sexta-feira, julho 16, 2004

RETRATO DA ALMA...(enquanto espera...)

Barry Sharplin
A capacidade de desistência..

(...)
“A capacidade de desistência constitui o único critério do progresso espiritual: é só quando as coisas nos deixam, é só quando as deixamos que acedemos à nudez interior, a esses extremos em que paramos de nos prender a este mundo e a nós próprios, e onde a vitória significa demitir-nos, recusarmo-nos com serenidade, sem remorsos e sobretudo sem melancolia; porque a melancolia, por discreta e aéreas que as suas aparências sejam, continua ainda revelar ressentimento: é uma cisma com o zelo do azedume, o ciúme mascarado de desfalecimento, um rancor vaporoso.

Enquanto permanecemos sujeitos, em nada desistimos de nós, atolamo-nos no “eu”, sem contudo nos desprendermos dos outros, nos quais pensamos tanto mais quanto menos tivermos conseguido desapropriarmo-nos de nós próprios. No preciso momento em que nos prometermos vencer a vingança, sentimo-la impacientar-se como nunca no nosso íntimo, pronta a atacar. As ofensas “perdoadas” põem-se de súbito a clamar por reparação, invadem as nossas vigílias e, mais ainda, os nossos sonhos, convertem-se em pesadelos, mergulham tão fundo nos nossos abismos que acabam por formar a sua fibra. Se assim é, de que serve representarmos a farsa dos sentimentos nobres, apostar numa aventura metafísica, ou contar com um resgate?
(...)
Quanto mais nos ocupamos das nossas feridas, mais elas nos parecem inseparáveis da nossa condição de não-libertos. O máximo de desprendimento a que podemos aspirar é o de ficarmos numa posição equidistante da vingança e do perdão, no centro de um ressentimento e de uma generosidade em igual medida frouxos e vazios, porque destinados a neutralizarem-se entre si. Mas nunca conseguiremos despojar o homem velho, ainda que levássemos o horror por nós próprios ao ponto de renunciarmos para sempre a ocupar fosse que lugar fosse na hierarquia dos seres.


HISTÓRIA E UTOPIA
E.M.Cioran


NOTA À MARGEM:
Se eu fosse minimamente coerente com as notas que transcrevo, nunca mais abria ou escrevia nesta página....mas como já não vejo televisão e recuso-me a ler os jornais...

Sem comentários: