O SORRISO DE PANDORA

“Jamais reconheci e nem reconhecerei a autoridade de nenhuma pretensa divindade, de alguma autoridade robotizada, demoníaca ou evolutiva que me afronte com alguma acusação de pecadora, herege, traidora ou o que seja. Não há um só, dentre todos os viventes, a quem eu considere mais do que a mim mesma. Contudo nada existe em mim que me permita sentir-me melhor do que qualquer outro vivente. Respeito todos, mas a ninguém me submeto. Rendo-me à beleza de um simples torrão de terra, à de uma gotícula de água, à de uma flor, à de um sorriso de qualquer face, mas não me rendo a qualquer autoridade instituída pela estupidez evolutiva da hora. Enfim, nada imponho sobre os ombros alheios, mas nada permito que me seja imposto de bom grado Libertei-me do peso desses conceitos equivocados e assumi-me como agente do processo de me dignificar a mim mesma, como também a vida que me é dispensada. Procuro homenageá-la com as minhas posturas e atitudes e nada mais almejo. É tudo o que posso dizer aqueles a quem considero meus filhos e filhas da Terra. “ In O SORRISO DE PANDORA, Jan Val Ellam

sexta-feira, agosto 09, 2019

Afinal o que é o sagrado?



Os nomes do Sagrado 
por Wofiira Morrigan

Esta semana entrei em um processo de reclusão voluntária para participar de um rito iniciático – meu corpo acompanha me dando um “tempo pra pensar” ao adoecer sem motivo aparente – e, entre um pensamento e outro, veio à minha mente o assunto do Sagrado. Em especial, o movimento do Sagrado Feminino.
Antes de chegar ao ponto dos meus pensamentos, permitam-me fazer uma rápida revisão histórica sobre a questão…
Desde meados do século XX houve uma retomada maciça dos preceitos sagrados antigos de povos das mais diversas etnias. Líderes surgiram em várias nações e culturas, trazendo de volta conhecimentos que ficaram esquecidos por milênios. Os panteões dos antigos Deuses, seus mitos e simbolismos foram trazidos novamente à atenção geral, desta vez em uma nova perspectiva, em decorrência da crescente globalização cultural que aos poucos determinaria uma nova ordem para o mundo.
A partir disso, os movimentos do paganismo e do neopaganismo deram início a um novo entendimento de todo um arcabouço de símbolos e práticas de conexão com as divindades ancestrais, ao mesmo tempo em que algumas discordâncias surgiam na busca por esse conhecimento antigo – um grande diamante bruto que precisaria ser novamente lapidado.
***
Uma adenda importante sobre a palavra “pagão” (do latim paganus, que significa “camponês”, “rústico”): adotada pelos cristãos para nomear todos aqueles que, obviamente, não seguiam os preceitos cristãos – mesmo que nem mesmo alguns seguidores do Cristo, ainda hoje, entendam o que isso queira dizer – o termo era usado para rotular todos os que não aceitavam o batismo e não seguiam os dogmas da Igreja. Coloque nesta conta também cientistas, curandeiros, astrólogos, filósofos, e tantos outros que ousaram não seguir os preceitos difundidos pela Igreja, quando não eram simplesmente rotulados de “bruxos”. Todos, quase sem exceção, acabavam entrando nesta categoria única, porém absolutamente heterogênea. Dito isso, é preciso ter em mente que o conceito de paganismo tem um sentido amplo. Grande parte das religiões ligadas à natureza e que não seguem os dogmas do cristianismo são ditas pagãs. Algumas dessas tradições não se identificam com o título generalizado de “paganismo” – o que, no fim das contas, pode não ser apenas uma questão de nomenclatura. O movimento neopagão foi assim chamado por trazer uma perspectiva um pouco diferenciada (e talvez moderna) dos cultos aos Antigos Deuses, ainda que tenham sido preservados os seus simbolismos e mitos. O neopaganismo também conferiu à retomada da sabedoria ancestral certo ar global, na medida em que uniu conceitos, abriu a possibilidade para os panteões “conversarem” entre si, e ao afirmar a existência de um único Deus e uma única Deusa com variadas faces.

Mas isso já é assunto para outro post…

***
Toda essa movimentação surtiu um efeito fantástico para desmistificar as antigas religiões, tirando-as do mesmo balaio do diabo cristão da Idade Média para ressurgir nas rodas de discussão filosóficas, acadêmicas e religiosas. A (re)descoberta de Deusas poderosas, sábias e guerreiras propiciou às mulheres o reconhecimento de si mesmas como sagradas, não mais precisando delegar o poder a um sacerdote ou qualquer tipo de intermediário para acessar a divindade. Saíram, enfim, da posição de meras coadjuvantes de uma elite divina que dificilmente as colocaria em pé de igualdade com um Deus Todo Poderoso essencialmente masculino.

A partir disso, líderes femininas (e feministas) em países como os Estados Unidos, Inglaterra, e também no Brasil, começaram a tirar os véus dos mistérios há muito tempo escondidos, relegados aos contos de fadas e aos livros de História. A psicóloga junguiana Clarissa Pinkola Estés (autora de Mulheres que Correm com os Lobos) foi um dos ícones desta força, e sua obra tornou-se quase que a nova “bíblia” da retomada de uma sacralidade feminina que, com certeza, nunca fora esquecida.
Chegamos enfim ao assunto que motivou a escrita deste post: o Sagrado Feminino. Em termos de popularidade, o movimento do Sagrado Feminino pegou o mesmo embalo que o movimento do paganismo e neopaganismo, e do que foi chamado ressurgimento da Deusa – para entender de forma mais ampla sobre as Deusas na História humana, recomendo fortemente a leitura do livro Todos os Nomes da Deusa, do antropólogo (maravilhoso) Joseph Campbell.

Mas, afinal, o que é o Sagrado Feminino?


De acordo com Isabela Serafim, em uma matéria pra a revista Glamour, o Sagrado Feminino é considerado tanto uma filosofia quanto um estilo de vida, ao promover ensinamentos a respeito de aspectos físicos e mentais da figura feminina. Alguns desses aspectos abarca a consciência dos ciclos femininos, propiciando a reconexão da mulher consigo mesma e a harmonização dos próprios ciclos com a natureza.

O Sagrado Feminino tornou-se, então, o nome de um movimento de mulheres buscando um contato consigo mesmas, após anos de marginalização de todos os tipos, e em especial dentro da própria noção de divino. Uma nobre missão para um movimento que carrega em si praticamente toda a História da humanidade, inspirando respeito e admiração em quem a procura conhecer.
No entanto, o movimento do Sagrado Feminino sucumbiu ao status quo que as primeiras líderes femininas combatiam com tanto rigor: o feminino sagrado foi retirado de uma perspectiva do mítico para revelar-se apenas no místico: as Deusas, mitos, lendas, contos acabaram se tornando uma “temática” para a abordagem de assuntos relacionados ao feminino, em uma perspectiva de orientadoras que conduzem outras mulheres na descoberta de si mesmas, em cursos, vídeos no YouTube, textos em blogs, etc, etc, mas pouco fez pela retomada da força da mulher.

E antes que eu seja mal-interpretada, explico: todas as lendas e mitos antigos indicavam um caminho para o aprendizado. O conhecimento apenas seria adquirido com muito esforço e afinco, com muita observação e dedicação, por isso todos os simbolismos e metáforas. Nada nunca era dado de mão beijada. Hoje, no entanto, mulheres (e homens também) consomem um conhecimento mastigado e dividido em “módulos”, e não se preocupam em refletir sobre o que está sendo ensinado. Não há mais a jornada do herói – ou da heroína. Não há mais o processo iniciático, não num sentido de dogmas ou rituais, mas enquanto uma jornada necessária para a ascensão, e que requer uma ação voluntária.

Vemos claramente essa jornada na questão do masculino, mas não adotamos essa mesma perspectiva quando falamos da força do feminino. Mulheres guerreiras, autônomas, que pensam e falam por si ainda são muito rotuladas e, geralmente, esse comportamento fica de fora das rodas e cursos do movimento do Sagrado Feminino. Mulheres falam do feminino, mas não entendem o que é o feminino. Mulheres conversam sobre o feminino, mas não compreendem o feminino. Mulheres dançam as danças do feminino, mas não sabem lidar com o feminino.

Mas, enfim, onde está o problema?

Ele é basicamente conceitual, meus caros e caras, e um tanto filosófico. Nós esquecemos o que é ser mulher (ou não aprendemos, ou desaprendemos), pois, assim como as Deusas, também fomos relegadas ao esquecimento por séculos e séculos. E ainda não terminamos de lembrar.

Antes de falarmos em Sagrado Feminino precisamos nos lembrar, primeiro, o que é o Sagrado. E o Sagrado é muito difícil de abarcar… pelo simples fato de que ele é absolutamente TUDO.

Ou aprendemos a fazer a jornada… ou vamos continuar abordando o conhecimento ancestral como um curso de pós-graduação.

quinta-feira, agosto 08, 2019

UM LUGAR SEGURO...


CIRCULOS FEMININOS

”Quando as mulheres se reúnem e fazem um compromisso umas com as outras para estar em um círculo, com um propósito espiritual, NO SENTIDO DE UNIÃO DE SUAS ALMAS, elas estão criando um vaso de cura e transformação de si mesmas, e sendo veículo para a mudança em seu mundo. Estes são os círculos de compaixão que podem tornar-se incubadoras de mudanças políticas, sociais e pessoais. Um círculo igualitários com um centro sagrado é um modelo mais facilmente criado por mulheres, mas é uma forma não limitada às mulheres. Círculos com um centro sagrado são o meio pelo qual uma terceira onda do feminismo, com base na igualdade espiritual e compaixão, podem provocar uma mudança evolutiva na sociedade humana, que acabaria com a violência e o terrorismo, promovendo condições para um mundo que seja seguro para as crianças e para nós mulheres. Em um mundo onde o exercício do poder é o que importa, as crianças do sexo feminino não são importantes e os meninos são ensinados a dominar uns aos outros, aprendem a prática da dominação através do ridículo, de meios físicos, de intimidação a fim de serem respeitados. São meninos que se transformarão em homens e que entenderão que o poder é um antídoto para o medo e a humilhação. Isto é como o patriarcado socializa seus meninos e homens e os torna violentos. Um círculo de mulheres que confiam umas nas outras torna-se um santuário para as participantes, especialmente quando as mulheres são capazes de falar de experiências nas quais ela foram abusadas, humilhadas ou testemunharam algum tipo de violência. Um lugar seguro para dizer a verdade, é um espaço de cura: uma pessoa abusada emocionalmente tem uma dupla ferida: a dor do que foi feito com ela e a dor da vergonha. Na psique de cada mulher abusada ou violentada além da vergonha existe um sentimento de indignidade e rejeição. Toda vez que uma mulher adquire a coragem de falar e se mostrar segura, a confiança cresce e sua psique gradualmente se cura. Um círculo é um lugar seguro também para expressar a esperança, as intuições, a tristeza e a raiva, que são parte de todo processo terapêutico. A intenção de estar em um círculo com um centro espiritual convida o mundo invisível do espírito ou da alma para estar no centro do círculo e no centro da psique de cada pessoa no círculo. Por meio do silêncio meditativo ou de oração silenciosa, sabedoria e paz podem entrar. 

Nos Círculos as mulheres podem dizer em voz alta o que passa em seus corações e mentes ao mesmo tempo que têm a capacidade de ouvir com compaixão. Círculos evocam um sentimento de irmandade e também um sentimento de estar em um espaço materno arquetípico. Reviver o arquétipo da irmã e o arquétipo da mãe é possível para a maioria das mulheres (mas não todas, porque estes não são os arquétipos ativos em algumas mulheres) para se identificar com outras mulheres. É a capacidade de sentir uma ligação empática que torna as mulheres capazes de imaginar o que seria estar em ambos os lados da divisão israelense-palestino, ou ser uma mulher sob o regime Taliban ou uma criança abandonada e vulnerável. É um ponto de vista que não vê a guerra como algo a ser vencido, mas como uma causa de morte e sofrimento para todos, inocentes, especialmente mulheres e crianças. Um soldado é ensinado a matar, que é também o que um terrorista é ensinado e estas não são lições que as mulheres querem que seus filhos aprendam. Os círculos são os meios pelos quais as mulheres têm melhorado a situação para as mulheres. Nos Estados Unidos, o movimento começou em meados do século XIX, com um círculo de cinco amigas. Encontraram resistência por parte de autoridade masculina. Este movimento resultou no direito das mulheres ao voto, à propriedade e aos seus próprios salários. O avanço seguinte veio através do movimento de mulheres a partir da conscientização e da formação de outros grupos de mulheres que resolveram trabalhar efetivamente juntas. Elas fizeram reivindicações e romperam a resistência à mudança por meios pacíficos. O Movimentos de mulheres é uma rede invisível de amizade entre mulheres e existe graças à capacidade das mulheres de se relacionarem umas com as outras por meio da conversa e, em seguida, ter uma influência sobre os homens e as instituições. Mulheres em círculos trazem consciência do que precisa ser mudado na sociedade. O poder invisível dos círculos de mulheres é extraordinário: Auto-estima, realizações, desenvolvimento de talentos. Tudo isso tem a ver com o fato de que somos ouvidas e valorizadas, amadas por nós mesmas, incentivadas e apoiadas. Quando há apoio psicológico e prático para fazer uma mudança significativa, a mudança é mais provável…"



Jean S. Bolen


A OPRESSÃO DAS MULHERES



"A opressão das mulheres pelos homens é um sistema dinâmico no qual as desigualdades vividas pelas mulheres são os efeitos das vantagens dadas aos homens." - Daniel Welzer-Lang


AS CAUSAS DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA


Não, não é a droga nem o álcool o factor “catalisador” nem a causa principal da violência doméstica! O álcool e a droga é apenas o desinibidor da violência e frustração masculina de que as entidades oficiais se servem para justificar a sua agressividade sempre latente contra as mulheres.

O álcool é o que remete para público e de forma visível a violência inata do masculino desde há seculos e que hoje o indivíduo sem rédeas sociais e morais mostra o que sente realmente e reflecte sobre a mulher uma “autoridade intemporal” que lhe deram as igrejas e as leis patriarcais - sendo a mulher sua posse enquanto filha e enquanto esposa, ele usa e abusa de sua livre vontade. É sobre a mulher e o feminino que a prepotência inerente à sua condição de macho assume proporções mais drásticas, como é o feminicídio, baseado mais ou menos inconscientemente, no que o homem pensa ser o seu direito e posse da mulher, sua legítima propriedade, tal como lhe foi legado pelo Sistema patriarcal.
Como a sociedade civil começa hoje em dia a ter alguma noção do flagelo que é a morte de mulheres por companheiros e maridos e das suas proporções drásticas em toda a Europa, já não são as prostitutas da rua que são assassinadas e apagadas do mapa, mas as mães de família, isso torna demasiado claro como o homem comum se tornou o predador da mulher.
Perante tantas evidências é possível que ao nível das aparências o Sistema queira camuflar essa violência e estes crimes com eufemismos e a negar que esta realidade possa atingir proporções dramáticas. Por isso não creio que as mulheres possam contar com o apoio dos homens...mesmo ao nível das instituições mais idódeas...
Só as mulheres poderão mudar as suas vidas, cada uma por si, consciencializando-se da sua escravatura e submissão.
rlp

quarta-feira, agosto 07, 2019

JOUMANA HADDAD EM LISBOA


Joumana Haddad - LER AQUI TEXTO INTEGRAL


EXCERTO DA ENTREVISTA
(...)
Como vê a situação das mulheres no mundo árabe? Porque há diferenças, não são todas tratadas da mesma forma nos diversos países. Onde é que a pressão é maior, como é no Líbano, onde as coisas são menos rígidas? [mais uma pergunta da assistência, outra vez de um homem]
Sei que pela aparência pode parecer que as mulheres no Líbano gozam de uma liberdade que outras mulheres, noutros países árabes, não têm. Mas é preciso dizer duas coisas: em primeiro lugar, é apenas aparência, porque as leis do Líbano são muito sexistas, são muito discriminatórias em relação à mulher - somos cidadãos de segunda - e, em segundo lugar, se há mulheres emancipadas, quer dizer, que parecem emancipadas, elas não são mais do que talvez 20% a 30%, pelo que não devemos generalizar. Pessoalmente, penso que as mulheres na Tunísia gozam de muito mais respeito e dignidade do que as mulheres libanesas, porque tiveram a lei do seu lado desde 1950/60, quando tiveram a oportunidade de ter um bom ditador, entre aspas, Habib Bourguiba, que era um feminista, e que deu às mulheres todos os seus direitos, até mais, o que fez com que, geração após geração, um mundo onde faltar aos direitos das mulheres seria impensável. E foi por isso, por exemplo, que quando os islamitas na Tunísia se preparavam para retomar os seus direitos, não conseguiram, porque as mulheres tinham expectativas de liberdade, de poder. Elas levaram cinquenta anos a acumular força. Isso nunca aconteceu entre nós, onde as mulheres se contentaram com poder vestir-se como querem, ir dançar... indícios de liberdade superficiais. Nunca tivemos acesso ao Estado ou aos nossos direitos nem a nossa identidade foi respeitada.

As mulheres, supostamente emancipadas em Itália e noutros países europeus, cedem todos os dias ao consumismo e ao poder da publicidade graças a um ideal de beleza que dita que as mulheres têm de ser belas, além de tudo o resto. O que pensa disto? [a pergunta, claro, é feita por uma italiana, Giuseppina]

A Giuseppina, para os que não perceberam, pergunta-me, mas já deu a resposta, o que penso da mulher que é vista como um objecto, um naco de carne, a mulher que tem de ser bela. Para explicar este modelo de mulher digo muitas vezes esta frase, que sei que é provocadora: ou bem que é necessário esconder-se completamente ou bem que é necessário expor-se de mais. Para mim não é contraditório, vai dar ao mesmo. É uma anulação da mulher, digamos assim. Anulamos a sua existência quando a escondemos ou quando a reduzimos a um objecto de contemplação, em ambos os casos ela não tem sequer o direito de respirar. Mas também não devemos esquecer que as mulheres têm a sua quota parte de responsabilidade por aceitar este tratamento. Falo com feministas ocidentais e digo-lhes: não deixem perder aquilo que ganharam nos anos 60 e 70, porque se paramos de lutar, voltamos para trás.

[E, por falar em Itália, Joumana lembra-se de outro grave problema]

Outro grande problema, que existe tanto em Itália como em Espanha [José Mário e a planteia logo fazem notar que é comum a Portugal] é o femicídio. A matança de mulheres, toda esta violência sobre as mulheres, é muito perigosa. O que vou dizer está longe de retratar essa gravidade, mas vou contá-lo. Certo dia, uma mulher sueca escreveu-me a dizer: "Não temos o mesmo salário que os homens, apesar de desempenharmos as mesmas funções". Estamos a falar de um país que consideramos ideal em matéria de direitos das mulheres, digamos assim. Ainda é preciso trabalhar muito em termos de justiça, de igualdade. Porque trata-se de justiça. Se faço o mesmo trabalho, se tenho as mesmas competências, é suposto receber o mesmo salário, ser paga da mesma forma, independentemente de ser homem ou mulher. E é preciso não esquecer que a Itália é um pouco especial, porque tem uma certa relação com a religião e uma proximidade com o Vaticano... E todos sabemos que o catolicismo não é muito gentil com as mulheres [risos].

A TRAIÇÃO



REFLEXÕES...

A traição é a maior dor que existe no campo dos afectos - é ela que mais nos fere e marca, tenhamos que idade tivermos, seja a que nível for que ela aconteça. Ela atinge-nos no amago. 
E às vezes nós sentimo-la e nem sequer sabemos onde ela se deu...nem quem nos traiu...Outras vezes nem a pessoa que nos traiu sabe que nos traiu, mas é sempre uma punhalada. Valha-nos a certeza de que "quem com ferros mata com ferros morre"...a vida é implacável sempre, digo impecável... Podemos dormir descansad@s...além de que vamos morrer tod@s um dia e tudo se esquece. Nada é eterno senão a alma e esta é intocável pela miséria humana.

rlp

A FALSA LIBERDADE DAS MULHERES



A falsa liberdade das mulheres - não tem substância...porque as mulheres perderam há muito a sua ligação com ela. AS mulheres perderam a sua ligação com a mulher real, a mulher ctónica e visceral, a mulher interior. A mulher que se quis tornar igual ao homem perdeu não só a sua natureza profunda, a sua feminilidade essencial, assim como perdeu as suas referências matriarcais e matrilineares e toda a Mistica da Mulher ancestral, a mulher do inicio, não a mulher reduzida a escrava e a concubina a esposa e meretriz, depois das invasões bárbaras e cujo modelo ainda hoje perdura no Sistema patraircal. 
As mulheres modernas pensaram que tinham tudo do ponto de vista material para ter sucesso no mundo dos homens, se assim fizessem, se lutassem pela igualdade ou liberdade, mas ao fim de várias décadas de teorias e ideologias as mulheres, apesar de profissionais e terem atingido lugares de topo nas universidades e formarem-se em todas as carreiras iguais aos homens, mas  em casa e na família ou na rua elas continuam a ser abusadas e exploradas e violadas - mas elas não querem ver que houve um retrocesso e que  voltaram a uma situação de perseguição e abuso. A sua exposição inocente como foi pensarem que podiam despir-se e ousar todas essas liberdades foi a causa de uma maior ofensiva e violência contra as mulheres porque elas partiram de um  ponto de vista errado. A liberdade da mulher não se baseia na igualdade com o homem, mas justamente na sua diferença física e biológica e na afirmação do seu ser enquanto mulher sensual sensível e emotiva e no resgate da sua natureza ontológica. Por isso digo que as mulheres nunca foram livres no patriarcado. 

Não, as mulheres não são livres neste mundo...toda a mulher que se julga "livre" e age "sem medo" acaba por sofrer atentados à sua honra dignidade e integridade. Ela sofre de assédio no trabalho na rua e onde quer que esteja. As mulheres modernas e as feministas convenceram-se à força de ideias e teorias de que o mundo as aceitava livres mas essa liberdade além de falsa é hoje um pau de dois bicos. Vira-se sempre contra si...se ela não tiver em conta a realidade que a circunda e como os homens nunca fizeram um trabalho paralelo - nem sequer estão interessados nisso - para que elas pudessem ser respeitadas na sua liberdade tão apregoada. Olhemos para França, o País da grande liberdade das mulheres, é onde hoje em dias mais mulheres são mortas diariamente pelos companheiros…
Trata-se agora e mais do que nunca urgente que a mulher perceba como essa liberdade se tornou uma espécie de ratoeira onde ela é apanhada facilmente.
A mulher tem de perceber que a sua liberdade está na sua Consciência de si...a saber como agir sem se expor ao predador… ela tem de seguir o seu sentir e instintos e não a moda nem as ideologias de género ou quaisquer "ismos" (feminismos e activismos) que dizem defendê-la...
A liberdade da mulher dentro do Sistema patriarcal e falocrático nunca foi garantida, nunca será garantida, a não ser a que a mulher busque a sua verdadeira identidade - em contacto com a sua substância, digo a sua essência - caso contrário ela continuará a ser sempre o bode expiatório do macho predador. Basta olhar em volta e perceber que cada dia que passa essa liberdade está mais em risco...
rlp



UMA ÁRABE EM PORTUGUÊS…


Diz ele diz ela*

As mulheres têm de cozinhar, diz ele.
A única coisa que cozinharei é a tua carne, diz ela.
As mulheres são criaturas do Inferno, diz ele.
Óptimo, foste avisado, diz ela.
Não se pode confiar nas mulheres, diz ele.
Podes agradecer-me depois, diz ela.
As mulheres têm de obedecer aos homens, diz ele.
Então, põe-te de joelhos e ordena-me que me dispa, diz ela.
As mulheres falam de mais, diz ele.
Cala-te e faz amor comigo, diz ela.
As mulheres existem para agradar aos seus amantes, diz ele.
Diz por favor e eu pensarei nisso, diz ela.
As mulheres apaixonam-se facilmente, diz ele.
Lembra-me outra vez o teu nome, diz ela.
As mulheres só sonham em casar-se, diz ele.
Não contenhas a tua respiração, diz ela.
As mulheres não sabem conduzir, diz ele.
Lembra-te disso quando eu te atropelar com o meu carro, diz ela.
As mulheres não se importam com o tamanho, diz ele.
Espero que não estejas a contar com isso, diz ela.
As mulheres devem ser espancadas quando se portam mal, diz ele.
De que é que estás à espera, diz ela.
As mulheres devem ser amarradas, diz ele.
Onde é que está a corda, diz ela.
As mulheres não suportam o sexo casual, diz ele.
Conta essa história a ti mesmo quando eu me for embora amanhã de manhã, diz ela.
Não esperes que eu fique para sempre, diz ele.
Isso é uma promessa?, diz ela


*O poema integra o livro "O Super-Homem é Árabe" e na apresentação foi dito pela autora, Joumana Haddad [ela] e José Mário Silva [ele].

quinta-feira, agosto 01, 2019

ENTRE A TERRA E O CÉU



AS DUAS ÍSIS…

(…)
“A busca da verdade é também a busca do outro. Essa questão toca bem claramente o problema da dualidade masculino/feminino, dia/noite….Quando essa dualidade é dominada, leva a um outro nível de consciência, tal como é expresso na grelha integrada. A mulher – conhecimento/sabedoria – tem um substrato de facto, enquanto o homem precisa partir sem demora em busca de si mesmo. A mulher é para ele uma iniciação ao progresso, um catalisador do futuro. Nesse sentido a mulher parece ter vantagem em relação ao homem.
As duas buscas de Ísis demonstram muitas facetas dessas vantagens. Considerando Osíris como o representante do homem mítico a construir, vemos que ele precisa a toda a hora de ser reconstruído. Os catorze pedaços são catorze centros energéticos e esses mesmos centros foram escolhidos para nomear províncias do Egipto, os nomes. O corpo decepado do deus vivo que se tornará deus morto. É o fio invisível que assegura a continuidade ao longo da alternância vida/morte. É também o símbolo do grão que morre no solo para renascer em outro ser. Cada grão de Osíris estava ligado a uma província do Egipto. Ísis não encontrou o sexo, engolido por um peixe. Não existe província ligada ao sexo. Esse facto evoca outras ideias que encontramos em muitas religiões – reveladas ou não -, a de que o deus fundador foi concebido sem reprodução sexuada. O segundo aspecto está ligado ao facto de que são as mulheres que concebem. As mulheres são MA e o AM. A primeira matéria realizada seria a da mulher.

Existem tipos de fecundação em que podemos questionar qual é o verdadeiro papel do macho. Em certas fêmeas, o espermatozóide só traz um sistema de forças criador, apenas um stresse para o óvulo. Não existiria transmissão de património genético proveniente do macho, enquanto as recombinações genéticas teriam lugar unicamente no material genético proveniente da fêmea. A mulher já tem nela as infrastruturas para criar o ser inteiro. Falta-lhe justamente o impulso criador. Na Bíblia, o episódio da costela de Adão apresenta as coisas de maneira inversa.
Com a linguagem vibratória, a tradução da mulher dá a letra Z. E a constela de Adão seria a letra Z, que significa responsabilidade. Ora, a letra Z pertence ao mundo transcendental. A mulher já é portadora do mundo transcendental (A Virgem maria, Ísis, as virgens negras etc.). O homem, em contacto com a mulher, teria acesso ao germe da iluminação. E o casal alquímico exteriorizaria isso.
(…)
Chegarei mesmo a dizer que, nesta evolução do conhecimento, a mulher leva vantagem, mas não sei se ela sabe disso. Ainda mais que na situação actual ela se choca com o poder do homem. Sejamos claros: constitutivamente não existem relações de superioridade ou de inferioridade entre o homem e a mulher. Tudo depende do contexto sócio-cultural da época considerada cujas consequências extremas se manifestam nas sociedades do tipo patriarcal e matriarcal. O facto principal que se expressa no caso ideal é a complementaridade da infra-estruturas constitutivas de cada um…O resultado no mais alto nível vibratório de tal complementaridade é a fusas integral dos duplos que se traduz por um alargamento prodigioso do campo de consciência do casal alquímico. Trata-se de um verdadeiro processo de transcendência cujas consequências são múltiplas, principalmente transformações profundas e duráveis de cada um dos componentes do casal. Penso mesmo que esse estado ideal e final do casal alquímico, caracterizado pela fusão dos duplos, continua após a morte física. Mas atenção: eu não digo que tal resultado do casal alquímico seja verdadeiramente realizável.” *
(…)
*Etienne Guille
in O homem entre o Céu e a Terra

A NATUREZA MÃE



A Mãe-Terra Provedora da Vida

"Sou parte integrante e muito especial da noção ampliada de Deus ou Grande Espírito. Essa força superior está expressa nos meus relevos, no cheiro das flores, no canto do japiim, na luz do vagalume, nos frutos do ingazeiro e nas límpidas águas do rio Curiau. Antes de ser mãe, sou filha do universo, sou a Mãe-Terra e venho falar um pouco dos meus sentimentos, minhas dores e esperanças. Em meio à guerra e destruição, atualmente tenho muito ouvido falarem em paz e preservação/conservação da natureza. A natureza, que é o meu corpo, feito para alimentar meus filhos e para ser sua casa, tem sido sistematicamente atacada e poluída ao longo de séculos!
(...)

Mesmo depois do aparecimento dos seres humanos, durante um tempo longo da sua presença por aqui, não houve grandes problemas ou desequilíbrios socioambientais, porque os antepassados humanos eram mais responsáveis, mais ajuizados e mais conscientes sobre o manejo dos bens naturais. Preocupavam-se com a coletividade, com os seus herdeiros e viam que a fonte da vida estava em cada folha, em cada ararinha-azul, em cada peixe e em cada pedra, por isso prezavam pelo equilíbrio ambiental. Aprenderam que o Grande Espírito está em todos os lugares e se comunica com todos através dos sons dos ventos, das águas, do canto do uirapuru e pelo colorido da plumagem do beija-flor.

Lembro que os seres humanos daquela época cultuavam a mim como divindade, usavam as plantas para curar os males do corpo e do espírito e se alimentavam da coleta e da caça sem danificar o ambiente onde viviam. Foram bons tempos, em que a inteligência humana unia-se à natureza para com ela criar e recriar a beleza da vida. Mas essa inteligência, guiada pela ambição, um dia achou que o mundo era um lugar temível e perigoso.
(...)

Não tenho dúvida de que ao se desligarem da espiritualidade dos antepassados, os meus filhos humanos se voltaram contra mim. Perderam a noção do caráter sagrado da natureza e firmaram outro pacto, em que o sagrado está no egoísmo e na ganância. Em última instância, o sagrado pactuado no mundo desencantado está na destruição da provedora da vida: a Mãe-Terra.

É lamentável isso tudo, pois não quero declarar guerra contra a meu filhos, pelo contrário, convido-os para um novo pacto, para novas atitudes que reencantem os corações, no sentido de perceberem que não quero mal algum a ninguém. Minha proposta não é a criação de igrejas ou dogmas para me cultuarem, quero apenas que percebam que minha integridade é necessária para a sobrevivência da vida em todas as suas formas. Reencantar corações é transformar o egoísmo e a irresponsabilidade em práticas baseadas na concepção de que a natureza é bela, sagrada e vital. Os corações reencantados tomarão atitudes de respeito à Mãe-Terra, tendo-a como sagrada, gerando ações e compromissos de proteção efetivos com todos os elementos da natureza.
(...)
Que fique claro que sou um organismo vivo e inteligente, feito para gerar a vida e protegê-la, no entanto, o meu desequilíbrio pode exterminar tudo a qualquer tempo, bastando promover o meu congelamento por cem anos, por exemplo. Depois poderia me descongelar para tentar gerar novas formas de vida, quem sabe seres humanos mais espiritualizados, sábios e responsáveis.

O melhor caminho mesmo é a busca do entendimento, é darmos as mãos para tentarmos reconstruir tudo o que os seres humanos destruíram em nome do desenvolvimento. Ainda é tempo de fazermos novos acordos, pactos para serem cumpridos, compromissos que visem a perpetuação do canto do sabiá, os ventos frescos do sul, as chuvas regulares de março e a reprodução da macaúba no meio da densa floresta. Está passando da hora dos meus filhos buscarem a humildade e cederem para compreender que a força suprema, criadora e movedora de todas as coisas é a Mãe-Terra, que se manifesta a todo o momento pela presença da borboleta, das flores e dos ventos que assopram nos nossos cabelos. Minha felicidade será imensa em saber que os seres humanos querem paz e o bem comum. Quando chegarem a esse ponto, ficarei mais tranquila e, com a força do Grande Espírito, vou buscar me regenerar, fechar minhas feridas e receber novamente em meus braços os meus filhos!"

Edson Kayapó - Na colecção: Índios na Visão dos Índios. Memória da Mãe Terra



O MUNDO DO HOMEM EM DECLINIO


AS NOSSAS LUTAS E CAUSAS…

"Como cidadãos de todo o mundo, ficamos horrorizados ao ver o rápido aumento da destruição da floresta amazônica nos últimos meses. O destino da humanidade está diretamente conectado sobre o destino da Amazônia, e pedimos que vocês façam tudo o que puderem para proteger a floresta, incluindo aprovar leis para proteger as florestas públicas e acabar com o desmatamento ilegal e inclusive aumentar a pressão internacional para evitar mais destruição da Amazônia." avaaz

Há muitas frentes de luta, muitos campos de batalha, mas nenhuma batalha será ganha sem primeiro haver uma consciência mais elevada de si mesm@ ao nivel individual; já não basta lutar por causas nem ideologias sem que o a pessoa humana esteja consciência do seu ser enquanto SER HUMANO integral, seja ao nivel psicologico seja ao nivel ontológico.

A causa dos falhanços das filosofias e ideologias é que as pessoas veem sempre o mal fora de si e no outro e não entendem que a mudança, qualquer mudança no mundo, tem de começar por si. Enquanto apontarmos os defeitos dos outros sem reconhecer os nossos, e esse é o mais velho drama da humanidade, não iremos nunca sanar o mal do mundo porque ele começa e acaba em nós própri@s.
O egoismo a ganância e o ódio são inerentes a espécie humana em estado de ignorância e não evolutivo... Só há um meio de alcançar a sabedoria, mergulhar dentro de si... buscar em si a Chave de todos os enigmas e mistérios...é o que dizem todos os grandes Mestres da antiguidade e que ninguém ouve…

Entrementes, a Humanidade sempre precisou de arenas e circos… e os povos elegem e batem palmas aos seus palhaços…

A Humanidade?


Ou serão os reis, os poderosos, os loucos e os assassinos? Quem controla e domina o mundo senão loucos e psicopatas?

Quem foi Hitler, Alexandre o Grande ou Bonaparte senão assassinos de povos? E mais heroicos e grandes quanto mais pessoas matavam… 
É esta a História do Homem?
Sim, o que é a História do Homem senão o relato assombroso desses registos facínoras e guerras infindáveis por posse de terras e domínio de países, antes por ouro agora por petróleo?
Será que o Ser Humano em si não tem hipóteses de sair disto e ser em si mesmo um SER e viver uma vida colectiva sem este medo do outro e o terror que lhe é incutido da crise e poder, enfim criar um Mundo de paz e amor, sem competição nem ódio?
Sim, eu também sonho com isso, mas sei que não é com revoluções nem com orações, nem com pensamento positivo que lá chegamos, mas sim através de uma Consciência individual, da vontade própria e da coesão interior, do equilíbrio pessoal. Um mundo justo só é possível através da integridade da pessoa humana que gera a acção social justa e integra e não através destes psicopatas megalómanos, nem do dinheiro nem dos Bancos ou dos Governos ou das Hierarquias e das Religiões...que gerem o mundo!
rlp