"NÃO SOU FEMINISTA, SOU ANTROPOLOGICAMENTE LÚCIDA" Ana Hatherly

quinta-feira, março 05, 2009

SER OU NÃO SER "FEMINISTA"...

Há quem se afirma “feminista” e quem se afirme “não feminista” como eu… e tanto no meu caso como nos outros casos há uma infinidade de casos no meio e as mil razões porque as mulheres se dizem feministas ou não feministas…Por isso resolvi tentar clarificar isto um pouco para mim mesma. Não pretendo propriamente trazer nada de novo a lume, como não pretendo acusar ou denegrir quem quer que seja e a sua luta, nem estou contra ninguém que defenda outra perspectiva. Nem as minhas afirmações negam ou tiram o valor inquestionável de grandes ou pequenas mulheres que foram e são bem sucedidas nas suas batalhas!

Para mim o feminismo à partida opõe-se ao machismo, e representa o seu contrário na acepção mais vulgar do termo. Tem porém uma acepção mais lata quando se pressupõe a luta das mulheres pela igualdade de direitos e de salários ou pela sua dignidade. Tudo bem ao nível social e político, mas a questão para mim é muito mais vasta! E não quero entrar em polémica com ninguém; apenas quero redefinir o que entendo que seja o Feminino Essencial. É precisamente esse o aspecto que me interessa na abordagem e na defesa de algo que sinto urgente: o ressurgimento de uma nova mulher que não apenas a mulher emancipada pelo poder económico e político, nem a mulher que rompeu as barreiras sociais que a limitavam e faz da sua sexualidade uma arma de arremesso e se diz livre, tal como antes os homens faziam e vivem exactamente em função dela como os homens vivem.
Por isso para mim, ser feminista ou não ser feminista não é a questão…O cerne da questão é outro e no meu entender, é o da essência propriamente dita do feminino e não o que parece feminino de acordo com as épocas, lutas, ideias, conceitos ou modas. Aqui há e sempre houve muita confusão. Há as mulheres que se dizem “não feministas” por medo de que as julguem menos “femininas” de acordo com os padrões masculinos e que são mais ou menos as fêmeas que gostam de representar os padrões sugeridos culturalmente pelo Homem- que faz delas marionetas e joguetes, no cinema, na moda, em casa ou na sociedade… o que obviamente não é o meu caso. E há as feministas marxistas, a grande maioria que luta pelos direitos e igualdades das mulheres, as ecologistas que defendem a Natureza, por suposto, mas sem a consciência da dimensão do sagrado da Terra nem nelas próprias, as lésbicas ou artistas e intelectuais independentes e todas que defendem racionalmente a liberdade económica e sexual da mulher e a afirmação do seu poder igual ao do homem e tanto podem ser muito femininas como muito másculas. Normalmente não se maquilham, como eu, nem gostam de artifícios mas também há as que gostam de seguir os estereótipos sem preconceitos e se maquilham e são muito femininas na aparência e vestem de acordo com o modelo em vigor…Nada disso é relevante!


O que eu quero clarificar e definir para mim mesma é que eu não quero pertencer a nenhum destes perfis, admitindo que há bastantes mais, mas o que eu quero acima de tudo salientar e viver, o que é a meu ver muito mais importante, é como mulher amar as mulheres e ver nelas irmãs, ver nelas iguais e não as sentir com rivais nem opostas…é acabar com a competição das mulheres pelo macho...seja o chefe seja o marido ou os filhos!
O que eu quero salientar é essencialmente que o meu amor pela MULHER tem a ver com o mais profundo e natural do ser mulher em si, para lá de todas esses modelos ou aspectos da persona feminina e suas charneiras ou as diferentes deusas na mulher com os seus artifícios e conflitos por Zeus; o que eu digo tem a ver com a mulher que eu chamo "a mulher essencial", a mulher que está dentro de cada uma de nós, a mulher eterna, "a bela adormecida" que não acorda pelo beijo do príncipe, mas por si mesma quando retirar essa carapaça que as diferencia e nos coloca em situações antagónicas umas contra as outras. Por isso acho que devia existir um outro termo que abrangesse todas as mulheres e só destacasse aquilo que as une e não o que nos separa…
Porque essa MULHER ESSENCIAL está ainda por descobrir e a vir a surgir significa isso uma consciência de mulher inteira, a que integra o seu lado sombra, seja a sua sombra qual for; por isso é urgente que não nos contentemos com o que as nossas antepassadas fizeram...
É preciso olhar o lado que a sociedade rejeitou nelas e que as fez esquecer-se de quem elas são realmente ao nível da sua alma, do seu espírito; essa mulher que eu falo vejo-a como aquela que se eleva acima de todas as lutas e diferenças e se olha e se vê como um lado complementar da humanidade dentro da dimensão do Sagrado Feminino em ressonância com as forças da Terra e do Cosmos.

É essa Mulher representante da Mãe Natureza, da Grande Deusa e que encarna a sacerdotisa eterna, a médium, a vidente e a bruxa, mas também a feiticeira e a fada, que nela reside desde sempre e que eu sinto que seja a verdadeira mulher, feminina por excelência porque na expressão da sua totalidade…
É essa Mulher Deusa, apenas a mulher completa, cuja consciência falta acordar em cada mulher, a que eu defendo e que julgo interessa promover e desencadear um novo paradigma, para salvar o Planeta do caos… Porque sem essa Mulher autêntica a Humanidade não vai a nenhum lado...


É com esse sentimento e no sentido de um novo movimento espiritual e sagrado a que eu tento ser fiel que digo que não sou “feminista” no sentido mais vulgar do termo…
Pela eternidade do feminino sagrado!
rlp
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Este texto dediquei-o às minhas amigas da Ciranda da Lua e o seu
II Encontro do Feminino Sagrado: www.ciranddadalua.com.br

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