"NÃO SOU FEMINISTA, SOU ANTROPOLOGICAMENTE LÚCIDA" Ana Hatherly

terça-feira, maio 03, 2016

PENSAR POR SI




E o pensamento dominante na mente feminina...

Ao longo da minha vida e da minha experiência,  sobretudo ao longo das minhas incursões e busca de um feminino verdadeiro, palestras e escritos e alguns trabalhos para interagir com mulheres nestes contextos ditos do “feminino sagrado”, na tentativa de aflorar um novo universo de mulheres supostamente conscientes de si, por assim dizer, em que a esperança de uma nova consciência da Mulher é emergente na Terra, e que devia ser a ultima coisa a morrer, confesso que me sinto muitas vezes abalada pela ineficácia da minha tentativa de chegar a todas as mulheres de boa-fé e de coração aberto...

Na verdade o que eu vejo mais frequentemente e constato é que de facto é muito difícil as mulheres saírem da sua  zona de conforto e de tutela patriarcal (do marido-amante ou do Pai e do filho) e dos conceitos e preconceitos que predominam ainda sobre o feminino em geral – tendo em conta a ignorância absoluta da cisão da mulher - que nos aprisiona no pensamento falocrático. Como é o caso sempre que se trata de expandir a consciência da sexualidade-sensualidade da mulher. Para elas só há sexualidade se houver um membro eréctil, um sexo de afronta, dominador... onde não entra a sensualidade, nem a emoção nem muitas vezes o respeito ou uma verdadeira sensibilidade feminina...

Esse pensamento dominante na mente feminina corresponde à predominância e domínio do Homem e desses valores, os estritamente sexuais, os mais valorizados e exaltados e que são de domínio sobre a mulher, os mesmos que imperaram durantes milénios. Sem falo a mulher não existe - não tem voz, diz Lacan?
Assim, quando falo e tento romper essa barreira dos conceitos e preconceitos sobre a sensualidade da mulher que é marcadamente masculina, a que visa o prazer exclusivo do homem e não da mulher,  em que as mulheres estão quase todas  formatadas e viciadas pela mente e cultura (moda-cinema-arte-pornografia) masculina, em que baseiam as suas ideias de  amor e vivem as suas relações, casamento família e sociedades, e até em grupos orientados para uma Nova Era, pretensamente libertadora da mulher (tantra-dança-massagens-terapias) e não são senão variações do mesmo uso da mulher baseado no medo e no tabu ancestral que pesa sobre as mulheres.

Impossível ainda pois criar uma energia comum, de cumplicidade feminina e independente do homem, sem que os preconceitos redutores das mentas cativas das mulheres não se manifestem de forma preconceituosa; impossível assim  criar sinergias entre as mulheres através da possibilidade de criar um vazio mental – uma espécie de “desorientação” mental, abertura para a experiência de dentro, do centro e do coração -, a fim de deixar que algo novo as surpreenda e assim poder deixar fluir a Consciência inata, ou deixarem-se invadir por algo que não se capta pela mente-intelecto, nem pela razão. Mas lamentavelmente o que tenho verificado é que acabo quase sempre por ser mal entendida e passar por "suspeita" (ah não "gostar de homens"!). 
Tudo isso é natural dado os diferentes níveis das pessoas que me ouvem e consequentemente da sua consciência desperta ou não para as subtilezas do ser superior e da mulher verdadeiramente livre. Normalmente (a normose) pauta pela mediocridade dos julgamentos dentro da dualidade bem e mal. Ai a sexualidade é a mais sacrificada e reduzida aos estereótipos citados. AS pessoas filtram tudo com a mente dual (rasa e baixa) e raramente conseguem ler ou ouvir com o coração inteligente...para lá dos conceitos, tantas vezes mesquinhos e redutores da pessoa humana nomeadamente sem atingir o propósito de alcançar essa beleza e grandeza que é apanágio da Mulher Integral.

Desta maneira e sucessivamente tenho-me vindo a aperceber que não posso fugir a essa matriz de controlo nem ao velho paradigma que as domina e que continua a ferir as mulheres (já não falo dos homens) no seu amago – não as deixando fluir na sua intuição – mas criando resistências através de ideias geradas no seio da sociedade conservadora e na família tradicional e que veiculam inconscientemente contra elas próprias o sentimento de negação da sua liberdade de ser em nome de deus ou do diabo, do bem e do mal.

Sim apercebo-me de que afinal não posso ignorar, na minha boa-fé, nem mesmo diante da boa vontade das outras mulheres, as mais empenhadas na consciência de si mesmas, a forma como as mulheres em geral ainda estão dominadas pelas velhas fórmulas tradicionais e conceitos religiosos que as formataram e como cada uma faz a leitura desta abordagem de  acordo com os seus conceitos e preconceitos, dependentemente do seu nível de consciência e isto é fatal como o destino...
Na verdade sempre que me exponho a falar em público corro esse risco, o de ser mal interpretada e tenho-o feito em diversas plateias e palcos e em diferentes momentos da minha vida e em diferentes intervenções, desde há muitos anos, sendo que nos últimos anos o tenho feito, não em nome de algo ou de alguém, mas daquilo que eu própria escolhi como caminho para mim mesma.
Falar às mulheres da sua cisão interior e de abordar Lilith numa perspectiva mais conceptual e psicológica, sem recorrer a ideias mirabolantes e sem me deixar influenciar por nenhum tipo de devaneios ou ideias transcendentais…seja por meio de canalizações ou iniciações, ou escutar vozes de antepassados anjos ou seres de outras dimensões ou galáxias… 
Há por ai tanta "informação" vinda de planos e dimensões - há por ai tanta "sabedoria" forjada na imaginação e na demência megalómana de criaturas insanas e ignorantes...de si mesmas, que se dizem canais ou interpretes do divino e de entidades, que por vezes penso que o melhor é ficar calada!

O que eu digo e escrevo ou defendo vem de dentro de mim mesma e é o meu discernimento pessoal, o meu conhecimento próprio SEM FONTES OUTRAS que não as humanas e que se obtém do somatório do que aprendemos ao vivo e por experiência própria; o que eu penso é  a expressão de uma faculdade cognitiva que  manifesta por palavras a experiência do meu ser nos diversos aspectos da sua manifestação e através de vivências seja a nível emocional sentimental ou físico…e também espiritual, quando essa união entre o corpo alma e o espirito se faz neste plano.

Portanto falo, escrevo e digo por conta própria e risco e não me sirvo de nenhum outro meio para o fazer, nem falo em nome de ninguém, que não seja a consciência que tenho da minha própria existência e da minha vida vivida e todas as implicações que resultam da nossa estadia na Terra, dimensão em que vivo e em exclusivo, sem me transladar para mundos fictícios e ideias transcendentais que não são o da realidade que vivo com os pés assentes na terra Mãe; não vivo nem falo baseada numa teoria de uma qualquer visão alterada. Falo de uma visão espiritual natural sem interferência de conceitos ou ideias pré-estabelecida pelos manuais nem nenhum livro sagrado…

rosa Leonor pedro

Anónimo disse...
Esse texto é a representação clara e fidedigna do momento atual.
Muitas mulheres sabem e tem consciência da sua relação com sociedade e como ela procede, mas não conseguem alçar um passo adiante. Não posso contestar a motivação de cada uma delas, pois não tenho suas experiências. Mesmo porquê existem mulheres em tais condições degradantes que não cabe questionamento. Mas, pela minha vivência, sinto que existe uma força enorme pela manutenção do padrão atual, que se evidencia em cada ação repressiva às mulheres que fogem a esses padrões. Muitas vezes nem é algo evidente, mas nas entre linhas podemos entender a clara intenção de intimidar qualquer forma de libertação.
Todas vez que aceitamos essas intimidações é como se houvessem partido ou cortado um parte do nosso verdadeiro ser. Será que vale a pena abrir mão de tudo que é de mais genuíno para podermos nos enquadrar em padrões impostos? Sentindo como que partes de nós fossem retiradas sistematicamente?
O resgate, o retorno da mulher em sua totalidade e essência irá acontecer quando rompermos com o paradigma vigente. Buscando no nosso interior a sabedoria de nossa natureza infinita e selvagem que é o mais profundo mistério em si.

Esse é apenas um comentário, pode ser que algo não faça sentido.

Obrigada por publicar seus textos.

3 comentários:

Anónimo disse...

Esse texto é a representação clara e fidedigna do momento atual.
Muitas mulheres sabem e tem consciência da sua relação com sociedade e como ela procede, mas não conseguem alçar um passo adiante. Não posso contestar a motivação de cada uma delas, pois não tenho suas experiências. Mesmo porquê existem mulheres em tais condições degradantes que não cabe questionamento. Mas, pela minha vivência, sinto que existe uma força enorme pela manutenção do padrão atual, que se evidencia em cada ação repressiva às mulheres que fogem a esses padrões. Muitas vezes nem é algo evidente, mas nas entre linhas podemos entender a clara intenção de intimidar qualquer forma de libertação.
Todas vez que aceitamos essas intimidações é como se houvessem partido ou cortado um parte do nosso verdadeiro ser. Será que vale a pena abrir mão de tudo que é de mais genuíno para podermos nos enquadrar em padrões impostos? Sentindo como que partes de nós fossem retiradas sistematicamente?
O resgate, o retorno da mulher em sua totalidade e essência irá acontecer quando rompermos com o paradigma vigente. Buscando no nosso interior a sabedoria de nossa natureza infinita e selvagem que é o mais profundo mistério em si.

Esse é apenas um comentário, pode ser que algo não faça sentido.

Obrigada por publicar seus textos.

rosaleonor disse...

Faz-me todo o sentido e eu agradeço muito ter comentado e concordo inteiramente consigo. É importante termos consciência de como estamos a ser manipuladas por este movimento new age que de uma forma disfarçada impões os mesmos valores e abusa da credulidade das mulheres que vão atrás de promessas de uma novo feminino e são os mesmos padrões a imperar no meio de forma totalmente reacionária, mas com uma aparência de vanguarda. Poucas mulheres têm ou se apercebem disto...Obrigada por estar atenta! Se me permitir eu publico o seu comentário...
muito obrigada
rleonor

Anónimo disse...

Sim, pode publicar. Se fizer a diferença para alguém já terá cumprido seu propósito.
Obrigada pelo retorno e por manter o blog.