"NÃO SOU FEMINISTA, SOU ANTROPOLOGICAMENTE LÚCIDA" Ana Hatherly

segunda-feira, maio 27, 2013

A MULHER COMO MULHER INTEGRAL..

 

 
Ela é mais do que um ser humano...ela é Mãe...da Humanidade.
"Não se trata para a mulher de se afirmar como mulher, mas de se tornar ser humano na sua integridade." - Simone de Beauvoir 
NÃO?
Esta frase, supostamente de Simone de Beauvoir, embora a um certo nível eu a atenda, contraria em absoluto a minha ideia...e a realidade da mulher.
Que mulher é essa que não precisa de se afirmar como mulher? Sim, a mulher é um ser humano antes de tudo, ou devia sê-lo, só que não é tratada como tal e ainda hoje na maior parte dos países e culturas, a mulher é tratada como um ser inferior e é vítima das maiores atrocidades, seja no Congo, seja no Irão, seja na India seja onde quer que seja afinal de contas. E mesmo a mulher ocidental, que se julga mais livre do que é realmente, será que ela sabe o que é ser a Verdadeira MULHER na sua dimensão profunda e ontológica? Não. Simone de Beauvoir era existencialista, de facção marxista e ateia tal como seu marido e mentor J. Paul Sartre.
A questão é que à partida a escritora está a pensar na mulher submetida aos padrões masculinos, neste caso, e à época, subserviente ao homem ou então a imagem estereotipada da mulher fatal, a prostituta etc. e portanto a autora, como uma mulher francesa, saída da última guerra, uma intelectual e mulher de um filósofo, quereria uma mulher que fosse acima de tudo tratada como um SER Humano...e sem necessidade de se afirmar como mulher...porque ela de facto não via nem sabia QUEM ERA A MULHER-Mulher, sendo uma mulher do pensamento formada pela mente objectiva e masculina, bastante longe da sua própria intuição. Não estando ligada as forças telúricas nem a sua subjectividade feminina, relegando-a obviamente para o campo das crenças etc. não sabia quem ela era no fundo de si mesma; e ela, tal como Virgínia Woolf e Clarice Lispector, escritoras ditas "feministas" (no caso de Clarice não podemos  nunca, pela temática dos seus livros, considerá-la feminista, mas mesmo assim não deixou de deixar a sua marca enquanto mulher que de alguma forma se busca a si própria)  de grande relevo na nossa literatura de hoje, nenhuma delas soube ou se apercebeu da grave cisão da mulher antiga e moderna, luta interior entre a mulher sensual e amante por um lado e por outro a esposa e a mulher fiel, coexistindo dentro de cada mulher em forma de conflito existencial... Simone de Beauvoir foi a seguidora e companheira de Sartre. Penso eu que ela não se pensou a si...como mulher, mas sempre como mulher complemento, em função do amor do homem ou da família/sociedade, creio eu. Já Virgínia Woolf e Clarice Lispector, debateram-se mais como mulheres em busca de sentido em si mesmas. Elas andaram a roda do sentimento de falta ou de falha, de indefinição de si, divididas entre o casamento e a escrita, entre o sofrimento complexo e estranho de um vazio profundo, não encarado como um vazio da mulher em si, mas de mulheres face ao privilégio dos homens e a sua autoridade no mundo e as suas dificuldades em se afirmarem só como mulheres, e as suas questões mais próximas dessa indagação da mulher em si que foram levadas pelos críticos e leitores para o campo da metafísica ou da religião - elas debateram-se assim mais como mulheres face a uma sociedade masculina e de valores masculinos onde intelectualmente eram bem vistas, do que face a busca de uma identidade integral do que é ser mulher, pois a ideia da mulher era aceite ser uma ou outra…sem que a mulher se questionasse do porque dessa divisão das mulheres em duas espécies de mulheres…
 A cisão das duas mulheres, a santa e a puta, Eva e Lilith, ou Maria a Mãe e Maria Madalena a pecadora...e como essa divisão cindiu de facto a psique feminina e fez da mulher ao longo dos séculos um ser metade, um ser fragmentado, forçada a ser ora uma ora outra...cumprindo um destino que a fazia ou esposa adorada ou prostituta odiada... e sem que a sociedade, os filósofos e os psicanalistas ou mesmo as mulheres de cultura se tivessem apercebido de como essa cisão exterior se interiorizou nas mulheres e as fez sofrer horrores ao longo de séculos. Mas o mais grave é como isso se repercutiu na história dos Homens e na vida das famílias e como teve influência nas gerações seguintes e mesmo actualmente como tudo, mesmo parecendo que não, continua mais ou menos - o pano de fundo do inconsciente colectivo - na mesma!
A minha questão é nova e única, talvez...mas leva-nos a esta pergunta crucial: tem a mulher consciência da sua divisão? E não tendo tem ela consciência do que é SER MULHER antes de se tornar um ser humano...sim, porque na verdade a mulher dividida nunca foi tratada como um ser humano...mas antes de ser um ser humano integral, não seria conveniente então a Mulher tornar-se A Mulher Integral?  E assim, não diríamos antes ao contrário de Simone de Beauvoir, que a mulher para ser  um ser humano precisa antes de mais de se afirmar com MULHER? 
Sabemos nós que  a Mulher antes de tudo o mais o que precisa é de saber o Valor intrínseco de uma Mulher Inteira? Não ser mais a amante por um lado e a esposa por outro? A mulher casada e séria e a mulher vadia e ou mãe solteira? Até quando vai a mulher aceitar esta divisão que recai sobre ela hoje das formas mais variadas…no caso das casadas da violência doméstica e nos assassinatos das mulheres pelos amantes e maridos que as consideram ainda sua posse, ou no caso das Mafias de exploração sexual  e no tráfico de meninas e mulheres no mundo inteiro?
São as mulheres Seres Humanos? Não, enquanto não forem Mulheres Inteiras não serão. PORQUE NENHUM SER HUMANO É SER HUMANO ENQUANTO A MULHER NÃO FOR  UMA MULHER INTEGRAL.
 rlp

 

6 comentários:

Anónimo disse...


Se a Mulher, apenas, pode ser um Ser Humano quando inteira, integral... isto quer dizer que, o homem saído dela, também não é um ser humano!!!???... então, é uma arrogância o homem se intitular um ser humano?

Rosa Leonor disse...

Por acaso não falei do homem, nem percebo a sua questão...porque a partida o ser humano é o Homem...e o homem não sofreu essa cisão, não vive essa divisão no seu ser - pode ter todos os problemas do mundo mas esse não ...mas é evidente que ele também acaba sendo vítima de uma mãe que não o ama se for mal amada ou se for mal tratada...ou "amado" demais pela mãe por carência desta...Enfim, o que eu digo é que a mulher tem de ser inteira porque o homem nesse sentido a partida já o é...embora nesta situação também não será lá grande coisa como ser humano, mas aqui de verdade eu só trato da questão do feminino e para as mulheres pois sou mulher e é como mulher que falo; não posso falar dos homens porque não me cabe a mim fazê-lo assim como acho que os homens deviam parar de dizer coisas sobre as mulheres. Já criaram muita confusão. Agora é tempo de cada um falar de si e por si.

Anónimo disse...



"O homem é definido como ser humano e a mulher é definida como fêmea. Quando ela comporta-se como um ser humano ela é acusada de imitar o macho."

- Simone de Beauvoir em "O segundo sexo" [Le deuxième sèxe] (1949)

Então, o que é Ser Mulher? Se ela não é um Ser Humano, é o quê?? Será que não tem categoria, como foram catalogados todos os mamíferos, animais do mundo? Então, que seres são estes que caminham aqui sobre a Terra e dão à luz, pessoas - homens e mulheres -?



"A humanidade é masculina e o homem define a mulher não em si mas relativamente a ele; ela não é considerada um ser autônomo."

- Simone de Beauvoir em "O segundo sexo" [Le deuxième sèxe] (1949)

Ora, se a Humanidade é Homem... o que é a Mulher sem essa definição a partir desse espelho?

Quando Bouvoir, afiram que não se nasce mulher, torna-se... então o que é esse não nasce como Mulher? O que é esse tornar-se mulher em que perspectiva?

Else Schumann disse...

Nunca pensei em Clarice Lispector como uma feminista, e sim como uma mulher tentando se encontrar, algo inerente a todos.

Quanto a escritora francesa, pouco posso falar, pois sempre achei a teoria de "maculinização" e nunca me identifiquei.

Rosa Leonor disse...

Tem razão sobre a Clarice...ela não foi feminista - eu pensei corrigir isso no texto, mas fez muito bem em salientar o facto. Mas ela ao buscar esse algo inerente a todas partilhou muito de uma essência feminina que ela não reconheceria como tal...a tal coisa de se dizer que as mulheres são estranhas e caprichosas...que têm humores e mudam facilmente etc. Esses aspectos nela, e a sensibsibilidade profunda a do seu do amago era muito feminina, mas não feminista claro.
Obrigada Else por chamar esse ponto a atenção.
abraço
rlp

Rosa Leonor disse...

É-me difícil responder a anónimos, mas agradeço imenso as citações de Simone B. Hei-de responder-lhe a essas questões no Blog.

rl