O SORRISO DE PANDORA

“Jamais reconheci e nem reconhecerei a autoridade de nenhuma pretensa divindade, de alguma autoridade robotizada, demoníaca ou evolutiva que me afronte com alguma acusação de pecadora, herege, traidora ou o que seja. Não há um só, dentre todos os viventes, a quem eu considere mais do que a mim mesma. Contudo nada existe em mim que me permita sentir-me melhor do que qualquer outro vivente. Respeito todos, mas a ninguém me submeto. Rendo-me à beleza de um simples torrão de terra, à de uma gotícula de água, à de uma flor, à de um sorriso de qualquer face, mas não me rendo a qualquer autoridade instituída pela estupidez evolutiva da hora. Enfim, nada imponho sobre os ombros alheios, mas nada permito que me seja imposto de bom grado Libertei-me do peso desses conceitos equivocados e assumi-me como agente do processo de me dignificar a mim mesma, como também a vida que me é dispensada. Procuro homenageá-la com as minhas posturas e atitudes e nada mais almejo. É tudo o que posso dizer aqueles a quem considero meus filhos e filhas da Terra. “ In O SORRISO DE PANDORA, Jan Val Ellam

domingo, maio 28, 2023

“Colocarei inimizade entre ti e a serpente”

Javé sempre odiou as mulheres...



"A serpente é um símbolo que sempre foi presente nas duas partes da história humana, na gaiática – e não só no Neolítico- e na patriarcal. Temos um dente de mamute com três serpentes gravadas, com as suas cabeças perfeitamente desenhadas, datado do ano 24.000 a.c. Na primeira a serpente simboliza a geração da vida, o erotismo do corpo de mulher, o bem estar humano. A serpente vem da água mas é também da terra como a vida; é de agua e de terra, e além disso pela sua pele mucosa relaciona-se com o húmido. O seu serpentear e a sua flexibilidade são qualidades admiráveis, como as do tecido muscular e da vida mesma; e o seu movimento ondulante faz que associa-se com a voluptuosidade feminina; a sua renovação da pele em cada estação, o seu apego à terra, etc. Tudo isso, e num contexto de uma sensibilidade humana em sintonia gaiática fez dela símbolo da vida e desse remoto âmbito feminino do mundo das mães.
Na sociedade patriarcal, não foi por escolha, veio imposta como um símbolo da libido e da função feminina, integrado, como essa mesma função, nas relações sociais e dentro de cada ser humano, até a medula e no profundo das consciências e dos inconscientes.
Por isso os mitos sobre as origens de nossa sociedade patriarcal tem como um dos principais objetivos, dar a volta ao significado da serpente, para apoiar a mudança social. Zeus mata a Tifão, quem era o monstro da escuridão, para que a luz fizesse-se sobre a Terra; logo Apolo mata a filha de Tifão, a serpente Pitão. (...)
As fundações das principais cidades da Grécia patriarcal, tem quase sempre um mito de base que inclui a derrota de alguma serpente monstruosa por parte do herói: Cadmo, para fundar Tebas; Perseu para fundar Micenas, etc.
Quando começa a sociedade de realização do Poder em contra da realização do bem estar, a função feminina resulta um impedimento: primeiro ela é submetida pela força física; e os deuses e os heróis destinados a configurar o modelo de ser humano, devem lutar fisicamente e vencer as serpentes. Logo as amazonas que resistem são levadas com as suas serpentes para o Hades. Depois, como não era suficiente, veio a malignização da função feminina, ao dizer que na mulher está a origem do mal e que nenhum mal é comparável à maldade da mulher. Então, junto à satanização da sexualidade feminina, inventa-se o Inferno e sataniza-se também a serpente que a simbolizava.
Ante uma realidade com minúscula tão contundente e presente na vida quotidiana, tem que construir-se uma realidade contundente e presente no imaginário coletivo para neutralizá-la, e essa realidade é o Inferno, o demónio e o medo ao castigo eterno.
“Colocarei inimizade entre ti e a serpente” disse Javé explicitamente, ou seja, te retirarei a tua sexualidade: paralisarei o teu útero, tornaras-te ‘histérica’, parirás com dor e o homem te dominará, aí está o destino da nova condição da mulher."

O Assalto ao Hades - Cacilda Rodrigáñez

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