quarta-feira, janeiro 27, 2010

A voz do útero....


A VOZ IMPOSSÍVEL



“os vivíparos”*

(…)


“Ouvimos a nossa voz com a garganta.


Ouvimos a voz dos outros com os nossos ouvidos.

A literatura define o que nos permite ouvir a voz do outro com a garganta. Por seu intermédio, o que não se pode partilhar é recebido, comunicado directamente de mundo íntimo para mundo íntimo.

É assim que a comunicação literária passa através da voz irreconhecível.

A literatura, à superfície social do tempo, certamente, mas também na profundidade vertical da experiência íntima, está ligada à impossibilidade de reconhecimento.

Sugiro, por fim a que a oralidade silenciosa corresponde provavelmente à voz impossível entre os vivíparos. A voz impossível é a que pertence ao corpo do primeiro mundo, a que nada na água do ventre materno, ignora o ar atmosférico, ignora o sopro que nesse ventre começa a erguer-se, ignora a pulmonação que nesse ventre ocorreria, ignora o ritmo que, a partir dessa saída para o ar inverosímil, galgaria o pulsar do seu coração.


O pequeno vivíparo não tem capacidade de emitir voz no sopro: Por isso ouve. É mera obediência. Ouve sem nunca ter pensado em falar. Ouve a voz materna, que não pode voltar a captar.


A literatura e a voz da garganta, a voz que passa directamente de garganta apra garganta, de angústia para angústia, a voz sem lábios nem ouvidos, ou ainda a oralidade sem pulmões, a "psique anaeróbica", tem a ver com a mulher impossível de conhecer, a mulher, por isso mesmo, irreconhecível, a mulher que precede, a mulher que espera um filho. A mulher grávida, a mulher gorda, a mulher cada vez mais gorda das grutas do Paleolítico, tem a ver com a mulher invisível: é a mulher da cena final. Por outras palavras, a mulher-cepa tem a ver com a mulher de Outrora, quando copulava com o pai. Ora, ninguém viu a cena que o gerou, para poder afirmar que reconhece os traços dos rostos que se uniram e a que os seus próprios traços tão estranhamente correspondem.”

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In Histórias de amor de outros tempos

Pascal Quignard



* “os vivíparos”*



"Nos vivíparos o embrião depende directamente da mãe para a sua nutrição, que ocorre por meio de trocas fisiológicas entre mãe e feto. Não existe casca isolando o ovo. Como regra o desenvolvimento embrionário se completa dentro do corpo materno e os indivíduos já nascem formados. O custo energético é especialmente alto, pois as fêmeas investem energia na nutrição e no desenvolvimento do embrião dentro de seus corpos. Nos casos dessas espécies, forma-se um maior número de embriões, mas eles têm maiores chances de sobrevivência. É vivípara, por exemplo, os mamíferos placentários, como é o caso da espécie humana.”
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