"NÃO SOU FEMINISTA, SOU ANTROPOLOGICAMENTE LÚCIDA" Ana Hatherly

domingo, abril 05, 2009

UM MANIFESTO NATURALISTA


" As mulheres honram o seu Caminho Sagrado quando se dão conta do conhecimento intuitivo inerente a sua natureza receptiva. As mulheres precisam aprender a amar, compreender, e, desta forma, curarem-se umas às outras. Cada uma delas pode penetrar no silêncio do próprio coração para que lhe seja revelada a beleza do recolhimento e da receptividade".


Jamie Sams


"A humanidade e a Terra estão a passar de um regime de energia masculina, activa, do Logos planetário para o encontro com a energia feminina. Isto significa que todas as pessoas precisam encontrar a energia feminina dentro de si. Existem muitos seres, fisicamente femininos, que ainda não encontraram a sua energia feminina oculta, profunda, ainda não encontraram a sua função Isis, a sua função unificadora daquilo que está separado.


"Hoje em dia, tudo se tornou profano. As funções do princípio feminino, dar nascimento e alimentar, perderam o seu carácter mágico e sagrado; o corpo da mulher tornou-se profano.

Em certas épocas, o erotismo era de essência sagrada: os atributos da dupla função do princípio feminino – o ventre e os seios – eram ao mesmo tempo desejados e respeitados como atributos sagrados.

As relações de ligação com a Natureza são a imagem das relações que temos com a mulher – veículo privilegiado do princípio feminino.

A nossa civilização já não respeita a Natureza da mesma maneira que já não respeita a mulher, o princípio feminino e os valores que ela veicula. "

Steve Jones





UMA IDEIA DA DEUSA...

Para as pessoas em geral, quer de um nível mental mais baixo quer até de um nível intelectual mais alto, nomeadamente no caso das mulheres, a ideia da Deusa, tirando claro a ideia da “Nossa Senhora” católica, é uma ideia abstracta e pouco credível fora dos contextos da cultura “nova era”, que repete ou procura imitar os rituais pagãos, e que são vistos pelas pessoas comuns como suspeitos, sempre com cariz maléfica, mesmo no que concerne a qualquer prática esotérica, que implique a imagem da mulher como bruxa ou feiticeira.
Assim nem a mulher intelectual nem as femininistas em geral, mesmo não sendo religiosas, continuam a ver essas práticas como uma coisa atrasada e fora do nosso tempo, e por isso não levam a sério a real possibilidade dessa ser uma forma de ligação com o feminino arcaico ou atávico, o seu feminino sagrado, vivido de uma forma nova, pois se desvincularam da sua natureza profunda ao longo dos séculos.


AS MULHERES INTELECTUAIS

É notável como mulheres inteligentes e sensíveis, que se aproximam de uma consciência emergente, ainda não consigam perceber que nem o dogma católico nem a evocação das religiões mais antigas, e nem mesmos os mitos e lendas são a verdadeira fonte de uma realidade que já foi vivida e que ultrapassa os tempos e as ideias ou mesmo toda a força do obscurantismo religioso que afastou a mulher, não dos palcos de poder, mas de si mesma e da sua própria natureza o que é muito mais grave. Mais parece até que é isso mesmo que elas não querem ver. Que dentro de cada mulher reside um mistério. Que dentro de cada mulher há um poder. E esse poder tem a ver com a sua própria natureza e a natureza da Vida que nos gera e gera tudo o que existe ao cimo da Terra. Que esse Poder é sagrado por si mesmo independentemente da ideia de um deus criador ou de um qualquer culto mas sim com a VIDA! E a Vida é a Deusa é a Mãe. É evidente que esse poder também existe no homem mas aqui trata-se de um aspecto particular que é o da mulher ser a geradora da vida dentro de si e dar à Luz o homem…e que para além disso esse poder inato lhe dá uma consciência própria, como mulher mãe e amante e que lhe foi NÃO SÓ TIRADO como completamente desvalorizado pelas religiões patriarcais.

AS ACTIVISTAS FEMINISTAS

É por medo de parecerem religiosas e místicas ou fora do contexto social e político, que lhes promete dar a promoção ou emancipação que elas sonham dentro da sua ideologia materialista histórica, que a mulher feminista não quer olhar para a sua essência. Mas a sociedade patrista não só não lhes dá nada de si como é incapaz naturalmente de as elevar à dimensão do verdadeiro feminino, afastando-as mais e mais da mulher essência, pois vivem à custa dessa cisão da mulher…eles dividiram a mulher dentro de si mesma para poderem reinar…
E o que é essa mulher essência, perguntarão…
A mulher essência é aquela que tomou de novo contacto com a essência do seu ser, do seu feminino, essa parte sagrada de si mesma, vital, energética, e que se consciencializa da sua divisão interna e histórica. A mulher essencial é aquela mulher que se tornou consciente da sua cisão interna e que integrou o lado de si que lhe tinha sido negado ou escondido, é a que procura unir as duas partes do seu ser que foram antagonizadas dentro de si mesma e não se conforma com apenas aceitar a outra ou a diferença entre as mulheres como se ela continuasse a ser a pura (a boa) e a outra a pecadora (a má).


A MULHER COMUM

Quando a mulher interiormente se sente dividida em tantas situações da sua vida porque se sente ora uma ora “a outra” ou odeia a outra mulher, a rival, ou se sente culpada por amar fora do casamento, ou ser solteira e ter amantes, ou ser divorciada e andar com um homem casado…tudo isso a confronta e magoa e fere e apesar de se achar liberta ela sofre porque a sociedade católica criou, e o materialismo dialéctico não desmistificou senão em parte, esses valores e estereótipos que aprisionam a mulher aos seus preconceitos e interesses manipulando-a como sempre fez para que continue a ser fiel ao marido, ao casamento, ao patrão e aos padres…e caso contrário vem a culpa e o pecado inculcado ao longo de séculos.
A mulher é a “pecadora” da história… E esta é a maior armadilha para a mulher que persiste nas práticas “cristóides” (uma espiritualidade fictícia) cujo fito é só amar e perdoar a si mesma e aos outros (a lenga-lenga católica), sem nunca ter a consciência dessa divisão interna, sem pensar sequer ter acesso à sua totalidade como mulher, à sua integridade pessoal. É por isso que sou tão céptica acerca dos movimentos e terapias do feminino sem que seja uma realidade o amor da mulher por si mesma e pelas outras mulheres.

Enquanto a mulher não amar a outra mulher sem medo, seja como uma irmã, mãe, filha ou amante, o trabalho que fazem não vai curar a sua ferida porque essa ferida é entre as duas mulheres…que dentro de si como fora se continuam a digladiar.
Por essa razão, mesmo quando a mulher procura uma senda espiritual e evoca o feminino sagrado, é dentro de uma perspectiva ora romântica ora religiosa-culpada porque sem ter consciência dessa cisão íntima continua a sofrê-la e quando a quer tratar é como se tratasse apenas de uma ferida, de uma culpa, sem perceber que não existe culpa e portanto não há nada a perdoar nem a esquecer como muito catolicamente lhe foi inculcado, mas sim ir for ao fundo de si mesma e perceber que a origem dessa divisão é antiga e que tem de a encarar não como vítima nem como culpada.
Sem dúvida que essa consciência passa por uma iniciação. Uma iniciação ao lado de si mesma ou ao fundo da sua caverna. É o encontro entre irmãs, é o encontro entre a mãe e a filha! E o único meio é o amor…o amor revelação da deusa nem que seja através do amor paixão de outra mulher e isso é o mais difícil para a mulher sentir sem o crivo da sexualidade “monstro”, da sexualidade culpa, como obstáculo e impedimento preconceituoso.
Amar e sentir a deusa noutra mulher não é um impasse sexual, nem mera atracção sexual, mas um meio de catalisar o amor da mulher para si mesma e para lhe dar o acesso à sua própria sombra, seja ela a parte exposta ou oculta, como que olhar o outro lado da lua … e só assim a sombra se transformará em luz…essa descida ou revelação é um encontro consigo mesma e não um mero “desvio” sexual…uma ameaça à sua normalidade; não se trata apenas de líbido ou de desejo sexual mas mais a sede da alma, da outra que eu sou, e sentir do mais fundo de nós...do nosso útero, do nosso sexo, das nossas entranhas...sem medo nem culpa!


A MULHER VERDADEIRA

A mulher para ser ela mesma tem de compreender que a parte do seu ser de que foi privada ou afastada e diria mesmo mutilada, - ela não quer olhar para o seu corpo com amor, para o seu sexo como fonte de prazer, fonte de vida - porque foi desligada, desconectada, da parte que a liga aos seus ritmos biológicos, ao seu lado instintivo e intuitivo, que é a parte que a liga à sua natureza intrínseca e à Natureza Mãe, á terra geradora que dá frutos, às Estações, à Lua cujas fases a influencia, pense ela nisso ou não.
A mulher comum pensa ordinariamente que quando alguém fala assim pertence à categoria das videntes ou bruxas, das cartomantes…Mas ao contrário disso estes aspectos não pertencem só às mulheres videntes e bruxas por estas serem predestinadas ao acesso do oculto e à magia da vida, mas concerne todas as mulheres que tendo um lado oculto, que não sendo à partida nem místico nem religioso, é um potencial de inteligência emocional e de experiência extra-sensorial não activo, não vivido; é o lado do cérebro que apreende e sente para lá da razão, a parte que dá voz ao seu coração, e que a pode transformar de uma mulher vazia de essência em uma mulher autêntica e inteira, plena e pujante de força e amor pela vida.
Justamente porque a mulher feminista, seja ela intelectual ou comunista, ambas racionais e pragmáticas, só vêm as questões dos direitos e igualdades tal como elas se impõem dentro das sociedades materialistas actuais, as mais desenvolvidas, elas não querem sentir-se como seres ligados às “coisas invisíveis” ou metafísicas e nem sequer querem dar vazão a emoções profundas reprimidas para não se tornarem muito sentimentais, o que significa não dar ouvido ao seu ser profundo para não se sentirem desprestigiadas pelos homens e pela sociedade falocrática, que sempre ridicularizou a mulher pela sua sensibilidade tão particular.
Elas são até capazes de acreditar na Nossa Senhora ou em Deus Pai todo-poderoso de forma atenuada, por medo de não acreditarem em qualquer coisa e por seguir os padrões inculcados pela religião, quase sem darem por isso, tal como nem se apercebem das suas contradições. Elas continuam fiéis ao modelo da Igreja católica, à educação tradicional, aos preconceitos milenares e apenas mudam na superfície, conforme os conceitos e ideologias em vigor.
A mulher é ainda, grosso modo, em muitos níveis da sociedade, vista ou julgada como “a santa” nas várias facetas desse preconceito, tais como ser uma mulher honesta e séria, mulher de um só homem e que mantêm as aparências (dentro ou fora do casamento) ou “a puta”, quer seja prostituta quer seja apenas a mulher livre e solteira que faz o que quer, que se está nas tintas para o que parece e julgam dela e vive a sua vida enfrentando os preconceitos mas acarretando com as culpas de forma inconsciente pois nunca se libertou deles interiormente. Tudo isso tem um peso e um alto preço a pagar…ela adoece mais cedo ou mais tarde…ela entra em depressão, ela tem cancro da mama ou do útero e ela não sonha sequer que a sua cisão interior, a sua luta inconsciente e permanente a faz adoecer pois a culpa, o medo e o remorso ou a raiva e o ódio são os maiores factores que provocam o cancro e as depressões…

Em suma, a mulher moderna, de todos os níveis, infelizmente ainda não quer olhar a vida como sagrada na essência, dentro dela, nem como sagrado o ar que ela respira em cada segundo…
RLP

2 comentários:

josaphat disse...

Que maravilhosa lucidez, Madame Rosa!
Que nunca se afastem as Musas por muito tempo de ti!

Anónimo disse...

Muito obrigada pelo seu reconhecimento...e pelo link no seu blogue ao texto. Obrigada pela sua poesia e o culto da língua mãe...é bom saboreá-la em vários tons...e toques...

um abraço

rleonor