segunda-feira, setembro 24, 2018

A NEGAÇÃO DA HUMANIDADE NO SEXO FEMININO



A ORDEM PATRIARCAL…

"Se Deus no "seu" céu é um pai governando o seu povo, então é da "natureza" das coisas e de acordo com o plano divino e a ordem do universo que a sociedade é dominada pelos homens. Neste contexto, a mistificação dos papéis ocorre: o marido dominando a esposa representa o próprio Deus. As imagens e os valores duma determinada sociedade foram projetados no reino dos dogmas e "Artigos de Fé", e estes, por sua vez justificam as estruturas sociais que lhes deram origem e que sustentam a sua plausibilidade."

Beyond God the Father (Para lá de Deus Pai)
Mary Daly, teóloga feminista


COMO É ENCARADO O FEMININO NAS SOCIEDADES OCIDENTAIS…

"Porque esta obsessão da negação das mulheres pelas religiões patriarcais?

Esta impureza das mulheres mas mais do que isso, esta profunda misoginia, esta negação da humanidade no sexo feminino, encontramo-la nas três religiões monoteístas de forma exacerbada.

Também a encontramos noutros lugares. Esse caminho também foi percorrido pela Índia. Mas aquilo que espanta e também nos atrai é que ainda persiste a imagem do Grande Feminino.
Nos templos, podemos encontrar a divindade feminina. Enquanto no ocidente, tem-se a impressão de se tratar apenas de folclore bárbaro, pura imaginação. Mesmo com as universitárias, falar do divino feminino parece lhes algo de carnavalesco. Para elas o divino feminino é unicamente mítico. Elas não vêm que o mito foi história. É nesse ponto que se fixa o meu trabalho. Contrariamente ao que dizia Jung, a mitologia não é um arquétipo fixo, é também história. Ora se ficarmos no mito apenas, por exemplo, o das amazonas, das mulheres fortes, portanto no inconsciente colectivo, isso não fará mal a ninguém porque o castramos da sua historicidade para deixar isso numa terra de ninguém, fora do tempo e do espaço. Então é aí que se torna curativo sublinhar que existiu um outro feminino para além da visão patriarcal, que não foi nem sujo nem demonizado. O casamento sujo é o casamento patriarcal, que é o casamento de um dominado e de um dominador. " - Entretien avec Françoise Gange - Février 2001


AS MULHERES COMO VITIMAS E SERVAS DO SISTEMA

A VIOLÊNCIA CONJUGAL - a violência doméstica em casa, a violência na justiça e a violência na policia - sempre contra as mulheres é inerente ao Sistema … acusa-se sempre a mulher e absolve-se os homens!

A causa original de toda a violência sobre a mulher é, como vimos, o Casamento versus Prostituição, como instituições fundadoras e base da Família, onde as mulheres levam pancada se não obedecerem aos maridos e os pais levam os filhos aos Bares, ou Bordéis…

Sim Juizes e Policias matam mulheres e as condenam - a verdade é que eles são os mandatários do Sistema patriarcal e não são diferentes do homem comum seja o violador seja o abusador, pois nada muda com a Lei porque as mentalidades dos homens não mudam enquanto o Sistema for o mesmo.

(Ah, isso era antigamente, agora já não… dizem...e a mim faz-me rir…)

As mulheres porém, deve-se dizer que são elas também, neste e noutros contextos, pela sua formatação machista (ou feminista), identificação com as ideologias marxistas e teorias patriarcais, as grandes traidoras da sua  causa primeira, que é SEREM MULHERES. Ignoram quase todas a VIOLÊNCIA CONJUGAL, pela sua subordinação ao macho, a sua servitude em termos culturais e até eróticos (copiando e sendo fiel aos estereótipos da santa ou da puta) e aceitam passivamente todo o tipo de violências, seja sexual, física ou psicológica que sofrem todos os dias, passivas e vendidas por uns patacos ou por segurança, um nome, ou um filho, a este Sistema que as aprisiona e faz delas servas e vitmias.

Em Portugal nenhuma artista, por exemplo, que eu saiba, nenhuma mulher denunciou abusos nas "artes" e no cinema ou se identificou com o "ME TOO". Elas são assim coniventes com o patriarcado. Estão tão embrenhadas nos seus valores que nem se apercebem dessa violência e aceitam-na passivamente e acreditando, aquelas que se afirmam na vida profissional, na ideia ilusória de uma emancipação, não percebendo como estão atoladas até aos cabelos… vivendo mergulhadas no ego masculino, tão perdidas nas suas lutas pela afirmação  de uma "igualdade" - muitos movimentos feministas e de esquerda são causadoras dessa alienação de uma suposta igualdade que nunca existiu, porque há uma diferença ou uma desigualdade que é biológica e não social   - que se esqueceram de ser MULHERES per se e são elas as primeiras inimigas potenciais das outras mulheres que ousam ser Mulheres inteiras ou que se afirmam a margem desses valores!

rosaleonorpedro

OS CURAS E AS CURAS...





OS CURADORES DOENTES…

Fico perfeitamente perplexa quando vejo pessoas - mulheres e homens - sem qualquer qualificação ou experiência de vida profunda e anímica, proporem-se ensinar o que quer que seja aos outros e pior ainda ou mais grave, a querer curar e tratar doenças de foro psicológico ou físico...sem nenhuma preparação humana. E isso é o mais comum acontecer até mesmo entre profissionais de saúde como o são tantas vezes os médicos e os psicanalistas que não tem qualquer idoneidade para tratar as pessoas para além da sua formação estritamente racional, do seu saber mecanicista e teórico, quanto mais um curioso de xamanismo ou de não sei que novas técnicas, a querer tratar e curar seres humanos, quando no plano espiritual por assim dizer as coisas são muito mais exigentes e requerem absoluta humildade e seriedade.

Mas não, eu vejo pessoas sem dimensão nenhuma humana, sem um saber intrínseco, sem dimensão espiritual, sem capacidade sequer de se amar ou amar os outros, sem vivência alguma que lhes permita sentir os outros e irradiar amor, compreensão e harmonia...a querer tratar o seu semelhante - e isto é hoje em dia uma praga!

E o que vemos é por vezes bem pior do que vemos nos Hospitais e nos Centros de saúde em geral, pessoal técnico e "qualificado" de acordo com os quadros, sem qualquer capacidade de empatia humana, a destratar ou a tratar mal os doentes, trata-los como coisas...as vezes com impaciência e desprezo, como se os doentes fossem "animais" ou seres anormais...e agora aparecem de todos os lados pessoas, homens e mulheres que sem qualquer formação técnica, tendo um cursozeco de fim de semana ou de 3 meses a querer curar e ajudar pessoas a curar-se?

Sinceramente não percebo como se pode andar a enganar as pessoas mais frágeis e fracas porque doentes, quando o terapeuta devia ter uma total coerência e empatia com a pessoa humana… o que sem duvida implicaria uma realização interior e uma sabedoria profunda que só a vida dá ao fim de muitos anos e de alguém que já percorreu um caminho! Aquilo que antigamente só os sábios e as pessoas idóneas faziam, agora qualquer criaturazinha vinda do nada se acha mestre de tudo...e vem para a praça publica fazer publicidade das suas curas e "magias", dos seus dons? 

rlp

domingo, setembro 23, 2018

AS TEMPESTADES



"O SILÊNCIO DOS PÁSSAROS


Na civilização, vemos a natureza ao longe, mediada por ecrãs e máquinas. Se estivermos dentro do fogo e da água, sujeitos à violência dos elementos, aprendemos a respeitar a natureza em vez de acabar com ela.


Dizem que os pássaros ficam em silêncio antes do terramoto. Não é só quando a terra treme que os pássaros se calam. Antes de uma grande tempestade, entra a quietação. Ninguém repara. Só a gente que vive em íntimo contacto com a violência da água, da terra, do fogo e do ar, muita desta gente tribal e rural, ocupada com a rudeza do trabalho manual e afastada da sociedade digital, escuta o silêncio e a ameaça que contém.

Este agosto, estava num barco no Golfo de Tonquim, no mar da China do Sul. O barco, um velho junco de madeira do tempo colonial, sólido e estável, navegava sem pressa. Naquela região, os barcos de turistas desaparecem e o mar é uma coberta verde-escura, ondulada pela monção. O sol flutuava por cima das escarpas das ilhas, e o calor húmido sufocava a intenção do movimento. Respirar faz suar. Nas escarpas, milhares de pássaros cavavam um som de paraíso e voavam minúsculos por entre a vegetação selvagem, uma rebentação verde e misteriosa, e o mar liso. O único som era o das aves e o do motor do barco a deslizar devagar. Ao nascer do sol, não se via uma nuvem no céu rosado. Ao cair do sol, o céu de cinza anunciava chuvada mas não era um céu enevoado, era liso como o mar. Soubemos que ia cair uma tempestade vinda da China, que descia a costa. A tripulação arrepiou caminho e movimentou o barco na direção de um lugar abrigado entre ilhas em círculo. A noite chegou e a tempestade parecia ter desistido. Dentro do barco as pessoas comiam e bebiam, cantavam. O irlandês insistia em cantar baladas e poemas com uma bela voz. Na proa e na ré, havia quem se dedicasse a pescar lulinhas. Não se via a lua, e o céu era uma massa negra sem estrelas. Uma meia dúzia de barcos começara a ancorar para a noite, todos avisados da tempestade. Eram barcos maiores, uns de fibra de vidro, outros de madeira e bojo largo. O nosso junco era o mais pequeno.

Quando fui sentar-me à ré, reparei que um grande silêncio descera sobre a paisagem. O mar, os barcos, os rochedos, a terra, o céu. Não se ouvia um silvo, uma aragem. Com os motores desligados, os barcos boiavam na quietação. Dos outros barcos não chegava o barulho, apenas se viam as luzes. Estavam demasiado longe. No deck da proa, descoberto, o irlandês fizera uma pausa. O silêncio estava cheio de premonições, um silêncio que tem de ser escutado com atenção para ser percebido. Os animais não soltavam um som. Perguntei ao capitão se ele ouvia o silêncio e ele disse que sim. O silêncio anunciava a tempestade. Para as bandas da China, os relâmpagos começaram a clarear a noite, grandes colheradas de luz. Era como se, algures, o dia amanhecesse a espasmos. Antes dos trovões, a chuva chegou. Primeiro, uma chuva fina, que as luzes do barco iluminavam como se fossem arames cortados em diagonal numa grade de água. E de repente, por volta da meia-noite, a tempestade estava sobre nós em força. Os relâmpagos sucediam-se e os trovões eram tão fortes que tinham tomado conta de tudo, uma violência puramente sonora. A trovoada mais forte que ouvi na vida, abafando o som das vozes dentro do barco. Os pescadores recolheram aos camarotes, o deck apagou as luzes e o irlandês calou a balada. Veio a chuva em cordas de água, uma água que açoitava o barco e o fazia rodar sobre si mesmo. O barco desenhava um círculo, rodando com a tempestade. O vento era agora um ciclone, rajadas de chuva e ar que se abatiam sobre os barcos como num furacão. E não era um furacão. Era uma tempestade marítima tropical, mais forte do que se previra. Os barcos deveriam ter regressado ao porto, a tempestade tinha sido subestimada. No meu camarote, a chuva entrava por todos os buracos do teto e da janela, e descia pelas luzes e o altifalante, que tinham por trás fios escondidos. Desliguei todas as coisas elétricas, e fiquei na escuridão a escutar a natureza. Era medonho ouvir a tempestade e sofrer a ira dos ares e da água, temendo que o fogo irrompesse de um curto-circuito nos fios molhados. Nenhum socorro poderia romper a tempestade, nenhum barco chegaria a outro. Nenhum bote aguentaria no mar que se revoltava em ondas picadas de vento que espumavam enfurecidas. O mundo mudara. Tudo na paisagem estava agora contra nós, os seres humanos. Tudo parecia querer aniquilar-nos, extinguir a nossa espécie. O barco rodava veloz sobre si mesmo, uma casca desamparada. A madrugada acalmou e regressámos ao porto sãos e salvos. A viagem foi interrompida.

A razão pela qual as pessoas não querem saber da sorte do planeta, nem do aquecimento global, da poluição dos ares, da morte das árvores, da agonia dos animais, dos furacões e das tempestades, dos mares de plástico, dos degelos e das secas, dos incêndios selvagens e das inundações, é simples. Na civilização, vemos a natureza ao longe, mediada por ecrãs e máquinas, solicitada pelos confortos da supremacia humana. Protegidos pela tecnologia, a previsão e a distância. Se estivermos dentro do fogo e da água, sujeitos à violência dos elementos, aprendemos a respeitar a natureza em vez de acabar com ela. Condenámo-nos por preguiça e egoísmo, e já se ouve o silêncio dos pássaros no planeta Terra."


Clara Ferreira Alves

sábado, setembro 22, 2018

AS MULHERES SÃO A ALMA

"Apesar dos discursos que se pretendem feministas, apesar de importantes concessões feitas ao apostolado das mulheres, a regra é sempre masculina: só um homem pode representar Jesus, e, portanto, Deus pai, pois admitir as mulheres à função sacerdotal seria voltar aos cultos julgados escandalosos anteriores ao cristianismo." - Jean Markale


A CONFUSÃO DOS SEXOS...


Voltando à Profundidade da Mulher...

Sem a Mulher das profundidades não pode haver compreensão do verdadeiro feminino, nem da essência, logo do papel da Anima …e mais uma vez, não só nas velhas religiões como na psicanálise moderna, os homens do “conhecimento racional” inverteram o sentido das essências masculino e feminino atribuindo o animus à mulher e à anima ao homem…



A NATUREZA DESCONHECIDA DA ANIMA É A NATUREZA OCULTA DA MULHER, é a sua natureza escondida e negada nos séculos de religião e cultura e ideias masculinas, de filosofias e da arte apolíneas, que provocaram um branqueamento da mulher original, da mulher ctónica; séculos de desmembramento e desfragmentação do ser mulher em si, da mulher inteira - a partir do momento em que a mulher foi dividida em duas a do lar e a da rua, e se tornou uma função mais do que um ser individual, esse apagamento e essa aculturação causaram uma ausência total do sentido do que é ser mulher como ente, projectando uma metade mulher, “ideal”, “moral” religiosa, artística, romântica, a mulher fragmentada que sobrou das muitas divisões seculares entre Eva, cada vez mais asséptica e vazia de entranhas …e Lilith, completamente esquecida e relegada para os infernos, pelo único deus reinante dos patriarcas, suprimidas todas as deusas, assim como o poder vivificante e destruidor das forças ctónicas a elas associadas. É dessa mulher anima varrida do consciente humano, soterrada nas memórias mais arcaicas que os homens da psicanálise e da psicologia das profundidades buscaram sem compreender que a mulher que eles conheciam era uma pálida imagem dessa mulher anterior ao paleolítico, da Mulher sacerdotisa, da Mulher Musa, da Rainha, da Mulher da Origem…

Assim, os melhores autores, e os mais conceituados, abordaram o tema da Anima como o feminino do homem e o Animus como o masculino da mulher sem perceber que a verdadeira Anima, o seu feminino profundo, estava completamente desligado da mulher dos nossos dias…e que tanto homens como mulheres não poderiam sequer equacionar a questão do feminino/masculino sem que a mulher resgatasse o seu eu profundo das profundezas do seu ser, do mais abissal da sua memória…e esse é um trabalho da Mulher e não do homem! Penso que por isso mesmo estamos completamente e culturalmente confusos/as com a identidade do ser humano e a função de cada um dos sexos.

Os homens da psicologia e da psicanálise tentaram resolver o seu problema do feminino em si sem nunca entender a própria mulher, essa, dividida e fragmentada pelos imensos estereótipos que lhes eram atribuídos pela cultura secular, ou por persistirem em ver apenas a mulher que a sua cultura e a “ciência” em que foram beber o seu conhecimento, lhes permitia ver; não entenderiam nunca que sem essa percepção da divisão interna e secular da mulher em dois estereótipos fundamentais, os homens não entenderiam nunca uma METADE DA HUMANIDADE, relegada para um plano funcional, dado que a mulher assim abordada não é senão uma metade de uma metade…e por isso incompreensível a nível da psique e do intelecto.

Por outro lado, a mulher cindida não pode compreender a sua própria natureza a verdadeira dimensão do seu ser, sem se fundir à sua natureza instintiva e inicial, associada as deusas primordiais, a grande Deusa e as sacerdotisas de outrora. Ela não pode ser inteira sem se unir à "outra" mulher...que é ela mesma!

Esse desconhecimento da Mulher de si mesma e da sua essência, levava o homem e o psicólogo a encontrar um vazio na mulher (dividida) chamando-o de Animus não realizado, (a sua própria experiência de vazio de anima) quando afinal o que sucede nas nossas sociedades foi ter-se "fabricado" uma mulher gravemente "animus" pelas ideias dos homens, as mulheres por si idealizadas, as puras e as perversas as fatais e as inocentes etc., as duas mulheres que conviviam nas suas sociedades, uma esposa e outra a prostituta basicamente, ou a concubina, com um animus que hoje é ainda mais mais acentuado e um yang elevadíssimo. O que nos falta de facto é a mulher Anima, a mulher essência, uma mulher inteira que inclusive possa reflectir ao homem a sua própria Anima e então sim poder ela realizar o seu animus de forma equilibrada e vice-versa.
(...)
SÃO ESSES DOIS LADOS DA MULHER DIVIDIDA EM SI QUE OS HOMENS NÃO CONSEGUIRAM PERCEBER AS RAZÕES NEM AS MULHER IDENTIFICARAM AS CAUSAS. E ASSIM CRIARAM ESTA GRANDE CONFUSÃO...

Precisamente, “James Hillman, traz uma pedra importante à nossa construção afirmando que a fenomenologia da anima não se restringe ao sexo masculino e que existem “mulheres anima” que encarnam para o outro e para elas mesmas esses valores. Ele diz: “As mulheres também perdem contacto com elas e podem ser levadas a meditar no seu destino, na sua morte, na sua imortalidade. Elas também fazem a experiência da alma e sofrem do seu mistério e da sua confusão.”

E acrescenta um pouco mais adiante: “Porque é que o mesmo comportamento se chama “anima” num sexo e no outro e natureza feminina” ou “Sombra” no outro.?”

Para Hillman, as mulheres têm “a profundidade da alma ou elas são alma (…) e psique, mas o sentimento íntimo de alma, não é dado à mulher pelo simples facto de ela ser uma mulher.”
(…)

Se Jung vê a Anima como um “vazio”, Hillman precisa: “Nós não podemos explicar esse vazio em termos de sombra inconsciente ou de Animus não desenvolvido (…) esse vazio devia ser considerado como uma autêntica manifestação arquetípica da Anima. (…)

Mas ao mesmo tempo, nós veremos mais longe, ela (Anima) como sendo a única via possível para a hiper-consciência verticalizante.

O desconhecido é também aquilo que torna evidente a natureza enigmática, inalcançável, e inacessível de Lilith. Ela é, seja “à distância”, seja “velada” como Ísis ou se descobrindo pelo abandono dos numeroso véus – como Humbaba ou Salomé, sempre instigante de fantasmas e de projecções múltiplas.

Citemos ainda Hillman: “É a este inconsciente fundamental arquétipo, ausência de luz, de moralidade, de sentido de conflito, de intenção (…) que Jung faz alusão em certas passagens sobre a natureza desconhecida da “Anima”.*


Rosa Leonor pedro

* In Le Retour de Lilith de Joellle de Gravellaine

NOVOS CAMINHOS DO SER MULHER... E HOMEM


“ O amor romântico - todo o amor *- é feito de sexo e de poder. Na intimidade, nós penetramos na aura animal do outro. E nisso há magia, tanto negra como branca.”

In personas sexuais - de Camille paglia


DESALMADAMENTE, o sexo…

O facto de se ter separado a sexualidade da espiritualidade cavou um fosso enorme na consciência dos homens e das mulheres modernas e impediu a natureza instintiva de se expressar e evoluir da base para cima, da Terra para o Céu… O ter-se negado à mulher o papel de iniciadora do amor (as sacerdotisas da deusa) e condenadas as mulheres por seduzirem ou tentarem os homens em fuga para deus e o céu, rejeitando assim a natureza e a sua força na mulher - tal como o fizeram com a Grande Mãe que dá a vida, tudo isso alienou completamente o Ser Humano da sua essência sagrada. Assim ao colocar-se o homem e a sua arte e cultura acima da natureza, ao colocar-se o Pai acima da Mãe e impondo a lei da força do homem contra a força da natureza, o equilíbrio dos dois Princípios feminino e masculino ( Yin e Yang), a Terra deixou de ser a fonte e o pilar da vida que nos sustenta e os polos deixaram de ser complementares e equitativos, para serem só opostos.Com a ascenção das religiões judaico cristãs,  tornou-se a alma algo abstracto pertencendo apenas ao domínio do “espírito” - apenas como dogma religioso - e o sexo como órgão separado do corpo, apenas pulsão, sem alma, tornou-se uma coisa animal de facto - ora violenta e perversa, ora grotesca e obscena, vista como inferior, sempre rebaixada à escala animal… e proibida, a não ser como norma institucional através do casamento, submissão da mulher ao homem seu dono.
Por tudo isso há uma grande confusão acerca do sexo e como os homens tem medo do seu lado instintivo e animal, sobretudo nas mulheres - esse medo da natureza - faz com  que as pessoas se escondam ou denigram  a sua vivência sexual sentida como pecado. Neste contexto  as crianças são afastadas e enganadas acerca dos seus instintos, carregadas de moral e tabus, impedidas de explorarem a sua sensibilidade e evoluir em campos neutros onde nem o feminino é rebaixado nem o masculino exaltado. Depois, nas escolas, ensinam-lhes um modo de reprodução e uma função orgânica desligada de tudo e até do afecto ou do Amor e a sexualidade torna-se uma coisa experimental, obscena e abjecta. Do outro lado a televisão mostra-lhes a violência por excelência e a pornografia, usando e rebaixando a mulher coisificando-a o que denigre a Mãe e avilta a Mulher.
Foi assim que se separou também o homem da mulher, condenada esta ao pecado e quando não mulher de…é ainda  considerada puta…
Deste modo, a sexualidade fora da religião, a única culpada da queda da mulher, e sem a dimensão do sagrado, que é a união pelo verdadeiro amor quando o corpo se une ao espirito por intermédio da alma e não é apenas mera atracção física, essa atracção fatal que a mulher livre exerce sobre o homem livre - para o homem comum, é quase sempre vivida como uma guerra, e a mulher uma posse ou  despojo de batalhas, e na vida "a dois" uma sevícia feita a mulher, quase sempre um abuso e daí o termo "foder" que significa violentar, ferir, magoar com violência…

A autora citada de inicio diz, em "Mulheres livres, Homens livres", que "A procura de liberdade através do sexo está condenada ao fracasso. No sexo, o que manda é a compulsão primitiva Necessidade." (...) e nesse sentido  tem razão se o Ser Humano não se transcender e não for para lá do materialismo e da fisicalidade...mas  concordo quando diz: "Um orgasmo tanto pode representar dominação como e rendição como caminho novo que se descobre",  e vou pelo novo caminho que se descobre…
Ela diz ainda, "O amor ocidental é um deslocamento de realidades cósmicas" e neste caso, para além das afirmações anteriores partirem de premissas para mim muito intelectuais, penso que a autora só em parte esteja certa, mas tendo em conta a alma como entidade central e sendo ela a mediadora e não tomada como mera abstracção religiosa e sim uma dimensão do ser inteiro (corpo alma e espirito), talvez faça a diferença, e a relação sexual em vez de ser de "dominação e rendição" (ao mais forte - ao macho dentro deste Sistema), vista apenas como "compulsão primitiva Necessidade", pode ser libertação se houver elevação e entrega amorosa e se a Mulher for a iniciadora, essa Mulher Mágica, inteira, que é não sou só movida pela Natureza instintiva, a Mãe que dá vida como a amante que revela esse poder cósmico do amor, o fogo do seu coração; isso bem para lá do medo do desconhecido e da morte que representa a Natureza Mãe e a Mulher …
A autora citada, diz-se intelectual primeiro e feminista em segundo lugar e de facto ela vê e analisa os factos e a vida de acordo com Freud ou Foucault, assim como outros psicólogos modernos, mas dentro de uma perspectiva meramente intelectual e materialista, patriarcal, separando em partes o ser humano e portanto para quem o corpo é apenas instintivo e animal sem conceber a ideia de alma, a não ser metaforicamente. A verdadeira espiritualidade é uma experiência fora do registo mental intelectual ou conceptual. Ela porém não consegue sair da dualidade e oposição de contrários - e por isso para ela a transcendência do sexo é afirmar ou negar o instintivo…quando na verdade trata-se de ir para lá da oposição, mas penso que esta é uma dimensão - uma verdadeira transcendência - que nos seus livros Camille Paglia não equaciona…e diria se me conhecesse...que eu sou uma mística...

Penso que o drama do nosso tempo é essa vivência desalmada do sexo e a as ideias materialistas que passaram de um dogma religioso do pecado para uma liberdade sem consciência do ser na sua totalidade - precisamente sem transcendência - e que cria seres desalmados…

Nunca este termo foi tão apropriado!!!

rosa Leonor pedro



NÃO HÁ DUVIDA DE QUE “Num mundo desnaturado que confunde genitalidade e sexualidade, depois sexualidade e erotismo, o (verdadeiro) erotismo ou melhor a Erótica permanece reservada, hoje como ontem, hoje mais do que ontem, a uma elite. A Erótica não é este desespero que os humanos confundem com Amor quando eles lançam cegamente uma ponte sobre o seu próprio vazio, para não enfrentar a sua ausência, em relação a uma imagem que eles próprios criaram sem disso terem consciência”  J. kelen
* presumo que a autora se refira sempre e só ao amor físico…quando fala do amor romântico! 

quinta-feira, setembro 20, 2018

é preciso mudar o inferno...



DIZIAM AS PESSOAS...


‘é preciso mudar o inferno, cheira mal, cortaram a água, as pessoas ganham pouco – e que fizeram da dignidade humana? As reivindicações são legítimas. Não queremos este inferno. Deem-nos um pequeno paraíso humano. Bom dia, como está? Mal, obrigado. Pois eu ontem estive a falar com ela, e ela disse: sou uma mulher honesta. E eu então fui para o emprego e trabalhei, e agora tenho algum dinheiro, e vou alugar uma casa decente, e o nosso filho há-de ser alguém na vida. E então a gente ama, porque isto é a verdadeira vida, palpita bestialmente ali, isto é que é a realidade, e todos juntos, e abaixo a exploração do homem pelo homem. E era intolerável. Ouvimos dizer que, numa delas, o pequeno inferno começou a aumentar por dentro, e ela pôs-se silenciosa e passava os dias a olhar para as flores, até que elas secavam, e ficava somente a jarra com os caules secos e a água podre. Mas o silêncio tornava-se tão impenetrável que os gritos dos outros, e a solícita ternura, e a piedade em pânico – batiam ali e resvalavam. E então a beleza florescia naquele rosto, uma beleza fria e quieta, e o rosto tinha uma luz especial que vinha de dentro como a luz do deserto, e aquilo não era humano – diziam as pessoas’.


HERBERTO HELDER


UMA TRISTE HISTÓRIA

UMA MULHER EXPOLIADA E TRAIDA - ROUBADA PELO MARIDO - A ESCRITORA María Lejárraga


Escreveu em silêncio, na solidão entre quatro paredes, longe dos aplausos para as peças que saíam de sua pluma. Seu nome é uma ausência, uma sombra, um vazio e uma história dolorosa. María de la O Lejárraga (San Millán de la Cogolla, 1874 - Buenos Aires, 1974) atravessou um século inteiro e foi uma dessas mulheres brilhantes e pioneiras da Idade de Prata da cultura espanhola. Romancista, dramaturga, ensaísta, tradutora, feminista e, no entanto, ausente das capas de seus livros. O nome que lemos é o de seu marido, Gregorio Martínez Sierra, que recebia elogios nas estreias de Canción de Cuna, El Amor Brujo e El Sombrero de Tres Picos, de Manuel de Falla, enquanto a autora e libretista esperava em casa.


Nestes tempos em que a história da criação parece estar reparando esquecimentos e variando a bússola do cânone oficial, a figura de María Lejárraga retorna com sede de justiça poética. A recuperação de seu nome na capa de sua obra é o reconhecimento a uma das mais destacadas a

Agora a editora Renacimiento publica Viajes de Una Gota de Água, uma coleção de histórias infantis que a autora publicou na Argentina em 1954, quando já vivia no exílio. Juan Aguilera Sastre e Isabel Lizarraga Vizcarra, especialistas na Idade de Prata, são os responsáveis pelo estudo introdutório e dois outros resgates editoriais: Como Sueñan los Hombres a las Mujeres e Tragedia de la Perra Vida y Otras Diversiones. Teatro del Exilio (1939-1974).


O reconhecimento era para o marido

Esta edição tem valor especial porque ela aparece com seu nome autêntico: María Lejárraga, como fez a autora, pela primeira e única vez em sua vida, no livro de estreia, Cuentos Breves, publicado em 1899. A irritação que provocou em sua família o fato de que seu nome aparecesse nessa primeira obra foi a razão pela qual ela decidiu se eclipsar.

Quando se casou com Gregorio Martínez Sierra, decidiu se esconder atrás do nome dele. Ambos formaram um dos casais artísticos mais produtivos da época. Gregorio era responsável pela direção das obras e quem ficava com a glória nas estreias. María aceitou esse papel de sombra, como Antonina Rodrigo apropriadamente intitulou sua biografia da autora: María Lejárraja, una Mujer a la Sombra.

Gregorio se ocupava da parte externa da parceria, mas era ela quem escrevia. Às vezes os ensaios eram interrompidos porque María estava escrevendo o último ato da obra assinada por Gregorio Martínez Sierra. Todos sabiam que Lejárraga era a "serviçal" de seu bem-sucedido marido. A tal extremo chegou esta situação que Gregorio fazia discursos feministas escritos pela mulher. Aí está o livro Cartas a las Mujeres de España, em que ela encoraja a liberdade e a independência feminina, embora seu nome não apareça em nenhum lugar. Apesar desse silêncio, Lejárraga chegou a ser deputada socialista na Segunda República, uma experiência que relatou em seu livro Una Mujer por los Caminos de España, escrito no exílio.



María Lejárraga e o marido em sua casa em Madri. ARCHIVO MANUEL DE FALLA

A história de Lejárraga tem um momento especialmente doloroso. Gregorio se apaixonou pela famosa atriz Catalina Bárcena, com quem teve uma filha. O casamento acabou, mas Lejárraga continuou a colaborar com o marido, escrevendo os livros que ele continuou assinando.

A grande decepção de Lejárraga veio em 1947 com a morte de Gregorio Martínez Sierra, quando a filha de Catalina Bárcena exigiu os direitos autorais do pai. María vivia com poucos recursos no exílio e foi então que reagiu e começou a publicar com seu nome, mas ainda refugiada nos sobrenomes do marido: María Martínez Sierra. E decidiu escrever suas memórias – Gregorio y Yo – onde revela em que consistia a colaboração. Uma obra na qual finalmente saiu do silêncio, embora de forma muito morna.

A filha da amante do marido ficou com os direitos autorais de suas obras

Viajes de una Gota de Água é um livro de melancolia, a lembrança dolorosa de uma exilada: “É um exercício de nostalgia alimentado pela frustração de sentir que seus livros eram proibidos na Espanha e que tampouco encontrava uma maneira de chegar os palcos espanhóis, onde apenas ocasionalmente sua produção anterior era reapresentada”, explicam Juan Aguilera e Isabel Lizarraga.

 (…)

in EL PAIS 

segunda-feira, setembro 17, 2018

UMA SOCIEDADE ANDROCÊNTRICA



O PATRIARCADO INTERNO

“Vivemos numa sociedade androcêntrica que vê o mundo desde o olho masculino. Basta ver como nos dias de hoje existem culturas que consideram as filhas inferiores aos filhos entre mil outros exemplos. O que a mãe diz... a linguagem da experiência... carece de importância é muito mais apreciada a linguagem de análise do pai. Nem sempre somos conscientes disto pois a nossa voz interior e instintiva foi dopada durante anos e anos. Quando nos impingem uma voz interior que faz o papel de crítico afastamo-nos da voz selvagem e instintiva inerente a mulher (esta voz nas mulheres surge como o Patriarcado Interno) concedendo espaço e realização as ideias e opiniões de orientação tradicionalmente masculinas e retira interesse e importância as tradicionalmente femininas. O Patriarcado interior é o reflexo da sociedade (mas também do teu processo pessoal). O melhor a fazer é identificar a voz desse crítico interior, dar-lhe nome e depois manda-lo de férias! E depois voltares a olhar-te ao espelho!”

Hal Stone

domingo, setembro 16, 2018

TEXTO E IMAGEM CENSURADOS PELO FACEBOOK



NUNCA INCENTIVEI O ÓDIO!

O CONTROLO DO FACEBOOK censurou um pequeno texto meu bastante claro e sem ofender ninguém sobre os muçulmanos - o texto é inócuo desse ponto de vista (ódio) como poderão ler, apenas realça a violência deles contra a mulher...o ódio a mulher é deles não meu… - esta é uma mera constatação e por isso fiquei um dia sem acesso ao meu perfil e recebi esta resposta:

"Revimos a tua publicação novamente e esta não segue os nossos Padrões da Comunidade sobre discurso que incentiva o ódio. Mais ninguém pode ver esta publicação."

rlp

Esta é a publicação em questão e foi censurada:

RESPOSTA A UMA AMIGA ...

Minha amiga eu sei que todas essas questões de solidariedade e bondade para com os migrantes, são muito românticas e fraternas...ah pensar que o ser humano é todo HUMANO e todos têm o direito de ser respeitados, recebidos com amor...é verdade...mas os islâmicos são muito piores do que os cristãos da Inquisição que foi há alguns séculos e eles islâmicos continuam todos a viver no tempo da Inquisição - a Sharia - e é a sua religião fundamentalista CONTRA A MULHER - E É COMO MULHER QUE ME INSURJO. 

Não posso admitir nem ser conivente com uma cultura e religião que apedreja viola e mata as mulheres por "crimes de honra" e defendem a pedofila...as meninas casam a partir do 8 anos - idade da esposa de Maomé - e essa cultura está a instalar-se na Europa onde as mulheres estão a perder a sua liberdade conquistada com muitos esforços - se as pessoas querem ignorar isso no seu arreigado idealismo de "bondade e amor ao próximo", é com elas. mas eu não me deixo enganar. Grande parte dos migrantes e refugiados islâmicos ou são terroristas ou potencialmente terroristas - e é isso que está a vista de toda a gente...mas as pessoas de "bem" preferem branquear...
rlp

sábado, setembro 15, 2018

Na tradição europeia



"A grande maioria dos homens no nível cultural presente nunca avança além do significado maternal da mulher e esta é a razão pela qual a alma raramente nele se desenvolve além do nível infantil, primitivo da prostituta. Como consequência, a prostituição é um dos principais produtos do casamento civilizado." - C. G. Jung

Casamento e Prostituição


"Na tradição europeia, os homens tentaram impedir as mulheres de trabalhar por dinheiro, exceto como prostitutas. Tal como acontece com tantos ideais ocidentais que ainda perduram, as raízes desse modelo social podem ser encontradas na cidade-estado ateniense. A mulher mais protegida era a mulher casada, uma prisioneira em sua própria casa, exceto, é claro, que a casa era tanto dela quanto uma gaiola pertence ao pássaro aprisionado. Ela não tinha direitos nem dinheiro. Ela, no entanto, tem responsabilidades. Era seu dever se submeter à relação sexual, ter filhos e administrar a casa. Sua virtude era mantida mantendo-a em cativeiro isolado. Ela estava fisicamente confinada à casa para garantir ao marido que seus filhos legais eram o direito biológico dele.

Qualquer mulher menos isolada era mais propriedade coletiva. Mulheres estrangeiras tomadas como pilhagem eram escravas. As mulheres atenienses adultas que não eram casadas eram, em sua maioria, prostitutas de alta classe, companheiras sociais e sexuais de uma elite masculina ou prisioneiras de prostíbulos. As prostitutas de alta classe eram as únicas mulheres com alguma educação real ou qualquer liberdade de movimento. A classe das cortesãs em muitas sociedades era o local social de realização das mulheres e prenunciava a mulher profissional do capitalismo avançado: altamente educada em comparação com outras mulheres, altamente qualificada, trabalhava por dinheiro e parecia exercer escolhas.

A esposa era a mulher privada na esfera privada (doméstica), protegida por dentro, legalmente amarrada ali. Interior significava confinamento, cativeiro, isolamento; valor alto; uma função reprodutiva e sexual; uma propriedade privatizada. A prostituta era a mulher pública – de propriedade pública. Ela morava fora de casa. Fora significava a quebra do corpo de alguém por mais de um, quantas e sob quais circunstâncias dependiam da proximidade ou distância da elite masculina – a pequena e rica classe dominante. A prostituta de baixa classe, mantida em um bordel, estava fora dos limites do reconhecimento humano: um orifício, uma não-entidade, usada para uma função de massa. Lá fora, dinheiro pago por atos e acesso. Lá fora, as mulheres estavam à venda. O interior significava que uma mulher estava protegida do comércio de sua espécie; o valor de uma mulher só era alto quando ela estava imune à contaminação de uma troca de dinheiro. Uma mulher que podia ser comprada era barata. Esse baixo preço significava seu baixo valor e definia a sua capacidade moral. Uma mulher era a sua função sexual; ela era o que ela fazia; ela se tornava o que era feito a ela; ela era o que ela era. Qualquer mulher nascida do lado de fora ou deixada do lado de fora ou chutada para o lado de fora merecia o que tinha porque era o que havia acontecido com ela.

Por exemplo, o estupro de uma senhora roubou o seu valor dela, mas ela não era a parte ofendida. Seu marido ou seu pai haviam sido ofendidos, porque o valor de sua propriedade havia sido destruído. Uma vez usada, ela podia se tornar a esposa do estuprador, ou ela era expulsa, exilada para as margens, propriedade comum recém-criada.

Estupro poderia criar um casamento, mas mais frequentemente criava uma prostituta. Quanto mais profundo o seu exílio, mais acessível aos homens ela era – quanto mais acessível, mais barata. Este era um fato econômico e um axioma ontológico, status e caráter determinados pelo grau de sua vulnerabilidade sexual. No domínio público, em virtude do uso masculino, ela se tornava venal pela definição e pelo design masculinos, de acordo com o poder e a percepção masculinos.

- Andrea Dworkin em “Mulheres no Domínio Público: O Paradigma da Prostituição”