"NÃO SOU FEMINISTA, SOU ANTROPOLOGICAMENTE LÚCIDA" Ana Hatherly

terça-feira, julho 19, 2016

A NOSSA FERIDA DE AMOR...


Da paixão e...da morte...

"De novo estou de amor alegre. O que és eu respiro depressa sorvendo o teu halo de maravilha antes que se finde no evaporado do ar. Minha fresca vontade de viver-me e de viver-te é a tessitura mesma da vida? A natureza dos seres e das coisas - é Deus? Talvez então se eu pedir muito à natureza, eu paro de morrer? Posso violentar a morte e abrir-lhe uma fresta para a vida?
Corto a dor do que te escrevo e dou-te a minha inquieta alegria."
in Água Viva - Clarice Lispector

A NOSSA FERIDA DE AMOR...

O desejo do amor exclusivo de alguém é talvez um sintoma de doença na humanidade, um estigma que nos marca logo ao nascer neste mundo. Por mais que tenhamos consciência dessa quase anomalia ela continua como um registo inconsciente, celular, impossível de descartar por vontade própria, assim só porque disso temos consciência ou intuição... Pode levar uma vida inteira a superar este anseio ou sonho, ou quem sabe muitas vidas... À partida, a busca da mãe ou do pai, no amante, a necessidade do consolo ou do abrigo, da protecção, de defesa, seja pois do amante quer na mulher quer no homem, é sinal da nossa separabilidade e incompletude à nascença, por isso todos queremos voltar aos braços de uma Mãe Maior ou ao seu útero, ou simplesmente à origem - que no fundo é o AMOR que todos procuramos - e essa é certamente a grande dor e a grande caminhada na terra e a razão porque nascemos presos por um fio, um cordão umbilical e procuramos toda a vida o prolongamento desse fio no Fio de Ariana, ainda a Mãe, a mulher-deusa ou deus-amor que nos faça sair do Labirinto, ou da nossa cegueira congénita...


rosa leonor pedro

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