"NÃO SOU FEMINISTA, SOU ANTROPOLOGICAMENTE LÚCIDA" Ana Hatherly

sexta-feira, julho 01, 2016

dar a césar o que é de cesar



OS PLANOS DA EXISTÊNCIA E DA ESSÊNCIA

QUANDO UM HOMEM SE ARVORA EM GUIA DE MULHERES E PRETENDE ABORDAR OS TEMAS DO FEMININO POR SUA CONTA E RISCO - para mim é um ultraje e uma manipulação muito grave feita à Consciência do feminino e ao Caminho da Deusa. Infelizmente são as mulheres mais frágeis e as mais ignorantes que lhe dão aval e os seguem - digo o que digo com conhecimento de causa e não perdoou o oportunismo.
Nenhum homem tem, em consciência, nem por experiência nada a dizer a mulher que não seja o seu  olhar deformado pelo patriarcado e pelo abuso e misoginia de que nenhum está isento, e disso tenho provas; nenhum homem por mais sábio que seja nada tem a dizer sobre o feminino nem a sua essência. Sejam dados históricos místicos ou culturais estão todos deturpados pela visão masculina da história e da religião.

Quando digo porém que um homem nada tem a dizer ou a acrescentar sobre a mulher e que não devia sequer tentar falar do que pensa, sente ou "estuda" (sejam psicólogos sexólogos ou filósofos e menos ainda padres e monges) sobre o feminino em geral, nem mesmo em nome do sagrado, e menos ainda de deus...refiro-me de facto a todos os assuntos que digam respeito à Mulher em si e à sua experiência especifica como ser mulher e isto em todos os sentidos, mas não falo, note-se, da experiência do SER HUMANO em si e a nível espiritual que já nada tem a ver à partida com a condição da mulher ou do homem neste mundo porque a Experiência da alma pode ser comum aos dois sexos e como dizemos, de facto a alma não tem sexo. Mas essa abordagem faz-se por suposto num nível diferente de entendimento e não se pode cingir as questões de sexos...nem misturar os planos...
Esclareço esta questão para que não haja confusão entre o facto de um instrutor poder ser um bom instrutor ou guia ou ser um conhecedor exímio de assuntos transcendentes e esotéricos, mas saber muito pouco de si como homem (e ser na pratica incoerente, estupido e até violento com as mulheres) e saber menos ainda da mulher...que não é. Quando um homem opina sobre uma mulher o seu olhar é sempre influenciado pela sua experiência diria traumática, na maior parte dos casos, e portanto nunca é isenta de conceitos e preconceitos religiosos e outros, como é o facto de que a nossa sociedade ainda hoje catalogar a mulher em duas espécies...a dita puta e a santa - de acordo com os velhos padrões -, a mãe santa no altar ou no lar e a mulher devassa ou a prostituta na rua...a mãe séria e fiel e a mulher louca na cama, promiscua e infiel...
Creio que cada um dos sexos, deve falar e abordar as suas experiências de si em separado assim como os temas que quiser mas apenas os que sejam ditados pela sua experiência directa e vivida e não por ideias e teorias sobre um ou o outro sexo...
Para mim são planos diferentes: as questões da mulher tal como as questões do homem no plano da existência dizem respeito à experiencia individual que os caracteriza com corpos e funções e sentires distintos, com psicologias diferentes, mas no plano da Essência sem duvida que o saber e o sentir pode ser comum. Eu só me insurjo contra os homens quando eles se arvoram em mestres das mulheres...quando certos instrutores pretendem falar e ministrar cursos para mulheres e para elas dirigidos e não apenas manterem o seu papel como facilitadores ou mentores de vias ditas espirituais. E aí sou muito radical e não admito que se imiscuam nos processos do feminino ontológico e sagrado ou da Deusa na Mulher em nome de nada. É preciso dar a Cesar o que é de César e dar ás mulheres o que é da mulheres...o seu discurso e a sua experiência!

RLP

4 comentários:

Ana Nazaré disse...

O PATRIARCADO É UMA FORMA DE OBRIGAR AS MULHERES A SEREM MÃES

Anónimo disse...

Desculpe! Cada dia que passa, percebo a igualdade entre gêneros com muita clareza. Obviamente nunca, como homem, poderei saber detalhes e minucias do que sente uma mulher.
Porem ( palpite), acredito que TODA a problemática feminina é cultural e, sendo assim tem que ser olhada desde o inicio com toda a compreensão histórica e suas conveniências ( sobrevivem os que melhor se adaptam e não os mais fortes).
Pelo seu ponto de vista, da mesma forma que um homem hoje é incapaz de sentir e diagnosticar precisamente a problemática feminina,
as mulheres de hoje, não podem crucificar as mulheres de ontem ( que deixaram de alguma forma as coisas chegarem e esta situação), pois não tem o contexto exato para poder julga-las.
Na minha visão, tudo passa pela supervalorização dada ao sexo (falo do ato), que na realidade e a única coisa que gera as diferenças. Quando a humanidade for capaz de ter o sexo como algo menos importante, e se ater a uma existência mais rica ( artes, ciência, etc),talvez as diferenças dissipem.
Nao sou religioso!

rosaleonor disse...

Concordo em parte consigo - mas a questão será sempre deixar cada um e cada qual falar de si - no caso seja homem ou mulher. Porque o mais são ideias. Importa a experiência. Há muitas ideias sobre género, mas para mim só há o Género humano e dois sexos à partida, fêmea e macho, e não falo da apetência sexual nem do desejo se este for homo ou hétero ou bissexual. Mas sei que a mulher tem uma experiência diferente do homem na vida e sob todos os aspectos. Isto de criar uma igualdade só impede a expressão natural de cada um dos sexos seja ela qual for. Padroniza-se e modela-se uma imagem como a moda...A cultura e a História deformaram o ser humano e padronizaram-nos a ambos de acordo com o seu interesse e dominação...a sociedade é patriarcal e é o pai e o homem e filho que deitam as leis e a mulher obedeceu durante séculos - quis a igualdade e falhou...perdeu-se de si mesma e o homem também. Ambos são culpados deste desvio histórico e cultural mas o homem tem e sempre teve as armas...é poder bélico da força o nome do Pai etc.



"El cuerpo de las mujeres es el territorio sobre el cual se ha erigido el patriarcado."

Adrienne Rich

Anónimo disse...

Concordo! Mais ainda levando em consideração, que enquanto a força e a violência foram a tônica da sociedade, o homem vai dominar. Conforme a sociedade vai se " humanizando", abre caminho para o feminino! E isto que tenho observado.