"NÃO SOU FEMINISTA, SOU ANTROPOLOGICAMENTE LÚCIDA" Ana Hatherly

sexta-feira, maio 31, 2013

A MULHER INTEGRAL


"O homem é definido como ser humano e a mulher é definida como fêmea. Quando ela de comporta como um ser humano ela é acusada de imitar o macho." - Simone de Beauvoir em "O segundo sexo" (1949)
 

 “ … a questão da mulher e da sua emancipação prende-se no fundo com a questão fundamental de a mulher (e a sociedade em geral) se ter esquecido de quem ela é e, num esforço para se libertar de milénios de subjugação, o feminismo (a quem muito se ficou a dever pelas suas lutas pioneiras) tenha optado pela construção de uma via de igualdade para nós, relativamente aos homens. Assim, ser uma mulher emancipada passou a significar, grosso modo, ter acesso às mesmas profissões, dinheiro, lugares políticos, etc que os homens. É preciso entender isto à luz do desenvolvimento histórico do mundo e dos marcos que determinadas mulheres foram nessa caminhada, não obstante possam reflectir de algum modo as limitações do transitório. Hoje, mais do que nunca, se a mulher não tiver uma autonomia económica mínima ou algum estatuto social, encontra-se facilmente à mercê de uma sociedade discriminatória e injusta para com as mulheres (sociedade patriarchal). Torna-se assim justificável que numa primeira fase de tentativa de libertação, a mulher tenha tentado agarrar o que identificou como o poder do homem. E esse era, foi e ainda é o poder do homem, mas o caminho escolhido pela mulher para a libertação encalhou num erro crasso: o não ter tentado identificar em que consistia afinal o seu poder e o seu legado e, uma vez isso levado a cabo, ter enveredado pelo estabelecimento de um novo estatuto radicado nesse poder. Tudo isto é muito mais facilmente dito do que feito, pois a história da humanidade é feita de avanços e recuos, experimentações goradas e algum sucesso.

Simone de Beauvoir foi um marco como escritora, pensadora, filósofa, activista e ficará para sempre na história do feminismo. Ela é datável, porém. O mesmo já se não pode dizer de Clarice Lispector, por isso não concordo que fales de ambas em paralelo. A profundidade, clareza, liberdade e mística do seu pensamento e sentir, desligados dos guiões sociais de qualquer época, catapultam-na à eternidade. Clarice é um farol na noite escura, pois tendo permanecido intrinsecamente feminina, permitiu-se quebrar todas as barreiras e preconceitos na sua escrita, na busca corajosa de uma verdade essencial na vida e em si própria. O facto de a sua obra estar a passar por um renascimento tem a ver com o facto de os jovens (que buscam novos valores) e de os não tão jovens tentarem ainda resgatar algo de valioso e essencial em si mesmos, se identificarem com a sua coragem e lucidez, encontrando nela um exemplo como há poucos hoje em dia.

A tua ideia da mulher cindida em duas, que é muito válida e teve o seu momento histórico, aplica-se menos e menos a meu ver, pelo menos no mundo ocidental. Eu falaria mais na mulher perdida em si mesma, dividida entre estereótipos e valores de uma sociedade em decadência, normótica e robotizada, em que o dinheiro, o sexo pelo sexo, os objectos que conferem estatuto e uma insana fixação na superioridade da beleza física (estereotipada) e da preservação da juventude a qualquer custo, constituem os grandes objectivos.

Ser mulher integral, a meu ver, passa pelo assumir de quem se é (corpo, alma, espírito) na verdade e na diferença e da nossa soberania pessoal, únicas referências distintivas e marcantes, num mundo que vive à superfície e sem norte válido.
Claro que a mulher e o homem são ambos por definição ser humanos terrestres, ça va sans dire, chère Simone!
O que está em causa é, sempre, num caso e noutro, que tipo de seres humanos, com que consciência, etc... Meia volta e estamos no mesmo.”
Mariana Inverno
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 ADENDA:
Não poderia deixar de estar em acordo com a minha amiga que fez algures este comentário a um texto meu. Contudo e em relação ao 3º parágrafo, quando ela diz que a questão da cisão da mulher em duas se aplica menos a nossa sociedade ocidental e que falaria antes de uma “mulher perdida em si mesma, dividida entre estereótipos e valores de uma sociedade em decadência”, eu afirmo, pelo contrário, que a questão é a mesma de sempre e não um mero sinal de uma sociedade em decadência…pois esse “estar perdida de  si”  já parte dessa divisão psíquica ancestral e central, dessa divisão social das duas mulheres e que hoje, nestas sociedades ditas modernas e civilizadas, de mulheres “emancipadas”, nós pensamos que já não existem. Mas é essa mesma divisão, visível a olhos nus, mas não consciente na mulher moderna, assim como na antiga, que foi branqueada pela cultura em geral que se abre em leque e se projecta nos vários estereótipos de uma liberdade ilusória com que a mulher se identifica, mas que no fundo ela continua desconhecendo, indiagnosticável essa sua divisão inicial, que são afinal os dois principais estereótipos ou diria mesmo “arquétipos” da mente feminina - o da santa e o da puta…da virgem e da pecadora, da esposa e da concubina – que no fundo se mantêm inconscientes e interiorizados, e fazem essa confusão do Ser mulher e a impedem de ser uma mulher integral.

RLEONORPEDRO
 

5 comentários:

Else Schumann disse...

o problema da mulher ocidental é achar que não é mais dividida.

Rosa Leonor disse...

...é verdade minha amiga, isso é inacreditável...mas realmente são as mulheres... até as mais inteligentes que assim pensam...
Obrigada por estar aí com a sua lucidez...acredite que a sua presença e palavras me ajudam muito...
um abraço
rl

Mariana Inverno disse...

A divisão existe,mas a meu ver não da forma original (santa versus pecadora).
Esse é o sentir e a percepção que eu tenho, a minha inteligência (pouca ou muita) é o que me diz...

Rosa Leonor disse...

Não existe já na aparência...mas o registo profundo e inconsciente continua a ser esse, quer para as mulheres em geral, não para as mulheres expcepcionais, e ao nível do inconsciente colectivo, marcando claramente a atitude dos homens na sua grande maioria nas sociedades e isto claro para lá do verniz da educação...e da cultura!

Ana Nazaré disse...

A Simone de Beauvoir expoe no começo do seu livro que a mulher antigamente precisava do homem pra ser protegida.. é como a Elisabeth Badinter, no seu livro Um é Outro... ela afirma abertamente que a mulher é inferior fisicamente ao homem, com essas palavras. A mulher não é inferior fisicamente ao homem. Isso é um mito que também diminui nossa auto estima como mulheres. Oq existe é ALGUNS homens mais fortes que ALGUMAS mulheres, porém existem sim ALGUMAS mulheres mais fortes que ALGUNS homens.E poderia haver muito mais. Não existe diferença de força quando as crianças são pequenas, tem meninos e meninas de todos os tamanhos, porém depois quando crescem mesmo os meninos pequenos são incentivados a usarem o corpo enquanto qualquer menina é incentivada a se atrofiar e ficar flácida. Não seria também este um sinal pra nós da TPM?????