiça e seduz e que foi Rainha e Deusa e Musa?

Onde a  verdadeira mulher? 


rlp

OS TRAVESTIS COMO SACERDOTISAS DAS DEUSAS


Não é meu costume publicar nada sobre o Homem em geral ou sobre Travestis  e quase sempre rejeito as teorias de Género assim como as ideologias  que as defendem, mas resolvi publicar este texto de uma amiga, Laura Serra, que fez estes comentários no Facebook a várias questões que eu coloquei e achei importantes e porque RESPEITO esta visão no sentido humano mais profundo e porque ela inclui a dimensão do Sagrado.
Portanto quando eu digo que a Mulher nasce mulher assim como o homem nasce homem à partida e isso não depende de cultura nem de ideologias, mas de biologia,  ela me respondeu:   


 OS TRAVESTIS COMO SACERDOTISAS DAS DEUSAS
“Efectivamente, no actual estado da tecnologia não é possível mudar integralmente de sexo. Não se consegue, ainda, mexer nos cromossomas. Quem nasceu XX não poderá ser XY, pelo menos para já, e quem for XY é porque assim nasceu.

A mulher não pode pois ser homem e o homem não pode ser mulher. O sexo não se escolhe. O género também não. Quem for travesti por natureza, não pode deixar de o ser, mesmo que tente. Não é um capricho ou uma moda, é uma forma de ser. Parece fácil ficar quieto e não vestir de mulher. É só não vestir. Nada parece mais simples do que deixar-se estar no sofá sem nada fazer, por exemplo, ou a ler, ou a ver televisão. Todavia, o corpo levanta-se e vai. É um fetiche? Bem, 'fetiche' é palavra francesa com origem cabo-verdiana que por sua vez vem do português 'feitiço'. Haverá algo mais poderoso que um feitiço? Feitiço também é encantamento. Encantamento e encanto são palavras com a mesma origem. Sucede o mesmo em Inglês, com a palavra «charm», que originalmente significa «feitiço». Houve quem jogasse com o nome de Vénus como tendo parentesco com 'venenum', 'veneno', que é uma poção, um encantamento. O travestismo 'fetichista' é o resultado de um 'veneno', um encantamento diante do sexo oposto, como se de uma radiação se tratasse. Tal como uma central nuclear emite radiação que pode ser mortal para os organismos que dela estejam mais próximos, também o homem travesti 'recebe' uma espécie de 'radiação' de uma mulher, ou determinado tipo de mulher, ou determinada(s) mulher(es), que o fazem sentir automaticamente como uma 'colónia', salvo seja, dessa mulher. Tal como o Império Romano colonizou terras bárbaras, romanizando-as - estas terras nunca ficaram civilizadas como Roma, mas também não voltaram a ser bárbaras como antes. Não se transformaram em Roma, mas ficaram romanizadas.
Não é, por outro lado, um produto dos novos tempos mas sim um retorno do que já existia em tempos arcaicos e agora retorna ao mundo ocidental, à medida que a repressão cristã se esboroa. Há dois mil anos um dos cultos mais disseminados em toda a área mediterrânica - portanto, em todo o Império Romano - era o de Cíbele, Magna Mater, originário da Frígia, na actual Turquia. Os sacerdotes de Cíbele entravam em êxtase, auto-castravam-se e viviam doravante vestidos de mulher, como já tive oportunidade de referir nesta página. A autoridade romana veio a proibir a auto-castração, mas o travestismo ritual continuou a existir. Não foi caso único. No Médio Oriente o culto de Atargátis também tinha sacerdotes travestis. No dicionário enciclopédico Koogan Larousse, o que está escrito a respeito dos sacerdotes é fenomenalmente actual: '...castravam-se no afã de se identificarem com a deusa'. Isto é de um culto anterior ao Cristianismo, não é uma invenção de bichas do Príncipe Real. Isto existe também na Índia, com os hijras que prestam culto a Bahuchara Mata, deusa que castigou homens fazendo-os vestirem-se de mulher. Que o travestismo seja aí visto como um castigo pode derivar da mentalidade patriarcal dominante; aliás, o travestismo começa sempre por ser sentido como uma forma de castigo mas depois evolui.

SOBRE O SAGRADO
Concordo inteiramente com a intenção de transpor tudo isto para a dimensão do sagrado. Creio que no mundo antigo tudo tinha uma dimensão sagrada, inclusivamente o travestismo. Daí a presença em cultos religiosos de sacerdotes efeminados, maricas, mas maricas no verdadeiro sentido do termo, o original, não o actual: o significado primeiro da palavra não é 'homossexual' mas sim, como dizem os dicionários mais vetustos, 'homem que se ocupa de funções de Maria (por mulher)'. Deusas como as que citei acima e outras: Cíbele, Atargatis, Tanit e, provavelmente, Argimpasa, Bendis, Artemis, Vénus, Hekate, Hera, foram servidas por sacerdotes transgénero. Não posso falar em nome de todos os transgéneros, ou sequer em nome de todos os travestis, mas também não posso deixar de pegar na palavra que muito bem empregou, o magnetismo. O magnetismo puxa e é isto que muitos travestis sentem - os travestis fetichistas, pelo menos. Estes sentem uma espécie de magnetismo da Mulher, a Mulher como abismo descomunal, a grande cavidade profunda que puxa para si, como um redemoinho nas águas, como as sereias do folclore, que, segundo a versão conhecida, atraem com os seus cânticos os marinheiros (homens) para a 'perdição', sendo esta 'perdição' entendida como a simples morte no fundo do mar, mas que eu pessoalmente gosto de pensar que pode ser a perdição da masculinidade, por assim dizer, como se a Sereia obrigasse ou convencesse o homem a ficar 'como ela', vivendo doravante como ela, num gineceu. Não é talvez por acaso que uma das deusas que referi, Atargatis, aparece por vezes concebida com rabo de peixe... Atargatis, deusa em cuja honra os homens se auto-castravam (até que essa prática foi proibida por um rei), também conhecida como 'Dea Syria', referida na obra 'O Burro de Ouro', de Apuleio, na qual se descreve um grupo de sacerdotes mendicantes que vagueia pedindo dinheiro, lendo sinas e impressionando as populações com o seu extremo grau de mariquice.

Quando o travestismo surge na mente de um homem, a auto-repulsa e a culpa são frequentes. De início nenhum travesti o quer ser, pelo menos na sociedade patriarcal que conhecemos. Tenta, tenta, tenta evitar tal pensamento, mas acaba por não conseguir fugir desse caminho. Imagina que uma determinada mulher, ou grupo de mulheres, o convence de que não é homem a sério e que portanto só lhe resta deixar-se feminizar. Compreendo que isto possa parecer estranhíssimo, sobretudo quando se tem em mente que a sociedade é patriarcal, mas cada pessoa tem o seu pequeno mundo e quando o mundo pequeno de um rapaz é dominado por mulheres - mãe, irmã mais velha, primas, colegas, tias, professoras, sabe-se lá, é conforme os casos - pode acontecer que ele enquanto criança sinta um certo apelo feminizante. Pode acontecer, não significa que aconteça forçosamente. Sei apenas que enquanto os rapazes com irmãOs mais velhos tendem a desenvolver homossexualidade, os rapazes com irmÃs mais velhas tendem a desenvolver travestismo. É uma habituação às circunstâncias, uma espécie de síndroma de Estocolmo aplicada ao género - eu chamo-lhe 'síndroma da Lídia' - ou se calhar é uma brecha para alguma verdadeira Cíbele, Hécate ou Vénus lá do Alto actuar neste mundo, quem sabe. Seja como for, isto angustia gravemente a criança do sexo masculino mas acaba por constituir, contra a sua vontade, a sua maior fonte de prazer erótico. É biológico?, é psicológico?, é cultural?... seja o que for, é mais forte que tudo. É uma obscenidade, uma 'vergonha', uma queda vertiginosa numa moleza 'criminosa' que prende com tentáculos, como uma aterradora e excessivamente macia lula das profundezas aquosas - é um feitiço. Que um marmanjo de grossa pele sinta que algo o compele a ficar tão 'amaciado', por assim dizer, como uma diva da música, da moda ou da esquina, eis o que se afigura como uma singular e não raras vezes ridícula monstruosidade, especialmente porque numa sociedade patriarcal, nada é considerado mais vil do que o homem que 'opta' (não opta, na verdade, não é coisa que se escolha) por encarnar o princípio do sexo oposto (ou o modo como o entende). Só quando se abandonam os valores rigidamente patriarcais se consegue valorizar o travestismo, à luz de uma outra escala de valores, sobretudo quando se toma conhecimento de que também a mariquice tinha em tempos a sua dimensão divina."

Laura Serra

quinta-feira, novembro 08, 2018

BRASIL - excelente retrato



Clara Ferreira Alves, 3 de Novembro de 2018, no Expresso

O PLANO DE DEUS

"Tomar o pequeno-almoço na casa de amigos brasileiros era um prazer. Nas boas casas do Rio de Janeiro ou São Paulo, casas de gente abastada mas não milionária, a manhã raiava com a mesa posta. Mãos invisíveis tinham posto a toalha de linho, os guardanapos, o queijo de Mina, o bolo cortado às fatias, os pães, as papaias e o mamão, as bananas, a manteiga, os sumos de frutas espremidas na hora, as compotas demasiado açucaradas. No fim viria o cafezinho e a mulher invisível. A criada. Ou criadas. Figura fugidia, a criada é tratada pelo nome, num tom afetuoso que desmente a realidade. Sai e entra com as coisas, faz desaparecer as sobras e arruma tudo em silêncio. A casa de uma das minha amigas, horrorizada com a vitória de Bolsonaro, tinha três criadas. Uma ficava durante a noite e as outras saíam, a turnos. Não é costume um hóspede aventurar-se na cozinha da casa, ou na copa, são as criadas que acorrem ao toque da campainha. O facto de eu mesma levar para a cozinha o copo vazio, a chávena de café e a casca da papaia desnorteava as criadas, que vinham a correr salvar-me do peso insuportável para as minhas mãos finas e brancas. As criadas eram negras ou mulatas. Nunca vi criado branco nas casas confortáveis. E tinham nomes exóticos, nomes de pobre iletrado, com consoantes difíceis, vogais abertas e acentos graves e agudos. Este é o país da Cafiaspirina da Silva.

Nos fundos da casa, num espaço de três por três metros quadrados, jaz o quarto da criada, uma cela sem luz com catre. O quarto não é usado numa base permanente, destinado apenas a uma, duas ou três noites, por turnos. Quando não ficam no quartinho, onde ficam? Comecei a ir à cozinha fazer perguntas. Uma vivia na Baixada Fluminense, uma favela nos antípodas da Zona Sul do Rio. Terra de antigos escravos e migrantes do interior. Para lá chegar perdem-se horas nos engarrafamentos. Daí a vantagem do quartinho, quando a patroa dá um jantar ou cocktail. A Baixada é medonha. Favelão inacabado de cimento e tijolo, ruelas esgueiradas por entre morros e riachos podres. Dentro da Baixada crescem as subculturas criminosas, de que o tráfico de droga é a atividade principal atraindo os tanques e as tropas. A violência faz parte da vida e quem não quer que os filhos se tornem “marginais” passa negra vida a tentar defendê-los num país sem sistemas sociais de proteção, educação, saúde. A criada tinha dois filhos pequenos. O rapaz ficava para trás e a menina vinha às vezes com ela porque tinha medo de a deixar à mercê do bairro de lata. Tiroteio era banal e o pai estava preso. A criança, uns oito anos, era linda. Pele de café com leite e um cabelo fulvo, herança de branco que por ali andou e desandou. Numa noite de convidados, a menina entrou com uma travessa de canapés. Levantei-me e retirei-lhe a travessa, servindo eu os canapés. No meu país, e na Europa, não somos servidos por crianças, disse. Os brasileiros fingiram que não se passava nada e nem comentaram, engolindo em seco. Questão de boas maneiras, devem ter pensado. O assunto morreu à nascença. A criança recolheu à cozinha e a mãe começou a chorar. Dias depois, perguntou-me se havia alguma chance, chance disse ela, de virem para a Europa. A mulher era semianalfabeta, devia ter uns trinta anos. Disse que não. Na Europa, uma pessoa sem ninguém e que mal sabe ler e escrever não sobrevive. E no Brasil?

No Brasil, estas vidas miseráveis e desesperadas, tristes como uma doença crónica, sobrevivem em dois territórios paralelos, o material e o espiritual. O crime e a violência como vingança e seleção natural, e a religião e a superstição como salvação. Os criminosos criam as suas periferias morais, e a religião, aliada ao analfabetismo, à crença no sobrenatural que floresce nos trópicos, à necessidade do milagre e à subsistência de antiquíssimos rituais africanos animistas misturados com as promessas missionárias, tece uma manta de retalhos do cristianismo esfiapado. Neste território nasceram os prolíficos evangélicos e todos esses cultos primitivos e supersticiosos que acreditam numa só palavra. Por não terem salvação em vida, têm de acreditar que Deus tem um plano para eles.

O Brasil tinha recursos naturais para dar uma existência decente a toda a população, uma vida mais norte-americana, mas as classes dominantes, a minoritária dona do dinheiro, e da dívida e do PIB brasileiros, e a minoritária burguesia entalada entre os pobres e os multimilionários, onde cabe muita gente de bem e bem intencionada, nunca estiveram interessadas em educar e elevar os miseráveis que os servem. A favela está encostada ao condomínio de luxo, o sequestrador é o marido da ama, o motorista é o ladrão das joias, o porteiro é o assassino, e nessa proximidade e promiscuidade onde todos estão dependentes de todos e o ódio de classes é um sentimento comum, o Brasil tornou-se um país à parte. Onde ricos e pobres são obrigados a viver uns dos outros e uns com os outros. O rico precisa dos criados. Os criados precisam dos patrões. Quem vai servir o pequeno-almoço? O Brasil nunca transcendeu a sociedade pós-colonial que é. O Partido dito dos Trabalhadores também não o fez.

E assim veio o anjo negro Bolsonaro pairar sobre este mundo atrasado e naturalista, agitando as asas da salvação depois de se ter banhado no rio Jordão. Deus tem um plano para ele, diz ele.


Não se riam."

quarta-feira, novembro 07, 2018

A ARTE E A CULTURA DO VAZIO



O  MATERIALISMO E O CONSUMISMO ECONOMICO "CULTURAL" E MENTAL…


Esta sociedade cada vez mais consumista, materialista  e falocrática criou esta pressão-tensão SEXUAL, criou este mito da mulher símbolo e do homem macho…ou... TRAVESTIADO, em que não dá lugar ao SER diferente, ao homem feminino na essência, nem da mulher real e tudo se pauta pela sexualidade genital, a mais básica, quase sempre abjecta ou viciada, instrumentalizada.
Ao sobrevalorizar essa sexualidade contribuiu-se para que os gays se tornassem actores e vítimas de uma idolatria falocrática, e para isso, o próprio lobby vai acentuar esses valores num hiper-machismo em detrimento dos reais valores do feminino seja no homem seja na mulher.Tal como podemos agora ver a ideologia do género que subverte todos os princípios e a própria natureza tornando o ser humano uma coisa cultural e social, um ser hibrido, um demente culto e viciado...
Deste modo, mesmo os indivíduos supostamente mais evoluídos, vivem sem qualquer consciência da essência do ser em si – nem entendem  a coexistência dos aspectos feminino e masculino dentro de cada ser e as suas dicotomias - acabam por se desresponsabilizar perante uma verdadeira evolução e consciência ontológica, de uma ordem interior inata, digo ainda de uma consciência superior e de um Conhecimento profundo: A vida em si e a importância da sua dinâmica interna-externa, para lá de todas os estereótipos, das aparências e formas, na interacção dos pólos opostos complementares, feminino e masculino, o Yin e Yang do Tao, o Uni+versos.
rlp

terça-feira, novembro 06, 2018

a palavra...



"Le nom sur le bout de la langue"*

Falo...de algo misterioso que falhamos sempre humanamente na linguagem talvez ou do que se não consegue dizer ou saber e parece estar mesmo a ali...debaixo da língua...

"toute parole cherche à joindre quelque chose que s' echappe. Tout nom ouvre la nostalgie qui se tient derriere la nostalgie, cette souffrance du non-retour es langage"...


"C' est la nostalgie de ce qu' elle n' etreint pas."

* Pascal Quignard

segunda-feira, novembro 05, 2018

A ALIENAÇÃO DOS POVOS



A POLITICA UMA MENTIRA ORGANIZADA

"Eu desprezo a política de forma incondicional... mesmo no meu próprio país, estou desinteressado na política porque estou convencido de que 99 % da política são meros sintomas e tudo menos uma cura para os males sociais. Cerca de 50 % da política é definitivamente detestável, na medida em que envenena a mente totalmente incompetente das massas." Carl Jung


As pessoas estão cada vez mais ensandecidas. De facto já não há valores nem princípios. Os extremos invertem-se de forma assustadora e as piores pessoas as mais violentas matam em nome de deus... Gera-se o caos absoluto no Mundo e nas mentes pervertidas pelo nazismos ou marxismo cultural e os reais valores da alma e do espirito são subvertidas por gente materialista e vazia.

Os extremismos de esquerda e direita confundem-se e obedecem ambos a esquemas de destruição maciça do planeta...com armas e com guerras, conflitos e ódios…
Ditadores facínoras, homens sem ética nem moral, foram eleitos em grandes países, como a América e agora o Brasil, cujos povos a caminho do abismo a custo de uma brutal desumanização das pessoas, com apelo às armas, são convertidas em números ou em máquinas e robots.
As pessoas pagas por grandes imperialistas como SOROS, apostado em destruir a civilização cristã e os políticos vendidos ao Sistema patriarcal negam a Mãe e a Mulher e a sua essência e vendem a alma ao diabo.

Não sou crente nem seguidora de nenhum deus, mas esta inversão dos seres humanos, esta perversão dos Princípios da vida, deixa-me aterrorizada...ninguém tem noção de nada...tudo é vendável e fútil...e as pessoas transformadas em monstros, apelando a uma sexualidade animal, baseada em ideias e ideologias de género, amputando-se ou transformando-se em seres híbridos, transexuais otransgéneros. Tudo isto está em curso em nome da liberdade e da igualdade de géneros…

O Mundo não se está a TRANSformar para melhor, mas a formar monstros, seres sem coração, homens que não são homens, mulheres que não são mulheres e o mais grave é que começam a atacar as crianças, a transformá-las em objectos.

Há qualquer coisa de macabro a correr neste mundo e ninguém quer ver nada...
Pessoas "inteligentes" que defendem o indefensável…

rlp


... "A Erótica não é este desespero que os humanos confundem com Amor quando eles lançam cegamente uma ponte sobre o seu próprio vazio, para não enfrentar a sua ausência, em relação a uma imagem que eles próprios criaram sem disso terem consciência”*
(…)

* In O LOUCO DE SHAKTI – REMI BOYER

UM MUNDO MELHOR


"Um mundo melhor é impossível enquanto não houver liberdade de espírito, do corpo e antes de tudo a linguagem das mulheres."


NAWAL SAADAWI
(autor activista e psicólogo egípcio)



UMA MULHER É UMA MULHER É UMA MULHER É UMA MULHER...

"Era uma vez uma mulher. Essa mulher era amada. Por ser amada, era reconhecida como inteira em si mesma. Por ser reconhecida, era livre para existir. Essa mulher vivia com os pés na terra e a cabeça nas nuvens, possuía todos os atributos de uma deusa. Era humana e ao mesmo tempo divina e havia algo de selvagem em seus olhos que nenhuma civilização ou religião poderiam domar. Por isso mesmo, essa mulher foi temida e, por ser temida, foi reprimida e banida do convívio dos demais. Ela foi queimada nas fogueiras da ignorância, amordaçada nas malhas da censura, presa nas correntes da indiferença. Após tantos séculos de repressão, aqueles que a haviam desprezado acreditavam que sua luz havia finalmente se extinguido; que sua natureza selvagem e aterradora havia desaparecido por completo. Porém, essa mulher faz parte da própria natureza, ela é a própria natureza e não pode ser aniquilada. De sua completude temos apenas resquícios mas ela sobrevive nas histórias e nos contos de fada e no fundo da alma de todos, homens e mulheres que sentem um profundo sentimento de vazio e solidão em suas vidas."


Clarissa Pinkola Estes


sexta-feira, novembro 02, 2018

NÃO HÁ SORORIDADE ...



SEM RESOLVER A CISÃO DA MULHER NÃO HÁ SOLUÇÃO PARA A RIVALIDADE ENTRE MULHERES…

As mulheres falam em sororidade e procuram respostas para a rivalidade entre mulheres, mas apesar de todos os esforços não conseguem ter sucesso a não ser superficialmente ou aparentemente porque o conflito entre mulheres tem a ver com a sua cisão interior, a sua divisão psíquica entre os dois modelos ou arquétipos - basicamente a Virgem Santa e Maria Madalena a pecadora - que a religião católica e a família tradicional ou comum modelam a mulher desde que nasce e a divide dentro de si (entre a santa e a puta)  e isso reflecte-se fora no antagonismo com as outras mulheres quando se veem na sua face oposta... 

As mulheres tem uma espécie de má fé em relação a qualquer outra mulher; há sedimentado nelas um antagonismo criado por essa divisão e pela educação patriarcal religiosa que denigre e inferioriza as mulheres e as coloca em guerra umas com as outras . E mesmo quando há afinidades de pensamento e ideias comuns, mais tarde ou mais cedo esse antagonismo, que é sobretudo de foro emocional e psíquico, ele emerge do inconsciente e acaba por se reflectir no convívio entre mulheres e de forma mais ampla ainda e quando se digladiam por causa dos homens...
As mulheres e sobretudo as feministas falam, nem sempre, mas no caso desta entrevista a autora foca o problema, mas apenas tendo  essa percepção do que é uma evidência mas sem, como disse, tocar o amago do problema e assim não há forma  de resolver esse drama que é transversal a toda a sociedade e que  faz muito do seu trabalho cair por terra, mas elas nunca conseguem tocar na verdadeira ferida que é inicialmente a relação com a mãe e o facto de serem filhas do Pai…
Além de não entenderem esta questão básica afastaram-se bastante das primeiras feministas que tinham uma maior percepção de como as mulheres eram afectadas pelo mito católico...

Como diz Maria Deraismes jornalista francesa que fundou em 1869 séc. XIX a Associação para os direitos das mulheres em Paris onde nasceu em 17 de agosto de 1828 - tendo falecido a 6 de fevereiro de 1894:
"O cristianismo ressuscitou Maria. Mas essa transformação das deusas pagãs numa virgem cristã marca um progresso para o género feminino? Certamente que não. Nós estamos longe de uma Atena, de uma Diana, de uma Deméter, que iluminaram a humanidade e lhe deram leis. Maria, a partir de então o ideal de mulher no cristianismo, é a encarnação da nulidade, do apagamento; a negação de tudo quanto constitui a individualidade superior: a vontade, a liberdade, o carácter."

Na verdade as  feministas acabaram por negar essa Maria e um sec. depois já ninguém fala nisso...mas o facto é que esses estereótipos estão enraizados na sociedade e as famílias, pais  mães tias e avós ainda veiculam esses sentimentos e os projectam nas filhas…
Quanto a mim não haverá Sororidade enquanto as mulher não fizerem essa união das duas mulheres dentro de si   e resolverem ou pelo menos consciencializarem o seu drama (rejeição) e conflito com a Mãe, a sua ferida que vem de trás de mãe para filha, há séculos…

Deixo-vos um excerto de entrevista desta feminista mexicana Marcela Lagarde -  Fundadora Associada da Rede de Pesquisadoras pela Vida e a Liberdade das Mulheres. É a maior referência do feminismo na América Latina. Ativista e teórica, dedicou-se estudo antropológico da condição feminina, tem realizado diversas publicações não impressas, tratando temas como o cativeiro, cuidado, sexualidade, amor, poder, trabalho, violência, subjetividade, religião, direito, maternidade, sororidade, etc.[2] É autora de numerosos artigos e livros sobre estudos de gênero, feminismo, desenvolvimento humano e democracia, poder e autonomia das mulheres, etc.


¿Por qué insistir en la sororidad?

Hay una necesidad muy grande de intervenir de una forma positiva en las relaciones entre mujeres porque estamos en muchos espacios en los que hay que desarrollar habilidades importantes y lograr metas: desde la escuela hasta la universidad, el trabajo, el salario, la productividad; esos elementos hacen que compitamos muchísimo por el espacio, por el trabajo, por la amistad de una persona y más la tradicional competencia de “ser la mejor mujer, mamá o esposa” en relación con otras y eso crea un ambiente propicio a la rivalidad entre mujeres.


En este contexto, ¿la rivalidad es negativa?

La rivalidad entre mujeres hace que se beneficien las estructuras del poder patriarcal, los machistas y las mujeres y hombres misóginos.

Procuro y recomiendo no hacer relaciones rivales, sino aprender una nueva ética de apoyo, respeto y concordancia para estar mejor en las relaciones con mujeres y sacar provecho.

Hay que hacer consciencia de lo complicado que es entrarle a un conflicto permanente con otras. Lo indeseable que es, lo que nos daña y recorremos esos espacios y vemos sufrimiento de mujeres por las relaciones conflictivas con otras: jefas que son nefastas con sus colaboradoras, o trabajadoras o colegas que son una constante molestia para las relaciones de cooperación que deberían prevalecer.

Entonces, ¿cuál es la propuesta?

La propuesta feminista es desmontar ese afecto rival por nosotras, ese pensamiento propiciado contra las demás y buscar un proceso de reeducación afectiva e intelectual, ir cambiando nuestras opiniones hacia las demás, verlas como compañeras, entender que son mujeres como nosotras, que enfrentan dificultades familiares, conyugales y laborales.
(…)
Marcela Lagarde 

quarta-feira, outubro 31, 2018

O HOLOCAUSTO DAS MULHERES







BRUXAS - O EXTERMÍNIO DAS MULHERES...

“No séc. XVII, desencadeou-se, como se sabe, uma campanha de extermínio contra estas mulheres, que passaram à história convertidas em bruxas. A natureza sexual dos jogos e círculos femininos foi também estudada a partir das letras das suas canções que chegaram até nós (1). O hábito quotidiano das mulheres se juntarem “para bailar”, e para se banharem, é ancestral e universal, e dá-nos um vislumbre do espaço coletivo de mulheres impregnado de cumplicidade e baseado na intimidade natural entre mulheres, que hoje apenas prevalece em recônditos lugares do mundo. Em África, existem aldeias onde as mulheres ainda se reúnem à noite para dançar (bailes claramente sexuais, como se pode ver numa reportagem do Sudão (2). A imagem das mulheres do quadro “o Jardim das Hespérides”, de FredericK Leighton (séc. XIX) é outro vestígio dessa relação de cumplicidade e de intimidade entre mulheres.
Os hábitos sexuais das mulheres remetem-nos para a sexualidade não falocêntrica das mulheres; para a diversidade da sexualidade feminina, e a sua continuidade entre cada ciclo, entre uma etapa e outra. Uma sexualidade diversa e que se diversifica ao longo da vida, cujo cultivo e cultura perdemos. (…) Vivemos num ambiente em que o sistema libidinal humano, desenhado filogeneticamente para travar relações humanas, está congelado. Hoje as mães vivem longe das suas filhas e as avós vão de visita a casa d@s net@s; a pessoa de família que nos dá a mão quando adoecemos vive no outro extremo da cidade, e mal conhecemos o vizinho ou a vizinha" (…) - Cacilda Rodrigañez Bustos


O HOLOCAUSTA DAS MULHERES

- Porque não se fala dele?

"As mulheres temem ser chamadas de bruxas por razões históricas de peso. A Inquisição foi criada em 1252 pelo papa Inocêncio IV e a tortura prosseguiu durante cinco séculos e meio até ser abolida pelo papa Pio VII em 1816. Entre 1560 e 1760 a perseguição de mulheres por bruxaria atingiu o seu auge. É chamado a este tempo o “holocausto das mulheres”. Estima-se entre cem mil e oito milhões o n.º de mulheres condenadas á morte na fogueira.


As mulheres mais temidas ou respeitadas foram as mais perseguidas. Entre as primeiras a serem queimadas, incluíam-se as parteiras e as curandeiras, as velhas que facilitavam o trabalho de parto e ajudavam as mulheres a darem á luz, que conheciam as ervas medicinais e cujos poderes provinham da observação e da experiencia. As mulheres com autoridade e experiencia ou conhecimentos, as mulheres excêntricas ou as mulheres com posses, normalmente viúvas também eram denunciadas, sujeitas a tortura e condenadas. Qualquer mulher idosa corria riscos, para sobreviverem, era preciso que não dessem nas vistas nem se distinguissem. Só as mulheres idosas invisíveis permaneciam vivas.
(...)
in As Deusas em cada Mulher, a Deusa Interior, de Jean Shinoda Bolen, Planeta Editora.