terça-feira, fevereiro 28, 2012

A MULHER LIGA-SE A FONTE...


— O útero — repetiu Esperanza — é o órgão feminino fundamental, o que dá às mulheres esse poder, essa força extra para canalizar sua energia.



— É hora de saber o que a faz ver a melhor versão do seu trabalho original. — Esperanza me piscou o olho como para enfatizar que estava para me revelar um segredo retumbante.

— Quando ensonhamos despertas, nós temos acesso ao conhecimento directo.

Observou-me um longo período, e havia desagrado nos seus olhos.

— Não seja tão densa! — Nélida me cutucou impaciente. — Ensonhar desperta deveria ter-lhe demonstrado que possui, como todas as mulheres, uma capacidade sem igual para receber conhecimentos directos.
Com um gesto Esperanza me indicou para ficar em silêncio e disse: — Sabia que uma das diferenças básicas entre homens e mulheres é a maneira como encaram o conhecimento?
Eu não tinha ideia do que isso queria dizer. De maneira lenta e deliberada arrancou uma folha em branco do meu caderno e desenhou duas figuras humanas, uma das quais coroou com um cone e disse que era um homem. Sobre a outra cabeça desenhou o mesmo cone, só que invertido, e o declarou ser a mulher.

— Os homens constroem o seu conhecimento passo a passo — explicou com o lápis apontando à cabeça coroada pelo cone. — Tendem para cima, trepam em direcção ao conhecimento. Os feiticeiros dizem que os homens se estiram como um cone na direcção do espírito, para o conhecimento, e este procedimento limita até onde podem chegar — repassou com o lápis as linhas do cone da primeira figura. — Como poderá ver, os homens só podem alcançar uma certa altura, e o seu caminho termina no ápice do cone.

— Preste atenção — advertiu, apontando com o lápis à segunda figura. — Como poderá ver o cone está invertido, aberto como um funil. As mulheres possuem a faculdade de abrir-se directamente à fonte, ou melhor dizendo, a fonte lhes chega de maneira directa, na base larga do cone. Os feiticeiros dizem que a conexão das mulheres com o conhecimento é expansiva, enquanto que a dos homens é bastante restritiva. “Os homens se conectam com o concreto — prosseguiu —, e apontam ao abstracto. As mulheres se conectam com o abstracto, e contudo tratam de entregar-se ao concreto”.

— Por quê? — perguntei —, sendo as mulheres tão abertas ao conhecimento ou ao abstracto, são consideradas como inferiores?
Esperanza me contemplou  espantada. Ficou de pé, esticou-se como um gato, fazendo estalar todas suas articulações, e recuperou seu assento.

Que sejam consideradas inferiores ou, no melhor dos casos, que suas características femininas sejam consideradas complementares às dos homens, tem a ver com a maneira como uns e outros se aproximam do conhecimento. Em geral à mulher interessa-lhe mais dominar-se a si mesma que a outros, um tipo de domínio claramente ambicionado pelo homem.

— Inclusive entre os feiticeiros — acrescentou Nélida para satisfação das mulheres.

Esperanza expressou sua crença de que originalmente as mulheres não consideravam necessário explorar essa facilidade para unir-se directa e amplamente ao espírito. Não achavam necessário falar ou intelectualizar acerca desta sua capacidade, pois lhes bastava accioná-la para saber que a possuíam.

— A incapacidade do homem para unir-se directamente ao espírito é o que os impulsionou a falar do processo de alcançar o conhecimento — explicou. — Não pararam mais de falar disso, e é precisamente essa insistência em saber como se esforçam por alcançar o espírito, esta insistência em analisar o processo, o que lhes deu a certeza de que o ser racional é uma conquista tipicamente masculina.
Esperanza explicou que a conceptualização da razão tem sido obtida exclusivamente pelos homens, e isto lhes têm permitido minimizar os dons e as conquistas da mulher e, pior ainda, excluir as características femininas da formulação dos ideais da razão.

— É claro que na actualidade a mulher acredita no que lhe tem sido atribuído — enfatizou. — A mulher tem sido criada para crer que só o homem pode ser racional e coerente, e agora o homem é portador de um capital que o torna automaticamente superior, seja qual for sua preparação ou capacidade.

— Como foi que as mulheres perderam sua conexão directa com o conhecimento? — perguntei.

— Não a perderam — corrigiu Esperanza. — Ainda têm uma conexão directa com o espírito, só que se esqueceram como usá-la, ou melhor, copiaram a condição masculina de não possuí-la. Durante milhares de anos o homem tem se ocupado de fazer com que a mulher se esqueça do seu dom. Olhe para  a Santa Inquisição, por exemplo: esse foi um expurgo sistemático para erradicar a crença de que a mulher tem uma conexão directa com o espírito. Toda a religião organizada não é outra coisa senão  uma manobra muito  bem sucedida para colocar à mulher no nível mais baixo. As religiões invocam uma lei divina que mantém que as mulheres são inferiores.
Olhei-a assombrada, perguntando-me como podia ser tão erudita.

— Os homens necessitam dominar a outros, e a falta de interesse das mulheres por expressar ou formular o que conhecem, e como o conhecem, tem constituído uma nefasta aliança — continuou Esperanza. — Tem tornado possível que a mulher seja forçada, desde o seu nascimento, a aceitar que a plenitude se encontra no lar, no amor, no casamento, em parir filhos e em negar-se a si mesma. A mulher tem sido excluída das formas dominantes de pensamento abstracto e educada para a dependência do homem.

As mulheres têm sido tão bem treinadas para aceitar que os homens devem pensar por elas que acabaram por deixar de pensar.

— A mulher é perfeitamente capaz de pensar — disse eu. Esperanza me corrigiu.

— A mulher é capaz de formular o que aprendeu, e o que tem aprendido tem sido definido pelo homem. O homem define a natureza intrínseca do conhecimento, e dele tem excluído tudo aquilo que pertence ao feminino ou, se o tem incluído, é sempre de maneira negativa. E a mulher tem aceitado isso.

— Está atrasada em anos — objectei. — Hoje em dia a mulher pode fazer o que deseja. Em geral têm acesso a todo centro de aprendizagem, e a quase todos os trabalhos que desempenha o homem.

— Mas isso não tem sentido, a menos que possuam um sistema de apoio, uma base — argumentou Esperanza. — De que serve ter acesso ao que possuem os homens, quando ainda as consideram seres inferiores, obrigadas a adoptar atitudes e comportamentos masculinos para conseguir ter êxito? As que na verdade conseguem alcançar o êxito são as perfeitas convertidas, e elas também depreciam às mulheres.

— De acordo com os homens o útero limita à mulher tanto mental como fisicamente. Esta é a razão pela qual às mulheres, apesar de seu acesso ao conhecimento, não lhes tem sido permitido determinar o que é este conhecimento. Tenha em conta, por exemplo, os filósofos — propôs Esperanza. — Os pensadores puros. Alguns deles são encarniçadamente contra a mulher. Outros são mais subtis, no sentido em que estão dispostos a admitir que a mulher poderia ser tão capaz como o homem, se não fosse a ela não lhe interessar as investigações do domínio racional, e no caso de estar interessada, não deveria estar. Pois, dizem, fica melhor à mulher ser “fiel” à sua natureza, como companheira nutridora e dependente do macho.
Esperanza expressou tudo isto com uma inquestionável autoridade. No entanto, em poucos minutos, a mim já me assaltavam as dúvidas. — Se o conhecimento não é outra coisa senão do domínio do masculino, a que se deve então a sua insistência em que eu vá à universidade? — perguntei.

— Porque você é uma bruxa, e como tal precisa saber o que te afecta, e como te afecta — respondeu. — Antes de recusar algo deve saber por que o recusa.

“Sabe, o problema é que o conhecimento nos nossos dias deriva simplesmente de pensar nas coisas, mas as mulheres têm um caminho distinto, nunca antes levado em consideração. Esse caminho pode contribuir para o conhecimento, mas terá de ser uma contribuição que nada tem a ver com pensar nas coisas”.

— Com o que teria que ver então?

— Isso é para ser você a decidir, depois de ter dominado as ferramentas do raciocínio e da compreensão. Só depois…

Minha confusão era muito grande.

— O que propõem os feiticeiros — continuou Esperanza — é que os homens não podem possuir o direito exclusivo ao raciocínio. Parecem possuí-lo agora porque o terreno sobre o qual o aplicam é um terreno onde prevalece apenas o masculino.

Apliquemos então a razão a um terreno onde prevalece o feminino, e esse é, naturalmente, o cone invertido que te descrevi: a conexão feminina com o próprio espírito. Desviou a cabeça, como decidindo o que estava por dizer.

— Essa conexão deve enfrentar-se com um outro tipo de raciocínio, algo nunca antes empregado: o lado feminino do raciocínio. (o lado feminino do cérebro*)

— E qual é o lado feminino do raciocínio, Esperanza?

— Muitas coisas; uma delas é definitivamente ensonhar. — olhou-me interrogativamente, mas eu nada tinha a dizer.

Sua profunda gargalhada me pegou de surpresa.

Eu sei o que espera você dos feiticeiros: rituais e encantamentos, cultos raros, misteriosos. Quer que cantemos. Quer fundir-se com a natureza; estar em comunhão com os espíritos da água; quer paganismo, uma visão romântica do que fazemos.

Muito germânico. “Para submergir-se no desconhecido precisam de coragem e mente. Somente com isso poderá explicar a você mesma e a outros os tesouros que poderá encontrar.” — Esperanza chegou perto de mim, ansiosa ao que parecia, por confiar-me algo. Coçou a cabeça e bufou repetidas vezes, cinco vezes como o fazia o cuidador. —Precisa agir a partir de seu lado mágico — disse.

— E isso o que é?

— O útero — e o disse com tanta calma, e em tom tão baixo, como se não lhe interessasse minha reacção, que quase não a ouvi. Depois, ao dar-me conta do absurdo de suas palavras, me endireitei e olhei para as outras mulheres.

— O útero — repetiu Esperanza — é o órgão feminino fundamental, o que dá às mulheres esse poder, essa força extra para canalizar sua energia.

Explicou que o homem, em sua busca pela supremacia, tem conseguido reduzir esse misterioso poder, o útero, ao nível estrito de um órgão biológico cuja única função é reproduzir, abrigar a semente do homem.
Como se obedecesse a um chamado, Nélida ficou de pé, rodeou a mesa e veio parar-se atrás de mim.

— Conhece a história da Anunciação? — murmurou quase pegado a meu ouvido.

— Não — respondi, rindo.

Com esse mesmo sussurro confidencial me disse que na tradição judaico-cristã os homens são os únicos que escutam a voz de Deus. As mulheres, salvo a Virgem Maria, foram excluídas deste privilégio. Nélida disse que um anjo sussurrando à Maria era, logicamente, algo natural. Não o era em troca de que a Única coisa que pôde dizer-lhe foi que daria à luz o filho de Deus. O útero não recebeu conhecimento e sim, melhor dizendo, a promessa da semente de Deus. Um deus masculino, que por sua vez gerava outro deus masculino.

Eu queria pensar, reflectir acerca de tudo o que se havia dito, mas minha mente estava em total confusão.

— E o que acontece com os feiticeiros homens? — perguntei. — Eles não têm útero e, contudo, estão claramente conectados com o espírito.

Esperanza me olhou com uma satisfação que não tentou dissimular; depois olhou por cima do seu ombro como temerosa de que alguém a escutasse. Num murmúrio, apenas disse:

— Os feiticeiros podem alinhar-se com o espírito pois abandonam o que especificamente define a sua masculinidade. Já não são homens.
(…)

“Sonhos Lúcidos”
FLORINDA DONNER-GRAU
* sugestão minha...

4 comentários:

Astrid Annabelle disse...

Rosa, há muitos atrás li (devorei) um livro dessa autora. Não me lembro o título do mesmo. Acredita? pois é...mas a sua linguagem me soa sempre familiar...gosto muito.
Belo texto.
Beijos
Astrid Annabelle

Rosa Leonor disse...

Eu também não sei se o cheguei a ler há imenso anos - tenho relido alguns livros de carlos castanheda, mas há um especial de taicha abela, a travessia das feiticeiras que é mesmo demais...

grande beijinho

rl

A VIDA É UM ETERNO APRENDIZADO disse...

Olá!
Peço permissão para seguir seu blog,pois achei ele muito útil nas minhas leituras.
Grande abraço
se cuida

Rosa Leonor disse...

oLÁ...tenho muito gosto que me acompanhe...
obrigada e um abraço para si também

rleonor