ORA
LEGE LEGE LEGE
RELEGE
LABORA
ET IN VENIES
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RADICAL
Em muitas vidas fui homem,
dizem as bruxas de Além-Mar;
em muitas vidas te amei, sempre que quis, como desejei...
De todas as formas te amei, bem, muito e mal,
dizem as bruxas de Além-Tejo;
dizem elas que de ti tudo aprendi e sei e que te amei
como soldado, rei, bandido, aristocrata, santo e pirata!
De cada vez que te amei, chorei e sofri, embriaguei-me e ri...
E uma vez, contam as bruxas de Jerusalém,
até louco de ciúmes te matei;
arrependido, desvairado e perdido como Judas, dizem as bruxas,
numa árvore me enforquei!
Amei-te sempre e sempre te persegui, em todas as minhas vidas:
fui fanático, crente, radical, monge e sábio e poeta...
Mas nunca, nunca como nesta vida
em que fui mulher eu própria nascida, como prémio ou castigo já não sei,
nunca em todas elas tanto te adorei.
in "Mulher Incesto-Sonata e Prelúdio"
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Em outro mundo, onde a vontade é lei,
Livremente escolhi aquela vida
Com que primeiro neste mundo entrei.
Livre, a ela fiquei preso e eu a paguei
Com o preço das vidas subsequentes
De que ela é causa, o deus; e esses entes,
Por ser quem fui, serão o que serei.
Porque pesa em meu corpo e minha mente
Esta miséria de sofrer? Não foi
Minha a culpa e a razão do que me dói.
Não tenho hoje memória, neste sonho
Que sou de mim, de quanto quis ser eu.
Nada de nada surge do medonho
Abismo de quem sou em Deus, do meu
Ser anterior, a me dizer
Quem sou, esse que fui quando no céu,
Ou o que chamam céu, pude querer.
Sou entre mim e mim o intervalo-
Eu, o que uso esta forma definida
De onde para outra ulterior resvalo.
Em outro mundo
FERNANDO PESSOA -- Poesias inéditas