"NÃO SOU FEMINISTA, SOU ANTROPOLOGICAMENTE LÚCIDA" Ana Hatherly

terça-feira, junho 14, 2016

AS MULHERES DIVIDEM-SE E OS HOMENS UNEM-SE...


QUE HERANÇA É ESTA?

PORQUE NÃO VEMOS QUEM É QUE APONTA O DEDO ÀS MULHERES - não são sempre as mulheres? Sim, tu e tu e tu e eu...sim, e sabes porquê? Porque nos digladiamos há séculos  e porque nos julgamos umas às outras e porque nos achamos  a nós melhores e as outras piores - já nos perguntámos isso e viramos o dedo para dentro?

Onde é que tudo isto começa?
Onde, de quem é a culpa e como não fazemos nada para ver objectivamente a origem desta tragédia que é a rivalidade entre mulheres? É fácil dizer : as "Mulheres não estão a conseguir edificar-se, porque querem na verdade destruir-se enquanto os homens assistem de camarote."

MAS PORQUE É QUE AS MULHERES SE QUEREM DESTRUIR UMAS ÀS OUTRAS?

Esta é a resposta que temos de nos dar com urgência e perceber que o veneno está dentro de cada uma de nós e NÃO apenas na  OUTRA! Esse é o nosso erro, julgar sempre a outra. Não ver a divisão e a cisão em cada uma de nós e como o sofrimento das mulheres dentro de si se reflete fora e querer fazer um trabalho de grupo com as outras mulheres sem primeiro trabalhar connosco e descortinar a origem do nosso drama individual é um erro. Não ver que  TODAS AS MULHERES SOFREM DO MESMO E NÃO HÁ AS SANTAS DE ALTAR NEM AS DEUSAS PURAS NEM AS PECADORAS DE SERVIÇO. 

É preciso ter MUITA HUMILDADE para perceber que as CAUSAS  embora tendo origem no Patriarcado está na nossa  mentalidade ainda  e que é preciso ver como essa divisão da mulher em duas - a santa e a prostituta,* a boa e a má ,começa em nós mesmas, mas isso nós não queremos ver e não vemos por isso que o ciclo se torna  vicioso?
Olhamos os factos e os factos são os factos, não mentem: há antagonismo entre as mulheres, há. As mulheres estão sempre divididas, estão.  E todas as mulheres se queixam umas das outras, porque TODAS se acham as melhores...e as outras as más da fita...e eis o nosso impasse. É assim que nos ensinaram a ver e a sentir. E não vemos este ciclo vicioso em que estamos todas mergulhadas e que é nós não sabermos onde começa e acaba esta rivalidade e este antagonismo nem como extirpá-lo de nós nem das outras e por isso temos de ter  muita atenção ao ver o que vemos nas outras porque é olhando para dentro...e saber separar o trigo do joio, que saberemos de onde vem este cisma; podia parecer fácil, mas da forma como as coisas estão no mundo e à nossa volta tudo se confunde e nós também...
Podíamos então dizer que há dois níveis ou dois grupos - preferia dizer de consciência - entre as mulheres: as que ainda agem de forma patriarcal, muitas sem se aperceberem, e estão no nosso seio e também em nós mesmas na maioria dos nossos reflexos condicionados, e por outro lado as mulheres que tem um trabalho efectivo feito e são mais maduras e já fazem alguma diferença, mas enquanto o campo de acção estiver minado dessa mentalidade patriarcal pela inveja raiva odio enredos superioridade inferioridade as boas e as más, as bonitas e as feias, as casadas e as solteiras, as com filhos e sem filhos, cabe-nos perguntar até que ponto nós próprias conseguimos sair dela, dessa mentalidade nefasta,  porque se o não fizermos não conseguimos sair deste impasse.
E é grave e lamentável que nos aticemos umas contra as outras, é grave e doloroso para cada uma de nós que apontemos o dedo às mulheres TODAS sem entender o PORQUÊ desta luta e rivalidade ancestral quase congénita ...e perceber que ela começa dentro de cada uma de nós...e ainda não foi sanada nem sequer consciencializada pela maioria das mulheres que se confrontam com este drama...
PORQUE NÃO ESTAMOS CONSCIENTES das causas dessa cisão nem do que nos feriu sem ver que é assim que somos educadas para que essa rivalidade exista e predomine entre as mulheres.  Sim, nós fomos divididas em estereótipos para que os homens se possam unir - e rir de nós que nos voltamos umas contras as outras...enquanto eles aparentam união à nossa custa e  portanto essa união entre as mulheres está muito longe de acontecer porque andamos à volta de teorias e de ideias e não queremos olhar para dentro e para a nossa sombra a mais sombria, não queremos ver as falhas em nós e assim não vamos ao cerne da questão do feminino essencial!
Sofremos TODAS do mesmo mal (a culpa) e reflectimos o nosso sofrimento em detrimento umas das outras, mães e filhas amigas e irmãs...o mal começa com as mães...

Não seria interessante as mulheres perguntarem-se porque se dá entre si esse fenómeno de rivalidade secular e continue a haver essa destruição entre si nos grupo de mulheres? Não seria oportuno a mulher tentar perceber porque é que esta é uma constante entre grupos de trabalho do dito feminino sagrado?
Não será que está a escapar algo a estas mulheres?
Ou será que é de nascença que as mulheres pecam e têm defeito? Será?
E porque será que os homens não tem esse problema?

ALGUÉM COLOCA O DEDO NA VERDADEIRA FERIDA DAS MULHERES?

Porque será que os homens são unidos - conseguem perceber porquê?
Porque se aliam todos tacitamente contra a mulher e as mulheres estão umas contra as outras rivalizando por causa de lutar pelo homem? Não é porque eles tem as costas quente...mas se tem somos nós que as aquecemos...
Não será tempo de cada mulher se perguntar a si mesma o porquê desta inimizade entre as mulheres? Será que não compreendem que todas e cada uma está dividida em si mesma entre a "boa e a má, a santa e a puta"* ou a mestra e a invejosa e SEM EXCEPÇÃO todas veem na outra uma rival mal a outra pensa diferente ou age ao contrário do que se espera? - de onde é que isso veio, todos estes conceitos e preconceitos, já se perguntaram?
Há um trabalho a fazer para além do grupo e das encenações ou dos rituais e das comadres e dos enredos...que é ver com compaixão e amor (POR NÓS MESMAS) e ver depois a ferida de cada mulher como se fosse em nós, por saber onde ela começa e que ela não acaba com ritos e danças nem é com exorcismos nem com mezinhas que lá chegamos, mas apenas COM CONSCIÊNCIA. E é isso que falta às mulheres para se unirem para lá das suas diferenças...para lá de gostarem ou não umas das outras...ou serem amigas, porque senão houver consciência de si e da sua divisão interna nunca mais vamos chegar a lado nenhum.

*A metáfora da "puta e da santa" é só referência ao núcleo de um conflito psíquico interior na mulher que faz a sua divisão interna e que ela só vê fora, na outra. Mais do que Luz e Sombra ou antes de encararmos a sombra e a luz, há essa cisão que é a ferida fulcral que age na mulher há séculos e a torna rival da outra. mulher Para mim essa é a causa da separação das mulheres em grupo no trabalho e na família. Sem um trabalho consciente dessa ferida, nem a psicologia junguiana nos consegue fazer perceber a nossa própria dicotomia que se situa antes da dualidade bem e mal...isto é uma Chave...mas poucas percebemos onde está o veneno que acaba por envenenar todas...essa é a herança e a marca da colonização da mulher pelo patriarcado.

rosa leonor pedro

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