domingo, julho 11, 2004

LEMBRAR JORGE DE SENA
Lembrar o poeta exilado e já morto
quando a vontade é também partir para longe...


A PORTUGAL

(...)
Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico: irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fátua ignorância;
terra de escravos, cu pro ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos do milagre, castos
na hora vaga da doença oculta:
terra de herois a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste,
à luz do sol caiada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas...
(...)

Jorge de Sena
in QUARENTA ANOS DE SERVIDÃO

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