"NÃO SOU FEMINISTA, SOU ANTROPOLOGICAMENTE LÚCIDA" Ana Hatherly

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

AS FRONTEIRAS ENTRE AS MULHERES



SENTIR A FORÇA DO ARQUÉTIPO
Exactamente, como diz a escritora Jean Shinoda Bolen, no texto embaixo, pode haver a atracção de uma mulher por outra mulher e essa atracção não ter nada a ver com a orientação sexual, mas sim ser apenas um espelho de si mesma, momentaneamente, o da “outra” mulher em si que se quer revelar ou manifestar, e que cria essa simbiose das almas e também eventualmente dos corpos, em que “as fronteiras entre ambos se dissolvem, e uma união que acompanha a totalidade de ambos os corpos e auras talvez surja, colhendo vagas recordações sensoriais de união mãe-filha, ou ser a primeira vez que esse arquétipo é sentido”, sem que isso seja revelador de uma sexualidade transgressora como nos quiseram fazer crer os homens “eruditos” e os padres, os que preconizaram durante décadas acerca do que era a sexualidade feminina e a forma de ser da mulher, depois dos tabus da Igreja, anteriores à psicanálise e impostos durante séculos às mulheres.
As mulheres sempre foram julgadas pela sua sexualidade simplesmente por a terem ou por a vivenciarem. Em ambos os casos a mulher era condenada só por isso, a não ser que fosse uma casta esposa e só procriasse…
Muitas mulheres modernas ainda hoje seguem e defendem psicanalistas como Freud ou Lacan e aceitam os seus pressupostos como verdades acerca de si mesmas e da sua sexualidade, como a ideia imbecil da inveja do pénis ou a ideia de que o falo é que é determinante na expressão do ser (a palavra) e continuam a duvidar quer de si e da sua voz do útero assim como das outras mulheres e do que elas lhes dizem ou reflectem. As mulheres continuam aprisionadas aos padrões do pensamento masculino e vivem ainda totalmente presas dos seus conceitos…
A pergunta que urge e que não se pode mais adiar é justamente se "É a sexualidade feminina uma experiência das mulheres ou um discurso masculino sobre a sexualidade feminina?" (Emilce Bleichmar)

E aqui a resposta é sem dúvida o verificarmos que a falta de consciência da mulher de si mesma, ao nível da sua sexualidade ou da sua emocionalidade, é ainda um factor gerador de enorme confusão e que esta se manifesta em paranóias e medos das mulheres acerca do seu corpo e da sua imagem, nas medidas ideias que os homens predizem, se são magras, se se usam seios grandes ou pequenos e submetem-se ao silicone e a operações estéticas a risco da sua saúde, mesmo ainda jovens. E esta imagem idealizada é a razão também da sua hostilidade em relação umas às outras e as catalogações sexuais redutores a que estão sujeitas e que as minimizam e degradam no seu íntimo quando e sempre que procuram dar um sentido aquilo que de dentro as possa mover e as tenta acordar para outro aspecto de si mesmas, a da mulher autêntica e sem complexos porque se aceita como é na realidade.

As mulheres não são só as mães, que às vezes ou quase sempre falham no seu papel com as filhas, mas são essencialmente as parteiras da consciência umas das outras, como já foram as iniciadoras da arte de amar e são ainda os espelhos que as podem converter em cúmplices em vez de inimigas, em mães e irmãs, em vez de rivais, superado o drama do antagonismo criado pelo catolicismo e cujo ódio se revela sempre fora, contra a outra mulher pela suspeita ou pela intriga...
São as mulheres que hoje podem ajudar outras mulheres através de todos os meios ao seu alcance; seja através da dança, da música, dos círculos, das terapias, dos livros, das conversas entre mulheres…tudo o que promova o encontro entre as duas mulheres divididas e as confronte com Eva e as suas faces e Lilith, a libertadora, a grande iniciadora remetida para os infernos da psique.
É preciso que as mulheres libertem os seus corpos e as suas emoções, sem ser só pela obsessão do homem e do acto sexual, mas através da sua genuína sensibilidade e sensualidade e de facto para que isso aconteça as mulheres têm de perder essa inimizade criada entre si pelos patriarcas e aprender a confiar umas nas outras. Sem que dêem esse passo será muito difícil as mulheres saírem do controlo dos homens ou fugir dos estigmas que as marcam e as tornam dependentes, neuróticas, histéricas e mais grave ainda, deprimidas ou somatizarem as suas dores e frustrações em cancros do útero, da mama e dos ovários.


De uma vez por todas é preciso que se entenda que as doenças das mulheres estão relacionadas com a opressão e a repressão da sua verdadeira sexualidade e da sua natureza profunda, da sua intuição, principalmente das suas emoções, privadas que são da sua vida instintiva ao deixar adormecido o seu potente potencial – o arquétipo da Deusa - e poder interior que as caracteriza como mulheres & deusas…

rosa leonor pedro


ANSEIO
Desejo-me a mim mesma
no corpo etéreo de uma mulher sublime,
como preciso do ar que respiro.

Desejo ver-me e sentir-me inteira
no meu corpo completo
como se reinventasse outro ser...

E como se os meus sentidos fossem mágicos
desdobrar-me...

E do ar, do éter ou do prana,
pela força do meu anseio
aparecesse um novo ser que em mim
me amasse até à consumação.

Queria que por magia,
eu própria me transformasse
em substância etérea
e libertasse a minha alma da escravidão
desde corpo denso de pele e desejo...

Queria ser águia e vencer o dragão.

IN MULHER INCESTO- SONATA E PRELÚDIO
ROSA LEONOR PEDRO

2 comentários:

A. C. disse...

Você é realmente (e talvez nem saiba) uma das parteiras da minha consciência. Serei eternamente grata.

Rosa Leonor disse...

oBRIGADA MINHA AMIGA

E ESPERO QUE continue por aqui EMBORA só depois de alguns meses, tenha lido o seu comentário que muito agradeço!
Fico muito feliz por isso!
grande abraço
rosa leonor